DEU NO TWITTER

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SIM, SEI BEM – Fernando Pessoa

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Fernando António Nogueira Pessoa, Lisboa, Portugal (1888-1935)

DEU NO TWITTER

RODRIGO CONSTANTINO

NÃO É SOBRE MULHERES

O presidente Bolsonaro desqualificou de forma absurdamente rude uma médica que era contra a cloroquina. Ele perguntou a ela detalhes como a família do vírus, o tipo de exame para detectar a imunidade celular, e mesmo quando ela tentava responder, com calma e serenidade, o presidente a ignorava, fingia que não tinha ouvido nada e atropelava sua resposta, num típico “manterrupting”. “Você não sabe nada!”, berrou um presidente visivelmente descontrolado, para o espanto de quem acompanhava a troca. Claro que a grosseria foi tema da mídia por uma semana, com todos os jornalistas revoltados com o machismo do presidente.

O leitor está tentando puxar da memória quando foi que isso aconteceu, certo? Entendo. É que não aconteceu. Sim, Bolsonaro já deu respostas atravessadas a vários jornalistas, sem distinção entre homens e mulheres. Mas esse caso acima é hipotético. Na verdade, ele aconteceu, mas com outros personagens. Foi o senador Otto Alencar, um ortopedista que virou político há décadas, com a doutora Nise Yamaguchi, na CPI circense da Covid.

A tentativa de desqualificar uma médica que dedicou sua vida a salvar vidas foi o ponto mais abjeto desse espetáculo medonho. Silvio Navarro, editor desta revista, resumiu com perfeição numa mensagem que repercutiu muito: “Foi sem dúvida o pior dia da CPI. Mas também o dia em que o jogo sujo ali ficou ainda mais claro: a politicalha dos cangaceiros com mandato. Retrato de um velho, mal-educado e pobre Brasil que ainda existe no Senado”.

A maioria nas redes sociais ficou revoltada, indignada, enojada. Alexandre Garcia sintetizou: “A inquisição é tanta que parece que os senadores estão tratando com pessoas que recebem propina de empreiteiras, ou com alguém que desviou recursos da saúde, ou com alguém que roubou da Petrobras”. A inversão de valores chegou ao limite: vagabundos tratando gente séria como criminosos. E no caso de uma senhora, com o baita currículo que tem, mantendo a educação o tempo todo, sendo humilhada desse jeito só por apostar num tratamento possível para seus pacientes foi mesmo o ápice da canalhice.

Mas um grupo permaneceu em silêncio, um silêncio ensurdecedor. Falo das feministas. Sandra Annenberg, apresentadora do Globo Repórter, tinha comentado semanas antes: “Machismo na CPI: o senador Marcos Rogério interrompe a fala da senadora Leila Barros e ainda diz: ‘Calma, não precisa ficar nervosa’”. Isso, para ela, foi prova de machismo inaceitável. Sobre a postura dos senadores de oposição com a médica, nem uma só palavrinha. Foi como se nada tivesse acontecido.

O que esses velhacos tentaram fazer com a médica na CPI é o tipo de coisa que deveria unir todas as pessoas minimamente decentes em total repúdio, independentemente de serem de esquerda ou direita, de gostarem ou não de Bolsonaro, de defenderem ou não a cloroquina. E, de fato, teve gente que reagiu assim. É preciso fazer justiça. Foi o caso de Eduardo Jorge, médico e político de esquerda. Ele desabafou, demonstrando sensatez: “Jacobinos sedentos. Conheço dra. Nise há muito tempo. É uma oncologista experimentada. Neste caso da pandemia discordamos 100%. Tentei mudar sua opinião algumas vezes e não consegui, lamentavelmente. Não é por isso que vou deixar de tratá-la de forma civilizada”.

