PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DO AMOR TOTAL – Vinícius de Moraes

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Moraes, Rio de Janeiro (1913-1980)

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LÁGRIMAS SENTIDAS

* * *

“Eu estou chorando de alegria, minha querida primeira vaChinada.

Descobri que no Jornal da Besta Fubana tem umas reses que me adoram, me aplaudem e me consideram um homem sério e honesto nesta milionária luta que travo pra dar mais celebridade ao Covid-19.

Choro com muito satisfação.

Xiuf, xiuf, snif, snif…

E também descobri que no mesmo jornal tem gente que acha Lula um sujeito honesto, que acabou com a fome, extinguiu a corrupção e botou os pobres pra viajar de avião.

Aí é que eu choro mesmo de contentamento.

Xiuf, xiuf, snif, snif…”

GUILHERME FIUZA

EFICÁCIA

– Quanto é?

– Uma é 5, duas é 10.

– Tá. Me vê uma.

– Pra você eu faço duas por 15.

– Tá bom. Obrigado. Me vê duas, então. Funciona mesmo, né?

– Claro. 100%.

– Ótimo. Não posso ter dúvidas.

– Fica tranquilo. Os testes deram mais de 90% de eficácia.

– 90%? Não era 100?

– 90 foi nos testes. No mercado real é outra coisa.

– Como assim?

– Já ouviu a frase “treino é treino, jogo é jogo”?

– Já.

– Então é a mesma coisa. Teste é teste, mercado é mercado.

– Não entendi.

– Raciocina: se um produto tem mais de 90% de eficácia na fase de testes, que não vale nada, imagina como ele vai performar quando for pra valer?

– É… Faz sentido.

– Capaz até de ultrapassar 100%.

– É possível, isso?

– Se o produto for muito bom, sim.

– Caso ultrapasse os 100%, posso dar o que sobrar pra um amigo?

– No caso você vai precisar cadastrar esse amigo aqui, e pagar uma taxa extra de titularidade compartilhada.

– OK. Se a eficácia não passar de 100% vocês devolvem o dinheiro da taxa?

– Não.

– Por quê?

– Porque esse dinheiro já terá sido investido em mais eficácia. Ou seja, você terá ajudado indiretamente outras pessoas.

– Aquele lance de empatia?

– Exatamente.

– Que legal! Eu sempre quis ter empatia!

– Pois é. É mais simples do que parece. Vai pagar em dinheiro ou cartão?

– Aceita cheque?

– Nem aqui nem na China. Quer dizer, na China aceitamos, mas o cliente tem que deixar uma garantia.

– Qual garantia?

– Ele mesmo.

– Ah, tá. Aí funciona, né?

– Inadimplência zero. Mas esse sistema ainda é muito moderno pra ser usado aqui.

– Por quê?

– Aqui as pessoas são muito indisciplinadas. Não param quietas, querem andar por aí sozinhas, decidir as coisas por elas mesmas, sem monitoramento. Enfim, gente subdesenvolvida, sem empatia.

– Então vou pagar a taxa de empatia em dinheiro e o resto no cartão.

– Perfeito. Isso aqui é seu também.

– O que é isso?

– Um brinde do fabricante. Pode pregar na camisa.

– “100% ciência”. Que legal! Obrigado. Vou botar agora.

– Esse broche teve 98,3% de eficácia em mesa de bar na fase de testes.

– Uau! Vou sair com ele hoje.

– Vai arrebentar, com certeza.

– Somando com 100% de eficácia do produto…

– 75,8%.

– Como assim? Você acabou de me dizer que…

– Você demorou muito a comprar. Eficácia depende de rapidez.

– Poxa… Se eu soubesse teria comprado mais rápido. Ando muito dispersivo.

– Fica tranquilo. Ainda é uma boa taxa de eficácia, vai por mim.

– Tá. Mas com essa taxa eu ainda posso usar o broche “100% ciência”?

– Claro! Em mesa de bar ninguém verifica nada.

– Mas e se eu não for direto pro bar?

– Dá no mesmo. Hoje em dia é tudo bar.

– Como assim?

– Não reparou? O mundo virou uma grande mesa de bar. E tá todo mundo bêbado. Vai com fé.

– Com fé ou com ciência?

