DEU NO JORNAL

NOSSOS TIGRES BRANCOS

Percival Puggina

São raros, raríssimos na reduzida população de tigres, os apreciados tigres-brancos. Li, em algum lugar, que corresponderiam a 1/10000 nascimentos no conjunto da população selvagem.

Nos grandes meios de comunicação do Brasil, jornalistas com independência e coragem para nadar contra a corrente são raros como tigres brancos. Não tenho dúvida de que, se não fossem tão escassos, a nação alcançaria maior consenso, se aproximaria da verdade sobre os fatos e encontraria mais facilmente soluções para muitos dos grandes problemas nacionais.

No entanto:

* quando o Congresso legisla para criar novos meandros nos processos penais e afastar ainda mais os criminosos do cumprimento das penas, a grande imprensa noticia e não critica;

* quando o Congresso cria preceitos que inibem a ação dos agentes do Estado (policiais, promotores, magistrados), a maior parte do jornalismo brasileiro noticia e não critica;

* quando o Congresso se omite de votar sobre prisão em segunda instância (indispensável à celeridade dos processos, aos acordos de leniência e ao certeiro combate à impunidade), a grande imprensa cala num silêncio escandaloso;

* quando senadores, deputados, ou seus partidos, admitem lisamente estarem votando contra propostas do Executivo para conseguir mais “espaço” no governo, a mídia militante silencia sobre a malícia do fato e sobre o prejuízo que ele possa causar ao país.

Por último, mas não por fim, jamais, nem por acaso ou falta de assunto, nosso jornalismo examina os erros do modelo institucional que é, este sim, a causa original da maior parte de tais condutas, males e malefícios.

O jornalista J.R.Guzzo, um desses raríssimos Tigres Brancos, em artigo de 11/04 no JBF, chama a atenção dos desatentos e omissos, especialmente colegas, sindicalistas, juristas, entidades defensoras de direitos humanos, para o caso do jornalista Oswaldo Eustáquio. Em certo trecho, diz assim:

(…) o jornalista Oswaldo Eustáquio, indiciado num inquérito ilegal no STF, está preso há três meses e meio por crime de opinião, acusado de violar a Lei de Segurança Nacional que sobreviveu ao regime militar. Não foi preso em flagrante. Não cometeu nenhum crime descrito na lei como “hediondo” e, portanto, inafiançável. Não tem direito a nenhuma das múltiplas garantias que a lei brasileira oferece a qualquer acusado de infração penal. Não tem acesso completo às informações do seu processo. Não lhe foi dito até agora quais são, exatamente, as acusações que estão sendo feitas contra ele. Não há data para a conclusão do inquérito, e nenhuma obrigação por parte dos carcereiros de responder às perguntas dos seus advogados. Não tem culpa formada. Não foi condenado por nenhum dos 361 artigos do Código Penal. Mas está preso desde o dia 18 de dezembro de 2020, por ordem e desejo do ministro Alexandre Moraes.

Valiosos princípios e bens morais precisam estar mortos para justificar tais silêncios, que encobrem, também, muitos disparates praticados e opiniões abusivas de quem não consegue entender os limites à conduta pública de um julgador. Como pretendem, algum dos nossos, ingressar na política sem voto, bater sem levar e se indignar com a própria impopularidade?

Os tigres brancos não salvam a mídia brasileira. Mas são um lenitivo à inteligência e uma boa régua para medir aqueles que – em meio a tantos acontecimentos graves, tanto abuso e desrespeito à Constituição por parte do Supremo – se põem a examinar, minuciosamente, cardápios e compra de lagostas.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

RODRIGO CONSTANTINO

QUEM QUER CPI RESTRITA AO GOVERNO FEDERAL NEM ESCONDE QUE META É POLÍTICA, NÃO ÉTICA

Quem quer uma CPI sobre a suposta “omissão” do governo federal na pandemia, mas não sobre o Covidão dos estados e municípios, que receberam bilhões de reais e já viram até governador caindo ou sendo preso por indícios de corrupção, pode até tentar disfarçar, mas não tem qualquer apreço pelos valores éticos: é pura politicagem contra Bolsonaro para tentar desgasta-lo, nada mais.

Isso é o óbvio ululante, mas em nosso país é sempre necessário repetir o óbvio. Ao depender de parte da mídia, a narrativa será bem diferente. Basta ver a chamada que a Folha de São Paulo deu hoje: “Bolsonaro tenta derrubar CPI da Covid ao cobrar apuração de prefeitos e governadores”. Oi? Então o presidente diz que é preciso investigar a todos, para não ter politicalha sacana, e o jornal paulista conclui que ele tem algo a esconder e quer melar as investigações?

