DEU NO JORNAL

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A DOR – Augusto dos Anjos

Chama-se a Dor, e quando passa, enluta
E todo mundo que por ela passa
Há de beber a taça da cicuta
E há de beber até o fim da taça!

Há de beber, enxuto o olhar, enxuta
A face, e o travo há de sentir, e a ameaça
Amarga dessa desgraçada fruta
Que é a fruta amargosa da Desgraça!

E quando o mundo todo paralisa
E quando a multidão toda agoniza,
Ela, inda altiva, ela, inda o olhar sereno

De agonizante multidão rodeada,
Derrama em cada boca envenenada
Mais uma gota do fatal veneno!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo, Paraíba (1884-1914)

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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

J.R. GUZZO

A CAMINHO DA ALUCINAÇÃO

Olha eles aí outra vez — sempre os mesmos, e sempre com o mesmo assunto. Eles são os artistas e as atrizes do cinema norte-americano, e continuam indignados com o Brasil, o governo brasileiro e os incêndios na Amazônia. Estão lançando, naturalmente, mais um manifesto em favor da rain forest: pedem, agora, que o presidente Joe Biden não assine o tratado que Brasil e Estados Unidos estão negociando, já há algum tempo, para reforçar medidas de prevenção contra queimadas na região amazônica.

Desta vez, os artistas vêm com exigências extras. Além de acabar com os incêndios na mata, o Brasil tem de se comprometer também com o respeito aos “direitos humanos” — sem maiores informações sobre onde e como esses direitos estariam sendo concretamente desrespeitados no presente momento, e sem revelar quais as providências objetivas que o governo deveria tomar a propósito. Exigem também, para que Biden assine o acordo, uma maior participação da “sociedade civil” na questão amazônica — nada menos que a sociedade civil, em pessoa. Não fica claro, na prática, quem é essa “sociedade civil”, ou o que ela teria a ver com o assunto.

Querem, enfim, que “os índios” recebam mais proteção e ajuda do poder público. De novo, não se diz o que teria de ser feito, e não se leva em conta que as terras reservadas aos índios no Brasil já somam hoje quase 1.200.000 quilômetros quadrados, ou cerca de 14% de todo o território nacional — isso para uma população de 800.000 pessoas, no máximo, das quais mais de 300.000 vivem em áreas urbanas. Mais de 400 das 700 reservas estão justamente na Amazônia, onde ocupam acima de 20% do território total. Nenhum país tem tanta terra assim para as chamadas populações indígenas. Fazer mais que isso?

Os artistas, aí, estão no caminho da alucinação. Quais países, entre os 200 que formam o planeta, poderiam se comprometer com o tipo de coisa que eles estão exigindo? Está certo que tratem o Brasil como uma republiqueta, até porque não sabem direito o que é o Brasil — mas há coisas que nem a republiqueta mais ordinária consegue topar. Dizer o quê? É assim mesmo que uma atriz ou um ator norte-americano funciona, em condições normais de temperatura e pressão, quando quer se meter com política. Como suas almas gêmeas das empresas gigantes de tecnologia, que querem ir morar na Lua e salvar a humanidade de tudo o que desaprovam, trata-se de milionários à procura do que fazer em benefício do bem universal.

Estão sempre assinando as mesmas petições, sobre as mesmas coisas: racismo, transgêneros, homofobia, eliminação do masculino e feminino na linguagem, veganismo, os crimes de Cristóvão Colombo, liberdade para as crianças escolherem o próprio sexo, direito dos avestruzes, denúncia da “cultura clássica”, denúncia da “direita”, denúncia do “lucro” (salvo o próprio), defesa da “mulher”, defesa das “minorias”, defesa do meio ambiente em outros países, sobretudo no Brasil. Esse último tema é campeão no bonde de Hollywood e arredores: é um dos mais fáceis, mais baratos e com retorno mais garantido em termos de cartaz que está disponível hoje em dia na praça. Que risco você corre falando mal do Brasil, da “destruição da floresta” e do governo “genocida”? Nenhum; é só lucro, aplauso e dever cumprido, sem nenhum sacrifício, perante a própria consciência.

Uma das maiores vantagens desse tipo de atitude é que os artistas não precisam pensar em nada para assinarem qualquer folha de papel que acham rentável para a sua imagem. Não precisam e não gostam de pensar: jamais deram cinco minutos do seu tempo para entender um mínimo a respeito dos assuntos sobre os quais têm posições tão extremadas. No caso do Brasil, não saberiam dizer se Manaus é a capital de Buenos Aires, ou se Curitiba é um afluente que desemboca na margem esquerda do Rio Amazonas; tudo o que sabem sobre as realidades brasileiras é o que lhes dizem o Greenpeace, a menina Greta e Giselle Bündchen.

