CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

FRED MONTEIRO – RECIFE-PE

Caro Berto..

Estou mandando mais um arquivo de áudio (ou AUDO, como diz o nosso querido e sábio povão. Desta vez é THE SOUND OF SILENCE, de Simon &¨Garfunkel..

Tocávamos demais essa música, no tempo em que música era MÚSICA e não rap, hiphop, passinho e outras baboseiras radiofônico-televisivas estimuladas pela globice escatológica global mariniana…

Haja Deus !!!

Aproveito para dedicar essa melodia, como diriam os altofalantes de cornetas nas festas de rua lá do Crato, onde nasceu o nosso amigo XICO BIZERRA, pelo seu mais novo lançamento literário PEQUENINAS HISTÓRIAS PARA GENTE PEQUENINA.

Vou procura-lo nas livrarias, pois avô de seis netos, sinto-me na obrigação de transmitir a eles literatura de bom gosto.

Forte abraço..

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

POLÍTICA NEOLIBERAL

Nesse Brasil de contraste o que mais vejo são críticas à política neoliberal como uma forma de atacar o projeto econômico de Paulo Guedes. O governo militar acabou com João Figueiredo e todo mundo acreditou no governo Tan credo Neves, porém bastou um “Pinote” para o presidente eleito no colégio eleitoral chegar ao além. Assumiu o grande estadista José Sarney cujo pensamento mais expressivo foi: “eu não pedi para estar aqui, então não vou pedir para sair”. Seu programa de governo foi lutar para ficar 5 anos no poder e do ponto de vista econômico foi responsável por quatro planos econômicos: Plano Cruzado (I e II) com Dilson Funaro, Plano Bresser Pereira e o Plano Verão, com Maílson da Nóbrega. Nenhum eficiente e todos fadados ao desastre.

Bresser Pereira, para mim, é o exemplo vivo da máxima de Fernando Henrique Cardoso “esqueçam o que eu escrevi”, porque seguramente ele esqueceu o que ensinava. A inflação era calculada entre o dia primeiro de dois meses consecutivos e o cara mudou a regra para calcular entre o dia 15 de dois meses consecutivos. Problema zero porque a data focal pouco importa quando se usa juros com capitalização composta. O problema é que o nobre professor “esqueceu” os 14 dias do mês que transcorreram e que já sinalava inflação de 26,02%, ou seja, uma inflação de 64,14% ao mês. O cara zerou essa inflação nos 14 dias e isso afetou a atualização do saldo do FGTS, da caderneta de poupança, etc. Resultado: o caso foi parar na justiça e as perdas que o governo teve foram pagas com aquela multa de 10% sobre o saldo do FGTS na demissão por justa causa.

FHC implantou, para os descerebrados, uma politica neoliberal. Ué! Tudo isso por o cara vendeu empresas públicas para atenuar o agravamento da dívida pública? Eu discordo muito do método: emprestar dinheiro do BNDES para os caras comparem e também acho que o valor das vendas poderia ser melhor, mas não discordo da ação: se dependesse de mim eu teria vendido muito mais. Com isso, os sindicalistas, que vivem da grana das contribuições dos funcionários, colocaram na cabeça dos inocentes que o neoliberalismo é danoso para economia e para a população. Veio o governo petista e em termos de política econômica não se observa uma linha sequer diferente do que FHC fez. O governo petista fez concessões, embora critique o governo anterior.

A Heritage Foundation publicou seu relatório/2020 de liberdade econômica no mundo. O Brasil ocupa o 144º lugar, superando países como Camarões, Etiópia, Zâmbia, Guine-Bissau, Argentina, Hiati, Angola, Libano, Kiribati (tem mais com tanta expressividade), mas os três últimos colocados são Cuba, Venezuela e Coreia do Norte. Com índice melhor do que o Brasil está Nepal, Egito, Togo, Afeganistão para não falar aqueles com qualidade de vida infinitamente melhor do que a nossa como Austrália, Suíça, Reino Unido, Dinamarca, etc. Muitos desses países sem a capacidade de recursos naturais que nós temos.

