PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NANÃ – Patativa do Assaré

É triste a flor que desabrocha sem carinho
E sem carícia do sereno da manhã…
Assim nasceu, lá no sertão, minha Nanã,
Sem uma luz que iluminasse o seu caminho.

Com o pobre pai a morar num tosco ninho,
A desventura foi a sua negra irmã,
Enquanto a sorte protegia a cortesã,
A desdita lhe dava um pão magro e mesquinho.

Depois veio a seca cruel e assoladora,
Contra aquela linda florzinha encantadora
E a coitada morreu, mirrada pela fome.

Hoje, um poeta chora triste esta saudade
E as aves cantam a chamar na solidão:
Nanã! Nanã! Nanã! seu doce e belo nome.

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909- 2002)

 

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CONSTÂNCIA UCHÔA - "IN" CONSTÂNCIAS

O QUE É QUE A FOLIA TEM?

Todo ano era certo, o Carnaval. Certo no sentido de ser sagrado, porque o Carnaval desfilava ritmado e pulsante, liberto, portanto, das algemas das correições excessivas tão incansavelmente realizadas por comissões que se creem julgadoras (A “Santa” Inquisição Social). Sagrado apenas por fielmente existir, porque era festa da carne e da subversão à ordem. Fidelidade também não costumava casar com a festa momesca e, sob vertigem da pandemia, fomos obrigados a conjugar o referido existir no pretérito (de preferência no mais-que-perfeito).

Confesso que não mais sei se o período carnavalesco de fato existira, ou se fora apenas fantasia de um coração em folia. Uma grande – e boa! – ilusão coletiva, onde a comunhão dos interesses alegóricos preenchera de cor, com alegria, as lacunas de uma realidade crua.

As máscaras foram então substituídas, sem festejo algum. As atuais, as de proteção, nos isolam do que há de mais intrínseco ao ser humano: o direito aos seus sonhos.

O enredo obscuro dos últimos tempos nos tirou o carnaval, pero o amor jamais.

E, na fumaça de outros carnavais, trago Amor de Rebuliço.

AMOR DE REBULIÇO

Tem ex que fica valente
Tem amigos na folia
Tem beijo na alegria
Dança sacudindo a gente
Tem beijo que é diferente
Para unir o casal
Tem cheiro ao natural
Coisa botada e feitiço
Tem tudo que é rebuliço
Num amor de carnaval

Tem frevo que vem primeiro
Tem pingo de meio dia
Tem moído e tem magia
Tem boca e banho de cheiro
Tem chuva de fevereiro
Tem suor sabor e sal
Tem lambida que é normal
Sem gostar de compromisso
Tem tudo que é rebuliço
Num amor de carnaval

Tem também desconfiança
Que o clima ali é leve
Empatador que se atreve
A querer entrar na dança
Tem pinote que não cansa
Tem cachaça sem igual
Tem o bem e tem o mal
Que a carne é feita disso
Tem tudo que é rebuliço
Num amor de carnaval

Tem fantasia enganchando
Tem encontro por acaso
Tem prestação sem ter prazo
Pra pagar amor amando
Tem sorriso derramando
Num lugar especial
Tem encaixe que afinal
Derruba um cílio postiço
Tem tudo que é rebuliço
Num amor de carnaval

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A PALAVRA DO EDITOR

O BLOCO DA BESTA FUBANA

Nunca pensei que eu iria viver o suficiente pra ver o Recife sem carnaval.

Sem o gigantesco bloco do Galo da Madrugada explodindo de vida e de alegria no Sábado de Zé Pereira.

O pânico que tomou conta do mundo conseguiu essa inacreditável proeza.

Hoje, domingo de carnaval, se alembrei-se-me dos tempos em que botava na rua O Bloco da Besta Fubana.

Uma respeitável e impoluta instituição carnavalesca, fundada em 2004, que juntava gente que só a porra e desfilava na Praça da Casa Forte, sob a proteção do nosso magnífico estandarte.

Um imponente estandarte, no qual a Besta Fubana aparecia com a sua magnífica parajaraca, pronta pra enrabar qualquer cabra safado.

Uma animação contagiante, uma turma animada, vibradora e cheia de vida, frevando e fazendo o passo ao som de uma orquestra.

A concentração antes do desfile era feita num dos pontos mais folclóricos e lendários do Recife, o Bar Largura.

Eu participava do respeitável evento devidamente paramentado de Pai Babachola, o maior catimbozeiro dessa beirada de Atlântico.