Se fizessem um esforço mínimo para entender um pouco do que estão falando, saberiam o que qualquer pessoa séria sabe há muito tempo: que o grande inimigo da natureza, do meio ambiente e do equilíbrio ecológico na floresta amazônica é a miséria. O que destrói a Amazônia é a metástase do favelamento em volta das cidades. É a falta de saneamento, de água tratada e de energia elétrica. É a ausência de renda para os seus 20 milhões de moradores, que obriga muitos deles a qualquer coisa para sobreviver. É o crime, a desigualdade e a negação de justiça. Saberiam, também, que é impossível evitar queimadas naturais numa área com mais de 4 milhões de quilômetros quadrados, ou dez vezes o tamanho da Califórnia. Mas é assim que trabalha a cabeça dos artistas. Na Califórnia pode ter incêndio, toda hora. Na Amazônia não pode, nunca.

Supõe-se que o governo norte-americano, que não nasceu ontem, ouça o que têm a dizer os seus diplomatas para tomar decisões sobre o tratado, e não se impressione mais do que o necessário com a espetacular ignorância das suas estrelas — um terceiro-secretário da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, no fim das contas, sabe mais sobre as realidades da Amazônia do que todos os artistas da Netflix somados. É difícil, de qualquer forma, imaginar uma crise de verdade por causa de um manifesto, ou mesmo por causa da floresta inteira. Os Estados Unidos foram o primeiro país a estabelecer relações diplomáticas com o Brasil, em 1808 — ainda no tempo de dom João VI. Foram os primeiros a reconhecer a independência brasileira, em 1822. Foram os primeiros, enfim, a abrir uma embaixada em Brasília, em 1960, e ali vêm dando expediente diário nos últimos 61 anos.

Na prática, e na vida real, essa história toda acaba dando num grande “E daí?”. Não querem acordo? Então não vai ter acordo. Os Estados Unidos e a Amazônia continuarão a ser exatamente o que são. A alternativa é jogar uma bomba de hidrogênio em São Gabriel da Cachoeira — ou de preferência em Brasília, caprichando na pontaria para a coisa cair bem em cima do Palácio do Planalto. É provavelmente o sonho dos intelectuais brasileiros que se aliaram ao manifesto dos norte-americanos contra o seu próprio país. Pensando um pouco, qual a novidade, nisso também? Agredir o Brasil e os brasileiros é o que eles fazem o tempo todo, a menos que Lula esteja na Presidência da República — mas aí também não vai haver manifesto nenhum.

DEU NO JORNAL

TÁ FALTANDO OUTRO TIPO DE VACINA

O Brasil deve alcançar neste fim de semana a marca de 13 milhões de imunizados, que são as pessoas que já receberam a segunda dose da vacina da covid e estão livres das formas mais graves da doença.

Isso é importante também porque o Brasil superou o total de imunizados no Reino Unido, primeiro país do ocidente a iniciar a vacinação contra covid, e deve, até o fim do mês, ultrapassar os britânicos no total de doses.

* * *

A minha segunda dose eu vou tomar hoje, domingo.

Está marcado pras 8:55 desta manhã, conforme já me avisou Aline, a administradora da minha agenda.

Agora só tô precisando mesmo é de uma vacina contra mau-olhado.

Como tem cabra feio invejoso nesse mundo.

Não podem ver um sujeito bonito assim feito eu que ficam putos de raiva.

Vôte!!!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O ANDARILHO

Amâncio “pegando” uma estrada na caminhada sem objetivo

Não lembro ao certo quantos alunos éramos na sala de aulas da quarta série ginasial do tradicional, diferente e magnífico Liceu do Ceará. Mas lembro, sim, éramos muitos e nos conhecíamos todos. Éramos amigos, sem as baitolagenzinhas do “bullying”! Se precisasse, a gente saía era na porrada mesmo.

O ano letivo tinha início quase sempre na segunda quinzena de fevereiro. Em junho, ao fim das provas escritas e orais, começavam as férias por todo o mês de julho. Tudo recomeçava no primeiro dia de agosto, a não ser que aquele dia fosse um sábado ou domingo.

Todos que já alcançaram a faixa etária dos 50, e conseguiram ultrapassagem pela esquerda sem causar problemas para quem vem na contramão para chegar aos 60, 70 e mais alguma coisa, sabem que “quem procura, acha” e que “quem semeia, colhe”. Sabem mais ainda: “é para a frente que a gente anda”!

Pois, Amâncio Batista de Queiroz, aluno número 4 no livro de chamada, era natural de Quixadá. Quinto filho da abastada família dos Queiroz, proprietária de quase tudo na “Terra dos Monólitos”, da “Pedra da Galinha Choca” e do açude de Cedro. Como se tornaram proprietários do que ali possuíam, poucas pessoas sabiam ou faziam questão de saber – naquele tempo, sem internet, sem “zapzap” todos se preocupavam mesmo era com o trabalho e o sustento da família.

Por falta de escolas municipais na cidade, Amâncio, que podia e tinha condições financeiras para estudar na Europa, preferiu mesmo foi o tão bom quanto os melhores, Liceu do Ceará.