Aí, de repente, vem uma aluna, com 19 anos de idade, e me diz que a política neoliberal é uma praga. Eu pergunto: qual foi a sua experiência com algum governo neoliberal no Brasil? Cite as ações do governo neoliberal que você conhece e que afetou negativamente a economia brasileira. Vejam só: a garota está no terceiro período do curso, entende? Passam uma literatura doutrinária que só aponta um lado da história. O aluno, até por medo de contradizer o professor, acaba aceitando isso como uma verdade absoluta. Nas minhas disciplinas o aluno me contradiz o quanto quiser, enquanto se tratar de uma opinião, mas se ele disser que 2>4, vai precisar provar. Para abrir o debate eu peguei o relatório da Heritage Foundation e pedi para que eles pesquisassem os indicadores econômicos nos países que estão acima do Brasil e comparassem. Fizessem o mesmo com os países abaixo e verificassem de quem a gente está se aproximando.

Eu me acostumei a destruir babaquices com a teoria. Numa aula de Microeconomia e falei sobre como o monopolista determina o preço do seu produto e o custo social que ele gera com isso. Pedi exemplos de monopólio e a Petrobras foi mais citada. Na prova pedi para falarem sobre o monopólio na UNE na emissão de carteira de estudantes e comparassem com o que tinha sido debatido em sala. Foi hilário ver os protótipos de comunistas criticarem a UNE.

Atualmente, o governo brasileiro é exercido pelo STF. Paulo Guedes zerou impostos para importação de armas e munições e o ministro Fachin revogou. Paulo Guedes que vender estatais e Lewandowski defendeu que só com autorização do congresso. Que droga de liberdade é essa que o presidente eleito faz uma coisa e o STF desfaz? Caramba, já é um desastre a intromissão do executivo, agora, vem o judiciário para ditar normas? E pior ainda: as intromissões do judiciário são para atender demandas de partidos de esquerda. Só isso.

No dia do anúncio sobre a isenção de tarifas para importar armas, as ações da Taurus valiam R$ 17,70. No dia seguinte caíram 1,94%, no dia seguinte, caíram 1,29%, e numa semana acumulou uma queda de 10,56%. Fecho ontem a R$ 15,04, ou seja, uma perda de 15,06%. A empresa anunciou que iria investir mais nos Estados Unidos. Por mim, ótimo. Não é a arma da Taurus. Essa deve ser registrada no Sinarm – Sistema Nacional de Armas da Polícia Federal. O que me mete medo é o fuzil AK-47 e a submetralhadora com mira telescópica e capacidade para 100 tiros por minuto que se acham com facilidades nos morros cariocas, onde o próprio Fachin proibiu a polícia de fazer seu trabalho. Agora, imagina o sentimento de uma empresa estrangeira que se beneficia com uma decisão do governo, resolve investir no país, para um imbecil que só estudou Introdução à Economia usar a toga para mudar a decisão.

Eu torço bastante para que as pesquisas sobre o uso da inteligência artificial na área de direito avancem rapidamente. Precisamos trocar os robôs atuais por robôs que conseguem processar bilhões de operações por segundo. Acabaria a vergonha de ter processo como a Ação Civil Originária Nº 158, impetrada pelo sr. Benedito de Oliveira Louzada que tramitou na corte durante 50 anos. E seguramente, os robôs com inteligência artificial seriam imunes a partidos políticos.

DEU NO JORNAL

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O MEU IMPOSSÍVEL – Florbela Espanca

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!…

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!… Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto…

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

COLUNA DO BERNARDO

DEU NO TWITTER

ANA PAULA HENKEL

O CAMPO E AS TORRES DE MARFIM

Quantas vezes durante a nossa infância assistimos a filmes hollywoodianos que retratavam “o espírito da América” em clássicos de guerra ou “o sonho americano” representado por atores como John Wayne ou Clint Eastwood nos famosos westerns nas tardes e noites de sábado?

