J.R. GUZZO

JULGAMENTO DE LULA EM BRASÍLIA É PIADA – NÃO VAI ACONTECER NUNCA

Cumpriu-se, há pouco, o ritual para consumar a pior farsa jamais registrada na história da Justiça brasileira: a anulação das quatro ações penais conta Lula, inclusive aquela em que ele foi condenado, já em terceira instância e por nove magistrados diferentes, por corrupção e lavagem de dinheiro.

Por causa dessa farsa, comandada pelo ministro Edson Fachin e apoiada por todo o Supremo Tribunal Federal, fizeram desaparecer na atmosfera tudo o que havia contra Lula na área criminal — provas, depoimentos, confissões espontâneas de crimes por parte de testemunhas, delações premiadas.

Fachin e os colegas decidiram que Lula não deveria ter sido julgado em Curitiba — e pronto, o problema ficou resolvido para ele. Com isso, tudo o que a Justiça brasileira fez no seu processo — um trabalho que foi considerado perfeitamente correto durante cinco anos — acabou sendo jogado no lixo.

Se não podia ser em Curitiba, tinha de ser onde, então? Nem os ministros sabem — a única coisa que são capazes de dizer é que em Curitiba não valeu. Uns acham que os processos, agora, devem recomeçar do zero em Brasília; outros acham que deve ser em São Paulo. Há, enfim, os que conseguiram o prodígio de não achar nem uma coisa nem outra; no final da sessão plenária (“virtual”, é claro) que julgou o caso, decidiram simplesmente que não têm a menor ideia sobre onde tem de ser julgados os crimes de que Lula é acusado. Em Marte, talvez?

Acabou ficando em Brasília, mas é só uma piada — tanto faz o lugar no novo julgamento, pois esse julgamento não vai acontecer nunca.

A fraude praticada pelo STF contra as noções mais elementares de Justiça não absolve Lula de nada; sua “inocência” não foi “reconhecida”, como ele tem dito, e nem “a Justiça” está dizendo que houve um “erro judiciário” — ou que ocorreu o que se chama de “injustiça”.

A única coisa que aconteceu de fato, no mundo das realidades, é que os ministros do STF livraram o ex-presidente, ilegalmente, dos processos que estavam travando a sua carreira política — e, dessa forma, o transformaram no seu candidato pessoal à presidência da República.

DEU NO TWITTER

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O SUPREMO E FREDERICO II

Em 1778, a Academia de Berlim realizou concurso por inspiração de Frederico II da Prussia (1712-1786). Mais conhecido como Frederico O Grande (Friedrich der Grobe), era famoso por suas vitórias militares. Mas, também, pelo patrocínio das artes e do iluminismo. Esse concurso teve, como tema, “É conveniente enganar o povo?”. Dele se soube, só há pouco, quando o filósofo alemão W. Kraus localizou suas atas. Para além da frugalidade dos concursos literários, aspirava o imperador ser conhecido como o Antimaquiavel. D’Alembert apoiou sua pretensão. E até lhe disse, em carta, “Sem dúvida o povo é um animal imbecil que se deixa guiar pelos sinos, quando não se apresenta algo melhor. Mas oferece a verdade. E se essa verdade é sincera, e se vai diretamente no coração, me parece infalível que a adotará e não quererá nenhuma outra”. Por fim, animando o amigo a propor o tal concurso.

Assim foi feito. Frederico, no fundo, buscava compreender as relações entre ação política e sociedade de massas. A partir, segundo um dos 42 trabalhos apresentados, “da força plástica da visibilidade do poder sobre o hábito do segredo e da mentira em suas relações com a obediência política”. Retraduzindo o tema do concurso, para dar-lhe alguma dignidade, tratava-se da tentativa de estabelecer a real dimensão do espetáculo do poder e as implicações políticas de alguns de seus instrumentos de trabalho: artifício, simulação, sedução, farsa.

A Academia, na dúvida sobre as reais intenções de Frederico, prudentemente decidiu premiar autores que sustentaram teses opostas. Um desses dois autores premiados, Frederick de Castillon, entendia ser “útil, para aqueles que têm necessidade de ser queridos, sê-lo por quem os engana, quando para conduzi-los mais facilmente a um fim, e esse fim não seja outro que a verdadeira felicidade”. Enquanto o segundo, Rudolf Zacharias Becker, em sentido contrário, recomendava o compromisso com a verdade em uma dimensão ética. E concluía seu texto dizendo: “Se quereis ser felizes, o façais com a vista posta na eternidade; onde a mente do homem, que nesta vida terrena apenas germina, cresce até converter-se em árvore frutífera”.

