CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

LINDOMAR – BRASÍLIA-DF

Berto

Bertão

Grande Berto.

Peço sua gentileza de solicitar explicações dos especialistas e explicadores Fubânicos.

Se após assistir este vídeo irão a aceitar a picada da vacina.

DEU NO JORNAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PENINHA – TUPI PAULISTA-SP

Berto,

o tempo passa muito ligeiro para quem já ultrapassou os 70.

Eu, no meu caso, gostaria que o dia tivesse 48 horas para curtir o dobro do tempo essa belezura que é o meu netinho Enrico.

Parece que foi ontem que enviei para o JBF, as fotos do nascimento dele.

Hoje, 18 de dezembro, é o aniversário de um ano do Enrico.

Desejamos a ele muita saúde e que as bênçãos de Deus o mantenham protegido por toda a vida.

Feliz Aniversário Enrico!

R. Lembro muito bem de quando vocês nos deu notícia da chegada de Enrico, meu caro colunista fubânico.

Colocamos a postagem no ar no dia 19 de dezembro do ano passado.

Para rever, clique aqui.

Parabéns de toda a comunidade fubânica pra esse lindo garotão, no dia em que ele completa seu primeiro aninho.

E um grande abraço pro vovô coruja!

Você Peninha, que nos brinda diariamente com sua fantástica seleção musical aqui no JBF, diga pro Enrico que dedicamos pra ele esta composição com o histórico palhaço Carequinha.

Parabéns, sucesso, saúde, alegria e muitos, muitos, muitos anos de vida!!!

RODRIGO CONSTANTINO

ABRAHAM LINCOLN FOI CANCELADO!

Uma escola em São Francisco resolveu mudar de nome. Trata-se da Abraham Lincoln High School. O motivo? Segundo a pressão de militantes, o ex-presidente homenageado não demonstrava que a vida dos negros realmente importava para ele. O deputado federal Paulo Eduardo Martins desabafou: “Cancelaram Abraham Lincoln, o homem que acabou com a escravidão e foi assassinado por isso. O que ele fez não foi suficiente para satisfazer a militância. Não vai sobrar ninguém”.

E não vai mesmo. Para entender o motivo, antes é preciso mergulhar no que representa o movimento “woke” dos “justiceiros sociais” da era moderna. Aquilo que muitos tratam como chato ou infantil mascara uma ideologia totalitária perigosa. Sim, chega a ser uma piada de mau gosto às vezes. Mas é uma piada sem graça, pois ela tem e terá cada vez mais efeitos nefastos na vida das pessoas. Para reagir, é preciso compreender.

O socialismo está de volta, e mais uma vez em guerra contra o nacionalismo em geral e a América em particular. A tese é de Evan Douglas Sayet, um comediante e palestrante conservador. Sayet é o autor de The Kinder Garden of Eden, sobre como o “liberal” moderno pensa e por que ele está convencido de que a ignorância é uma bênção. Também é autor de The Woke Supremacy, um manifesto antissocialista. Para Sayet, a esquerda “progressista” é infantilizada, mas também muito perigosa. Ele acredita que essa guerra ficará mais sangrenta nos próximos anos, e tem bons argumentos para tanto.

Se existe uma coisa que o mundo deveria ter aprendido com a história recente é que não há como apaziguar o socialismo. O socialismo não para suas invasões, opressões, crueldades e atrocidades até que seja forçado a fazê-lo. Não há acordo possível com os socialistas. Em sua busca para criar o mundo perfeito que imaginam, eles não consideram nada sagrado além da causa e acreditam que nenhuma ação está além dos limites. Assim foi e assim sempre será.

Antes, vale fazer uma distinção: o socialismo trata da estrutura de dinheiro e poder; a ideologia é sobre como esse dinheiro e poder são usados. A ideologia tende a ter pouca influência sobre o comportamento, uma vez que o sistema socialista tenha sido adotado. Cada regime socialista teve uma ideologia que era pelo menos um pouco diferente das outras; e ainda, na prática, todos eles exibiram muitas das mesmas características horrendas.

Os polos Norte e Sul são literalmente opostos polares e, não obstante, são mais semelhantes do que diferentes. Os socialistas e comunistas demonizam o nazismo e o fascismo, mas todas são ideologias variantes do método socialista. Em vez de tentar negar o inegável, aqueles na esquerda de hoje tendem a argumentar que Hitler era o “tipo” errado de socialista. Hitler, dizem eles, era um “nacional”-socialista – com ênfase em seu nacionalismo -, enquanto os esquerdistas de hoje são socialistas “democráticos”, e nisso, insistem, reside toda a diferença.