A América, além de patriota, é vista por muitos como defensora irrestrita da liberdade. Para outros, apenas uma nação imperialista e arrogante. No entanto, quem passeia com honestidade pela história dos Estados Unidos consegue entender que nem sempre o país foi uma potência. Houve décadas de sangue e fogo, lutas, glórias e derrotas. Ainda assim, e apesar de uma guerra civil que produziu marcantes cicatrizes, a nação preservou o espírito patriótico dos Founding Fathers – não só em 1776, ano da declaração de independência, mas durante todo o estabelecimento dos pilares institucionais. Algo único sempre moveu o povo à prosperidade. Um profundo respeito pela liberdade individual para o bem coletivo.

Embora o DNA do patriotismo não tenha se perdido desde a espetacular vitória contra a Grã-Bretanha – na época, uma grande potência militar -, a América sempre vivenciou diferenças políticas e sociais. Mas, diante de inimigos comuns, essas diferenças eram deixadas de lado. O povo norte-americano sempre reagia a tropeços históricos trazendo para a superfície a força de sua genética de bravura, luta e união. Frente a impasses que poderiam mudar a rota de seu excepcionalismo, a América sempre reagiu.

Para muitos historiadores, no entanto, os últimos anos da política norte-americana e a eleição presidencial de 2016 solidificaram uma divisão no país que foi iniciada com o bom-mocismo de Barack Obama. O nível dessa fragmentação pode ter sido registrado apenas durante a Guerra de Secessão, quando, em meados do século 19, os Estados Unidos viviam uma era de tremendo crescimento com uma diferença econômica fundamental entre as regiões norte e sul do país.

No norte, a manufatura e a indústria estavam bem estabelecidas, e a agricultura mantinha-se principalmente limitada a fazendas de pequena escala. Em contraste, a economia do sul era baseada num sistema de agricultura em grande escala que dependia do trabalho de escravos negros para o cultivo de culturas como algodão e tabaco.

O crescente sentimento abolicionista no norte após a década de 1830 e sua oposição à extensão da escravidão aos novos territórios ocidentais levaram muitos sulistas a temer que a espinha dorsal de sua economia pudesse quebrar. Forças pró e antiescravagistas lutaram violentamente de 1861 a 1865. Assim, no norte, nasceu uma nova entidade política baseada no princípio da completa objeção à extensão da escravidão aos territórios ocidentais, o Partido Republicano – a agremiação política de nomes como Abraham Lincoln.

As décadas se passaram e o norte tornou-se uma região cosmopolita, hoje com grande maioria de eleitores democratas. O sul, escravagista e fiel aos confederados, homens que compunham a massa do Partido Democrata na Guerra Civil, hoje é composto de fiéis eleitores republicanos que há muitos anos “votam vermelho”, a cor do partido.

As diferenças ideológicas foram recalibradas não apenas como áreas rurais ou urbanas – estabelecidas de maneira muito clara desde a concepção da nação – mas também no que diz respeito a questões como aborto, licença para porte de armas, impostos e política externa. Republicanos, no passado estabelecidos em áreas de grandes cidades do norte, hoje são demograficamente representados em milhares de cidades pequenas nas áreas rurais. O progressismo ficou nas costas, nos grandes subúrbios e nas áreas cosmopolitas.

E é exatamente aqui, mesmo ante a dificuldade de compreendermos o sistema eleitoral norte-americano, que entra a bela engenhosidade do Colégio Eleitoral. Durante a última eleição, vimos muitos jornalistas, por militância ou ignorância, tachar o sistema de elitista e antidemocrático. Ora, o que seria de Montana, West Virginia, Utah ou dos fazendeiros de Wyoming sem o sistema? Acabariam politicamente castrados e esmagados por Califórnia, Nova York, Boston e Filadélfia. A ideia de um colégio eleitoral, Estados que mandam seus representantes de acordo com a população, é considerada escandalosamente “injusta” e terrivelmente “antidemocrática” por acadêmicos e pela mídia. Como assim, um fazendeiro de Montana ter a mesma importância e a mesma voz na direção do país do que milhares de outros moradores colados no globalismo das cidades?

