DEU NO JORNAL

EXCELENTE OPORTUNIDADE

Vera Magalhães, no Globo, reclama da “letargia” da sociedade diante do governo Bolsonaro.

E quer que as pessoas deem “um basta a essa gestão desastrosa”.

Resumindo: ela quer uma revolução nas ruas.

Por que então ela mesma não sai às ruas pedindo esse “basta”?

* * *

Amanhã, dia 1º de maio, será um excelente dia pra esta competente jornalista topar a sugestão de ir pras ruas.

Tem manifestações nos Brasil inteiro, de norte a sul, de leste a oeste.

É só escolher um canto e aparecer.

Vai lá, Vera!

Mostre raça e vá pro meio da rua exigir um “basta” pra esse esse governo (o que quer que esse “basta” signifique…).

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

SADISMO

Tem dias que eu acordo com um desejo sádico que chega-se-me a escorrer baba de alegria pelo canto da boca. Nessas horas, abro um sorriso e aquele dente de desembargador jubilado que eu tenho, vem gozar esse desejo que “arrupia” meu espinhaço e me dá um sapituco no ossinho do mucumbu. Mas deixe-me explicar antes que a turma do “Cabaré do Berto” ache que eu estou na seca, e comece a mangar de mim em todos os canais que participamos. Meu sadismo não é de fundo sexual, ou mesmo fetiche material. O meu sadismo é político. Já explico!

Assistindo aos canais de televisão eu vejo como o jornalismo bananeiro está infiltrado de canalhas – todas as vezes que você, caro leitor, ler essa expressão “CANALHA”, saiba que estou falando de um esquerdista, principalmente dos petistas -, e isso foi construído ao longo das três últimas décadas. Os canalhas que hoje estão à frente dos telejornais, redação e revistas, são os mesmos adolescentes que no final da década de 1990 foram doutrinados com aquele lixo ideológico, que a maioria dos analfabetos de nossas escolas chama de “método Paulo Freire” de ensino, passaram pelas universidades que tem mais militante do que docentes, e, diga-se de passagem, a maioria desses docentes, tão analfabetos quanto seus alunos.

Mas o meu desejo sádico é ver esses jornalistas vivendo em um regime socialista que eles tanto defendem. Isso faz-se-me lembrar a Rússia em 1917, quando o carequinha assassino do Lênin tomou o poder, junto com seus acólitos. A primeira medida foi censurar justamente a imprensa que dedicava a maior parte de seu espaço para que ele e sua quadrilha de assassinos despejassem seu lixo tóxico na mente das pessoas. Os jornalistas russos, apoiadores do socialismo leninista, e depois stalinistas, acabaram, em sua maioria indo para a Sibéria, proibidos de falar e de escrever uma linha sequer, sob pena de execução sumária. E olha que, na Sibéria, onde é comum fazer frio de menos 48 graus Celsius, maioria desses jornalistas perdeu os dedos para o gelo e a gangrena. Puro sadismo de minha parte.

Outro desejo sádico meu é em relação aos professores canalhas. Lembra-se-me o Camboja entre 1975 e 1979 quando o Khmer Vermelho, comandado por Pol Pot tomou o poder. A maior concentração de defensores do socialismo desse genocida – esse sim merece esse epíteto, já que, deliberadamente executou o seu povo – estava nas universidades e nas escolas de ensino médio do país. Pol Pot não os mandou para o trabalho no campo, simplesmente mandou matar todos os intelectuais e professores do país, especialmente aqueles que, poucos anos antes doutrinavam seus alunos para angariar apoio ao Khmer Vermelho. E não somente os professores tiveram esse fim, os jornalistas também. Esse sonho sádico chega-se-me a dar “frouxos” de gozo existencial.

E os sindicalistas? Ah! Esses sim. São os canalhas profissionais. Canalhas e parasitas daqueles que produzem e geram riquezas. Meu sonho bananeiro é ver a bananolândia hasteando a bandeira vermelha. Para os sindicalistas, o socialismo reserva o mesmo destino que teve o sindicalismo polonês que ajudou o exército soviético a dominar a Polônia por quase cinquenta anos. Mas, o que aconteceu com aqueles sindicalistas que traíram sua pátria em prol do socialismo? À boca pequena sabe-se que muitos desses líderes sindicais evaporaram, ou foram abduzidos para a floresta de Katyn… e nada mais se sabe sobre eles. Que delícia, ver um parasita como Paulinho da Força, ou aquele vagabundo parasita que domina a CUT também serem abduzidos pelo regime que eles tanto defendem e se escafederem na lata de lixo da história.