O problema é que, embora existam grandes diferenças ideológicas entre o nacional-socialismo e o socialismo democrático, simplesmente não há diferença sistêmica entre os dois, segundo Sayet. Hitler queria governar o mundo todo. Pessoas que buscam o novo governo mundial são chamadas de “globalistas”. O que eles planejam fazer com o mundo pode diferir – e pode diferir muito – dependendo de sua ideologia, mas o desejo de controle mundial absoluto, em qualquer de suas formas, poderia ser chamado de “globalismo”. Ou seja, mudam os fins, mas permanecem os meios.

Em sua canção Imagine, John Lennon oferece os três requisitos para o paraíso comuns a todo movimento socialista: que não haja posses pessoais, nem países, nem religiões. Sayet explica o motivo. Sem posses, o indivíduo não tem recursos para enfrentar um governo tirânico. Sem nações, não há outros governos fortes o suficiente para desafiar todos os governantes globalistas; sem religião, não existe autoridade moral superior para revogar todos os ditames dos governantes, não importa quão flagrantes e imorais esses ditames possam ser.

Não há dúvida de que os meios usados ​​pelos socialistas anteriores eram infinitamente mais medonhos, mas seu propósito era o mesmo. Os gulags, os campos de morte e as câmaras de gás eram simplesmente as ferramentas mais tecnologicamente primitivas do que hoje chamamos de “Cultura do Cancelamento”. Eliminavam fisicamente o “pária”, enquanto hoje se elimina virtualmente, mas destruindo sua vida também.

Para o autor, a genialidade de Orwell está em sua presciência ao prever como a tecnologia se tornaria os novos gulags e câmaras de gás: uma forma menos sangrenta, mas muito mais rápida, mais barata e mais eficaz para a próxima geração de socialistas silenciar e enfraquecer todos os Outros, a fim de criar qualquer versão do mundo perfeito que fosse imaginada da próxima vez.

Nos últimos cem anos, tanto na teoria quanto na prática, o nacionalismo provou ser a única coisa que fica entre a liberdade e os horrores da economia socialista, a estrutura globalista e as práticas autoritárias e totalitárias exigidas para realizar essas coisas e mantê-las. Os socialistas abraçam um sistema em que um governo venerado possui tudo dentro de seu reino. É por isso que o brilhante Thomas Sowell intitulou uma de suas obras mais essenciais, que descreve a ideologia da esquerda de hoje, A Visão do Ungido.

O nacionalista acredita que a melhor, a mais eficaz, eficiente, moral e justa forma de organizar o planeta é por meio dos Estados-nações, onde os líderes locais, com conhecimento de primeira mão das realidades locais, criam políticas no melhor interesse dos cidadãos locais, que eles podem muito bem encontrar nas ruas. O socialismo democrático é apenas o mais recente movimento socialista com ambições de Um Só Mundo, buscando criar a sociedade perfeita de sua imaginação por meio de uma cultura do cancelamento dos dissidentes.

Em todos os movimentos de supremacia totalitária, a lealdade deve ser apenas, sempre e inteiramente à causa. Assim, mesmo o mais antigo, mais zeloso, mais amado e mais respeitado “guerreiro da causa”, seja essa causa o stalinismo, o nazismo ou o “progressismo” atual, está a apenas uma infração de ser odiado e também cancelado. Assim como a supremacia “woke” não pode permitir nem mesmo uma gota de dissidência de seus seguidores, pois dela pode surgir uma nova seita concorrente, também não pode reconhecer nem mesmo uma gota de decência no Outro. O Outro não pode ser reconhecido como uma pessoa de boa vontade que por acaso está errada.

Para intimidar esse Outro, os totalitários sempre contaram com seus soldados para o trabalho sujo. Os socialistas da Alemanha nazista os chamavam de “camisas marrons”; os democratas do Velho Sul os chamavam de “Ku Klux Klan”; e os socialistas democratas os chamam de “Antifa” e “Black Lives Matter” hoje. A verdadeira ameaça não são os 10% ou mais que são os crentes fanáticos ou os oportunistas, mas os outros 90% que aceitam, repetem e agem de acordo com suas narrativas.