É preciso – sempre – ressaltar que a América não é uma democracia pura. A América é a ideia do republicanismo que salvaguarda exatamente as artérias da democracia, não permitindo que 51% de uma população cada vez mais urbana e amontoada nas costas progressistas crie leis sempre que desejarem sem considerar todo o resto do país.

Divisões ideológicas fazem parte do mundo há séculos, mas talvez a atual sociedade esteja testemunhando um dos períodos de maior animosidade no campo político. Em um palco cada dia mais polarizado, a dicotomia parece ter sido estabelecida como traço decisivo no cenário político não apenas dos Estados Unidos, mas em várias democracias ao redor do mundo. Posições individuais e da própria mídia são cada dia mais expostas – e a parte da imprensa que se traveste de “isenta”, mas doura pílulas diárias de militância progressista, afasta-se do coração da nação.

Em um momento político global de quebra de paradigmas e narrativas, no qual o monopólio da informação não mais existe, apesar das tentativas incansáveis das Big Techs de suprimir importantes notícias, fica cada dia mais evidente que muitos analistas e jornalistas ainda não conseguem entender a voz das áreas rurais, cada dia mais reverberante. O descolamento das chamadas “classes falantes” e elites progressistas do senso comum expressa a desconexão da realidade, o desprezo pela verdadeira ideia de democracia – felizmente professada pelos que teimam em não seguir suas ordens.

Parte dessa elite atual, formada em sua grande maioria por esquerdistas, impregnados com a autodenominação de justiceiros sociais, perdeu completamente o elo com o povo. O movimento, hoje percebido por qualquer pessoa que tenha acesso à internet, foi muito bem descrito no necessário livro The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy (“A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia”), do crítico social e historiador norte-americano Christopher Lasch.

Neste que foi seu último livro, publicado postumamente em 1995, depois de sua morte, em 1994, o sociólogo descreve um princípio da filosofia política identificado adiante, em 2016, no referendo do Brexit e na eleição de Donald Trump nos EUA e, em 2018, na vitória de Jair Bolsonaro no Brasil. Um movimento que, mesmo com a estranha eleição de Joe Biden, carregada de dúvidas e incertezas, mostra que pontos comuns entre grupos rurais e urbanos deixaram de ser a regra e, com raras exceções, perderam seu protagonismo e poder de união. As diferenças, hoje, falam mais alto.

“A Rebelião das Elites” é um ensaio impiedoso contra a atuação de alguns segmentos elitistas da sociedade e vem carregado de observações e dados esclarecedores, fundamentais em tempos de análises jornalísticas embasadas em pura “achologia”. Lasch mostra um movimento populista – muitas vezes iniciado em áreas rurais que celebram a meritocracia -, sem dar à palavra o tom pejorativo. O movimento consiste na tentativa de resgate da responsabilidade direta dos políticos perante a sociedade, principalmente com aqueles que não vivem nas bolhas urbanas, supostos grandes centros de justiça social.

O princípio político de Lasch é que as elites, que deveriam cumprir o papel de dar o exemplo moral e intelectual, se enclausuram em seus mundos ao ver suas vontades políticas não se concretizando. Assim, revoltam-se contra a própria sociedade civil. Exibem um comportamento similar à rebelião das massas que José Ortega y Gasset descreve no clássico livro da década de 1930 – o título do livro de Lasch, a propósito, é uma ironia ao também necessário Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset. O sociólogo descreve como essas elites foram se trancando em suas torres de marfim, manipulando e manobrando a informação e o conhecimento ao longo de anos. A brilhante provocação de Lasch é exatamente esta: as elites que deveriam nutrir e proteger as artérias democráticas acabam por trair a democracia (subtítulo do livro). Elas não conseguem disfarçar seus discursos tirânicos e autoritários.