Mas e as feministas, aquelas que alegam lutar pelas mulheres? Afinal, eis o que vimos: homens brancos ricos heterossexuais (com uma possível exceção) demonstrando total falta de educação, grosseria tosca e desrespeito ímpar com uma senhora, que é médica, uma mulher independente e “empoderada”. Mas as feministas tomaram o lado dos agressores políticos. Diante disso, desabafei em minhas redes sociais: feminismo não é sobre mulher, mas sobre esquerdismo. A atriz Regina Duarte curtiu e comentou: “Falou e disse, Constantino. Infelizmente o movimento do final dos noventa ‘foi pro brejo’”.

E é esse o foco aqui. Sim, um movimento que defendesse o simples direito ao voto quando ele era proibido às mulheres fazia todo o sentido. Sim, lutar por igualdade de direitos sempre foi uma boa luta, justa. Mas faz tempo que o feminismo, hoje em sua terceira geração, representava isso. Hoje, infelizmente, virou um movimento radical que mais odeia homens do que ama a liberdade, e que serve de instrumento revolucionário para a esquerda. A própria bandeira de igualdade salarial, independentemente de mérito individual, é prova disso. Comparam laranja com banana, ignoram diferentes escolhas profissionais e a produtividade, para pregar remuneração equivalente para trabalhos diferentes. Usam estatísticas de forma deliberadamente deturpada. Querem o socialismo, não direitos iguais.

Quando vazou áudio do ex-presidente Lula conversando com a então presidente Dilma, em que Lula se mostra totalmente grosseiro com as mulheres do seu próprio partido, as feministas se calaram. Quando a ex-mulher de Marcelo Freixo, do Psol, acusou o deputado de agressão, as feministas fingiram que nada tinha acontecido. As feministas de hoje, cada vez mais histéricas e ressentidas, adotam um escancarado duplo padrão, tudo para blindar companheiros esquerdistas e demonizar qualquer um à direita. Inclusive mulheres!

Afinal, as mulheres “empoderadas”, mas conservadoras, jamais são enaltecidas ou mesmo respeitadas pelas feministas. Thatcher é um exemplo clássico, e ela mesma não creditava ao feminismo nenhuma conquista sua — ela que foi primeira-ministra por tanto tempo e com tanto sucesso num ambiente predominantemente masculino. Mulheres que exercem sua liberdade de escolha e preferem focar a maternidade também não são respeitadas pelas feministas, que dizem defender a liberdade de escolha da mulher.

A dra. Nise pode estar certa ou pode estar errada sobre a cloroquina, mas isso nem deveria importar aqui. Uma médica com extenso currículo e uma vida dedicada a cuidar dos outros foi tratada como um lixo por políticos, e na imprensa vimos vários comentaristas ou se calando ou aplaudindo esses senadores! Tudo porque agir assim serve ao interesse político de desgastar o presidente Bolsonaro, por parte de quem politizou até um remédio nessa pandemia.

Vera Magalhães, da TV Cultura (bancada pelo governo Doria), falou sobre o “risco de dar palco para negacionistas”, desqualificando a médica. Guilherme Macalossi, da Band, chamou o que o senador Otto Alencar fez de “descredenciar como técnica” a doutora, “expondo seu desconhecimento sobre o ramo da infectologia”. Ele concluiu: “E fez bem”. Isso nem sequer é correto do ponto de vista dos fatos, uma vez que a doutora respondeu corretamente às perguntas, e o senador é que fingiu não entender. Esse foi o tom geral em nossa imprensa: aplausos para o show de horrores propiciado pela oposição na CPI.

Filipe G. Martins, assessor da Presidência, apontou para a inversão nesse caso de quem demonstrou conhecimento e quem decorou sem entender o que dizia: “Otto Alencar disse que a covid-19 pertence à família betacoronavírus, que na realidade é só um dos gêneros de uma das subfamílias da Coronaviridae. A dra. Nise disse que pertence à família Coronaviridae. Ela estava certa. Ele falou bobagem. Mas o aplaudido pela mídia foi ele”. Coube ao Filipe a melhor conclusão também do que se passou ali: “Nenhuma sociedade minimamente civilizada admitiria que uma senhora de 62 anos de idade, que dedicou mais de 40 anos de sua vida à ciência e à saúde do próximo, fosse tratada com tamanho desrespeito e grosseria numa sessão parlamentar para a qual ela foi CONVIDADA”.

