CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

LUIZ MEZETTI – VITÓRIA-ES

Berto

E tudo começou com o caso Marcela Temer x Hacker.

Um processo sem Lei e Ordem, sigiloso, sem provas das gravações no processo, sem perícia técnica, pena infundada, censura da imprensa.

O mais rápido processo transitado e julgado da história da Justiça brasileira.

Uma obra-prima do Direito Autoritário.

DEU NO JORNAL

REPUBLIQUETA FEDERATIVA DE BANÂNIA

Viviane Barci de Moraes atua em 18 processos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF). Formada em direito pela Universidade Paulista (UNIP), a advogada é casada com Alexandre de Morares – ministro da alta Corte.

Viviane dirige o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, escritório localizado no Jardim Europa, na cidade de São Paulo.

No quadro societário da firma de advocacia, além dos dois filhos (Giuliana e Alexandre Barci de Moraes), aparecem nomes proeminentes como Mágino Alves Barbosa Filho, ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo (2016-2018), e Gabriel Chalita, que dirigiu a Secretaria Estadual de Educação paulista durante o governo Alckmin (PSDB), entre 2002 e 2005.

Na mesma época em que Chalita esteve no governo estadual, Moraes, que ainda não era ministro do STF, ocupava o cargo de Secretário Estadual da Justiça de São Paulo.

* * *

Linda tarde de sexta-feira aqui no Recife.

Um tempo maravilhoso.

Não vou me aperrear, nem estragar o meu dia.

Vou mesmo é curtir meu Brasil brasileiro!!!!

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

TOLOS, TOLINHOS!

Esta semana que está se acabando foi muito agitada na taba caeté. Viu-se de tudo: de pajé encastelado no stf – assim mesmo em minúsculo, em homenagem à estatura moral dos delinquentes constitucionais que lá estão empoleirados -, dizendo que o regime do gigolô da fome alheia, aqui do lado de Pindorama, é um regime de direita, a pajé mandando prender político que falou o que ele não gostou e ficou dodói com as palavras, pajé dizendo que só terá paz na alma quando o maior ladrão da história da humanidade tiver seus direitos políticos resgatados, preferencialmente antes de 2022. Enquanto isso, o rebuliço na oca foi em várias direções, menos naquela menos óbvia, e, com certeza, a mais plausível. E, nessas horas faço como aquela personagem de Chico Anysio, Haroldo, o hétero: tolo, tolinho!

De saída, este caeté que, nesta hora está se deliciando com uma costela assada do Sardinha, tenho a declarar que sou um democrata. Defendo até mesmo o PT conspirar contra o país e planejar outros assaltos. Agora se eles conseguirem o seu intento, aí a culpa não é mais da gangue, mas dos idiotas que se deixaram ludibriar, ou são cúmplices no assalto. Então se o Daniel Silveira, ou o Wadijh Damous falarem abobrinhas, e pedirem até mesmo execução com míssil terra-ar, como faz aquele democrata lá da Coreia do Norte, desde que fiquem longe do poder, têm todo o meu apoio para falarem as bobagens que quiserem.

Mas a raiz do mandiocal nesse episódio da prisão do deputado está mais além do que “sonha nossa vã esperteza”. Digo e repito, caeté existe para devorar e não para ficar pensando em altas filosofanças aristotelísticas, ou mesmo espinozísticas. Quando muito pode “tacar pedra na Geni”, em um arroubo chicobuarlístico. Nesse mandiocal, a rama do aipim é mais embaixo. Afinal até agora ninguém estranhou o “moto” da ação e da reação do covil onde onze crianças mimadas brincam de ser juiz.

Vamos por parte, como diz Jack, o estripador de Whitte Chappel. A ação do deputado Daniel Silveira, apesar de intempestiva, desbocada e mal educada encontra-se no espectro da liberdade de opinião que os “araribóias” da taba dizem haver na nossa Constituição. Se ele falou e alguém não gostou que o processe nas esferas cível, ou penal, dentro do Estado Democrático de Direito – Estado Democrático de Direito é essa piada que os pajés e caciques caetés inventaram para dar um passa moleque no resto da taba -. Todavia, o que me chama a atenção é a confluência de tempo, espaço e ocasião.