Presente entre os melhores alunos da classe, Amâncio tinha uma mania – hoje, os frescos chamam de “hobby”. E ainda tem que ser escrito em inglês. Viadagem pura. Coisa de quem gosta de sentar na boneca.

Amâncio gostava de andar. Era “andarilho”. Quem conhece Fortaleza, certamente sabe a distância que existe entre o bairro Benfica, onde Amâncio residia numa pensão de amigos dos Queiroz, para o Liceu do Ceará. Amâncio ia caminhando, diariamente, do Benfica para o Liceu. Ia e voltava. Andar, para Amâncio tinha o mesmo prazer que “tocar uma bronha” com as duas mãos. E gozar.

Eis que terminam aos aulas do primeiro semestre do ano, com a grade curricular rigorosamente cumprida. Após as provas escritas e orais do meio do ano, as férias.

Pernas, pra que te quero?!

A maioria não tinha mesmo para onde ir. Naquele tempo, viajar para a Europa não era coisa tão fácil. A gente aproveitava para passar uma semana com os avós no interior, e outros até que procuravam atualizar seus álbuns de figurinhas.

Mas, Amâncio era diferente. Era outra pessoa. E tinha para onde ir. As férias começavam no dia 15, e no dia 17 ele já estava na estrada.

É foi isso mesmo que você leu: “na estrada”!

Pedra da Galinha choca em Quixadá ao lado do açude Cedro

Quem serviu ao Exército, sabe bem a dimensão do que o Amâncio fazia. Quem serviu ao Exército, quando fazia “marchas” de 20 km, cansava. Havia até quem “baixasse hospital” e ficava até dois ou três dias em recuperação.

Amâncio, não. Amâncio era “andarilho profissional”. E, pasmem: de Fortaleza até Quixadá, são exatos 167 km. É mole?
Não, não é mole não!

Parece mentira, mas Amâncio levava até três dias caminhando nesse percurso. Claro que parava para descansar e, às vezes, também para dormir em alguma cidade. Mas, na manhã seguinte, após o café, botava o pé na estrada.

Repito: Amâncio era “andarilho profissional”!

Saía da pensão onde morava, no Benfica. Seguia pela Avenida 13 de Maio, até encontrar a Rua Rio Branco, no antigo São João do Tauape. Seguia na direção de Messejana, Horizonte, e pegava a BR-116 até Pacajus. Ali, o destino era Quixadá, sempre pela BR-122. Não caminhava durante a noite, embora a temperatura fosse mais amena. Ele preferia parar em algum lugar, onde descansava, jantava e dormia.

Contava Amâncio, que era comum esse diálogo com alguém que passava por ele, na estrada:

– Tá indo pra onde, meu jovem? Perguntava alguém, com a intenção de oferecer ajuda.

– Ainda não sei pra onde vou! Respondia Amâncio, sem pretender receber ajuda.

– Quer uma carona? Perguntava o motorizado.

– Não! Não quero. Muito obrigado! Respondia Amâncio e continuava a caminhada.

Quando se aproximava de Quixadá, apesar de ser ali a “Terra dos monólitos” (pedras, muitas pedras), o clima era mais ameno. Não. Não era mais ameno. É que Amâncio sabia que já estava chegando e aquilo mudava o seu astral.

Como todo bom cearense, Amâncio também tinha o seu veio cômico e gostava de umas respostas engraçadas e cheias de ironia.

Ele próprio contou (na volta das férias) que, certa vez, quando já se sentia em Quixadá, um passante motorizado parou o carro e perguntou:
– Tá indo pra onde, jovem?

– Tô indo botar meus ovos para a galinha chocar!

No fim das férias, claro, os familiares não permitiam que Amâncio retornasse a pé. Afinal, voltava sempre na véspera do início das aulas.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ ROBERTO DE FREITAS – CARUARU-PE

Prezado Editor:

O Presidente Bolsonaro foi entrevistado no programa Alerta Geral, comandado por Sikêra Jr.

Bolsonaro confraternizou com o candidato que vai disputar com ele as eleições de 2022.

Veja o flagrante:

R. Êita peste! Teremos uma disputa da porra.

A campanha vai ser da pesada: patada de gado de um lado e coice de jumento do outro.

Vôte!

Meu caro leitor, eu vi essa entrevista do começo até o fim.

Posso afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que trata-se do maior desmantelo esculhambatício-presidenciatório de que já tive notícia.

Foi pra arrombar a tabaca de Xolinha!!!!

Sikêra Jr., meu conterrâneo de Palmares, é uma figura ímpar.

Seu programa Alerta Nacional, na Rede TV, vem batendo significativos recordes de audiência a cada de que passa.

Um destaque bem saliente no mar de bosta em que se transformou a grande mídia banânica.

Os leitores desta gazeta escrota que quiserem ver um trecho da entrevista, basta clicar aqui.

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CONSTÂNCIA UCHÔA - "IN" CONSTÂNCIAS