Incorporado na pele de Pai Babachola, cansei de tirar o Cão, o Tinhoso, o Cramulhão, o Capeta que baixava no couro de foliãs fogosas e com exuberantes pés-de-rabo.

Chega fazia fila pra receber meus santos passes!

O proprietário do estabelecimento, meu amigo Wilson, é um personagem que entrou pra história da cidade.

Na virada de 1999 para 2000, ele acrescentou à placa do Bar a inscrição “Desde o Século XX”, conforme vocês podem ver na foto abaixo, onde ele aparece:

O nome do bar, “Largura” é uma fina ironia com o apertadíssimo espaço do ambiente.

No corredor de entrada, não cabem duas pessoas nem se espremendo!

Como estou em abstinência compulsória, já tem mais de quatro anos que não vou ao Largura tomar uma lapada.

Sempre que passo por lá, como aconteceu hoje de manhã, chega me bate  uma assuspiração na caixa dos peitos de tanta saudade.

Neste incrível domingo de carnaval sem carnaval, fecho a postagem com uma composição magnífica do Maestro Levino Ferreira, intitulada Última Dia.

O frevo preferido de Aline, que fez a montagem do vídeo abaixo.

J.R. GUZZO

O MP ESTÁ DOENTE

O Ministério Público, pelo que está escrito na Constituição Cidadã e no resto da papelada legal que diz respeito a ele, serve para três coisas: fazer a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos direitos dos quais ninguém pode abrir mão por vontade própria, e que vão do direito à vida, algo que se entende bastante bem, ao direito de tirar férias, o que já não é assim tão evidente – mas, enfim, é melhor não entrar nesse tipo de conversa, não é? (Escreveram lá que esses são “direitos indisponíveis”, na melhor linguagem legislativa – aquela que tem como principal anseio tornar as palavras o mais obscuras que for possível para o entendimento comum.) Seja como for, para efeitos práticos e naquilo que diz respeito diretamente ao pagador de impostos, o MP Federal, com suas quatro subdivisões, e os 27 MPs dos Estados têm a obrigação fundamental de proteger as pessoas contra o crime e demais violações da lei. É isso, pelo menos, que dá para entender do que está escrito. Já não é isso, ou nada disso, quando são os próprios mandarins do MP que definem as suas funções. Aí, na prática, procuradores-gerais, parciais ou de quaisquer outros tipos agem como se essa “instituição permanente” fosse um instrumento pessoal de execução das suas ideias, crenças e desejos de ordem política.

Há exemplos o tempo todo. Num de seus surtos mais recentes e mais sem-noção, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (sim, o MP Federal tem MPs estaduais, que se somam aos MPs estaduais propriamente ditos; não tente entender) entrou com uma ação pública civil contra a deputada federal Chris Tonietto, também do Rio de Janeiro. A deputada é de direita, é óbvio – se não fosse não estaria sendo processada, muito simplesmente. Mas, além disso, qual o delito que cometeu? Segundo os procuradores em questão, a deputada praticou “discriminação” contra a comunidade lésbica, gay, bissexual, travesti, transexual e transgênero. Por quê? Porque disse no Facebook, oito meses atrás – sim, oito meses -, que “alguns expoentes do movimento LGBT” já defenderam de forma explícita a pedofilia – e que isso é “um fator de dissolução da confiança nas relações familiares”.

Quem, além dos reais militantes da pedofilia (e da ideia de que o sexo com menores de idade é uma questão de “orientação sexual”), poderia achar que existe algo tão errado assim numa declaração como essa – a ponto, inclusive, de provocar um processo na Justiça? Ao que parece, o MP do Rio está achando. Na ação contra Chris, escrita em português de prova do Enem, com sintaxe torturada e análise lógica de gibi, os procuradores afirmam que ela “induz falsamente a opinião pública a acreditar que todo o grupo de pessoas homossexuais seria propenso a cometer os graves crimes que giram em torno da pedofilia”. Como assim? Na sua postagem, a deputada escreve textualmente que “alguns expoentes do movimento LGBT” defendem a pedofilia – “alguns”, diz ela, e não “todo o grupo”, como diz o MP. De mais a mais, a deputada apontou nominalmente aos procuradores, quando solicitada por eles a “retratar-se”, um renomado inspirador do universo gay, Luiz Mott, que se manifestou sobre o assunto em tempos idos. “Desde que haja respeito à liberdade alheia, delicadeza, reciprocidade e ausência de abuso de poder devido à superioridade física ou social da pessoa mais velha”, escreveu Mott no livro Crônicas de um Gay Assumido, publicado em 2003, “não há razão lógica que justifique a condenação tout court das relações afetivo-sexuais entre adultos e menores de idade.” Quem afirmou isso foi Mott, não a deputada Chris – por que, então, é ela que está sendo acusada de “induzir falsamente” o público a acreditar que ele não disse o que disse?