O deputado boca suja lançou seu torpedo em um momento que o stf se encontrava “incomodado” com a indicação da deputada Bia Kicis para a CCJ da Câmara e as entrevistas que mesma dava sobre colocar em debate proposta como a Prisão em segunda instância, a revogação da Emenda Constitucional que ficou conhecida como PEC da bengala – aquele instrumento que alongou a permanência de funcionário público na função depois dos 70 anos e permitiu que uma boa ala do funcionalismo, que já deveria estar cuidando de neto e rezando um terço, ainda estão assombrando a nação. Além de outros temas que o Nhonho e o Batoré sentaram com suas bundas gordas em cima e travaram o país. Além disso, a movimentação do Senado em aceitar denúncias pedindo o impedimento de alguns delinquentes do stf.

Nesse cenário, a fala do deputado desbocado se desenha no horizonte como uma tempestade perfeita que poderá, eu digo, poderá ter alguns desdobramentos. E, em todos os cenários desse desdobramento, a taba toda sai perdendo. Em um primeiro cenário, e o menos óbvio o deputado vira moeda de troca: o stf suspende a pantomima feita pelo advogado de facção criminosa, em troca a Câmara entrega a cabeça da Bia Kicis em uma bandeja e elege outro presidente da CCJ que seja, digamos, mais favoráveis ao “pogreçismo” caeté e menos adversário dos delinquentes da corte. Esse é o cenário menos óbvio e o mais ficcional, porém, eu acredito que seja o mais concreto de se realizar.

Em um segundo cenário, ativa-se o sistema de autopreservação: a Câmara manda soltar o deputado, o stf desengaveta os diversos processos, contra as várias folhas corridas que estão lá dentro – mas só contra os que votaram pela liberdade do deputado -. O Senado entra na discussão, engaveta os pedidos de impedimentos dos delinquentes do stf e este esquece o caso Daniel Alvarenga. O terceiro e menos provável é o deputado seguir preso. Nesse caso, ele se cacifa para voos maiores como um “preso político” que lutou pela liberdade de expressão. O stf, nesse cenário, ficaria no “sabão” diante da opinião.

Porém, olhando do outro lado, esse cenário é o que mais importa para o stf. Os delinquentes encastelados naquele covil estão torcendo por isso e usam uma desculpa pra lá de vagabunda: defender a dignidade do tribunal e de seus integrantes. Ora, meu senhor! A história diz que o Supremo Tribunal Federal, assim denominado a partir de 22 de junho de 1890, descontando-se o período colonial, de Reino Unido e de Império possui mais de 120 anos de história. Passou por diversos regimes, desde republicanos como o de Prudente de Morais a tirânicos como o de Getúlio Vargas e Garrastazú Médici, com altivez, honra e decoro. Nunca precisou de bagunceiros para defender a sua honra, pois teve ministros como Néri da Silveira, Sidney Sanchez, Francisco Rezek, Nelson Hungria, Victor Nunes Leal, entre outros que, com sua honradez serviram como escudos contra a degradação da instituição.

Aqui, sentado a beira da fogueira, com a panturrilha do Sardinha espetado em um graveto e lambendo os beiços, eu se me pergunto: Vai ser a ignorância oceânica de um Dias Toffoli, a arrogância ilustrada de um Roberto Barroso, a militância esquerdista de um Fachin, a vocação para a tirania de um Alexandre de Moraes, ou mesmo o absenteísmo apalermado de uma Rosa Weber que vai salvar a instituição? Não meus senhores. A ação dessa turma de delinquentes é o seu exato oposto: degradar o máximo possível a altivez da instituição, fazer o povo odiar e rejeitar a instituição Supremo Tribunal Federal, enxovalhar ao máximo seus séculos de história – contando daí desde o período colonial, até mesmo do tempo do Sardinha -, para, após o seu total descrédito, reabilitar o maior vagabundo e ladrão da história do Brasil.

Outro desdobramento, por esse lado da praça, além do que disse em cima, tem outro mais imediato: manipular as eleições de 2022. Com Lula reabilitado e candidato a presidente, irão fazer, junto com a imprensa e as redes sociais o mesmo que fizeram com o Trump. Fraudar as eleições e colocar o ladrão de volta no poder.

A história nos ensina, com o evoluir das coisas, lições a nunca serem esquecidas. E o livro do Gênesis traz a primeira dela. Eva no paraíso foi tentada pelo diabo, travestido em forma de serpente. Diz a Bíblia que a serpente era um animal astuto, e acima de tido, belo. Deus visitava e ensinava Adão e Eva, todos os dias. Como pai, aconselhava, instruía, dava exemplo. Alguém acredita que o diabo tentou Eva e a fez pecar em um único dia? Não. Foi um trabalho árduo, demorado e convincente. Torcendo verdades, alongando conselhos, até apresentar a mentira.