O que pensa a intelligentsia – segundo Lasch, composta de partidos políticos, grandes veículos de comunicação, universidades e intelectuais – engloba uma série de opiniões unicamente enquadradas no que ela acredita ser melhor para todos. Todos. Inclusive os fazendeiros e moradores das áreas rurais de metade da América. Lasch é enfático ao descrever o comportamento como uma espécie de tirania que sufocou o cidadão comum. O nojo e o desprezo dessas elites aos milhões de fazendeiros e cidadãos de classe média que votaram em Trump, à classe trabalhadora que vota em conservadores para suas legislaturas estaduais, ficam mais latentes e impossível de ser mascarados com o forte movimento de adesão a pautas conservadoras, a verdadeira espinha dorsal norte-americana.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JAIRO SOUZA DA SILVA – BRASÍLIA-DF

Caro Berto, boa noite!

Um texto recentemente publicado no JBF sobre os 100 anos de Rogaciano Leite – de autoria do jornalista Nonato de Freitas – gerou uma nota na edição do dia 9/Dez/2020 do jornal Correio Braziliense, de Brasília.

Segue a nota, extraída do Blog do Ari Cunha (criado pelo saudoso jornalista Ari Cunha e editado por Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade):

R. Meu amigo Nonato Freitas, grande cronista e estudioso das coisas nordestinas, atualmente residindo em Portugal, me mandou o texto sobre Rogaciano Leite pelo zap, e este foi publicado na seção de cartas.

E aí a nossa postagem é citada e linkada no Correio Braziliense.

Não custa nada ressaltar que o Correio Braziliense é o maior jornal de Brasília, a mais antiga e tradicional publicação de lá.

De modo que esta gazeta escrota está sendo citada na grande mídia da capital federal.

É coisa pra cacete!!!

A notícia que nos foi enviada pelo leitor Jairo Souza, publicada no Correio Brasiliense, contém o link da postagem feita aqui no JBF.

De modo que os leitores do Correio tiveram acesso direto à nossa página.

O fubânico que quiser reler a matéria citada, é só clicar na ilustração que está aí em cima.

Daqui a pouco este jornaleco vai começar a ser citado no Globo, na Veja, na Folha, no Estadão e na Carta Capital.

E aí o JBF já vai poder concorrer ao Troféu Fundo do Poço!!!

“Eu mesmo leio o JBF todos os dias. Um jornal que está à minha altura”

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

J.R. GUZZO

UMA SEITA CHAMADA COVID

A obsessão de legislar sobre a covid e sobre todos os seus aspectos, uma espécie de ideia fixa cada vez mais próxima do estágio clínico, está levando o Brasil (vamos deixar de fora o resto do mundo; o Brasil já chega) a descer de olhos fechados em direção a uma tirania meia-boca, medíocre e ignorante, envenenada pela superstição com o carimbo de ciência e comandada por uma multidão miúda de pequenos governadores, pequenos prefeitos e pequenos mandarins com estabilidade perpétua no emprego, aposentadoria com salário integral e nenhum risco de pagar pelos desastres que provocam.

A covid, atiçada pelo pânico sem precedentes que provocou desde o seu início, entregou a essa gente toda um poder que nunca imaginaram ter, nem os eleitos nem os burocratas, inclusive a ventura de fazer compras sem licitação – e agora eles não querem mais largar o osso. Contam, para cumprir suas decisões ilegais e seus chiliques de despotismo subdesenvolvido, com a cumplicidade amedrontada da Justiça – sobretudo desembargadores e ministros dos tribunais superiores e do STF, que disputam entre si para ver quem obedece mais rápido às neuroses legaloides dos políticos. Aceitam tudo, validam tudo e, até agora, ao longo de dez meses inteiros de epidemia, não foram capazes de frear uma única ordem anticonstitucional baixada em nome da “preservação da vida”.

Da mesma forma, o Ministério Público, que entra em transe a cada vez que imagina ter diante de si a mínima contestação aos direitos de quilombolas, mendigos ou viciados em crack, não deu um pio, até agora, diante de violações flagrantes dos direitos individuais e das liberdades públicas cometidas para “combater a covid” e “seguir as recomendações da ciência”. Governadores e prefeitos estabelecem a Lei Seca, violam o direito de ir e vir, obrigam os cidadãos a fazer coisas não previstas em nenhuma lei e envolvem-se o tempo todo em episódios de corrupção – e o MP, quando não abaixa a cabeça ou apoia esses disparates, faz de conta que isso tudo está acontecendo no Congo Belga, e não no Brasil.