Mas as feministas nem se importaram. Não era uma esquerdista como vítima nem um direitista como algoz, então é como se nem tivesse acontecido…

DEU NO TWITTER

É ISSO MESMO???

* * *

Está escrito na ilustração aí de cima que estes dados são do Portal Transparência.

Presumo que sejam números confiáveis.

É isso mesmo, gente? Me digam, por favor.

Se estiver tudo dentro da verdade, então dá pra gente medir a diferença da gastança entre os governos petralhas e a atual administração.

É pra arrombar a tabaca de Xolinha!!!

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

CONVERSA DE CALÇADA VIRTUAL

Vamos pegar as cadeiras e entrar na roda?

A estrofe precisa começar sempre com o primeiro verso

* * *

Meti o pé na carreira
Quando meu pai avistei
Fui ao forró escondida
Pra ninguém nada falei
Quando vi lá do salão
Meu pai com cipó na mão
Confesso desembestei.

Dalinha Catunda- Rio de Janeiro-RJ

Meti o pé na carreira
quando avistei Adalgisa
Uma irmã muito braba
E eu com a cara lisa
Fiquei fazendo motejo
Sem vergonha sem ter pejo
Corri com medo da pisa…

Bastinha Job – Crato–CE

Meti o pé na carreira
A hora estava marcada
Faltando 5 minutos
Pense que forte pisada
Já ouvi do vigilante
Você é o último, adiante
A agência está fechada.

Rivamoura Teixeira

Meti o pé na carreira
Com medo do boi zebu
Vinha voltando da feira
Do baixo Acaraú
Não tinha pra onde saltar
Eu tive que escapar
No pé de mandacaru.

Araquém Vasconcelos

Meti o pé na carreira
E quase peço socorro
A sorte qu’eu tive sorte
Consegui subir no morro
Por cima de pedra e tudo
De pressa fiz de escudo
O tal dono do Cachorro.

Francisco De Assis Sousa – Barbalha-CE

Meti o pé na carreira
ao ver quem tinha chegado,
eu brincando um São João,
dançando com o namorado,
mamãe chegou sutilmente,
tacou a peia na gente,
foi cada um pra seu lado.

Anilda Figueiredo- Crato-CE

Meti o pé na carreira
Cum medo de vosmicê
Eu já tô véio, cansado
Num posso mais lhe “atendê”
No tempo que eu pudia
Vosmicê num me quiria.
O que mudô em você?

Marcelo José

Meti o pé na carreira
Eu quase que não me venço.
Pensei que tirei um lenço,
Num dia de carnaval,
Do”quengo”duma criatura ;
Era um rolo de atadura,
Ví nêga passando mal.

Wellington Santiago

Meti o pé na carreira
Entre Barbalha e Jardim
Com medo de um lobisomem
Essa criatura ruim
Assombrava todo mundo
O tal Vicente Finim

Fabiana Vieira- Crato-CE

Meti o pé na carreira
Debaixo da cajarana,
Quando papai me chamou:
– Vou brincar com jetirana!
Ele não batia em nós,
Cinco minutos após,
Lá estava eu na chicana.

Chica Emídio – Crato-CE

Meti o pé na carreira
No assanhar do maribondo
Famoso pelo chapéu
Com formato hediondo
Venceu a corrida a vespa
Minha cabeleira crespa
Fervilhou de nó redondo

Giovanni Arruda- Fortaleza-CE

Meti o pé na carreira
Quando o dono apareceu
Na roça de melancia
Por pouco não pegou eu
Nenhuma pude levar
Com medo de apanhar
Uma pirôla me deu…

Jairo Vasconcelos

Meti o pé na carreira
Quando vi a tal confusão,
Naquele ano de oitenta e oito.
Foi na greve dos cem dias.
E gás para todo lado.
Perdi até o meu calçado,
Fugindo do camburão!