Em relação aos estudantes, não digo daqueles estudantes que querem, de fato, estudar, se formar, se profissionalizar, mas daqueles que já estão de cabelos brancos e nunca se formaram em nada, mas vivem azucrinando a vida de quem estuda em seus DCEs, em seus sindicatos, com a camisa encardida de sujeira, um pituim que afasta qualquer pessoa que sabe o significado da palavra banho e perfume, cheios de badulaques e pechisbeques na cara, nas orelhas, no nariz, e quem sabe até no fiofó. Para esses meu desejo sádico é ver um socialismo do tipo venezuelano na Botocúndia. Naquele país, vizinho nosso, quando o coronel golpista assumiu o poder, os principais sabotadores da democracia foram os estudantes. Com Maduro deliciei-me ao ver aqueles tanques urutus esmagando a cabeça desses mesmos estudantes que, uma década antes sabotaram o caminho democrático por um sonho socialista. Essas imagens levou-me ao gozo quase epifânico da tinha tendência sádica.

Para o movimento LGBTQUIA+infinito, o socialismo reserva o mesmo que Mao Zedong fez com os baitolas na Revolução Cultural da década de 1970. Naquele banho de sangue promovido pelo facinoroso, os gays chineses simplesmente foram executados, sob o pretexto de que o comportamento ocidentalizado de doar o fedegoso enfraquecia a nação e era um costumes “burguês”. Nada contra homossexuais que querem viver suas vidas, produzir, encontrar um parceiro, ou parceira, mas seria interessante ver o sindicato gayzista que apoia o socialismo rasgar-se de medo e se cagar todo de pavor ao ver aqueles que eles defendiam ser seus algozes. Isso deixa meu desejo sádico para lá de Pasárgada.

Essas categorias que aqui citei, imaginam um mundo socialista onde eles irão mandar, dominar, ter decisão sobre os demais. Como diria Aroldo, o hétero: tolo… tolinho! O máximo que essas pessoas conseguirão ser em uma sociedade socialista, será o de feitor – hoje em dia o politicamente correto chama o feitor de capataz -, em alguma plantação de cana de açúcar, ou de fumo, já que, para se garantir o emprego para todos, serão banidas as máquinas e a tecnologia da agricultura. Isso se não forem mandados para fazendas de reeducação no meio da floresta amazônica, ou do pantanal.

Mas, devo voltar á realidade e lutar, dia após dia para não deixar que isso aconteça. Como disse são apenas desejos. A minha luta é por democracia, por liberdade. Aquela liberdade que foi solidificada na Revolução Gloriosa da Grã-Bretanha e que moldou o ocidente. Liberdade até mesmo para que todos os grupos que citei acima possam ter o direito de conspirar contra mim, contra a democracia e contra a própria liberdade. Eles ainda não entenderam que, quando eu luto pela defesa dos direitos deles, na verdade estou lutando para que esse meu direito não seja eliminado, ainda que eles não tenham a mesma lealdade e compromisso com essas liberdades.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

NACINHA – CUIABÁ-MT

Caro Editor e meus queridos amigos:

Vamos fazer um concurso.

Um teste de gramática.

Quem der a melhor resposta, vai ganhar um presente.

Na frase

“Eu nunca fui chamado de mito”

onde deveria estar o sujeito?

A melhor resposta vai ganhar um fim de semana num sítio de Atibaia.

Vamos, mãos à obra!

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MOTE BEM GLOSADO E UM FOLHETO DE DISCUSSÃO

A grande dupla de poetas repentistas Ivanildo Vilanova e Valdir Teles (1956-2020)

* * *

Valdir Teles e Ivanildo Vilanova glosando o mote:

Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

Logo após ser eleito está mudado,
cada um tem direito a secretária,
segurança, assessor, estagiária,
gabinete com ar condicionado,
vai lembrar-se do proletariado,
com favela e cortiço pra viver,
ou será que não vai se aborrecer,
com esgoto, favela, lodo e grude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Ivanildo Vilanova