A maioria dos integrantes do Poder Legislativo engole com casca e tudo a ação dessa tirania de quintal – ou, então, eles se amontoam uns sobre os outros para embarcar no mesmo bonde, com projetos sem nexo algum e palavrório de apoio maciço aos atos mais agressivos de desrespeito às leis e à Constituição. As classes intelectuais, os que estão recebendo salário sem ir ao trabalho e as fatias superiores da sociedade engrossam essa sopa. Para completar, os veículos de comunicação agem como se fossem editados por uma cabeça só. Dedicam-se à defesa da “quarentena” como quem cumpre uma obrigação religiosa – publicam ou deixam de publicar informações e pontos de vista não em obediência a critérios jornalísticos, mas baseados na fé, ou, então, como militantes de um centro acadêmico. É uma espécie de morte cerebral.

Para se ter uma ideia, a imprensa passou a admirar qualquer decisão do governador João Doria, que até dez meses atrás era tido como um demônio só comparável ao presidente Jair Bolsonaro – chegou, até mesmo, a mostrar “compreensão” com o governador Wilson Witzel, escorraçado do palácio de governo do Rio de Janeiro sob acusações de roubalheira extrema. Mudou o sinal por um motivo só: Doria e Witzel passaram a ser aceitos como campeões nacionais da repressão em favor do “distanciamento social”. Na verdade, qualquer político esperto percebeu em dois tempos que o melhor jeito de se dar bem com a mídia, hoje em dia, é dizer que está de olho no vírus, botar uma máscara e sair por aí.

Todos os mencionados acima contam, enfim, com o apoio mais decisivo de todos: a passividade praticamente absoluta da maioria da população diante do furto de seus direitos. Aceitam-se o “distanciamento social”, os acessos de tirania marca barbante e a safadeza das “autoridades locais” como um muçulmano aceita o Alcorão – parece que estamos diante de uma espécie de “queda no sistema”, em que as pessoas abriram mão da capacidade de pensar e passaram a ouvir apenas os ruídos produzidos dentro de sua própria cabeça. É uma paralisação de anestesia geral, em que as vítimas se acreditam protegidas pelos reizinhos de esquina que lhes batem a carteira; estão vendendo sua liberdade a preço de banana, prontas a engolir qualquer coisa que venha da “autoridade” e dos seus médicos de rebanho.

Um dos efeitos mais perversos dessa trapaça em escala mundial tem sido a desordem que contaminou a palavra “ciência” – hoje uma das mais baratas de todo o vocabulário, pois qualquer um passou a encher a boca com ela a cada vez que pretende tirar proveito das oportunidades trazidas pela epidemia. “Estou a favor da ciência”, dizem autoridades, médicos e pesquisadores que pensam exatamente o oposto em torno de qualquer coisa relativa à covid-19, da estrutura molecular do vírus ao uso da cloroquina. A ciência deixou de ser o universo dos fatos e passou a ser uma questão de opinião – e, a partir daí, ficou liberada para o primeiro passante a utilização da palavra “ciência” na defesa de suas crenças ou de sua agenda pessoal.

Quando um médico diz que o vírus não pode fisicamente se transmitir a um toque no botão do elevador, por exemplo, e outro médico, no consultório ao lado, diz o contrário, ambos autorizam o paciente leigo a ter, ele também, sua própria opinião. Por que não? Se os médicos deram para dizer “eu acho”, e passaram a ouvir lições de infectologia dadas por repórteres de televisão portando máscaras design — bem, aí não dá para reclamar que o zé-mané também diga o que acha sobre a covid, a mutação de vírus ou a eficácia relativa das vacinas da Pfizer, da Oxford ou da chinesa “do Doria”. Os políticos e ministros do STF, do seu lado, ganham direito a legislar sobre ciência, os eclipses solares e a área do triângulo. É para onde a covid-19, sob aplausos gerais, acabou nos trazendo.