O senador Eduardo Girão, do grupo Muda Senado, vem tentando colher as assinaturas necessárias para tornar a CPI mais abrangente, e explica o motivo: “A Verdade precisa ser mostrada, e não apenas uma faceta dela. Faltam agora 6 assinaturas p/ termos o número mínimo necessário para darmos entrada na CPI da Covid. O foco não pode ser apenas na União, enquanto há dezenas de investigações da própria PF nos entes federados!”

Isso é evidente! O que faz, então, com que tantos políticos e jornalistas insistam num foco restrito tendo como alvo somente Bolsonaro? Sabemos a resposta, pois a pergunta foi retórica. A esquerda dorme e acorda pensando em derrubar o presidente, e nada mais parece importar. Basta ver os áudios vazados do governador João Doria, obcecado com a imagem sobre a vacina para efeitos eleitorais, não com as vidas de fato:

Já na conversa vazada pelo próprio senador entre o presidente e Kajuru, o Estadão levantou a suspeita de Bolsonaro saber que estava sendo gravado. Mas o fato é que não há nada demais ali. A esquerda já volta a falar em impeachment, pois tudo é pretexto para impeachment para essa turma. Se Bolsonaro espirrar, Amoedo, Freixo, MBL e PSOL vão falar em impeachment. Não obstante, era a conversa informal de um presidente e um senador, com pressão para que uma CPI não vire instrumento de politicagem apenas, e sim de investigação para valer. Só a esquerda – e a ala esquerdista da imprensa – viu algo nefasto nisso.

A verdade é que a maior ameaça à independência entre os Poderes, à Constituição e à própria democracia vem hoje do STF, mas a esquerda, com seus cúmplices “liberais”, passa pano para isso, pois mira em Bolsonaro com obsessão patológica. E a postura dos ministros supremos, diante de tanta impunidade, é o crescente escárnio. É assim que quem julga Sergio Moro suspeito como juiz do caso envolvendo Lula se sente confortável de participar de lives com advogados dos petistas detonando o Presidente Bolsonaro:

Os militantes nem disfarçam mais! É por isso que Percival Puggina aponta para a falta de coragem dos congressistas para impor um limite a tanto abuso e arbítrio, lançando mão do mecanismo de freio e contrapesos existente na própria Constituição: “Parece evidente, ao menos para mim, que está faltando ao Parlamento, doses de reforço daquele hormônio próprio da masculinidade, a testosterona, que responde por algumas características do macho na espécie humana.”

Enquanto isso, o STF segue com sua perseguição inconstitucional aos bolsonaristas. Alexandre Garcia, em coluna na Gazeta do Povo, constata que o Supremo está em queda de braço contra a Constituição, da qual deveria ser o guardião, e cita um exemplo: “O ministro Alexandre de Moraes prorrogou por mais 90 dias a entrega do seu relatório do inquérito das fake news. Talvez por que esteja difícil descobrir algum crime… Essa investigação começou em 2019.”

Quem vai colocar um limite aos abusos supremos? Quem vai investigar os estados e municípios, onde realmente há suspeitas e indícios de desvios na pandemia? Se depender da esquerda e de nossos “liberais”, a reposta é: ninguém! Se não interessa à sua causa única de derrubar Bolsonaro, nada interessa a essa gente. E são os mesmos que falam em ética e democracia, palavras usadas como puro verniz para suas narrativas eleitorais. É o puro escárnio!

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

VACINAS

Vacina é um dos assuntos da moda no Brasil (e no mundo). E muita gente não gosta de ver o país importando vacinas.

O que pouca gente sabe é que existe uma ativa e próspera indústria de vacinas no país, com quase 30 fabricantes produzindo mais de 300 milhões de doses por ano – só que para vacas, não para humanos.

Por que a diferença? Provavelmente porque o mercado de vacinas bovinas é uma relação comercial com duas partes: o vendedor e o comprador; nas vacinas humanas, existe o comprador, o vendedor e o governo, e relacionamentos a três só funcionam bem em filme pornô (porque é tudo fingimento e segue um roteiro). Falando sério, quanto mais o governo se intromete em um setor, menos pessoas existem querendo investir nele – em geral, sobram apenas aqueles que mantêm “relações íntimas” com deputados e ministros.