Pode ser um sujeito agitador,
boia-fria, sem terra, piqueteiro,
camarada, comuna, companheiro,
se um dia tornar-se senador,
vindo até se eleger governador,
qual será o seu novo proceder,
vai mudar, vai mentir ou vai manter
as promessas que fez de forma rude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

No período que um adolescente,
quer mudar o planeta e o país,
através dos arroubos juvenis,
vira líder, orador e dirigente,
mas se um dia ele sair presidente,
o que foi nunca mais poderá ser,
aí diz que o remédio é esquecer
as loucuras que fez na juventude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Ivanildo Vilanova

Todo jovem, a princípio é sectário,
atuante, grevista, condutor,
antagônico, exaltado, pregador,
um perfeito revolucionário,
cresce, casa e se torna secretário,
veja aí o que trata de fazer,
leva logo a família a conhecer
Disneylândia, Washington e Hollywood.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

Quem vivia de luta e de vigília,
invasão, pichamento e barricada,
através disso aí fez a escada,
pra chegar aos tapetes de Brasília,
vai pensar no progresso da família,
no que faz pra do posto não descer,
nunca falta quem queira se vender,
sempre acha covarde que lhe ajude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

* * *

DISCUSSÃO DE JOÃO FORMIGA COM FRANCISCO PARAFUSO – Severino Borges da Silva

Estava João Formiga
Versejando alegremente
Nas terras do Ceará
Quando chegou de repente
Um cantor do Mato Grosso
Quase tonto de aguardente

Chegou na sala e saudou
A todo o povo primeiro
E disse a João Formiga:
– Vá sabendo cavalheiro
Sou Francisco Parafuso
Dou certo em todo tempero

O dono da casa disse:
– Pois então, meu camarada
Você canta com Formiga
Uma discussão pesada
Se ganhar leva o dinheiro
Se perder não leva nada

– Porém eu vou dar um tema
Com estilos naturais
Para Formiga dizer
Com bases fundamentais
Sem errar nem dar um tombo
Nem bebo, nem fumo mais

E Parafuso responde
Para se ouvir e ver
Defendendo a aguardente
Durante enquanto viver
E dizer no fim do verso
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Meu amigo Parafuso
Agora vou lhe dizer
Deus me livre de beber
Fumar eu também não uso
Do fumo eu tomei abuso
Porque nada bom não traz
Pois quando eu era rapaz
Quase o fumo me liquida
Enquanto Deus der-me vida
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Você é um inocente
Fumar é uma beleza
O fumo tira a tristeza
Fica a pessoa contente
O suco da aguardente
Ao homem dá bom prazer
Portanto posso dizer
Com pensamento profundo
Enquanto eu viver no mundo
Bebo e fumo até morrer

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A PALAVRA DO EDITOR

UM FUBÂNICO INTERPRETADO POR UMA GRANDE ATRIZ

Vamos ouvir a atriz carioca Cissa Guimarães, uma celebridade do meio artístico brasileiro, declamando um texto excepcional.

Que texto?

A letra da belíssima música “Se Tu Quiser”, composta pelo colunista fubânico Xico Bizerra, um cabra arretado, um amigo muito especial, um cearense do Crato que foi adotado por Pernambuco.

Após a declamação de Cissa, vem um trecho da música interpretado por Santana, o Cantador.

“Se tu quiser” é um tocante poema que Xico compôs pra sua esposa Dulce.

E que já teve mais de duas centenas de gravações.

Como costumo dizer e repetir, nesta gazeta escrota só tem cabra malassombrado!!!

No final da postagem, a versão da música gravada por Elba Ramalho.

* * *

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DEU NO JORNAL

MÉDICOS ESTUDAM MEDICINA NUMA FACULDADE DE MEDICINA

James Cadidé

Tenho 40 anos de atividade profissional.

Atividade muito intensa.

Em média 12 a 16 horas por dia, todos os dias, inclusive hoje, sábados e domingos, em plena pandemia.

Sou médico.

Sou professor na Faculdade de Medicina, para alunos de medicina que estudam numa Faculdade de Medicina.

Fiz especialização e fiz mestrado.

Mas vejo agora que estudei na faculdade errada: fiz meu curso de medicina em uma Faculdade de Medicina.

Só agora percebo que deveria ter estudado medicina numa Faculdade de Direito ou então numa Faculdade de Comunicação ou então ter sido eleito a um cargo político, sem nem precisar ir a uma faculdade qualquer.