E assim vem agindo através de seu braço atuante: a esquerda. A esquerda tem origem na mente de satanás. Vejam como ela está hoje: foi se infiltrando: primeiro nas universidades, depois nas revistas e redes de televisão, em seguida nas repartições públicas e órgãos de poder. Depois nas escolas. Seu último alvo é a família. Se alguém duvida que o cenário que apontei no caso Daniel Silveira é só exercício de um caeté que tomou caulim demais, não pague para ver. A conta será salgada demais!

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

NACINHA – CUIABÁ-MT

Sr. Editor e distintos amigos,

Se o STF prender todo mundo que xinga e odeia ele, 99% da população Brasileira será presa.

Aquilo lá é um antro de militantes esquerdistas despreparados e sem nenhum formação jurídica.

Tô errada????

ANA PAULA HENKEL

O NOVO MACARTHISMO

No início da década de 1950, alguns líderes norte-americanos repetiam incansavelmente ao público que todos deviam temer a influência comunista subversiva em sua vida. Os comunistas, eles diziam, poderiam estar à espreita em qualquer lugar, usando suas posições como professores universitários, artistas ou jornalistas em favor do programa mundial de dominação marxista. O movimento ficou conhecido como Red Scare. Atingiu seu ápice entre 1950 e 1954, quando o senador Joe McCarthy, de Wisconsin, um republicano, lançou uma série de investigações sobre a suposta atuação comunista dentro do Departamento de Estado, na Casa Branca, no Departamento de Tesouro e até no poderoso Exército dos Estados Unidos.

McCarthy foi eleito para o Senado em 1946. Ganhou destaque em 1950, depois de um inflamado discurso no Estado de Virgínia Ocidental em que afirmou que quase 60 comunistas haviam se infiltrado no Departamento de Estado. A busca subsequente de McCarthy por comunistas na Agência Central de Inteligência (CIA) e em outras áreas do governo o tornou uma figura incrivelmente polarizadora e tóxica. Após a reeleição de McCarthy, em 1952, ele obteve a presidência da Comissão de Operações Governamentais do Senado e da Subcomissão Permanente de Investigações. Nos dois anos seguintes, esteve constantemente sob os holofotes, investigando vários departamentos e interrogando inúmeras testemunhas sobre suas supostas afiliações comunistas. Embora ele tenha falhado em apresentar um único caso plausível, suas acusações habilmente apresentadas causaram a expulsão de alguns funcionários públicos e destruíram a reputação de muitas pessoas, que experimentaram a condenação popular.

Desde então, o termo macarthismo (McCarthyism) é usado para apontar a prática de difamação de caráter por meio de alegações indiscriminadas amplamente divulgadas, sobretudo com base em acusações infundadas, com retórica inflamada, exageradas e extremamente prejudiciais àqueles que são alvo da perseguição.

A eleição de Donald Trump, em 2016, mexeu profunda e consideravelmente no tabuleiro político norte-americano, assim como nas peças da geopolítica global. Depois de oito anos do governo de Barack Obama – que, discretamente, alimentou a divisão racial e política no país -, durante os quatro anos da administração Trump vimos a polarização política atingir níveis históricos entre democratas e republicanos. A eleição presidencial de 2020, cheia de perguntas ainda sem respostas, e a troca de cadeiras na Casa Branca não ajudaram a apaziguar os ânimos. E, para piorar, o discurso vazio de Joe Biden sobre “unir o país” não condiz com a realidade e com a atual carnificina virtual perpetrada por seus seguidores. Ao apagar das luzes republicanas em Washington, seguiu-se uma vil perseguição – ainda em curso – a todos os que trabalharam na administração Trump e em sua campanha de reeleição. Os novos soldados do cancelamento tentam achar até eleitores do “novo Hitler” para caçá-los, exibi-los, tirar seus empregos, redes sociais e até diplomas. A suposta escória da sociedade precisa ser exposta com as letras escarlates MAGA no peito – o acrônimo do slogan Make America Great Again. É o encontro de Robespierre com Joe McCarthy.

