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PERCIVAL PUGGINA

PRONTO SOCORRO PARA CORRUPTOS AFLITOS

Cumprisse o parlamento seu dever, o Supremo Tribunal Federal teria outra fisionomia e não seria esse pronto socorro dos corruptos aflitos.

Li certa vez que, na democracia, para que a submissão às leis não seja conduta servil, mas forma de auto-obediência, elas são aprovadas por representantes políticos eleitos pelo povo. Gostei do conceito, tanto sob o ponto de vista ético quanto estético. Estético, sim, porque o bem é belo.

O Congresso Nacional, contudo, pela maioria de seus membros, por ação ou omissão, contraria o sentido do mandato parlamentar e se conduz ao arrepio da vontade de seus eleitores. Cumprisse o parlamento seu dever, o Supremo Tribunal Federal teria outra fisionomia e não seria esse pronto socorro dos corruptos aflitos. Não seria essa corte sem espelhos onde ministros beneficiam o padrinho Lula decretando a “suspeição” de Moro e não reconhecem o próprio impedimento nessa votação. Cumprisse o parlamento seu dever, a figura literária da soberania popular não se estaria transformando em pura, muda, indefesa e real vassalagem.

Nas últimas semanas, nossa dignidade perdeu ainda mais substância em decisões tomadas por ampla maioria do STF que não se contenta com ser o principal protagonista da cena política brasileira. Não! Nosso Supremo passa a atuar como Casa-Grande emitindo determinações à senzala nacional. Certo, Gilberto Freyre?

Lembrei-me de uma frase do presidente equatoriano proferida no transcurso do escândalo que ficou conhecido naquele país como Escândalo Subornos. Disse Lenín Moreno, cujo mandato se encerra no mês que vem: “Os chamados socialistas do século XXI saquearam a América Latina”. Referia-se ao período áureo do Foro de São Paulo e aos esquemas de corrupção instalados por empreiteiras, muitas das quais brasileiras, com particular privilégio à Odebrecht. Melhor do que qualquer latino-americano nós, brasileiros, conhecemos essa história e pagamos essa conta.

No ano passado, a justiça equatoriana condenou o ex-presidente Rafael Correa a 8 anos de prisão. Ele, porém, vive na Bélgica desde 2017 sem poder retornar ao país. Cerca de uma dezena de ex-servidores e dirigentes políticos, igualmente sentenciados, vivem no exterior. Enquanto isso, aqui no Brasil, os saqueadores nacionais levam a vida regalada pela qual Fausto vendeu a alma ao diabo e têm futuro político promissor.

Já somos roubados como pagadores de maus impostos. Já somos roubados como cidadãos de uma democracia inepta e mal costurada. Já fomos roubados pela corrupção que tão ativamente operou em nosso país. Já nos roubaram a esperança de dias melhores porque precisamos de dias piores para que os piores retornem ao poder. Roubaram-nos, agora, o mínimo senso de justiça e respeito ao que no Brasil opera com esse nobre rótulo.

XICO COM X, BIZERRA COM I

ESPERANDO LÉO

Abril já se acabando
Maio dizendo: – vou já
e o bucho de Mariana
cresce, cresce sem parar
‘Garrinchina’ peladeiro
dribla e chuta o dia inteiro
não se cansa de chutar

Aqui do lado de fora
Sorrisos de canto a canto
Só avós, existem quatro
tios, tias, outro tanto
esperando o novo bardo
sede bem-vindo, Leonardo
vem mostrar-nos teu encanto

Mas quem fica mais feliz
é o seu mano Bernardo
Vinicius, também na espera
com um sorriso estampado
mesmo com tempos cinzentos,
genocidas, excrementos,
espero, abraço guardado

* * *

Toda a obra de Xico Bizerra, Livros e Discos, pode ser adquirida através de seu site Forroboxote, link BODEGA. Entrega para todo o Brasil.

DEU NO JORNAL

QUAL A RAZÃO DO SILÊNCIO?

O Programa Nacional de Imunizações produziu uma ótima notícia: o Brasil atingiu e manteve entre segunda e sexta, a meta prometida pelo ministro Marcelo Queiroga (Saúde) de aplicar um milhão de doses contra Covid-19 por dia na população.

Somente Estados Unidos, China e Índia conseguiram chegar a essa marca.

Grande produtor de vacinas, o Reino Unido não chegou ao patamar que o Brasil superou semana passada.

Em cinco dias, incluindo feriado, o Brasil aplicou exatas 5.276.676 doses, mais da metade de segundas doses, que deixam a pessoa imunizada.

Nos primeiros 23 dias do mês, incluindo feriados e os finais de semana, o Brasil aplicou 18.333.710 doses.

Os dados são do site vacinabrasil.org.

* * *

Estes números são surpreendentes.