É a opinião de Mott, claro, e ele tem pleno direito a expressar essa ou qualquer outra opinião. Mas de novo: qual o crime da deputada? Também não há como considerar que está tudo bem com o texto do pensador gay. Não está. “Relações afetivo-sexuais entre adultos e menores de idade” podem ser aceitáveis para Mott, mas são proibidas expressamente pelo Código Penal Brasileiro – está escrito ali, no artigo 217, que praticar sexo com menores de 14 anos de idade é crime de estupro. Não vem ao caso se há ou se não há consentimento, delicadeza ou “respeito à liberdade”: é crime, punido com pena de reclusão de oito a quinze anos.

Também não dá para entender por que a opinião de uma deputada federal seria uma agressão à ordem jurídica, ao regime democrático e aos tais “direitos indisponíveis”. O que ela fez contra as leis, a democracia ou as férias de 30 dias? Atentado contra as populações indígenas – que, segundo a Constituição, também têm de ser protegidas pelo MP? Que diabo os índios teriam a ver com isso tudo? Não faz o menor nexo, é claro. Mas é precisamente isso que acontece quando uma instituição do Estado é privatizada, como aconteceu com o MP brasileiro, em benefício dos que controlam a sua máquina. Numa parte do seu tempo o órgão de defesa do bem contra o mal funciona, na vida real do Brasil-2021, como um sindicato trabalhista, obcecado por salários e privilégios; em outra parte, funciona como partido político e clube de ideias. O que sobra para o interesse público é muito pouco.

O processo contra a deputada não vai dar em nada; ela tem imunidade parlamentar e não pode responder a nenhuma acusação penal. O MP finge que está numa batalha contra a disseminação do “ódio” e a “homofobia”, mas não faz mais do que mover uma ação civil precificada em R$ 50 mil – coisa que vai ficar se arrastando por aí até o dia do Juízo Final. É pura perda de tempo, simulação de trabalho e desperdício de dinheiro público – lembre-se que é você quem está pagando até o último tostão o salário de quase R$ 30 mil por mês (além do auxílio moradia, do vale-refeição, do auxílio creche, do auxílio transporte etc. etc.) dos três procuradores que processam a deputada Chris. Pode dar, só nesses presentes, mais de R$ 50 mil por mês e per capita. Com a ladroagem do Erário deitando e rolando depois do falecimento da Operação Lava-Jato, mais feliz agora do que nunca, é realmente uma beleza.

O Ministério Público do Brasil está doente. Não há vacina à vista.

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A “DITADURA DE DIREITA” DO GENIAL BURROSO

* * *

De acordo com Burroso, a Venezuela é uma ditadura “conservadora” e de “direita”.

Pra quem ainda não sabe, Burroso ocupa uma cadeira no órgão máximo da justiça de Banânia.

Atenção: não é gozação.

Estou falando sério: o cara que falou isto é mesmo do nosso supremo esgoto.

Lógica e coerentemente, Burroso foi indicado por Dilma.

Faz sentido.

Ou, melhor dizendo, faz total falta de sentido.

Seguindo fielmente a teoria de Burroso, a Venezuela é de direita, quem torce pelo Corinthias é palmeirense, homem menstrua e quem acredita no que Lula fala é mentalmente sadio.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA – RIO DE JANEIRO-RJ

Berto,

Para alegrar ainda mais o seu domingo nordestino.

LUAR DO SERTÂO

Lindo !

R. Não apenas o meu domingo, caro colunista.

Mas o domingo de todos os fubânicos.

E vamos ao vídeo que você nos mandou:

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JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ESTRADA E A VEREDA

Na longa estrada da vida algumas pedras precisam ser vencidas

Ainda consigo lembrar. Eu tinha exatos dez anos de idade, quando precisamos sair de Queimadas, naquele tempo um simples povoado de Pacajus. Meu pai, que havia sido demitido de um colégio onde lecionava Aritmética, voltava a trabalhar. Agora, nomeado como Fiscal da Fazendário (Secretaria Estadual da Fazenda do Ceará), e tínhamos que mudar para a capital.