Esse tema encontra agora, quase 300 anos depois, uma resposta complicada e tardia. Com as últimas decisões tomadas pelo Supremo. Entre elas, a que doeu mais, de dar fim à Operação Lava Jato. Inacreditável (quase). Nosso mais alto tribunal, que deveria ser responsável por evitar que a corrupção se dissemine pelo país, abre mão do seu dever. E concede estímulos a quem tem as mãos sujas. É desalentador. João Mangabeira disse, em livro famoso (Rui, o Estadista da República), que “o órgão que mais falhou à República (até 1937) não foi o Congresso; foi o Supremo Tribunal”. Tenho medo de que, olhando para trás, um dia façamos juízo semelhante do Supremo de agora. Antes, pelo que não fez. Hoje, pelo que está fazendo. Que nos fique ao menos então, como advertência, palavras de Lorinet (médico em Montpellier, França), sobre aquele concurso. Primeiro, quando reconhece que os poderosos mantêm seu povo em “ignorância, mediante o engano e o segredo, para poder subjugar”. Encerrando seu texto com a premonição de que, nesse caso, “nos libertaremos e os derrubaremos”. Pelo voto, esperamos todos, como sempre deve acontecer nas democracias.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

VERDES VALES

No começo do século XX, no pequeno vilarejo “Verdes Vales”, onde morava, Toni, um trabalhador de mina de carvão, agora com mais de cinquenta anos, em lágrimas, se preparava para deixar sua terra natal para sempre. Sentia-se decepcionado com a vida, pois todas as pessoas que conheceu e amou estavam mortas ou haviam se mudado dali.

Ao juntar seus poucos pertences, na cesta em que sua mãe costumava trazer as compras da feira, jorraram da sua memória, lembranças de sua infância, quando a fuligem do carvão, extraído das minas, ainda não havia destruído o verde do seu vale.

Nos primórdios do capitalismo, a precariedade das condições de trabalho e o amadurecimento da consciência operária tiveram sérias consequências.

Passavam pela lembrança de Toni, centenas de mineiros deixando a mina, depois de passar pelo caixa e receber a paga da semana. Eles desciam pela rua, margeada por muitas casas conjugadas, todas iguais, cuspindo fumaça pelas chaminés. Ali havia uma fábrica com vila operária, coisa muito comum em situações em que o empreendimento capitalista se estabelecia num vale verde, distante dos centros urbanos. O dono precisava garantir suprimento de força de trabalho.

Toda a família de Toni era de mineiros. O pai, Gildo Moura, e os 5 irmãos adultos estavam entre as centenas de operários, que desciam a rua, em direção à mina, ao amanhecer. No fim do dia, a mãe, Dona Dulce, os aguardava na porta de casa, como também as esposas dos outros mineiros. Ao avistar o marido e os filhos na multidão, a mulher sentava-se num banquinho, estendia o avental e recebia nele o dinheiro que traziam. Aparentemente, ela era a guardiã da renda familiar, mas, na verdade, a poupança era controlada também pelo marido. A sobrevivência da família dependia do dinheiro do pai e dos 5 filhos.

O irmão mais velho se casou com uma bela jovem, Margarida, e houve uma grande festa, com muita comida e bebida.

No dia seguinte, os operários foram surpreendidos por um aviso, afixado na porta da fábrica, de que a paga por turno seria reduzida. Houve revolta e protesto, mas Gildo Moura, o porta-voz dos operários, pai de Toni, convenceu a todos ignorar o aviso e trabalhar normalmente.

O vilarejo vivia em função da mineradora, que empregava todos os seus homens. Os mineiros não tinham sindicato; apenas o porta-voz, que levava as reclamações ao patrão. Todos confiavam em Gildo, por ser o mineiro mais velho e mais experiente.

Ao chegar em casa, o pai encontrou os cinco filhos com os ânimos acirrados. Informaram-lhe que o corte de salário era decorrente do fechamento de uma mina próxima, e por isso tinha gente querendo trabalhar por qualquer preço. O pai perguntou aos filhos onde iriam arranjar poder para pressionar o patrão, e o mais velho, Ivo, respondeu que teriam que fundar um Sindicato.

Contrariado, o pai perguntou de onde eles tinham tirado essa ideia socialista. E deu por encerrado o assunto. Não houve diálogo entre pai e filhos, tendo em vista os valores tradicionais.