É que fico bobo, de ver que neste mundo de pandemia, os jornalistas, os magistrados e os políticos acham que sabem muito sobre saúde. Muito mais do que eu e do que todos os meus colegas, que como eu, estudaram medicina numa Faculdade de Medicina.

Eles ditam regras sobre cuidados com a saúde, nesta pandemia de coronavirus, de uma forma tão dominadora e sem dar direito a contestação, em nome da ciência e da vida, que me deixa realmente bobo. Com uma arrogância e uma petulância tão intensas, com posições tão firmes e rigorosas e ditando regras inclusive contra o Conselho Federal de Medicina.

Conhecem os níveis de evidência científica dos tratamentos e decisões, muito mais que a constituição e muito mais que as leis e regras da comunicação e muito mais que as leis que regulamentam a atividade política.

Interessante é que eles, ao fazerem isto, esqueceram de ser jornalistas, de ser magistrados e de ser políticos, usando o que pensam que sabem de medicina, para ditar regras e impor condições.

Acham-se donos de uma verdade única, só deles. Absolutamente deles. Cada qual do seu jeito. Cada qual com a sua regra. Cada qual com a sua vontade, “para preservar vidas, em nome da ciência e sem negacionismos”.

Então…

Não sou médico, nem professor em uma Faculdade de Medicina?

Eu e meus colegas somos bobos? Muito bobos? Grandemente bobos? Infinitamente bobos?

Não.

Somos médicos e sempre seremos médicos, mesmo tendo estudado medicina numa Faculdade de Medicina.

Os jornalistas, os magistrados e os políticos estão perdendo o senso e deixando de ser pessoas humanas, inebriados que estão com o se fazer médicos, sem ter estudado medicina numa Faculdade de Medicina.

Em breve, constatarão que não são médicos e não mais serão nem jornalistas, nem magistrados, nem políticos e perceberão que estão com a cara pintada no centro de um picadeiro vazio, sem ninguém para rir.

Porque ser médico é ser muito além de tudo isto.

Especialmente se ele, o médico, tiver estudado medicina numa Faculdade de Medicina.

J.R. GUZZO

SUPREMO GOVERNA O BRASIL SEM TER GANHADO AS ELEIÇÕES

É possível governar um país sem ganhar eleições e, ao mesmo tempo, sem dar um golpe de Estado formal, daqueles com tanque na rua, toque de recolher e uma junta militar com três generais de óculos escuros e o peito cheio de medalhas? Se este país for o Brasil, a resposta é: sim, perfeitamente. Basta você ir ao Supremo Tribunal Federal e pedir para os ministros mandarem fazer aquilo que você quer – desde, é claro, que você e os ministros pensem do mesmo jeito.

Vive acontecendo no Brasil de hoje, e acaba de acontecer de novo. Desta vez, o STF atendeu a mais um gentil pedido e decidiu que o governo federal tem, sim, de fazer o Censo populacional do IBGE previsto para o ano passado, e que foi cancelado neste ano por falta de dinheiro e por causa da Covid – afinal de contas, recenseadores e recenseados não podem se aglomerar em entrevistas “presenciais”, não é mesmo? O STF, nas decisões que vem tomando há mais de ano, já deixou bem claro que detesta aglomerações de qualquer tipo.

Tudo bem: mas que diabo o STF teria de se meter numa decisão que pertence unicamente ao Poder Executivo? Mais que isso, o adiamento do Censo de 2020 – que deveria ser feito agora em 2021, mas foi suspenso até segunda ordem – é fruto direto de uma decisão do Congresso Nacional, que resolveu cortar a verba destinada a esse propósito. Segundo os parlamentares, o Censo não era prioritário, nem urgente e nem aconselhável no meio de uma epidemia.

Mas tudo isso são detalhes sem nenhuma importância. O STF mandou fazer, não mandou? Então: os outros poderes que se arranjem e cumpram a ordem que receberam. É mais uma das maravilhas do Brasil de nossos dias: um poder que não apenas manda nos outros, mas não precisa se preocupar (exatamente ao contrário do que determina a lei) em prover os meios para executar as ordens que dá. O governo não tem dinheiro para pagar o Censo? O Congresso cortou a verba, e decidiu gastar em outra coisa? Problema do governo e do Congresso.