Mais surpreendente ainda é o silêncio ensurdecedor da mídia funerária sobre este fato.

Não sai no Jornal Nacional de jeito nenhum!!!

Vocês saberiam explicar qual a razão deste comportamento da chamada “grande imprensa”?

ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

A MÁQUINA DE FAZER VERSOS

O repentista Severino Lourenço da Silva Pinto (1895-1990) era mais conhecido como Pinto do Monteiro, uma referência à cidade natal, localizada no estado da Paraiba.

É considerado um gênio do repente.

Além da extraordinária capacidade de improvisação, ele se destacava pela métrica dos versos, impecavelmente precisa e pela ironia das respostas.

Um dos seus grandes parceiros foi Lourival Batista (1915-1992), natural de São José do Egito.

Pinto voltara do Acre havia pouco tempo, doente, quando Lourival o provocou porque ele recusara a “tomar uma”:

Pinto foi pro Amazonas
Pensando que enriquecia
Além de não arrumar nada
Se esqueceu do que sabia
Nem canta como cantava
Nem bebe com bebia.

Pinto fulminou com versos que ficaram na memória de quem aprecia a poesia pura do repente:

Essa sua cantoria
Não me deixou satisfeito
Nunca me faltou lembrança
E muita força no peito
E a boca de beber
Ainda está do mesmo jeito.

Lourival Batista e Pinto de Monteiro

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RODRIGO CONSTANTINO

EMPRESAS DEVEM APOIAR CAUSAS POLÍTICAS?

Dizem que em países ricos os negócios tentam influenciar a política, enquanto em países mais pobres, com o Estado fracassado, a política é o grande negócio em si. Se isso é fiel aos fatos eu não sei, mas vejo com preocupação a tendência de que parece cada vez mais difícil distinguir uns dos outros. Ou seja, mesmo em países ricos, o grau de simbiose entre política e negócios tem se mostrado bastante além do razoável, e em muitos casos assustador.

Se decisões políticas podem mexer com o ambiente de negócios, é natural que empresas tentem influenciar esse jogo. O problema é quando tudo parece excessivamente politizado. Uma das grandes vantagens do capitalismo é sua impessoalidade, seu foco na meritocracia, no resultado. Não compro uma pizza pensando em qual a visão de mundo do dono da pizzaria, o que ele pensa sobre o aborto ou as armas, mas sim pela qualidade do produto em relação a seu preço e às alternativas concorrentes.

E é bom que seja assim. Como Walter Williams já explicou, é graças a esse sistema que o racismo custa caro para o empresário racista, por exemplo. O racismo é ineficiente do ponto de vista econômico. O livre mercado, ao contrário da alocação de recursos pela via política, é do interesse das minorias normalmente discriminadas. Para sustentar seu ponto, o economista utiliza argumentos teóricos, assim como vários casos empíricos em seu livro Race & Economics.

A teoria econômica não pode responder a questões éticas; mas pode mostrar as consequências de medidas tomadas em seu nome. Williams alega que as políticas econômicas necessitam de análises desapaixonadas. Afinal, os efeitos muitas vezes não guardam relação alguma com as intenções iniciais. Esse é justamente um caso comum quando se trata de políticas para combater o racismo ou ajudar minorias.

O que o autor mostra no livro é que diversos problemas que os negros norte-americanos enfrentam não têm ligação com a discriminação racial. Ele não nega que tal discriminação existe; apenas demonstra que as principais causas dos problemas estão em outro lugar. E quais seriam essas causas, então? O que fica evidente ao longo do livro é que as regulamentações do governo representam o grande vilão dos negros, especialmente os mais pobres.

No livre mercado, se o empregador se recusar a contratar alguém por causa da “raça”, ele pagará um preço por isso, seja por limitar a quantidade de candidatos às vagas, seja por deixar de empregar gente mais produtiva pelo mesmo salário. Nesse caso, basta o concorrente ignorar o racismo para ser mais eficiente. Com o tempo, a tendência é o empregador racista ir à bancarrota.

Em suma, Williams defende o fim das restrições legais ao mercado de trabalho como a melhor medida para ajudar as minorias, incluindo os negros. O livre mercado é impessoal e foca os resultados. Essa é a mais poderosa arma contra o racismo. Infelizmente, a política de identidades pregada pela esquerda “progressista” ignora tudo isso, e parte para uma politização que mata a lógica econômica.

Movimentos passam a pregar o boicote ao restaurante A ou B pois seus donos não são politicamente corretos, não apoiam certas causas ou candidatos. Esse tribalismo, estendendo-se para o mercado, pode ser fatal. O foco sai do resultado e da meritocracia e migra para essas questões ideológicas ou partidárias, como se cada um devesse comprar não o melhor produto, mas aquele cujos fabricantes pensam de forma política semelhante a nós. Isso é absurdo.