A fabricação de vacinas no país começou no tempo dos militares, com todos os ingredientes de costume: um nome pomposo (PASNI – Programa de Autosuficiência Nacional em Imunobiológicos), comitês, planejamentos, metas e vultosas verbas distribuídas para institutos como Manguinhos, Butantan e Vital Brasil. Também como de costume, o que no começo parecia funcionar aos poucos vira um sem-fim de prejuízos e pedidos de “mais verba”. Quando o país se abriu um pouco para o resto do mundo, nos anos 90, descobriu que as vacinas produzidas nos outros países eram muito mais baratas do que as produzidas aqui, e a fabricação local começou a encolher.

Em 1999 veio uma novidade que pesquisadores da área chamam de “a pá de cal” ou “o prego no caixão” da produção brasileira: a criação da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A ANVISA estabeleceu um monte de exigências técnicas e burocráticas na área farmacêutica, e as estatais que ainda fabricavam vacinas não conseguiram atender a essas exigências, alegando, mais uma vez, que precisavam de “mais verba”. Não é curioso ver um órgão do governo reclamar que não consegue atender a exigências feitas por esse mesmo governo?

O Instituto Butantan produz atualmente sete vacinas (incluindo a da COVID), mas apenas uma, contra a gripe, tem o insumo básico fabricado aqui. Todas as demais usam matéria-prima importada, que é apenas processada e embalada aqui. A Fiocruz mostra números um pouco melhores: dos dez tipos de vacina produzidos, quatro usam insumos nacionais (ainda assim, menos da metade).

Por que isso acontece? É difícil explicar de forma específica, mas a explicação genérica é bem simples: governos não são eficientes em produzir coisas. Como qualquer empresário sabe, uma empresa só aprende a ser eficiente quando sente a presença da concorrência. Uma empresa estatal, com mercado cativo e planejado pelo governo, e sem compromisso com o lucro, desaprende: ao invés de se tornar mais eficiente, tende a se esquecer do objetivo para o qual foi criada (seja produzir vacinas, computadores ou livros escolares) e se preocupar cada vez mais com sua própria burocracia e com os salários e benefícios de seus funcionários. Para contornar a falta de eficiência e de produtividade, a solução é sempre a mesma: declarar que o governo precisa “investir mais”. Funcionários de empresas estatais geralmente acreditam piamente que o dinheiro do governo é infinito.

Outro problema que também afeta esse e outros setores no Brasil é que a pesquisa científica costuma ser concentrada nas universidades públicas, que de modo geral não são eficientes na hora de transformar a pesquisa em produção. Um professor da USP chamou de “Vale da Morte” a distância que existe entre o laboratório e a indústria, expressando que essa distância hoje é praticamente intransponível. A solução apontada, como sempre, é “mais investimento”. Aliás, aqui no JBF temos vários representantes do mundo acadêmico que podem falar do assunto com mais propriedade do que eu.

O que fica claro é que, independente de preferências ideológicas, a função do governo deve ser governar, não produzir. A razão básica do socialismo não funcionar é que, ao pregar a “ausência de propriedade privada dos meios de produção”, deixa os tais meios de produção, ou seja, a indústria, sem dono e sem rumo. Nesse sentido, o Brasil sempre flertou com o socialismo. Nos anos 70/80, criou uma pomposa indústria estatal de computadores (onde trabalhei por oito anos). Não deu certo. Criou, como vimos, uma indústria estatal de vacinas (aliás, mais de uma). Não deu certo. O governo de São Paulo foi dono de uma empresa de aviação, a Vasp. Não deu certo. Empresas que hoje são consideradas por alguns “orgulho nacional”, como Vale e Embraer, enquanto foram estatais acumulavam prejuízos, lentidão, projetos que nunca chegavam ao fim, desperdícios, tudo isso enquanto os funcionários, fossem produtivos ou não, recebiam todo tipo de benefícios.

Enquanto isso, setores como o de vacinas veterinárias, entre muitos outros, mostram que o empreendedor brasileiro pode ser tão produtivo e competitivo quanto qualquer outro. Basta o governo não atrapalhar.

DEU NO JORNAL

NO JOGO DO BICHO VALE O QUE ESTÁ ESCRITO. NA CONSTITUIÇÃO, NÃO?

Alexandre Garcia

O Supremo Tribunal Federal concedeu só dois votos favoráveis a não dar poderes a prefeitos e governadores para revogarem por decreto uma cláusula pétrea da Constituição, um direito fundamental. Foram eles: Nunes Marques e Dias Toffoli. Os demais foram a favor da restrição de cultos religiosos durante a pandemia.

Isso confirma o que foi dito em abril do ano passado: que prefeitos e governadores são os que têm poderes para combater a pandemia. O presidente da República fica só olhando de longe e dando dinheiro.

O jogo do bicho tem uma máxima: “vale o que está escrito”. O artigo 5º do inciso VI da Constituição determina que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos”.

Ora, isso é feito nos locais destinados a essas celebrações religiosas: sinagogas, mesquitas, templos, igrejas, etc. Lá dentro. Se fechar esses locais, esse direito não está assegurado. Embora a lei maior diga isso, o STF decidiu que decretos municipais e estaduais podem passar por cima da Constituição.

Isso significa que o jogo do bicho está mais forte do que a Constituição, porque no jogo do bicho vale o que está escrito. Já para o Supremo não vale o que está escrito na lei maior.

A decisão não foi apertada. Foram nove ministros a dois. O que se conclui dessa situação é que se você quiser ir no local destinado ao seu culto religioso vai depender se prefeitos e governadores permitem ou não.

De onde veio esse poder? Eu lembro do Evangelho segundo João, quando Pilatos fala para Jesus: “eu tenho o poder de soltá-lo e de crucificá-lo”; e Jesus responde: “você só tem esse poder porque ele veio do alto”.

Com o Supremo é a mesma coisa. A Corte só tem esse poder porque vem da Constituição, que não está sendo obedecida. Lembrando que a Constituição foi feita por constituintes que foram eleitos pelo povo e todo poder emana do povo. O nome do regime em que vivemos é democracia. São as liberdades.

* * *

Fux toma decisões com base na imprensa

Na quarta-feira (7), no Dia do Jornalista, o presidente do STF, ministro Luiz Fux, disse que “a imprensa vem divulgando dados alarmantes que nos auxiliam de maneira interdisciplinar a concluir um julgamento que não é só jurídico, mas deve levar em conta algo que nós não temos expertise [dados de saúde]”.

O presidente do Supremo confessa que está se baseando em um “noticiário alarmante” para tomar decisões como as que fecham templos. Eu achei incrível essa alegação. Tive que ouvir a gravação para acreditar nisso.

* * *

Complô

Descobriu-se que na Agência de Inteligência Brasília (Abin) havia um infiltrado. Ele estava produzindo relatórios falsos para certos jornalistas que queriam atingir o senador Flávio Bolsonaro.

A Abin e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) investigaram e descobriram que o relatório era falso. Um servidor foi afastado e a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão na casa e no local de trabalho dele.

Também foi aberto um processo administrativo disciplinar contra ele e outro contra os jornalistas que divulgaram o relatório. Afinal, foi uma espécie de complô.

Por coincidência, a Associação Brasileira de Imprensa pediu ao STF para “segurar” processos de danos morais contra jornalistas, alegando que são muitos. Mas tem jornalista sendo preso por fazer críticas contra a mesma Corte.

Eu mesmo já processei um jornalista por calúnia e difamação. Todos temos o direito de pegar um caluniador, um difamador e um mentiroso que ainda atenta contra o jornalismo. Isso ajuda a derrubar a credibilidade da imprensa.

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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

AMÂNCIO SOBRAL – TERESINA-PI

Prezado Editor:

Me tire uma dúvida, por favor:

A dengue foi extinta?

Obrigado

R. A dengue foi extinta sim, caro leitor.

Não apenas a dengue, mas também pneumonia, câncer, hipertensão, AVC, osteoporose, Parkinson, apendicite, resfriado, enfarto, hemorroidas, cancro, Alzheimer, asma, diabetes, caganeira, pica mole, gozo frouxo, corrimento na bacurinha, oveiro virado, tosse de cachorro e mais centenas de outras doenças.

Atualmente só existe uma única doença no mundo!!!

Sobrou apenas o covid-19.

Um progresso médico e científico deveras espantoso.

Os alunos das faculdades de medicina tiveram os seus estudos bastante facilitados com este fantástico sumiço.