– Dá no mesmo, bobo.

– Legal! Então… 75,8% de eficácia, né?

– Não. 50,5.

– O quê??

– Te falei que se demorasse ia caindo…

– Droga. Me distraí de novo. Mas… 50%? Não é arriscado?

– Você não comprou duas?

– Comprei.

– Então é só somar: 50,5 + 50,5 = 101%. Você fez um excelente negócio.

– Maravilha! Você teria um broche “101% ciência”?

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FALA, BÁRBARA!

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J.R. GUZZO

MACRON E A SOJA

O presidente da França, Emmanuel Macron, não gosta do Brasil, nem dos brasileiros, nem do presidente que eles elegeram dois anos atrás. Mais do que qualquer outra coisa, Macron não gosta da agricultura e dos agricultores brasileiros; sempre faz questão, nos cinco minutos por ano em que pensa alguma coisa em relação ao Brasil, de repetir que a produção de soja por aqui (sem falar no milho, carne, frango e todo o resto) está destruindo a “floresta amazônica” e, com isso, tirando o oxigênio que a França, a Europa e o mundo precisam para respirar. Não há o que fazer a respeito: o homem não muda de ideia e não muda de assunto. Vai continuar assim.

O problema com esse tipo de noção é a sua absoluta falta de conexão com a realidade dos fatos. A Amazônia, como pode ser verificado em não mais que dez minutos de pesquisa básica, não tem nada a ver com a soja brasileira, nem com o milho ou com os demais grãos. Mais de 70% da produção brasileira vem de quatro Estados – Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso. O Mato Grosso ainda tem uma parte do seu território, apenas uma parte, na chamada “Amazônia Legal” – uma ficção burocrática que não tem nada a ver com a geografia, e sim com truques fiscais para se pagar menos imposto. Mas todo o restante da área cultivada está fora de lá – a maioria dos agricultores do Paraná, por sinal, provavelmente passa a vida inteira sem jamais botar os pés na Amazônia. Além disso, ninguém precisa derrubar uma única árvore para produzir – produzir mais a cada ano, aliás, ocupando o mesmo espaço de terra, por força da tecnologia e do aumento na produtividade.

A Amazônia, inteirinha, responde por 10% da produção rural do Brasil – só isso. Como, então, a soja colhida no interior do Rio Grande do Sul pode estar pondo em risco o equilíbrio ecológico do “planeta”? Não pode, e não vai poder nunca. O presidente Macron, e quem quer pensar como ele, acha o oposto: nunca lhe ocorreu que nos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do Brasil possa existir algum tipo de atividade rural fora da Amazônia, nem que o produtor brasileiro conheça o trator, métodos de irrigação e as noções elementares de agronomia. Colheu um cacho de banana? Então é porque está destruindo “a floresta”.

Macron, se tivesse algum interesse nas realidades, poderia perfeitamente saber disso tudo consultando um dos 5,5 milhões de funcionários públicos franceses que vivem à sua disposição; é impossível que ninguém saiba, nessa multidão toda, como se produz soja no Brasil. Também poderia perguntar sobre o assunto a uma das maiores e mais antigas empresas da própria França, a Louis Dreyfus, que trabalha no agronegócio brasileiro há 80 anos, tem 11 mil funcionários no Brasil e opera ativamente em toda a área rural, da soja à laranja, do café ao milho. Mas quem é que está interessado em coisas chatas e sem nenhum proveito político como a busca de fatos? O presidente da França, com certeza, não está.

Sua última ideia a respeito do assunto é acabar com a “dependência” que a França teria da soja brasileira – indispensável para a sua produção de proteínas. Disse que estava sendo “coerente”: quem defende a Amazônia e o meio ambiente tem de ser contra o Brasil e a agricultura brasileira. Do que ele está falando? O Brasil produziu 135 milhões de toneladas de soja em sua última safra; a Europa inteira mal chegou às 3 milhões. Como vai resolver isso? Não vai e, pelo jeito, não está preocupado com os aspectos físicos dessa história toda. Como se sabe, existem dois tipos básicos de ignorância: a involuntária e a voluntária. A primeira tem remédio. Para a segunda não se conhece solução.