Cada um desses movimentos socialistas sabe que, antes que possa criar o mundo perfeito de sua imaginação, ele deve primeiro destruir o mundo como ele é. Por essa razão, ninguém a serviço dos “wokes” será levado à Justiça, não importa quão hediondo seja seu crime, contanto que avance sua agenda de destruir o mundo como ele é. Seu plano é eliminar todos os erros do mundo, eliminando o reconhecimento do próprio certo e errado.

A grande divisão política na América hoje, segundo Sayet, não é mais entre o Norte e o Sul. Nem mesmo entre “Estados vermelhos” e “Estados azuis”. Na verdade, em todos os Estados de todas as regiões, a guerra cultural se dá entre aqueles que vivem ou trabalham nas cidades e aqueles que vivem e trabalham praticamente em qualquer outro lugar, os cosmopolitas que se enxergam como “cidadãos do mundo”.

Os que votam nos democratas são os muito ricos que se beneficiam por serem os planejadores, os engenheiros sociais, e os muito pobres que dependem deles. A penúltima coisa que os planejadores desejam é que os pobres passem para a classe média e deixem de precisar deles. A última coisa que querem é que fiquem ricos e se mudem para uma casa grande ao seu lado. Os democratas “woke” querem manter as “minorias” como eternas mascotes dependentes, eis a realidade.

O projeto é de poder. Um poder absoluto, total, capaz de limpar o passado e reescrever o futuro em páginas vazias. Não há espaço para o contraditório, para a divergência, ainda que de uma vírgula. O resultado está aí, nesse clima de polarização tribal, divisão, esgarçamento do tecido social e enfraquecimento das instituições. Existem apenas duas coisas em que uma pessoa racional pode acreditar, diante desses fatos: ou as políticas do Partido Democrata não funcionam, ou funcionam exatamente como os planejadores principais planejaram.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A GENIALIDADE DE JOÃO PARAIBANO

O grande poeta cantador João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952-2014)

* * *

Muitas cenas são revistas
Na hora crepuscular
O bico de um peito cheio
Proíbe um pagão chorar
A casca do fruto racha
A voz do silêncio é baixa
Mas dá pra Deus escutar.

* * *

É bonito o matuto se firmar
Num galão carregando duas latas
Um cachorro sentar nas duas patas
Convidando o seu dono pra caçar
Uma gata na boca carregar
Um filhote que nasceu sem a visão
Quando a boca se cansa põe no chão
Mas o dente não fere a sua cria
Deus pintou o sertão de poesia
Meu orgulho é ser filho do sertão.

* * *

Branca, preta, pobre e rica,
toda mãe pra Deus é bela;
acho que a mãe merecia
dois corações dentro dela:
um pra sofrer pelos filhos;
outro pra bater por ela.

* * *

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela.

* * *

O sol diminui os raios
Depois que a tarde se fecha
O vento carrega a folha
Da galha de um pé de ameixa
Sai dando tabefe nela
Depois se aborrece e deixa.

* * *

Toda noite quando deito
um pesadelo me abraça
meu cabelo que era preto
está da cor da fumaça
ficou branco após os trinta
eu não quis gastar com tinta
o tempo pintou de graça.

* * *

Fiz capitão na bacia
de feijão verde e farinha
quando o angu tava feito
mãe saía da cozinha
subia em cima da cerca
dava um grito e papai vinha.

* * *

Ainda lembro do cheiro
que minha mãe dava n’eu
da cor da primeira nota
que meu padrinho me deu
eu não peguei com vergonha
papai foi quem recebeu.

* * *

Quem vive numa prisão
leva a vida no desprezo
pede uma esmola a quem passa
nas mãos um cigarro aceso
pernas do lado de fora
e o resto do corpo preso.

* * *

Meu passado foi assim
comendo juá banido
o vento dando empurrão
no lençol velho estendido
com tanta velocidade
que mudava a qualidade
que a tinta dava ao tecido.

* * *

Vou pro meu sertão antigo
pra ver tapera sem centro
ver minha mãe na cozinha
cortando cebola e coentro
botando um prato no pote
pra não cair mosca dentro.