A mudança nas relações trabalhistas, dos mineiros com o dono da mina, ocorreu como num passe de mágica. De repente, estabeleceu-se a crise, com o corte da metade dos salários, o que causou uma revolta geral, exceto por parte do porta-voz. Ele ainda acreditava na generosidade do patrão, até que o homem fez valer o despotismo do mercado, reduzindo os salários, em função do aumento da oferta da mão de obra na região. E o pior: Puniu o porta-voz, por ter ido apresentar-lhe a reclamação dos operários. Colocou o velho mineiro para trabalhar ao relento, sob a chuva pesada, contando os carrinhos de carvão que saiam da mina. Isso revoltou a todos, principalmente aos seus 5 filhos mineiros.

No jantar, eles disseram ao pai que a punição fora injusta, e que ele morreria, quando chegasse o inverno. Mas, o velho e orgulhoso pai os proibiu de usar sua situação humilhante para “fazer política”. Ainda insistiu em dizer que confiava no patrão e que tinha certeza de que nenhum dos antigos mineiros seria demitido.

Houve uma grande tensão entre pai e filhos, vindo à tona valores tradicionais, como também a impessoalidade das relações de trabalho, agora mediadas por um sindicato, sob o jugo do mercado atual. A tensão resultou no abandono do lar pelos cinco filhos, na mesma noite. Apenas ele, Toni, o caçula, permaneceu com os pais.

No dia seguinte, os operários entraram em greve, liderada pelo Sindicato, cujos dirigentes permaneciam na clandestinidade.

Transcorridas várias semanas, sem que se resolvesse o problema salarial, a situação começou a provocar discórdia entre os operários, em razão da fome e do desespero. A maioria se voltou contra o velho Gildo, o porta-voz, por ter se posicionado contra a greve. Uma reunião sindical foi convocada, para discutir a punição a ele, mas sua esposa, Dulce, acompanhada de Toni, o filho caçula, foi até lá e ameaçou de morte aquele que fizesse alguma coisa contra seu marido.

Na volta para casa, ela e o filho caíram num rio. Os mineiros escutaram os gritos de socorro e vieram retirá-los. Toni perdeu os movimentos das pernas. O prognóstico foi de que passaria dois anos sem andar. A mãe também ficou de cama por alguns dias.
O infortúnio inesperado acabou reaproximando pais e filhos e também a família do resto do coletivo operário. Mais uma vez, a tradicional solidariedade aproximou os que se haviam dividido na greve.

A greve terminou depois de meses, e só pôde durar tanto, em razão do sindicato e seu fundo de greve. Na verdade, greves longas eram típicas dos primórdios do sindicalismo, quando a intransigência patronal testava os limites da resistência operária, através da fome e do desespero. E depois, por meio de retaliações aos grevistas.

Os trabalhadores voltaram ao trabalho, sem a alegria de sempre. Nem todos conseguiram passar pelo portão da mina. Os que ficaram de fora descobriram que não haveria mais trabalho para eles no vale. Dentre os que ficaram de fora, estavam os dois membros mais jovens da família de Gildo.

Os dois, então, comunicaram à família que iriam se mudar dali, à procura de trabalho. E ao anoitecer, deixaram a casa dos pais.

Toni voltou a andar, e se preparou para prestar exame para a escola pública nacional. Foi aprovado e teve ótimo desempenho, classificando-se para a universidade. O pai perguntou-lhe se queria ser médico ou advogado. e para seu desapontamento, o rapaz escolheu trabalhar na mina e ficar no vale com a família.

Pesou em sua decisão, um grande acidente na mina, no qual mais de 100 mineiros ficam presos, e entre os mortos estava o irmão mais velho, Ivo, o líder sindical.

Houve uma grande decadência nas condições de vida do vale e nas condições de trabalho na mina. Operários experientes foram substituídos por crianças e adolescentes, ganhando um décimo dos adultos, cujos salários já estavam baixos, em razão do desemprego nas regiões vizinhas. E receberam o aviso de que seriam substituídos por pessoas que aceitassem salários menores. Muitos resolveram emigrar, à procura de melhores condições de vida.

Outro grande acidente veio, de novo, comprovar que o trabalho na mina é perigoso e fatal. Desta vez, matou o patriarca Gildo Moura, cujo corpo foi recuperado pelo filho Toni e outros colegas mineiros.

Cansado de decepções, e sentindo-se vencido, Toni relembra a tragédia de sua família, mais de 30 anos depois, após idas e vindas ao vale. Desta vez, ele diz e repete para si mesmo, que está saindo para nunca mais voltar, já que todas as pessoas que amou ou conheceu já tinham morrido ou se mudado. Só lhe restavam agora as recordações de um tempo feliz, quando todos estavam vivos e quando o seu vale ainda era verde.