Rosário Pinto- Rio de Janeiro-RJ

Meti o pé na carreira
No meio da escuridão
Quando vi foi uma sombra
Me fazendo assombração
Se eu lhe contar o segredo
Que eu estava era com medo
Da sombra da minha mão.

Vânia Freitas – Fortaleza-CE

Meti o pé na carreira
Quando a polícia chegou
Assaltaram uma igreja
O tenente me olhou
Quando disse o sacristão
Toda oferta vinho e pão
Foi Ritinha que roubou

Ritinha Oliveira

Meti o pé na carreira
Quase morri assustado
Ao jogar pedra na Kombi
Quase o vidro foi quebrado
A minha irmã enredou
O meu pai quando chegou
Eu já tinha me mandado

Joabnascimento-Camocim-CE

DEU NO TWITTER

COLUNA DO BERNARDO

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

J.R. GUZZO

SÓ NO BRASIL

No tempo em que o patriotismo ainda era um sentimento lícito, e o sujeito não precisava se esconder para dizer que gostava do Brasil e de ser brasileiro, ninguém achava nada de mais que um professor de ginásio recomendasse a leitura de algumas páginas de Porque Me Ufano do Meu País, do conde Afonso Celso. Hoje em dia, é claro, não passa pela cabeça de ninguém fazer algo parecido – principalmente numa dessas escolas que cobram mensalidades de R$ 10 mil, exigem a “inclusão social” e chamam alunos e alunas de “alunes”. O infeliz que citar um texto assim na sala de aula vai ser posto no olho da rua, sob o aplauso dos pais, acusado de vício fascista, direitista ou até bolsonarista. Já imaginaram? Melhor não imaginar nada. Tudo bem: mesmo naquela época de inocência, o texto já era visto como um belo exagero em matéria de ingenuidade. Nos dias de hoje, porém, o buraco é muitíssimo mais embaixo.

O problema não é só o risco de parecer bobo, ou de ser denunciado pela prática de crime ideológico. Com o país do jeito que está, até o patriota mais otimista não vê motivo para se orgulhar de nada – não em qualquer coisa que tenha algo a ver com a maior parte da vida pública nacional. Orgulhar-se de quê? Ao contrário. Onde se dizia que o Brasil era um lugar único no mundo, porque nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais vida e nossa vida mais amores, hoje se diz: ”Só no Brasil é possível um negócio desses”. Você sabe muito bem o que significa esse “só no Brasil”, e que “negócios” são esses. Significa que o Brasil é o único país, entre outros mil (ou pelo menos os 200 e tantos que estão na ONU), onde acontece um certo tipo de aberração em modo extremo – tão extremo que não é possível, segundo a lógica comum, encontrar nada de equivalente em qualquer outro ponto do planeta.

A lista desses despropósitos é uma obra em aberto. Cada um pode fazer a sua, com quantos itens quiser – e a qualquer hora do dia ou da noite, mesmo fora do horário de expediente público, a relação dos tops de linha pode ser aumentada por uma alucinação novinha em folha. Feita essa ressalva, segue abaixo, com data de hoje, o pretinho básico, estritamente básico, em termos de “só no Brasil”.