* * *

MINHA INFÂNCIA

Minha infância foi na casa
De três janelas da frente
A cruz de palha na porta
Lata de flor no batente
Um jumento dando as horas
E um galo acordando a gente

Catei algodão de ganho
Matei preá na coivara
Levei queda de jumento
Derrubei enxu de vara
De vez enquanto uma abelha
Deixava um ferrão na cara

Rodei mais de um cata-vento
Feito de lata amassada
Pegava mosca na mão
Depois matava afogada
Presa num lençol de nata
De um caldeirão de coalhada

Até rolinha eu criava
Em gaiola de palito
Piei mocotó de cabra
Quebrei perna de cabrito
O meu passado na roça
Foi pobre mais foi bonito

Fiz capitão na bacia
De feijão verde e farinha
Quando o angu estava feito
Mãe saía da cozinha
Subia em cima da cerca
Dava um grito papai vinha

Vi em oco de cortiço
Abelha entrando e saindo
Me escondi por trás de cerca
Para ver vaca parindo
E roubei açúcar da lata
Quando mãe estava dormindo

Um cinto de couro cru
Pai nunca deixou de ter
Mais educou cinco filhos
Sem precisar de bater
Bastava um rabo de olho
Para a gente lhe obedecer.

AUGUSTO NUNES

O PICADEIRO E A PANDEMIA

Como circo, não era lá essas coisas. No diminuto comboio de trailers viajavam o dono (e apresentador do espetáculo), dois trapezistas, um mágico com sua ajudante, um palhaço, dois ou três funcionários e um homem com cara de galã mexicano – o bigode fino e perfeitamente aparado combinava com o topete besuntado de brilhantina, cada fio de cabelo em seu lugar. Não havia globo da morte, jaulas com feras que faziam tudo o que mandava o domador, saltos sem rede embaixo, nenhum desses requintes de circo com nome estrangeiro. Mas uma atração adicional compensava quaisquer carências: na segunda parte da noitada era apresentada uma peça de teatro. Isso fazia a diferença e justificava o nome nas placas com luzes vermelhas penduradas sobre a entrada: Circo Teatro Irmãos Nogueira.

No começo da década de 1960, a trupe – que não incluía nenhum Nogueira, muito menos dois – andou ancorando em Taquaritinga uma vez por semestre, para temporadas de três semanas. Numa noite de 1961, com pouco mais de 10 anos, fui apresentado aos subúrbios do mundo de Shakespeare. Sentado no camarote do prefeito, vi ao lado do meu pai “Maconha, a Erva Maldita”, um drama com apenas três atores mas capaz de fazer chorar até o dentista mais temido da cidade. O protagonista era o homem com jeito de galã, no papel do filho viciado que infernizava a vida do pai (um dos trapezistas) e da mãe (a ajudante do mágico).

A procissão de horrores consumia quase integralmente os 30 minutos do enredo. E a indignação reinava entre os homens, e a choradeira banhava o rosto das mulheres na arquibancada. A cada tragada no cigarrinho maligno, lá vinham bofetadas na mãe, socos e pontapés no pai e outras brutalidades, anabolizadas por insultos, ofensas e blasfêmias. Em vão, os espectadores tentavam deter o moço enlouquecido berrando medonhas promessas de revide. Alheio aos protestos, ele continuava barbarizando em cena até o desfecho inesperado. Depois de um ligeiro sumiço por trás da cortina, o carrasco doméstico reaparecia enfim liberto do vício hediondo. Abraçados ao filho risonho e vestido com mais apuro, os pais festejavam o final feliz. Só então acabava o sofrimento da caipirada na plateia, que aplaudia enquanto enxugava cataratas de lágrimas.

Achei a coisa meio exagerada. Teatro era mesmo aquilo? Voltei na noite seguinte para concluir a avaliação do repertório reduzido a duas peças. A segunda era “Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Já vira a história no cinema, num filme mudo. Resolvi conferir a versão circense e acompanhar com especial atenção a performance do protagonista. O filho maluco de “Maconha, a Erva Maldita” também interpretava o filho de Deus. Eu já estava estendido no camarote quando soube que ele fora derrubado no meio da madrugada por uma gripe que o impedia de atuar naquele sábado. Ao despertar, o astro balbuciou o recado ao patrão: faltavam-lhe forças para encarnar o papel de Jesus. O patrão já se conformara com o cancelamento do espetáculo quando foi abordado por um exotismo municipal chamado Chicho Laize.

Muito doido, falante, audacioso, disfarçando a matreirice com a expressão abobalhada, Chicho colecionava façanhas que meio mundo conhecia. Sem profissão definida, vivia de bicos. O mais recente fora ajudar a erguer a lona e ajeitar as tralhas dos trailers, o que lhe bastara para comportar-se como amigo de infância da trupe. Todos (inclusive o dono) o tratavam pelo nome. Mas nenhum deles (inclusive o dono) sabia que Chicho era maluco.