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

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PRA FAZER A TABACA VIBRAR

* * *

Coitado do candidato a presidente Luciano Huck…

Tá deixando a companheira na precisão, a ponto de Angélica ter que usar vibrador.

Se Huck não tem condições de usar a pajaraca em casa, chegando à presidência da república no futuro, aí é que não vai mesmo conseguir enfiar a pajaraca no país.

E, em falando de vibrador, me lembrei de quando eu era intensamente usado como vibrador humano.

Que saudade daqueles tempos…

CONSTÂNCIA UCHÔA - "IN" CONSTÂNCIAS

QUEM CALA NÃO SENTE

Um banho para uma mulher corresponde, em prévia de jogo, a um regime de concentração compacto.

A água fria abrandara os meus pensamentos que serpenteavam no vão quente da razão. Enxuguei o meu rosto, feito quem estanca uma dúvida, para então me auto sentenciar: nas mãos de Deus.

Apressei a vestir-me. Cada peça fora separada com esmero – todas em tons pastéis e discretos. Olhei-me no espelho e algo estava descaracterizado. Claro, faltara o meu batom vermelho-boca-de-chafurdo, afinal seria um noivado e não uma canonização. Sorri com graça: estou pronta!

O trajeto ao local de festejo estava ensolarado, mas cortei caminhos, assim como poupo os leitores de alguns detalhes em nome da brevidade.

O ENCONTRO

Em meio a pessoas amadas, pareciam até bandeiras colorindo de entusiasmo o salão, avistei o meu pretenso noivo – o corpo, porque parte da alma dele não o acompanhara. Camisa amarrotada, barba por fazer, sapatos sem meias e um semblante de quem perdera toda a fé. Ter um noivo sem fé é posar para o retrato da derrota. De baixo para cima era uma piada de mau gosto, mas observado no sentido inverso, era uma alma sem luz. Como não guardo semelhança com fogueira e nem com santa – ainda bem que pus o batom – encomendaria aquela alma em trevas a outros paraísos.

Não precisei aproximar-me para saber que não dormira, o seu hálito de ressaca era visível. Uma cena indigna para ser descrita. Não sei o que senti naquele momento, mas sei com exatidão o que deixei de sentir.

Mergulhei em um planto etéreo, contudo chego a recordar que ele, no infinito de seu descaramento, pronunciara “amor sem fim, você está feliz?”

Aterrissei no solo de um meio sorriso e não respondi. Ele não merecia qualquer esforço vocálico. Pensei em um “anarriê de status”, porém a quadrilha junina formara-se, e não prosseguiria sem os seus personagens mais tradicionais. Era festa e eu não tiraria dos convidados o direito ao contentamento. Então, viva os noivos, viva!

O pedido fora feito e ele me manipulava, como que conduzisse uma boneca por cordéis em que ele era o titereiro. E, assim, trocamos as alianças.

Após o rito de passagem em que namorados atravessam-se noivos, ele novamente intercepta-me:

– ASF (poupo-nos da repetição do vocativo), não ouvi o sim.

O que dizer ante a sepultura? Nunca fui de meios sorrisos, mas adotei-os como fala padrão de noivado.

Diante de meu silêncio, ele revidou em compulsões. Parecia comer de seu remorso e beber de seu costume. Até que, como diria minha avó, abrejou e dormiu por sobre a mesa.

Despedi-me dos convidados e, discretamente, entreguei a minha aliança ao motorista de meu ex. Pois é, o noivado fora natimorto. Escrevi uma poesia, dobrei seu papel em quatro partes, coloquei-a cuidadosamente no porta-luvas e, afiançada por Deus, jamais revi aquele finado.

De rompante, um soneto.

O SIM

Me perdoe dizer, amor sem fim,
Mas aquela que um dia esnobaste,
Tem no peito um Cristo por guindaste
Que melhor que ninguém zelou por mim.

Sinto muito sair sem jeito assim,
Foi a noite a donzela que amparaste;
Que empatou nossas vidas num contraste,
E por isso sequer ouviste o sim.

Me despeço e o faço sem recado!
Como pode alguém ser condenado,
Só porque se rendeu à boemia?

Entre goles e taças se mantenha;
Se lembrares de mim, favor não venha!
Estarei em estado de poesia…