∗ O Brasil é o único país no mundo onde há uma CPI “para investigar a covid” na qual o presidente, um Omar Aziz, tem a seguinte anotação em sua folha corrida: foi investigado pela Polícia Federal por corrupção XXXXL-plus na área de saúde. (Não é piada; é o presidente mesmo.) Mais: sua mulher foi para a cadeia acusada de meter a mão em dinheiro público, também em questões de saúde. (Também não é piada; é a mulher dele mesmo, e foi mesmo para a cadeia.) Mais: além da mulher, nada menos do que três irmãos do homem foram presos nesse mesmo rapa e, mais uma vez, não é piada. Mais: dos 81 senadores que representam as 27 unidades da Federação, o escolhido para presidir as investigações vem, justamente, do Amazonas, o lugar onde mais se roubou no Brasil, e possivelmente no mundo, por conta das despesas públicas com a covid. A PF, por sinal, acaba de realizar busca e apreensão na casa e nos escritórios do atual governador do Estado, Wilson Lima, em mais uma operação para combater a ladroagem na compra de respiradores; um dos investigados, um dono de hospital a quem ele deu um contrato, recebeu a polícia à bala.

Não gostou do presidente? Espere, então, pelo relator. Trata-se de ninguém menos que Renan Calheiros – o “Atleta” da lista de políticos corruptos registrados nos computadores do departamento de roubalheira da empreiteira Odebrecht, e um dos senadores mais encrencados com a Justiça criminal em todo o sistema solar. A presença de Renan nesse picadeiro é ainda mais inexplicável que a de Omar; do outro, pelo menos, ninguém tinha ouvido falar até a CPI. Mas o relator já está nessa vida há 30 anos. Como é possível que ele investigue alguma coisa? Como é possível que dezenas de pessoas que jamais tiveram o mínimo problema com a polícia, ou que jamais foram processadas por alguma coisa na Justiça penal, sejam interrogadas por alguém com a sua ficha? Renan, no papel misto de delegado de polícia, promotor e juiz, frequenta todos os dias as primeiras páginas e horários nobres da mídia como se fosse um Santo Tomás de Aquino, pelo menos. Mas ele é apenas o Renan Calheiros de sempre, que no momento responde a nove processos por corrupção. (Não são dez, nem onze, nem doze: as “agências de checagem de fake news” já fizeram questão de dizer que tudo isso é notícia falsa – são só nove processos penais no lombo, nem um a mais. Ah, bom. Ainda bem que avisaram.)

∗ O Brasil é o único país no mundo onde o presidente da República é acusado de ser o responsável por quase 470 mil mortes causadas até agora pela covid, pelo que informam os atestados de óbito. No resto do mundo já morreram, até agora, cerca de 3,5 milhões de pessoas; segundo a oposição, os comunicadores e as classes intelectuais brasileiras, desses 3,5 milhões, por volta de 3,1 milhões não são culpa de ninguém. Só os mortos do Brasil são culpa do governo.

∗ O Brasil é o único país no mundo onde uma campanha de vacinação que já aplicou perto de 70 milhões de doses em pouco mais de três meses é considerada um fracasso pelos cientistas de oposição – sim, porque no Brasil há tipos de ciência diferentes, a ciência boa e a ciência ruim, conforme a opinião política do cientista. Só três países, em todo o planeta, vacinaram mais que o Brasil. Dois deles são a China e a Índia, os maiores produtores de vacinas do mundo; além disso, a China tem 1,44 bilhão de habitantes, e a Índia, 1,38 bilhão. O outro são os Estados Unidos, país que tem um PIB de 21 trilhões de dólares, mais de dez vezes superior ao brasileiro, e também está entre os maiores exportadores; o “auxílio emergencial”, lá, equivale a mais de R$ 6 mil. Por que, então, o Brasil fracassou? “Vacinas para todos”, pede oficialmente a oposição. O país, na opinião da Frente Nacional Pró-Vírus, já deveria ter vacinado a população inteira, no mínimo – mesmo sem produzir aqui um único frasco de vacina, e depender 100% da importação de matéria-prima estrangeira. Os atrasos nas exportações de insumo por parte da China não são culpa da China – são culpa “do Bolsonaro”.