DEU NO JORNAL

SEM HOME E SEM OFFICE

Luís Ernesto Lacombe

Eles vagam pelas ruas, têm uma cor entre cinza e chumbo, seu próprio dia nublado e feioso. Têm lixeiras a visitar, pedidos a fazer, lamentos como ganha-pão. Qualquer coração de verdade entende e bate em descompasso, esbarra em tantas impossibilidades, suspira. Resta um sopro, a esperança sopra…

Eles estão por toda parte, carregam quinquilharias, um cobertor enfermo, trapos exaustos, sacos plásticos, um pedaço de papelão, um arremedo de barraca, carregam um pouquinho da desgraça de tudo. Nesse resumo vago das dores do mundo, seus olhares são vagos. Olhos que não veem e que a maioria não vê.

As duas cidades entre as quais me divido estão assim, cheias de olhares atropelados. O endereço é qualquer parte: viaduto, marquise, ponte, calçada, praça, beco. É a ausência por todo canto, de todo jeito, sem nome, sem trabalho, sem comida, sem saúde. Às dezenas, às centenas, aos milhares nas ruas.

São os mais pobres entre os mais pobres. Eram 25 mil em São Paulo, há pouco mais de um ano. Quantos serão agora? Quem vai contá-los, sem sair de casa? Falam em 15 mil no Rio, que um terço deles, há um ano, tinha uma casa, tinha para onde voltar no fim do dia… Talvez já não lembrem o nome da rua, o número, o bairro, a região, talvez não falem disso nas conversas nos bancos das praças, nos canteiros entre as pistas dos carros, nas marquises do sem-fim de lojas fechadas.

As casas já não existem. Outras, aos poucos, se desfazem. São pequenas, vão ficando menores, vazias… A geladeira está vazia. De repente, não há mais geladeira. Um sofá, um colchão, vende-se quase tudo. Vende-se por muito pouco, na deflação que o desespero, a incerteza e a fome provocam. Aceitam trocas também, aceitam feijão, arroz, cesta básica.

Mesmo trancado em casa, qualquer um pode ver: a pobreza no Brasil triplicou no último ano. Hoje, 27 milhões de pessoas vivem com uma renda mensal inferior a R$ 246! Não digam a elas que fiquem em casa, talvez elas não tenham casa. Com certeza, elas têm fome e uma expectativa de vida achatada.

De nada lhes servem os eufemismos… “Insegurança alimentar” é o quê? No ano passado, no Brasil, 19 milhões de pessoas passaram fome! E o drama só aumenta. Hoje, mais da metade da população do país, 117 milhões de pessoas, não sabe se terá comida suficiente no dia seguinte e foi obrigada a reduzir a quantidade e a qualidade dos seus alimentos… Nas filas para receber uma refeição há gente que antes doava e agora pede quentinha.

“Situação de rua” é o quê? Pedra, cimento, fumaça, poeira, noites estreladas assustadoras ou nuvens negras como teto, um dia inteiro de ausência. É o Brasil da fome, sem home e sem office. Quebrado, desempregado, sem renda.

Todos enxergam os hospitais lotados, os doentes, mas ninguém enxerga a fome. A miséria leva à morte de forma quase invisível… Olhem por todos, olhem por todos! Não há heróis entre as vítimas nas ruas, na extrema pobreza, elas não estão salvando ninguém.

XICO COM X, BIZERRA COM I

MEU NOME E COMO ME CHAMAM

Minha mãe, extremamente católica por tradição familiar e por crença própria, colocou Francisco como meu nome, em homenagem ao Santo de Assis, a quem, no futuro, adotei como protetor. Achou pouco e convocou outro Santo para ser meu Padrinho (naquele tempo havia isso de ter um Santo Padrinho): José. Assim, enquanto criança, me chamavam pelo nome completo. Francisco José, de Myrthinha. Com o passar do tempo o vocativo foi abreviado para Francisco e logo depois, mais prático ainda, para Xico, como sou tratado nos dias atuais. Quantas consoantes e vocais foram gastas no passado, sem necessidade, quando me chamavam de Francisco José. Assumi tanto e com o maior prazer o Xico que, se ao passar numa rua alguém gritar Francisco José ou simplesmente Francisco certamente nem olharei, pois entenderei tratar-se de alguém a chamar um outro alguém que não eu. Mas nenhum vocativo me apraz mais que o que ouço nesses dias atuais: nem Francisco José, nem Francisco, nem Xico. Adoro quando ouço gente importantíssima, de olhar doce e infantil, olhar para mim e me chamar de Vovô.

Primeiro, chegou Bernardo
Vinicius veio depois
Agora vem Leonardo,
Vai ser três o que era dois,
Vai caber tudo no peito
De um cabra satisfeito
Eu, Bezerro, eles meus bois

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA