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BATEU UM RECORDE: CONSEGUIU MENTIR MAIS DO QUE LULA ! ! !

NEWTON SILVA - CALAMUS SCRIBAE

AS LUZES DE NATAL

Veja como são bonitos os palácios
E veja como são pobres os campos,
O quanto estão vazios os celeiros dos camponeses
Enquanto os bem-nascidos usam ornamentos
Ocultando armas afiadas.
E, quanto mais eles têm, mais eles tomam,
Como pode haver homens como esses,
Que nunca têm fome, nunca têm sede,
E ainda assim comem e bebem até estourarem!

Verso 53 do Tao Te Ching segundo Witter Bynner

Um homem, na noite de Natal, de tão bêbado que estava, vomitava até não mais ter o que vomitar. Contorcia-se como um porco no matadouro. As faces rosadas de tão gordas, refletiam-se nos enfeites de Natal, nas bolas coloridas, nas estrelas prateadas, douradas, reluzentes. Mesmo assim, depois de ter vomitado tudo o que tinha comido, depois de ter-se esvaziado e exaurido o estômago da comida azeda e gordurosa, voltava ofegante ao banquete, enchendo os olhos da gula, enquanto salivava diante da fartura servida na mesa e a boca cheia de dentes abria-se numa gargalhada insana, rindo do próprio vexame diante dos convivas. Na mesa farta, empanturravam-se homens como ele, senhores do garfo e do copo, no meio de perus fumegantes, garrafas de vinho, facas e garfos, numa roda de escarnecedores.

Ao redor da mesa corriam inocentes crianças com seus brinquedos novos. As mulheres, cativas, serviam aos homens gordos e também se empanzinavam metidas em seus vestidos magros, reluzentes, vestidos de festa, alugados a peso de ouro nas boutiques esnobes.

No canto da sala, esquecido e imóvel, um pinheiro impassível, na verdade um pedaço de árvore morta, simbolizava o desabrochar da morte de Ninrode para uma nova vida, todo coberto de bolas coloridas, quais cabeças decepadas dependuradas e luzinhas intermitentes, completando o quadro dedicado a Saturnália, o ritual de adoração a Ninrode, Tamuz e a Semírames, o sarau dedicado ao Deus-Sol, com o presépio em miniatura, que é nada mais do que um altar dedicado a Baal.

Do lado de fora da festa, uma família pobre, iluminada pelas luzes de Natal, ora azuis, ora vermelhas, ora amarelas, esperava e espreitava, quem sabe por um pouco da ceia para seus filhinhos descalços que corriam em volta da carroça dos catadores de lixo, com seus brinquedinhos de pobres. Vez por outra corriam para catar uma latinha de cerveja jogada no meio da rua pelos homens gordos. Aquilo sim é que era um presente!

As mulheres cativas metidas em seus vestidos de festa reluzentes e impecáveis iam e vinham, atarefadas e sorridentes, servindo aos maridos embriagados, glutões contadores de proezas, exímios falastrões e zombeteiros. Incomodadas com a presença da família de catadores de lixo que avidamente espreitavam pelas sobras do banquete, asseguravam-lhes severamente que no final lhes reservariam um pratinho para cada um deles e que não havia a necessidade de permanecerem ali, pois estavam importunando os convidados. A família pobre assentia quais cães famintos, recuando aos poucos para as sombras, de modo que ficassem invisíveis.

À meia-noite todos se abraçaram fraternalmente, desejando Feliz Natal, a Paz de Cristo, isso e aquilo, numa profusão de risos, beijos e brindes com as taças translúcidas e espumantes. Lá fora a família de pobres, oculta nas sombras da noite, era iluminada pelas luzes de Natal. Seus filhinhos já dormiam enrolados nos papelões e jornais velhos, alheios aos festejos natalinos e aos estampidos dos fogos de artifício intermináveis que ribombavam repetidas vezes, clareando o céu em desenhos magníficos, acordando os passarinhos.

Os pobres pais maravilhados com o espetáculo do nascimento do menino-deus estavam ainda ávidos de fome e esperançosos, aguardavam ainda as sobras do banquete, encolhidos na calçada, invisíveis, entre as caixas de papelão, escondendo-se por causa do cortante frio da noite, iluminados pelas luzes de natal.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MENSAGEM DE NATAL – Pedro J. Bondaczuk

Um dia – memorável dia – a humanidade
teve expiados todos os erros seus,
através da magnífica oportunidade
de conviver cotidianamente com Deus.

O arquiteto do universo, que irradia
luz, poder, glória infinita e imorredoura,
nasceu, sem pompa ou luxo, numa estrebaria,
só tendo, por berço, uma reles manjedoura.

O seu nascimento traz a maior lição
do que ao homem deve ser essencial:
a bondade, a pureza e amor no coração

e a luz da verdade por perene ideal.
Esta foi a mensagem do Deus do perdão
há dois mil anos, numa noite de Natal!

Pedro J. Bondaczuk, Horizontina-RS, (1943-2018)

DEU NO JORNAL

FECHOU SÃO PAULO E FOI PARA MIAMI. ESTRELANDO: JOÃO DORIA

Alexandre Garcia

O governador de São Paulo, João Doria, voltou de Miami um dia após ter viajado para lá. A justificativa oficial é que o vice dele, Rodrigo Garcia, testou positivo para Covid-19. Mas Garcia tem 46 anos; Bolsonaro aos 65 anos continuou trabalhando quando se infectou. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, tem câncer e mesmo assim seguiu trabalhando.

Por isso, tenho dúvidas se esse é o real motivo da volta de Doria. Provavelmente, ele deve ter decidido retornar porque percebeu o descontentamento de seus seguidores nas redes sociais após o governador decretar alerta vermelho na cidade como medida contra a pandemia e ir para os Estados Unidos.

Será que o vírus entra em recesso nas festas de fim de ano? Esse alerta vermelho é limitado aos dias 25, 26 e 27 de dezembro e 1º, 2 e 3 de janeiro – apenas serviços considerados essenciais poderão funcionar nessas datas.

Doria pretendia ficar dez dias em Miami com a esposa. Chegou a ser fotografado de madrugada embarcando, em Guarulhos. Mas ficou somente algumas horas em solo estrangeiro. Eu lembrei daquele filme do Júlio Bressane que se chama “Matou a família e foi ao cinema”; com Doria seria “Fechou São Paulo e foi a Miami”.

* * *

Mais dinheiro para propaganda

João Doria aumentou em 70% a verba de publicidade do seu governo. Acredito que nenhum chefe de governo precisa de tanto dinheiro destinado à propaganda. As obras do governo, por si só, deveriam ser mais eloquentes que qualquer ato de marketing. Só é preciso trabalhar bem. Se alguém precisa de propaganda para se promover é porque está trabalhando mal.

PERCIVAL PUGGINA

UM NATAL DE KAROL WOJTYLA

Ressoa nesta noite, antigo e sempre novo, o anúncio do Natal do Senhor. Ressoa para quem está alerta, como os pastores de Belém há dois mil anos; ressoa para quem aderiu ao apelo do Advento e permanecendo atento, está pronto a acolher a mensagem feliz que canta a liturgia: “Hoje nasceu o nosso Salvador”, (João Paulo II, homilia de Natal do ano 2000).

Dias antes dessa homilia, leigo católico cativado pela vida e obra de tão extraordinário pontífice, escrevi um artigo reivindicando para ele o título de “Magno”, reservado pela Igreja a poucos, como São Gregório Magno e Leão Magno, que marcaram o Cristianismo, o papado e suas respectivas épocas de modo definitivo, com incomparável – a palavra continua sendo adequada – magnitude.

Gregório, misto de romano da velha estirpe e de monge capaz do maior ascetismo, como o descreve Daniel-Rops, emerge numa época em que o Império Romano sucumbira às hordas bárbaras. Era preciso começar tudo outra vez e Gregório percebe que a evangelização dos invasores deve ser conduzida como obra de toda a Igreja. Gregório Magno faz a síntese das duas cidades de seu muito admirado Agostinho: pés e mãos na cidade dos homens; olhos e coração na cidade divina.

Leão, dois séculos antes, vivera as lutas contra o declínio do Império, salvando o que podia. E nesse enfrentamento atribuiu à Sé Apostólica um primado religioso, moral e cultural que ela nunca mais haveria de perder.

É bem conhecido o episódio do encontro entre o terrível huno Átila e Papa Leão I. O “Flagelo de Deus” varria o Império e se preparava para lançar um ataque definitivo sobre Roma. À margem do Míncio vê, no lado oposto, um curioso cortejo aproximar-se em sua direção, entoando cânticos. Eram sacerdotes, monges e diáconos, portando cruzes, pendões e ostensórios, conduzidos por um ancião de barbas brancas. Átila avança com seu cavalo até um banco de areia e o interroga: “Como te chamas?”. No silêncio que se seguiu, o ancião responde: “Leão, papa!”, e cruza o rio ao seu encontro.

A posterior narrativa de Leão ao imperador Valentiniano sobre esse episódio, que acabou dando origem a muitas lendas, não revela o conteúdo do diálogo que manteve com Átila. Certo, porém, é que o “Flagelo de Deus” recuou.

Foi pensando em personagens assim, extraordinários, que sugeri em artigo, às vésperas do Natal de 2000, o cognome Magno a João Paulo II. Eu o via conjugar as virtudes de Gregório e Leão. Intelectual, valente e diplomático como o primeiro, político e asceta como o segundo, reprovou energicamente quaisquer guerras, levou chumbo e cruzou todas as fronteiras com a mensagem da solidariedade e da paz. Fez penitência, orou, escreveu, foi firme e fiel. Como Leão, foi ao encontro do Átila soviético. Teve atuação decisiva no recuo daquele regime, na queda do Muro, na democratização do Leste Europeu. Conseguiu, até mesmo, que os católicos de Cuba pudessem comemorar, publicamente, o Natal do Novo Milênio.

Assim o via, também, a multidão dos fiéis. Em 8 de abril de 2005, seu velório foi assistido pela TV por 1 bilhão de pessoas. Quatro milhões se reuniram nas praças e ruas de Roma. Trezentas mil na Praça de São Pedro. Representações oficiais de 200 países. Foi o maior funeral da História da Igreja. De repente, naquela multidão, irrompe um brado que se reproduz nas praças, nas ruas, nas sacadas, nas telas: “Santo súbito!”. Levem logo esse homem de Deus, esse irmão de fé, aos altares! – estavam a clamar em uníssono.

Assim foi o grande Karol Wojtila, São João Paulo II, Magno em vida, referência da minha geração, cujos Natais nunca foram “politicamente corretos”. Feliz Natal a todos!

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CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Depois de três anos de muito estudo, privação e ralação, afinal Bentinho terminava o curso na Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Seu destino era a Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formaria oficial do Exército. Naquele ano houve em Fortaleza uma “Maratona de Matemática”. Bentinho bom na matéria tirou 1º lugar. Ganhou uma passagem à Europa pela PANAIR.

Ao chegar á Maceió mostrava a passagem com orgulho, seu prêmio, tinha agora uma sonhada viagem à Europa. O programa de férias era simples como são as coisas boas da vida. Bentinho acordava cedo, vestia um velho calção de banho, descia para a praia da Avenida da Paz, jogava futebol, mergulhava no azul do mar, namorava Ana Lúcia. Encerrava o dia com boa noitada na boemia de Jaraguá.

Certa tarde convidou a namorada para assistir no Cine São Luiz, o filme, “Suplício de uma Saudade”. Ao sair do cinema passearam pela Rua do Comércio apreciaram vitrines das lojas: A Brasileira, A Radiante, Livraria Ramalho. Na bem ornamentada vitrine da Joalheria Machado destacava-se uma bonita tiara dourada. Entraram na joalheria. Bentinho colocou a tiara na cabeça de Ana Lúcia, ficou emocionado com a beleza. Ao ver o preço, o sonho acabou. Muito caro para dois jovens ainda dependentes. A tiara ficou catalogada nos sonhos impossíveis.

Na véspera de Natal a juventude convergia à festa de rua na Praça da Faculdade, Praça Afrânio Jorge, no Prado. Bentinho amava assistir os folguedos natalinos, pastoril, chegança, guerreiro, reisado, o belo folclore de sua terra. Perto da meia-noite cada qual se reunia com a família em casa para a distribuição e troca de presentes. Depois da ceia as famílias vizinhas assistiam a missa no coreto da Avenida da Paz.

Bentinho emocionou-se ao ver Ana Lúcia na missa, estava mais linda, exuberante, deslumbrante, cabelos castanhos longos, o sorriso mostrava a alegria de sua alma. Ele se aproximou, deu-lhe um beijo terno, entregou-lhe o presente de Natal.

Ao desembrulhar o papel, apareceu uma linda caixa. Ana Lúcia abriu, emudeceu, balbuciou alguma coisa incompreendida. A emoção lhe deixou atônita ao perceber a cintilante, a belíssima tiara da Joalheria Machado. Colocou-a de imediato na cabeça, uma rainha. Ela soube depois, seu amado havia se sacrificado, vendeu a preciosa passagem para Europa e comprou o desejado e impossível presente. Ana Lúcia feliz, radiosa, mostrava a todos sua belíssima tiara. Qual mulher não fica louca de felicidade por uma loucura de amor?