As guilhotinas virtuais não estão apenas espalhadas por redes sociais, encorajadas a atuar sem dó depois que o Twitter baniu para sempre a conta do então presidente Trump. A virulência do espírito do encontro da Revolução Francesa com o novo macarthismo alimenta 5 mil estudantes e professores da Harvard que exigem o cancelamento dos diplomas de Direito do senador republicano Ted Cruz e da ex-secretária de imprensa da Casa Branca Kayleigh McEnany. Único motivo: eles serviram à administração Trump. É evidente que, caso os diplomas venham de fato a ser cancelados, a encrenca acabaria nos tribunais. E a tendência da Justiça seria dar ganho de causa aos prejudicados. Mas o desgaste na imagem pública já está feito.

David Schoen, um dos advogados que representaram Trump durante o recente julgamento de impeachment, disse que uma faculdade cancelou um curso de direitos civis que ele daria em breve: “O curso estava programado para o outono. Já tínhamos conversado e planejado. Escrevi para eles e disse: ‘Quero que saibam que vou representar Donald Trump no caso de impeachment. Não sei se isso impacta em sua decisão de ter meu curso no calendário’. Eles disseram que gostavam muito do meu material, mas que, infelizmente, isso deixaria ‘alguns alunos e professores desconfortáveis’, então teriam de me desligar do curso”.

David Schoen, advogado do ex-presidente Donald Trump

O clima atual da cultura do cancelamento evoca, de fato, as digitais do macarthismo, mas ela chega a ser ainda mais assustadora e destrutiva. Enquanto o limite para a condenação na era McCarthy era a alegada condição de “simpatizante comunista”, o suficiente hoje é a mera negativa à adesão pública a novas bandeiras politicamente corretas, tais como o combate a figuras históricas tachadas de racistas, fascistas, misóginas ou homofóbicas.

Assim como agora, a vítima mais grave da década de 1960 foi a autoridade adulta. Nos Estados Unidos, Ronald Reagan sustentou um pilar de autoridade por um tempo, mas então veio Bill Clinton e, com uma estagiária no Salão Oval, restaurou o modelo adolescente. O melhor remédio para a cultura do cancelamento seria a resistência de líderes adultos fortes – reitores de universidades, editores de jornais, chefes de corporações, pais, tios, técnicos esportivos – capazes de enfrentar as crianças mimadas, barulhentas, chatas e sem limites do Twitter e do Vale do Silício. Mas é improvável que esse “milagre” aconteça. A turba do cancelamento, assim como as hienas, caça em matilhas. E, atualmente, os que têm autoridade são covardes e não querem dar chance alguma à guilhotina virtual dos mini-Robespierres.

Com o tempo, o macarthismo se extinguiu e seus personagens foram devorados pelo próprio contexto surreal. O senador McCarthy, após ser censurado por seus colegas em 1954 e afundar no alcoolismo, morreu pouco tempo depois. Essa nova cultura do cancelamento, travestida de boas intenções com sinalizações de virtudes, será mais difícil de matar do que o macarthismo. O senador McCarthy era um monstro de filme B. A turma do cancelamento é um apocalipse zumbi.

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CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O VELHO E O MAR

Quatro da manhã, como todos os dias, Seu Rodolfo acordou-se, ainda deitado na cama de colchão de palha, enlaçou Santinha pelas pernas, falou ao ouvido, “Está na hora”. Enquanto a esposa dirigia-se à cozinha preparando café, macaxeira, inhame, peixe frito, Seu Rodolfo dirigiu-se à casinha (banheiro sanitário construído no quintal das casas, chamava-se casinha), depois de ter-se aliviado, limpou-se com um pedaço de jornal e jogou no lixo. O jornal datado da época (1942) tinha a manchete de primeira página impressa, “Submarino alemão torpedeia mais um navio no litoral nordestino”. Depois do café arrumou um bisaco com farinha, carne do sol, banana e laranja; outra sacola com linhas, anzóis, iscas, colocou os fardos e a tarrafa nos ombros e dirigiu-se à praia.

Sua casa ficava nos arredores do bairro boêmio de Jaraguá, ao longe se ouvia música de amor dos cabarés retardatários. Perto do Bar da Tartaruga, junto ao primeiro trapiche de açúcar, Rodolfo acomodou as sacolas na jangada, foi ao bar, cumprimentou outros colegas, nas mesas estavam alguns boêmios acompanhados por prostitutas de lábios pintados de carmim, viravam a noite. Rodolfo tomou café com o compadre Moacir, dono do Bar. Ao sair, o amigo desejou boa pescaria. Seu Rodolfo desamarrou a jangada colocou dois rolos de coqueiro por baixo, empurrou-a até entrar na marola.

Como num ritual militar, hasteou as velas de pano branco. Molhou o velame estirado com água do mar, tomou o remo como leme, rumou a jangada mar adentro. O sol vermelho apareceu como se fosse uma cabeça de criança nascendo, alaranjou as nuvens, o mar tornou-se azul. A cidade de Maceió, ao longe, parecia apenas uma fileira de casas pequeninas. Seu Rodolfo dirigiu a jangada a um local onde havia bons cardumes, conhecia cada canto do mar. A bússola era o olhar e a direção do vento, sabia navegação empiricamente, aprendeu com a vida no mar desde cinco anos, seu pai também foi pescador.

Seu Rodolfo levava sol na pele encardida, completava 50 anos naquele dia, parecia mais velho, já tinha a vista anuviada pela constante exposição ao Sol. Amava o mar e seu trabalho, cada peixe puxado dentro do mar era uma vitória da vida diária. Retornava por volta das três da tarde, abria e tratava o peixe com peixeira no Bar da Tartaruga, colocava-os em um samburá, caminhava gritando na Avenida da Paz, “peixe fresco”, “olha o camorim”, “carapeba”. Seu Rodolfo tinha boa freguesia, inclusive minha mãe. Era amigo das famílias nos arredores da Avenida.

Naquela manhã a sorte estava a seu lado, ainda não era meio dia os caixotes estavam quase cheios de xaréu, arabaiana, bijupirá, carapeba, garassuma, pescados pelas linhas jogadas ao mar e tarrafas. De repente ele sentiu um puxão em uma linha, alegrou-se, pensando ser peixe grande. Deu mais linha para cansar o bicho, logo depois puxou e sentiu ser um enorme peixe, era preciso paciência, astúcia para brigar contra um peixe daquele tamanho, sentia pelo puxão, duas horas depois continuava a briga do peixe grande contra o velho Rodolfo. O cansaço chegou a ambos.

Seu Rodolfo estava atrasado em sua tarefa diária na cidade, entretanto, nada lhe abalava, preferia a luta com o peixe grande. Depois de muito embate, Rodolfo resolveu dar toda força que tinha no momento, lutou cerca de meia hora até conseguir puxar o peixão para cima da jangada. Vitória. Rodolfo ficou contemplando embevecido o maravilhoso pescado, amou aquele peixe valente que brigou por mais de três horas. Calculou que o peixe tinha entre 30 e 35 quilos, ficou contemplando com orgulho sua façanha heroica. Antes de cortá-lo, mostraria aos amigos na beira do cais. Os pescadores iriam morrer de inveja.

Rodolfo amarrou o peixe grande num pau da jangada, desfraldou novamente a vela em direção à praia. Não havia meia hora de navegação quando sentiu uma onda levantar a jangada, percebeu algo estranho acontecendo. Novas ondas, o mar ficou revolto em torno da jangada. Seu Rodolfo pensou, deve ser baleia, aparece a qualquer momento, sem medo comandava a jangada quando inesperadamente emergiu perto da jangada um navio parecendo um enorme charuto. Seu Rodolfo ficou na espreita, o navio-charuto depois de ficar fora d’água, parou. Não se avistava ninguém.

De repente uma portinhola abriu-se, saíram três homens vestidos apenas de calção preto, pele rosada, louros como nunca havia visto. Os homens falavam, ele não entendia. Depois de algum tempo, comunicando-se por meio de gesto, Seu Rodolfo compreendeu, os galegos queriam trocar seus peixes por materiais e comidas em conserva. Com lástima, entrou no negócio o peixe grande, o velho pescador recebeu enorme quantidade de queijo, presunto, sapatos, botas, cigarros, encheu a jangada. Logo depois o navio-charuto desapareceu no fundo do mar. Seu Rodolfo se lastima até hoje em ter entregado o peixe grande. Quando tomava uma cachaça, chorava, lembrando o peixe grande, que muita gente ainda gozou como história de pescador.

Essa história, Seu Rodolfo, calçado com botas pretas militares, tomando cachaça no coreto da Avenida da Paz, contou a mim, meu tio Nilo e meu irmão Betuca, em 1952, eu tinha 12 anos. Inesquecível.