Informado da defecção no elenco, foi falar com o chefe.

– O senhor sabe qual é a minha verdadeira profissão? – perguntou.

O silêncio do homem respondeu que não.

– Artista – revelou Chicho. – Artista de teatro.

– Você sabe fazer Jesus Cristo? – animou-se o patrão.

– É o papel que mais conheço – gabou-se Chicho.

Apeça de 20 minutos já começava no calvário. Quando a cortina se abriu, lá estava Chicho Laize carregando uma pequena cruz de madeira, escoltado por dois soldados romanos (os trapezistas) armados de chicote e Maria Madalena (a ajudante do mágico) com uma toalha na mão. Espanto na plateia. O soldado à direita do Cristo abriu a encenação com um insulto a Jesus e uma chicotada que colidiu com o palco-picadeiro a centímetros do pé do mártir.

– Cuidado que isso vai me pegar! – advertiu Chicho.

Risos na plateia. Mais alguns passos e ouviu-se o pedido ao soldado à esquerda do filho de Deus:

– Vem cá e me ajuda – disse o protagonista. – Essa cruz é meio pesada.

O romano a sua direita reagiu ao apelo com outro estalo de chicote. O terceiro golpe acertou a canela e acabou com a paciência do Cristo:

– Agora você me pegou, porra! Eu tinha avisado! Foi de propósito!

Gargalhadas na plateia. O dono do circo ordenou um intervalo de cinco minutos. Reaberta a cortina, vibração na plateia. Pendurado na cruz, cercado pelo Bom Ladrão (um dos soldados do primeiro ato) e pelo Mau Ladrão (o outro soldado), Chicho tinha um cigarro pendurado no canto da boca.

– Se és o filho de Deus, livrai-me desta cruz! – implorou o Bom Ladrão.

– Tá difícil – retrucou Jesus. – Mas vou ver se consigo falar com meu Pai.

O Mau Ladrão partiu para a provocação:

– És apenas um mentiroso sem poderes – desdenhou em tom debochado. – Se tens forças milagrosas, por que não te livras desta cruz?

Chicho caprichou na réplica:

– Cala a boca, ladrão! – ordenou. Em seguida, apontou o indicador esquerdo para o alto e berrou a ameaça: – Deixa que lá em cima nós acerta!

O acesso de ira fez o cigarro cair-lhe da boca. Uma pequena chama apareceu no sopé da cruz. Em vez de apagá-la com dois ou três sopros, o dono do circo convocou o elenco para combater o incêndio e avisou ao distinto público que o espetáculo chegara ao fim. No dia seguinte, a trupe partiu para nunca mais voltar. Atravessei a infância e o início da adolescência achando que teatro era aquilo. Descobri que não quando, já um marmanjo, vi em cena grandes atores e atrizes.

Recordo aquelas noites no circo e penso no pesadelo imposto às crianças pelo Brasil do coronavírus. Muitos milhares têm a idade que eu tinha quando achei que aquilo era teatro. A garotada guardará na memória e na alma o que viu, ouviu e teve de fazer no ano mais estranho. Há dez meses, essas crianças souberam que uma doença difícil de explicar exigia a troca da sala de aulas pelo computador instalado numa sala da casa. Que deveriam pedir a ajuda dos pais em vez de recorrerem aos professores. Que deixariam de brincar com os amigos e teriam de conformar-se com a companhia de irmãos (ou com a solidão). Que as visitas aos avós estavam suspensas até sabe Deus quando. Devem estar achando que um país é assim mesmo, que muitos pais e professores são assim mesmo, que todos os que mandam são assim mesmo.

Mas não deveria ser assim, descobrirão quando souberem o que efetivamente aconteceu em 2020. Então a Geração Covid entenderá que teve inutilmente confiscado um ano inteiro de vida. Para que o crime se consumasse, conjugaram-se uma boa parcela de professores orientados pela ideologia da preguiça, de diretores e donos de escolas movidos pela política do lucro, de pais e mães infectados pela epidemia de pusilanimidade estrábica, a soberba de jaleco e governantes que se dividem em duas tribos infames: a dos irremediavelmente incapazes e a dos capazes de tudo. Ambas só aceitam gente que não sabe o que são afetos reais. É compreensível que nenhum dos envolvidos na conjura perca o sono com as violências infligidas às crianças do Brasil.

A quarentena escolar brasileira é a mais extensa e intensa do mundo. Não foi a primeira geração de crianças traídas. Mas nenhuma foi tão cruelmente atraiçoada por tantos traidores.

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CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O NATAL DO CENTENÁRIO DA AVENIDA DA PAZ

As Capitanias Hereditárias foram a primeira medida reais de colonização tomada pelos portugueses em relação ao Brasil. Com as capitanias, foi implantado um sistema de divisão administrativa por ordem do rei português D. João III, em 1534. A América Portuguesa foi dividida em 15 faixas de terra, e a administração dessas terras foi entregue a cada um dos donatários. A capitania de Pernambuco em cujo território incluía a região que hoje é o Estado de Alagoas tinha como donatário Duarte Coelho que inicialmente preocupou-se apenas com Recife e Olinda. Os sabidos franceses com suas naus corsárias passaram por essa bela região e verificaram que era abundante em Pau Brasil. Construíram o Porto dos Franceses onde hoje é a belíssima praia do Francês, daí o nome, e ficou por mais de 40 anos roubando o Pau Brasil descaradamente e levando para Europa em suas embarcações de madeiras. Eles não construíram uma casa, não houve colonização francesa na região, era apenas roubo.

Tardiamente o donatário da capitania de Pernambuco se mancou, expulsou os franceses e construiu o povoado de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul, onde hoje é a cidade de Marechal Deodoro. O porto dos franceses foi aberto para o comercio. O povoado passou a vila em 1611 e depois os nomes da vila foram diminuindo para Alagoa do Sul, depois, apenas Alagoas. Quando em 1817 nossa província de emancipou politicamente de Pernambuco tomou o nome de Província de Alagoas com capital na cidade de Alagoas (hoje Marechal). Acontece que por volta do século XVIII veio a Revolução Industrial no mundo e as embarcações de madeiras, as naus, foram substituídas pelos navios de ferro, os vapores.

Quando esses vapores vieram comercializar em nossa região não podiam atracar no porto dos franceses, de madeira, muito frágil, entretanto, encontraram um ancoradouro natural em pedras dentro do mar fazendo uma curva na enseada de Jaraguá. Os grandes navios aportaram nesse ancoradouro e Jaraguá iniciou uma efervescência de desenvolvimento refletido na cidade de Maceió que teve um surto de desenvolvimento ficando maior que a cidade de Alagoas (Marechal). Em 1839 a capital da Província de Alagoas foi transferida para a cidade de Maceió, sob o protesto do povo da antiga capital, chegaram a planejar uma guerra para não deixar levar o grande cofre da Prefeitura. Maceió cresceu muito com dois núcleos populacionais: o bairro de Jaraguá e o povoado do Centro gerado de um engenho de açúcar construído onde hoje é a Praça Pedro II, em frente à Igreja da Catedral. Ligaram os dois núcleos urbanos construindo um aterro e a praia de Jaraguá passou a se chamar, praia do Aterro.

Entre 1914 e 1918 rebentou a 1ª Grande Guerra Mundial, Alagoas não foi à Guerra, mas, quando se deu o armistício, quando a guerra acabou em 1918, o então prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos festejou com a população a paz mundial na praia do Aterro com as Bandas Filarmônicas Santa Cecília e Carlos Gomes de Marechal Deodoro e muita cachaça. Um verdadeiro carnaval comemorando a paz entre os povos, a paz mundial. Naquela festa o prefeito prometeu a população que ali na praia do aterro construiria uma Avenida bonita à beira mar e daria o nome de Avenida da Paz. Como o prefeito era um homem de palavra diferente desses políticos de hoje em dia, construiu a bela Avenida Paz que foi inaugurada em 1920.

E nesse ano de 2020, a poeta, artista, produtora, Mirna Porto, com sua sensibilidade resolveu realizar o Natal do Centenário da Avenida da Paz, com uma festa belíssima, muita música, muita animação, claro que tomando todos os cuidados possíveis nessa época de pandemia, entre 15 de dezembro e 5 de janeiro. Está de parabéns a cidade de Maceió, a centenária Avenida Paz continua tão bela quanto em 1920 quando foi entregue ao povo. A festa do centenário está sendo realizada no coreto, que foi construído em 1928 pelo, então prefeito Jaime de Altavilla, e continua até dia 5 janeiro. Mesmo nesse tempo de pandemia, um bom Natal para todos maceioense e os agradecimentos a essa mulher forte, decidida, sensível, essa artista que já deixou seu nome na história da cultura alagoana, Mirna Porto.