Há o argumento, também único, de que o Brasil vacinou apenas um terço da sua população total até agora – e a Inglaterra, ou Israel, já vacinou quase todo mundo. A Inglaterra tem um quarto da população do Brasil, além de ser um dos países que inventaram a vacina; Israel, então, não chega a ter 10 milhões de habitantes, e sua área é um pouco maior que a ocupada pelo território de Sergipe. Faça as suas contas.

∗ O Brasil é o único país no mundo onde o principal candidato da oposição, do centro moderado e dos defensores da democracia às eleições para presidente de 2022 é um ladrão condenado legalmente pela Justiça, em terceira e última instância, por nove juízes diferentes, por ter praticado os crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. A mídia, o mundo político e os institutos de “pesquisa de intenção de voto também já decidiram que ele está eleito, quase um ano e meio antes da eleição – escolhe-se, no momento, o seu ministério, e discute-se a sério qual o cargo que vai ser ocupado pela ex-presidente Dilma Rousseff, que foi, ela própria, despejada do Palácio do Planalto por fraude contábil cinco anos atrás.

O Brasil, como outros países, tem uma lei que proíbe réus condenados pela Justiça penal de ocupar cargos públicos. Mas só aqui se consegue manter uma lei em vigor e, ao mesmo tempo, permitir que os interessados não façam nada do que está escrito nela – a saída, outra solução estritamente nacional, é dizer que o réu foi julgado num lugar e deveria ter sido julgado em outro. Nem é preciso inventar que ele não cometeu os crimes pelos quais foi condenado, ou perder tempo com qualquer fato que envolva a discussão de culpa ou de inocência: basta dizer que erraram de “foro”.

∗ O Brasil é o único país no mundo onde um ministro do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte de Justiça da nação – no caso, o ministro Antonio Dias Toffoli -, reúne em si próprio, e ao mesmo tempo, as seguintes condições:

• Foi reprovado duas vezes – isso mesmo: duas vezes seguidas – no concurso público para juiz de direito, o que significa o seguinte, em português claro: ele não está autorizado a julgar nem uma ação de despejo na comarca de Arroio dos Ratos, por falta de habilitação profissional, mas pode dar sentença sobre qualquer coisa no tribunal máximo do Brasil.

• Recebia, e só parou de receber depois que descobriram, uma mesada de R$ 100 mil da própria mulher, que é advogada num escritório da capital federal com causas em julgamento no tribunal onde o marido dá expediente.

• Teve reformas na sua casa em Brasília, no valor de R$ 15 mil, pagas por uma empreiteira de obras públicas, quando já era ministro do STF.

• É acusado de receber propinas no valor de R$ 4 milhões e, no julgamento que o STF fez do caso – sobre a validade da delação feita contra ele -, não achou nada de mais em julgar a si próprio. Também não achou nada de esquisito em declarar a delação inválida e, com isso, julgar-se inocente. Salvo o ministro Marco Aurélio, nenhum dos seus dez colegas de Corte Suprema imaginou que Toffoli deveria abster-se do julgamento. Ficamos assim, então. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pode ser investigado já. O presidente da República tem cinco dias para explicar por que não usa máscara. O governo tem três anos para resolver o problema das penitenciárias no Brasil – tudo por decisão do STF. E Toffoli? Nele é proibido mexer.

∗ O Brasil é o único país no mundo onde as pessoas existem ou deixam de existir, fisicamente, conforme a percepção visual, ética e política dos jornalistas. “Milhares saem às ruas contra Bolsonaro”, anunciaram alguns relatos sobre manifestações públicas no último fim de semana. Deveria ter sido noticiado, então, que “milhares saem às ruas a favor de Bolsonaro”, quando aconteceu a mesma coisa no fim de semana anterior, certo? Errado. Fotos, vídeos e testemunhos pessoais atestam a presença de gente nas duas ocasiões. Mas, segundo a mídia militante, há duas categorias de gente, como no caso dos cientistas – a gente que existe e a gente que não existe. A gente de quem você não gosta não existe.