Mas, por conta do crescente tribalismo, alimentado pelas redes sociais e pelos “justiceiros sociais”, cada vez mais empresas se veem tentadas a se manifestar com base no prisma político ou ideológico. A The Economist recentemente tratou do assunto numa reportagem sobre o ativismo de CEOs, considerado um negócio arriscado. Ela abre com o caso da Coca-Cola, que resolveu “lacrar” contra o Estado da Geórgia este ano, quando seu governador assinou uma lei exigindo identidade de eleitores. Por algum motivo estranho, os movimentos raciais viram aí racismo, afirmando que cobrar uma identidade prejudicaria eleitores negros, e o gigante dos refrigerantes resolveu aderir.

No The Wall Street Journal, Harvey Golub publicou um texto na mesma linha, alertando que a política é um negócio arriscado para CEOs e que é imprudente colocar peso demais em assuntos que não afetam diretamente os negócios da empresa. Sobre os vários executivos que se manifestaram com ameaças de boicote ao Estado, Golub diz: “Conheço a maioria deles pela reputação e alguns pessoalmente. São pessoas de boa-fé, que se preocupam sinceramente com a nação, suas empresas e seus funcionários e clientes. A maioria fez um excelente trabalho como líder de suas empresas. Todos têm o meu respeito e acredito que conquistaram o respeito do público. Mas eu creio que eles estão errados em assumir posições públicas sobre esta lei”.

O autor nem entra tanto no mérito da questão, pois seu foco é outro: “A razão pela qual eu acho que os CEOs devem ficar em silêncio sobre essa questão não é porque discordo de seu julgamento sobre os méritos. É porque acho que é errado os executivos assumirem uma posição da empresa em questões de políticas públicas que não afetam diretamente seus negócios”. Afinal, eles não falam apenas como indivíduos nesses casos, mas em nome da empresa e de seus milhares de acionistas. Além disso, suas opiniões sobre tais temas polêmicos vão inevitavelmente incomodar acionistas, empregados e clientes que divergem delas. A reação de grupos que pediram boicote a essas empresas, por boicotarem a Geórgia, comprova o risco disso.

E é nessa espiral que mora o perigo. Muitos executivos e empresários adotam posições ideológicas ou políticas por convicções sinceras, e mesmo assim põem em risco suas empresas. Outros sucumbem diante da pressão da patrulha, que faz chantagem, ameaças diretas ou veladas, para extorquir ajuda financeira ou apoio moral. Basta verificar como age o Sleeping Giants, demonizando publicamente empresas que não “sinalizam virtude” de acordo com a ideologia esquerdista, que anunciam em canais “reacionários” ou coisa similar. O fundador do Sleeping Giants, Matt Rivitz, permaneceu no anonimato até julho de 2018, quando Peter J. Hasson expôs sua identidade após longo trabalho investigativo. Rivitz, pasmem, trabalha com publicidade e era consultor de algumas das empresas que achacava por meio de seu movimento.

Hasson é autor do livro Os Manipuladores, sobre as Big Techs e sua guerra contra conservadores. Ele mostra como essas empresas, repletas de esquerdistas no comando, usam critérios subjetivos e obscuros para censurar o pensamento mais à direita em suas plataformas, que deveriam ser neutras. Sobre o Sleeping Giants, ele relata como o movimento de intimidação aos anunciantes foi eficaz para praticamente destruir o site conservador Breitbart. O grupo instou universidades e outras instituições a boicotar um fundo de investimentos porque seu presidente, Robert Mercer, era o principal investidor em Breitbart. Não demorou muito para Mercer renunciar ao cargo.

Tudo isso mostra que o que antes era feito pelo Estado agora é feito por corporações. A limpeza iliberal e intolerante da vida pública de ideias consideradas ofensivas ou perigosas deixou de ser coisa do Estado para ser coisa da elite empresarial. Quando executivos aceitam fazer esse jogo sujo, ainda que com a melhor das intenções (que pavimentam o caminho do inferno), eles alimentam um monstro totalitário.

Alguns podem achar que é inofensivo acender velas para o Diabo, pagar uma espécie de resgate para “ficar em paz” ou até ganhar alguns pontos com a turba woke. Na prática, estão contribuindo para o avanço de uma mentalidade incompatível com aquela responsável pelo sucesso do capitalismo liberal, calcado na impessoalidade e na meritocracia. É ingenuidade achar que não haverá consequências, que o “outro lado” não vai reagir.

E como isso pode acabar bem? O tribalismo tende a terminar em guerra. Se eu deixar de consumir o refrigerante da minha preferência, e passar a consumir aquele do fabricante cujo CEO parece mais alinhado ao meu pensamento político, como isso beneficia um sistema que depende do mérito, não das conexões políticas? As empresas que politizam seus negócios dessa forma estão brincando com fogo.

PENINHA - DICA MUSICAL