A PALAVRA DO EDITOR

DONA GINA E SEU DESCARREGO FUDEROSO

Essa semana um amigo me mandou pelo zap aquele vídeo do Ministro Cabeça de Ovo dançando com os índios.

Uma cena tocante, comovente, enternecedora.

Uma cena típica da nossa fantástica Banânia dos dias de hoje.

Esta aqui:

Aí, por uma destas estranhas e inexplicáveis associações de pensamento, eu me lembrei que existe uma reza bem mais forte e bem mais poderosa pra proteger ministros do STF do que essa dos indígenas que aparecem no vídeo.

É a reza de Dona Gina, minha conterrânea, a maior e mais competente catimbozeira de Palmares.

Dona Gina faz um trabalho tão perfeito que estou pensando em mandá-la pra Brasília fazer um descarrego não apenas em Cabeça de Ovo, mas em todos os 11 urubus togados da Praça dos Três Poderes.

No vídeo abaixo, Dona Gina aparece benzendo Nacira, uma senhora muito trabalhadora, costureira de profissão que vende suas confecções na feira de Palmares.

Vejam que reza poderosa que só a porra:

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

ZÉ LIMEIRA, O POETA DO ABSURDO (I)

Capa da 5ª edição de Zé Limeira, O Poeta do Absurdo, da autoria de Orlando Tejo

* * *

Quando Dom Pedro Segundo
Governava a Palestina
E Dona Leopoldina
Devia a Deus e o mundo
O poeta Zé Raimundo
Começou castrar jumento
Teve um dia um pensamento:
“Tudo aquilo era boato”
Oito noves fora quatro
Diz o Novo Testamento!

Um dia Nossa Senhora
Se encontrou com Rui Barbosa
Tiraram um dedo de prosa
Viraram e foram se embora
Judas se enforcou na hora
Com uma corda de cimento
Botaram os filhos pra dentro
Foi pra arca de Noé,
Viva a princesa Isabé,
Diz o Novo Testamento.

Pedro Álvares Cabral
Inventou o telefone
Começou tocar trombone
Na porta de Zé Leal
Mas como tocava mal
Arranjou dois instrumento
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três
Quem tem razão é o freguês
Diz o Novo Testamento.

Um sujeito chegou no cais do porto
E pediu emprego de alfaiate
Misturou cinturão com abacate
E depois descobriu que estava morto
Ligou seu rádio no focinho de um porco
E afogou-se num chá de erva cidreira
Requereu um diploma de parteira
E tocou numa ópera de sinos…
Eram mãos de dezoito mil meninos
E não sei quantos pés de bananeira.

Eu já cantei no Recife
Na porta do Pronto Socorro
Ganhei duzentos mil réis
Comprei duzentos cachorro
Morri no ano passado
Mas este ano eu não morro…

Sou casado e bem casado
Com quem não digo com quem
A mulher ainda é viva
Mas morreu mora no além
Se voltar um dia à Terra
Vai morar no pé-da-serra
Não casa com mais ninguém.

Lá na serra do Teixeira
Zé Limeira é o meu nome,
Eurico Dutra é um grande
Mas vive passando fome
Ainda antonte eu peguei
Na perna dum lubisome.

Minha mãe era católica
E meu pai era católico
Ele romano apostólico
Ela romana apostólica
Tivero um dia uma cólica
Que chamam dor de barriga
Vomitaro uma lumbriga
Do tamanho dum farol
Tomaro Capivarol
Diz a tradição antiga.

Minha avó, mãe de meu pai
Veia feme sertaneja
Cantou no coro da Igreja
O Major Dutra não cai
Na beira do Paraguai
Vovó pegou uma briga
Trouve mamãe na barriga
Eu vim dentro da laringe
Quage me dava uma impinge
Diz a tradição antiga.

Zé Limeira quando canta
Estremece o Cariri
As estrêla trinca os dente
Leão chupa abacaxi
Com trinta dias depois
Estoura a guerra civí

Aonde Limeira canta
O povo não aborrece
Marrã de onça donzela
Suspira que bucho cresce
Velha de setenta ano
Cochila que a baba desce!

Quem vem lá é Zé Limeira
Cantor de força vulcânica
Prodologicadamente
Cantor sem nenhuma pânica
Só não pode apreciá-lo
Pessoa senvergônhanica.

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