Quem governa o Brasil, todos os dias, é o STF. Não precisa, nem por um minuto, ter o trabalho de pensar em nada. Só manda.

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O BRINQUEDO

Paulina, uma menina de 5 anos de idade, perde os pais e o seu cachorrinho de estimação, em um ataque aéreo sobre a França, quando fugiam de Paris, ocupada pelos nazistas, durante a Segunda Guerra.

Ao se perder do grupo de refugiados, a órfã, completamente desvairada, vagando pelo campo e levando nos braços seu cachorrinho morto, é recolhida por Michel, um menino de dez anos, que a leva à fazenda dos pais, onde morava.

Enquanto seus pais estavam ocupados, ajudando aos necessitados, esqueciam de que o filho também precisava deles. Paulina e Michel criaram o seu próprio universo.

A órfã amargava a morte dos pais e do seu cachorrinho, Toli, seu único brinquedo. As perdas se fundiam numa só, provocando uma gigantesca dor, que lhe dilacerava a alma.

Na fazenda, onde foi acolhida pelos pais de Michel, a menina foi aconselhada por ele a enterrar o cachorro, antes que entrasse em decomposição. Juntos, procuraram um local discreto, entraram num terreno onde havia um moinho em ruínas, e lá, enterraram os restos mortais do cachorrinho.

Penalizado com a tristeza de Paulina, Michel fez com ela um pacto de que, naquele local, eles fariam um cemitério para os pequenos animais, que encontrassem mortos pelos caminhos. Esse segredo seria somente deles.

E os dois se empenharam numa “missão”, à procura de cruzes, para ornamentar as covas do cemitério de animais. Encontraram um velho cemitério de humanos e de lá retiraram cruzes dos antigos túmulos, levando-as para o cemitério secreto. Ali, passavam os dias, enterrando alguns animais que encontravam mortos, e brincando.

As duas crianças passaram a ter uma forte ligação fraternal, comungando do mesmo pensamento em relação à morte, com certo temor, respeito e, talvez, até com sentimento de admiração. Havia entre elas, uma identidade de almas, que somente a espiritualidade seria capaz de explicar.

A Cruz, o mais marcante símbolo da cristandade, na cabeça das crianças, seria apenas um elo de ligação entre a vida e a morte. Lembrava os momentos da vida, felizes e infelizes.

Acostumaram-se com a morte, por já terem estado frente à frente com ela, escapando como por milagre, nesses tempos de guerra.

Tornaram-se grudadas uma na outra, em face da escassez de amor que sentiam diante da vida; ela, por ser órfã de pai e mãe; e ele, em virtude dos pais terem esquecido de que o filho era quem mais precisava de atenção, amor e carinho. Muito mais do que os necessitados, a quem eles ajudavam todos os dias. Michel não era tratado com carinho pelos pais, como desejava. E o menino sofria com isso.

A morbidez gerada nessas crianças, pelos males da guerra, e a falta de orientação, as tornaram indiferentes a certos valores, como o respeito aos túmulos dos humanos do velho cemitério. As raras pessoas, que visitavam os antigos túmulos dos seus mortos, passaram a estranhar o sumiço das cruzes, mas não imaginavam que aquilo fosse obra de crianças, pois, normalmente, crianças não se interessavam por cemitérios.

O caso de Paulina e Michel era diferente. Os traumas da guerra fizeram com que eles se familiarizassem com as perdas. Na inocência própria das crianças, acostumaram-se a brincar com animais mortos, como consequência da carência afetiva e do sofrimento, que desde cedo conheceram.

Abriam as covas mais antigas, dos animais por eles enterrados, e até brincavam com os ossos que encontravam.

Não tinham noção da gravidade do que faziam.

A Cruz, símbolo religioso que representa a morte e o fim da vida, também não era brinquedo para crianças.

O resultado dessa brincadeira, no fim do dia, era o violento retorno da tristeza e o sentimento de abandono, no caso de Michel. No caso de Paulina, batia a saudade, e a vontade de ter seus pais e o seu cachorrinho de volta.

E os dois choravam juntos, olhando para o Céu, à espera de uma milagrosa aparição.

Somente saudade era o que a menina sentia.

E Paulina se apegou a Michel de forma doentia, dependendo dele emocionalmente. Quando ele se afastava, vendo-se sozinha, ela chamava por ele, quase em pânico, sentindo-se insegura e abandonada.