Antes da viagem, uma olhada rápida no quintal da Vovó. Pela última vez. Eu ia embora, e ali deixava as mangueiras, os cajueiros, as galinhas, os patos, os capotes, uma jumenta, o cachorro Pintado e aquele barulho melódico de todos os fins de tarde do Vem-vem e das cigarras. Também lembro, ainda, que eu fui o último a me despedir de Vovó, abraçando-a também pela última vez. Depois do abraço, corri e deslizei o último pau da porteira, fechando-a.

Nunca mais voltei ali. Nunca mais olhei minha Avó, nem nunca mais cacei passarinhos, nem escutei os voos rasantes das corujas. Os pirilampos ficaram para trás. As mutucas, também. E ali se encerrava um dos mais importantes e construtivos ciclos da minha vida. Ciclo da infância, da liberdade, e das brincadeiras respeitosas.

Fui o último a subir no caminhão. Não tive coragem de olhar para trás, porque ali ficava parte de mim. (“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”)

Naquele dia, primeiros anos da década de 50, a viagem que hoje não consome 30 minutos para percorrer o percurso, levou mais de três horas. E o caminhão não parava. Apenas a distância que não queria diminuir, como se nos convidasse à voltar para continuar a vida na roça, apanhando cajus, pescando piabas, caçando passarinhos – e, vivendo!

A estrada era a continuação da vereda

Caminhão da mudança acionado pela manivela. Tudo funcionando. Eu, viajando junto das panelas velhas, redes, cristaleira e tamboretes, tão logo o caminhão teve acesso à vereda, me agarrei ao cachorro pela possibilidade que ele, já sofrendo saudade, resolvesse pular do caminhão e voltar para o aconchego da Vovó. Os animais nunca perdem ou esquecem o “arquivo” do faro. Eu, sem perceber que Vovó entrara na casa, faço meu último aceno – provavelmente para o tudo onde vivi e aprendi a viver como gente.

Felizmente que os tocos que ainda ficaram na vereda aberta à base de foice e machado, não furaram os pneus. A estrada longa foi alcançada e prometia nos levar à uma nova vida, sem muitas coisas que ficaram para trás, mas com a esperança de vitórias.

O caminho que nos levou à estrada

A cada árvore da vereda que deixávamos para trás, era um desvio para não machucar. Como se eu conhecesse folha por folha, galho por galho, e tivesse o nome de cada uma. Atingimos a estrada sem problemas.

Agora, como o cachorro não se atreveria mais a pular para tentar voltar, se aquietou sobre um colchão velho de molas. Eu fui para a frente e fiquei à mercê do vento que tocava no meu rosto, lavando-o. Deformando-o pela força da ventania. Enfrentar aquele vento, era, sem dúvida, abrir as portas do futuro.

A “cidade grande” foi atingida. Nos dirigimos na direção do mar, como se algum navio estivesse à nossa espera. Não houvera nenhum milagre de Moisés, tampouco estávamos diante do Mar Vermelho. Era a praia do Pirambu, e ali nos aguardava a “Comissão de Recepção”: um gato mariscado, que provavelmente esperava a maré secar para permitir que os siris viessem à tona como presas incautas a lhe proporcionar o jantar de todos os fins de tarde; um cachorro vira latas, que caçava restos de comida trazidos pela maré enchente.

A casa: paredes e telhado de palhas. Um barracão onde estacas internas permitiam armar as nossas redes. Água, apena a do mar – felizmente havíamos trazido um pote, uma quartinha e algumas latas que poderiam servir de depósito.

Mas, finalmente, estávamos numa nova estrada e poderíamos iniciar a caminhada que nos permitiu chegar até aqui.

Vereda e ao fundo dá para ver a nossa casinha branca que ficou

Na manhã do novo dia, o barulho sufocado das ondas do mar, que não ficava distante. Algo em torno de sessenta metros, num espaço separado pela praia pouco frequentada. Não havia urbanização, e os frequentadores que por ali passavam, eram pescadores a caminho de seus barracos – iguais ao nosso.

Teresa, uma jovem criada por mamãe, era uma espécie de Governanta. Tudo mandava fazer ou fazia ela própria. Serviu o café: café preto e um banda de pão com nada. Hoje entendo que aquilo já era o nosso muito.

Mãe saíra à procura de trabalho, enquanto o pai para assumir um novo emprego. Aos sábados e domingos, todos nós saíamos para procurar um novo local de moradia.

Durante a noite, a poesia vinda do mar nos mostrava o caminho que precisaríamos seguir para, como Don Quixote, encontrar um moinho que pudesse nos proporcionar novos ventos, novos ares na continuidade da estrada que a vida nos oferecia.