O cenário da cidade operária de Verdes Vales era, agora, o de uma cidade empobrecida e totalmente deteriorada, pela incessante emissão de fuligem das chaminés carvoeiras, asfixiantes e opressivas.

DEU NO JORNAL

CADUQUICE

Discurso de Bolsonaro na Cúpula do Clima é bem recebido pelo governo Biden.

Lideranças de mais de 40 países participam da cúpula organizada pelo governo dos EUA.

* * *

Esse ancião Biden está completamente caduco.

Aplaudir discurso de Bozo é sinal de abestalhamento.

Os Zistados Zunidos tão lascados com um presidente desses.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FRASES ALHEIAS – AS IDÉIAS DE WALTER WILLIAMS

Walter Edward Williams (1936-2020), foi um economista, comentarista e acadêmico americano

Democracia e liberdade não são sinônimos. A democracia é apenas a irracionalidade das multidões; a liberdade é a soberania do indivíduo.

* * *

Os especialistas da elite intelectual substituíram aquilo que funcionava por aquilo que “soava bonito”. A sociedade era muito mais civilizada antes dos intelectuais assumirem o controle de nossas escolas, nossas universidades, nossos programas sociais, nossas polícias, nossos tribunais. Já passou da hora de descartarmos essas pessoas e retornarmos ao bom senso.

* * *

Os multiculturalistas e proponentes da diversidade estão corretos quando dizem que pessoas de todas as raças, religiões e culturas devem ser tratadas igualmente aos olhos da lei. No entanto, todo o argumento deles se esfacela quando eles próprios afirmam que determinadas culturas não podem ser julgadas de maneira crítica.

* * *

A minha definição de justiça social é a seguinte: o que eu ganho com o meu trabalho é meu, o que você ganha com o seu trabalho é seu. Discorda? Então me diga qual parte daquilo que eu ganho é sua, e por quê?

* * *

Algo que é considerado imoral quando feito individualmente se torna moral quando feito coletivamente? Basta uma lei para estabelecer a moralidade? A escravidão era legal. Os confiscos stalinistas eram legais. A perseguição dos nazistas aos judeus era legal. O apartheid na África do Sul era legal. A legalidade tornava esses atos morais? Claro que não. A legalidade, por si só, não pode ser o talismã das pessoas morais.

* * *

O teste definitivo para se saber o comprometimento de uma pessoa para com a liberdade de expressão é ver se ela permite que outras pessoas digam coisas que ela considera profundamente ofensivas, seja sobre raça, gênero ou religião. Não é mérito nenhum chamar de “liberdade de expressão” a vocalização apenas daquelas ideias que nos agradam.

Infelizmente, o que temos hoje é uma defesa assimétrica da liberdade de expressão: aquilo que me agrada é lícito, aquilo que me ofende deve ser proibido. Ou a liberdade de expressão é absoluta, ou ela não existe.

* * *

Um estabelecimento que proíbe a entrada de negros é tão válido quanto um que proíbe a entrada de brancos. Um estabelecimento que proíbe a entrada de homossexuais é tão válido quanto um que proíbe a entrada de heterossexuais. Um estabelecimento que proíbe a entrada de judeus é tão válido quanto um que proíbe a entrada de neonazistas.

O verdadeiro teste para determinar se um indivíduo é sinceramente comprometido com a defesa da liberdade não está em ele permitir a liberdade de uma maneira que ele aprova. O verdadeiro teste ocorre quando ele permite às pessoas serem livres de maneiras que ele considera desprezíveis.

* * *

Tentativas de tornar as pessoas iguais por meio de alterações nas leis produzem resultados que destroem a civilidade e o respeito pela lei. O governo só pode criar uma vantagem para uma pessoa se, ao mesmo tempo, ele criar uma desvantagem para outra pessoa.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

DALINHA DAS IPUEIRAS E LINDICÁSSIA DE BARBALHA

Dalinha Catunda

Quem diabo que é essa doida
Que vem lá do Cariri
Comendo cuscuz com ovo
E um balaio de pequi
Com fumaça no cachimbo
Pra assanhar meu inxuí

Lindicássia Nascimento

Quem diabo é esse Zumbi
Que parece assombração
Com molambo na cabeça
E uma boneca na mão
Achando que é gostosona
A crueira do sertão.

Dalinha Catunda

A minha apresentação
Faço agora com audácia
Sou abelha do sertão
Meu ferrão tem eficácia
Para Dalinha Catunda
Se apresente sem falácia.

Lindicássia Nascimento

O meu nome é Lindicássia
Sobre nome Nascimento
Sou mulher de atitude
Cheia de atrevimento
Quando me dano a brigar
Brigo até no pensamento.

Dalinha Catunda

Não venha afoitamento
Pois eu posso ser cruel
Minha língua é venenosa
Já derrubei menestrel
Mas se quer mexer com cobra
Lhe apresento a cascavel.

Lindicássia Nascimento

Amargo igualmente a fel
Sem medo vou pra disputa
Seu veneno não me atinge
Bicha besta e biruta
Eu também sou cobra ruim
Na Selva sou mais astuta.

Dalinha Catunda

Eu vejo que nessa luta
Só tem cobra peçonhenta
Vou pegar teu desaforo
E esfregar na tua venta
A bicha besta e biruta
É você coisa nojenta.

Lindicássia Nascimento

Já vejo que não aguenta
Essa nega cangaceira
Se eu puxar o meu facão
Boto seu fato na feira
Pergunto quem quer comprar
O resto da mulambeira.

Dalinha Catunda

Se eu puxar minha peixeira
Eu entorto o teu facão
Corto um palmo da tua língua
Mudo a tua profissão
Nunca mais voltas a ser
Lambe saco de patrão.

Lindicássia Nascimento

Comigo tem isso não
Mulher fraca igual a tu
Faz zoada mais não morde
Só incha igual cururu
E quando me vê se esconde
No buraco do tatu.

Dalinha Catunda

Nem que tu faças vodu
Xexelenta macumbeira
Eu não fujo dessa briga
Meta seu pé na carreira
Peça logo seu penico
Que o medo dá caganeira.

Lindicássia Nascimento

Deixe de falar besteira
Franga “véia” de macumba
Eu quebro teu espinhaço
Antes de mandar pra tumba
Te faço lamber o chão
Bem antes que tu sucumba.

Dalinha Catunda

Tu tá querendo quizumba
Do choco vou te tirar
As penas desse teu rabo
Uma a uma vou puxar
Depois que eu quebrar teu bico
Quero ver cacarejar.

Lindicássia Nascimento

Basta tu se imaginar
Na mesma cena isolada
Mas as penas que eu puxar
Nessa peleja arretada
Vou queimar com gasolina
No meio da encruzilhada.

Dalinha Catunda

Eu não vou sair queimada
Deixe já de picuinha
E nem vou lhe depenar
Já desmontei minha rinha
Isso tudo é presepada
Tanto tua como minha

Lindicássia Nascimento

teu pensamento se alinha
e me causa emoção
somos luzes da lapinha
do céu a constelação
na terra somos semente
lançada em riba do chão.

Dalinha Catunda e Lindicássia Nascimento

Cumprimos nossa missão
Com rimas e brincadeiras
Lindicássia de Barbalha
Dalinha das Ipueiras
Pois além de cordelistas
Também somos cantadeiras.

DEU NO TWITTER

MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

A CUCA E O MANDOLATE

Em 1988 fui visitar o representante da nossa Empresa e alguns clientes na região de Caxias do Sul, formosa e hospitaleira cidade do Rio Grande do Sul. Nos quatro dias em que estive naquela linda região serrana gaúcha esbaldei-me com churrasco, pratos italianos e alemães, geleias, doces e todas essas maravilhosas comidas que fazem tão bem à nossa felicidade quanto o S.T.F. faz de mal ao Brasil.

Caxias do Sul, RS

No último dia, já de regresso a Porto Alegre para tomar meu avião para São Paulo, tomei conhecimento de que não havia provado duas especialidades daquela região: cuca e mandolate. Não havia nenhuma delas disponível, mas fui informado que na estrada de Caxias do Sul para Porto Alegre havia tendas que seguramente vendiam tais maravilhas.

Fui firme e animado.

Já na primeira bodega da estrada, para minha sorte, um cartaz anunciava que tinham cuca e mandolate. Parei imediatamente. Entrei. Uma linda potranca gaúcha, “dessas da venta brasina, com cheiro de lechiguana, que quando ergue uma pestana até a noite se ilumina” (como disse o saudoso Jayme Caetano Braun em seu poema ‘Bochincho’), chegou toda gentil e sorridente para me atender.

– Antes de tudo, disse eu, queria saber o que é uma cuca e de que é feita.

– Cuca? Cuca? Ora, cuca? Bem… uma cuca é uma cuca!

– Grato. E o que é mandolate?

– Mandolate? Já vi que tu não é daqui. Deixe-me ver… mandolate… como vou explicar pra ti? Ora, tchê, mandolate é mandolate!

A explicação da linda gauchinha não ajudou muito ou minha atenção não estava mais focada na etimologia. Encurtando o caso, comprei as duas delícias sem maiores discussões, provei, gostei e fui tomar meu avião em Porto Alegre.