Depois da missa se afastaram, ficaram conversando num banco da Avenida, quase deserta, com beijos e carinhos excitantes. Eram quase três horas da manhã quando a namorada convidou Bentinho para um passeio na praia, curtir as estrelas, noite escura de lua nova, molhando os pés na marola e sapatos nos dedos. Em certo momento abraçaram-se, ela devagar se sentou na morna areia, tomou-lhe a mão, puxando-o. Ele sentou-se ao lado e ouviu a mais bela declaração de amor.

“- Bentinho, eu lhe amo mais que tudo nesse mundo. Passei essa semana escolhendo um presente para você nesse Natal. Foi difícil, tudo que imaginava você merecia mais. Na hora de dormir ficava matutando, escolhendo o melhor presente. Pensei, refleti. Resolvi então lhe dar o que mais tenho de importante na vida, eu mesma. Nesse Natal quero lhe dar meu corpo, meu sangue, meu amor. Sei que você me ama, me respeita, também é tarado por mim. Meu presente sou eu, minha virgindade, minha vida. Quero ser sua, quero que me possua…”

Abraçaram-se na areia branca. Com muitos carinhos soltaram os desejos presos, lascívia cheia de ternura. O vento soprou em direção ao mar, apenas Yemanjá, os botos, as carapebas, tainhas, arraias, ouviram os gritos de dor e de gozo de uma rainha de tiara dourada.

Os dois ainda estavam deitados na areia, abraçados, quando o Sol apareceu como um Rei. Despontou no horizonte bem longe uma cabeça vermelha como se fosse uma criança nascendo. Nuvens brancas tornaram-se raiadas, alaranjadas, avermelhadas, o mar tremeluziu dourado. Uma luminosa manhã apareceu alegre despertando a cidade. Os amantes se levantaram, abraçados, descalços. Com os sapatos entre os dedos, cada qual a caminho de sua casa. Felizes.

Os raios de sol iluminaram na praia a marca encarnada de amor nos lençóis de areia branca, sangue e areia; sangue rubro impregnado na areia alva. Um dia bonito de verão surgiu; testemunhando uma história de amor. Uma História de Natal.

CHARGE DO SPONHOLZ

J.R. GUZZO

DISFUNÇÃO

A disfunção da atividade cerebral na política brasileira de hoje, como diriam os psiquiatras nas descrições sobre transtornos de comportamento, nos deixou na seguinte situação: a exemplo das ofertas de pasta de dente, se você é contra Bolsonaro, leva um Doria de brinde; e se você é contra a esquerda em geral, leva um Bolsonaro no pacote. A diferença, e aí vai uma bela diferença, é que a oferta da pasta de dente é opcional – só leva quem quer. Na política, hoje em dia, tornou-se obrigatória.

Ou seja: o cidadão tem de levar um Doria se quiser militar na “resistência” ao bolsonarismo, goste ou não goste, e tem de levar um Bolsonaro se não quiser que o PT, ou coisa parecida, volte a mandar no Brasil.

Não parece justo, mas aí é que está – a vida frequentemente não é justa. Fazer o que? Num mundo mais equilibrado, deveria ser aceitável que o cidadão não gostasse por igual de nenhum deles – já que parece impossível gostar dos dois ao mesmo tempo. Mas o mundo real da política brasileira não é equilibrado. Gente existe de sobra. O complicado é achar um que valha alguma coisa por si próprio – e não porque é, simplesmente, um antídoto contra o outro, ou a única alternativa considerada viável para evitar o chamado “mal maior”.

O resultado é que não se pode fazer quase nada sem sofrer efeitos colaterais. Por exemplo: se o sujeito faz alguma objeção ao fato de que a “vacina do Doria” até há pouco não tinha sido aprovada em nenhum país-estrela do primeiro mundo, ou mesmo do quarto ou quinto, é imediatamente acusado de ser “gado bolsonarista”.

Corrupção nas vendas sem licitação por conta da covid? Violação flagrante dos direitos individuais? Transformação do combate à epidemia em operação de marketing? Doria decreta a volta da “fase vermelha” e vai passar as festas em Miami? Não é mais possível apontar qualquer dessas aberrações sem incidir no delito de bolsonarismo explícito.

Qualquer restrição à alguma coisa feita pelo presidente da República, ao mesmo tempo, é automaticamente acompanhada da seguinte praga: “Então vota no Doria” – ou “no Haddad”, o que, francamente, não alivia nada. Assim fica difícil.

JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE