GUILHERME FIUZA

CORRIDA DA VACINA: ANASTASIA SEM ANESTESIA

O senador Antonio Anastasia apresentou projeto (aprovado) dando à Anvisa 72 horas para deliberar sobre as vacinas contra a covid. Se esse prazo não for cumprido, será considerada concedida “autorização tácita” pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária para aplicação da vacina no Brasil. Vamos traduzir: autorização tácita quer dizer aprovação da vacina sem o exame da autoridade sanitária do país. Isso é um escândalo.

Não dá para saber se o empático senador calculou as possíveis consequências da sua pressa. Vamos ajudá-lo citando um trecho do documento entregue à Procuradoria-Geral da República por um grupo de mais de cem médicos e professores, liderado pela doutora Nise Yamaguchi e pelo professor de bioética Hermes Nery:

Os testes que estão sendo realizados (nesta data) para desenvolvimento de mais de 200 vacinas experimentais em todo o mundo são muito heterogêneos e muitos dependem de tecnologias emergentes – algumas delas com abordagens nunca testadas em seres humanos -, o que requer cautela e respeito aos Protocolos Técnicos de Segurança já consagrados para desenvolvimento de vacinas, os quais não foram, nos estudos em andamento, devidamente acatados no curto e médio prazos, visto que etapas de pesquisa e avaliação foram drasticamente encurtadas ou fundidas a outras.

Caso o senador apressado não tenha entendido o português claríssimo acima, vamos ajudá-lo: o desenvolvimento das vacinas contra a covid tem pulado etapas, e isso é perigoso para a saúde humana. Portanto, é preciso CAUTELA. Se ainda não ficou claro o tamanho do problema, vamos a outro trecho do documento:

A história do desenvolvimento de vacinas antivirais possui um recorde preocupante de reações indesejadas e fatais, como, por exemplo, a questão do desenvolvimento de vacina contra a dengue que causou em alguns casos uma forma mais grave da doença, a dengue hemorrágica; existem também relatos de diversos tipos de vacinas, como por exemplo contra a aids, que não conseguiu ainda atingir os requisitos para ser liberada, após anos de pesquisa, bem como relatos de efeitos adversos precoces e tardios e diversas síndromes vacinais que podem ocorrer com anafilaxia, reações imunológicas adversas e doenças autoimunes.

Ou seja: vacina pode matar. E mesmo assim o ilustre senador Antonio Anastasia, ex-governador de Minas Gerais, criou uma regra para aprovação de vacinas à revelia da autoridade sanitária. Quem sabe o que é bom para a tosse é ele. Então vamos continuar prospectando o que dizem os estudiosos para tentarmos avaliar, em menos de 72 horas, as possíveis consequências do arroubo sanitário deste legislador inquieto:

O Protocolo Científico e Bioético para Desenvolvimento de Vacinas preconiza que a aplicação de uma vacina experimental, mesmo quando já se obtiveram resultados de eficácia e segurança promissores em estudos clínicos, o seja inicialmente apenas em voluntários que possuam um perfil igual ao dos primeiros voluntários que participaram das fases até então testadas. A seguir, o acompanhamento clínico desse grupo deve ser feito por no mínimo um ano, para confirmação da persistência e duração da imunidade celular – a qual é mais duradoura e pode ou não ser permanente -, bem como verificar se houve reações adversas graves ou sequelas correlatas de médio prazo nessa população.

Resumo executivo para os apressados do gabinete: é requerido no mínimo um ano de acompanhamento de um primeiro grupo de receptores do imunizante para verificar reações adversas graves. O senador está passando por cima de tudo isso com sua ameaça de “autorização tácita” para vacinação indiscriminada da população. Anastasia declarou, como exposição de motivos para a cotovelada na Anvisa, que “a vida não pode esperar”. Com certeza a morte também não vai esperar a revisão desse processo irresponsável se ocorrerem reações adversas graves em organismos vulneráveis que tenham sido vacinados antes das devidas etapas de verificação.

Vamos completar esse debate sobre as consequências possíveis da demagogia em meio a uma crise sanitária citando outro trecho do documento enviado à Procuradoria-Geral:

Seria de fato uma temeridade e desrespeito à Saúde e aos Direitos Humanos expor milhões de pessoas a qualquer vacina experimental, mesmo que aparentemente segura e eficaz em testes clínicos, antes de se cumprirem todas as fases temporais de seguimento dos voluntários recipientes, em conformidade ao Protocolo Científico e Bioético de Desenvolvimento de Vacinas – internacionalmente praticado de forma consensual até o ano de 2019 – para avaliar os efeitos e sequelas que podem surgir em um ou dois anos, ou mais, razão pela qual o prazo médio de consolidação de vacinas para uso geral é de cinco anos. Como demonstrado por dezenas de exemplos da literatura científica, não se pode pular etapas naturais de avaliação de médio e longo prazos sem que vidas paguem por isso, como mostra a história das vacinas. Assim sendo, as vacinas, quando forem aprovadas pela Anvisa, deveriam continuar condicionadas a maiores e mais longos estudos e seus resultados clínicos e às novas informações que serão incorporadas aos dados obtidos até o momento, para a liberação gradual e seletiva da vacinação.

Esperamos que assim tenha ficado claro o tamanho da aventura na qual algumas autoridades querem lançar a população brasileira. E esperamos que essas autoridades estejam prontas para responder pelas eventuais consequências dos seus atos.

DEU NO TWITTER

DEU NO JORNAL

POR UMA CORTE CONSTITUCIONAL NO LUGAR DO STF

Modesto Carvalhosa

Somando-se aos inúmeros desacertos que vêm sendo catalogados na triste história do Supremo Tribunal Federal, a partir de 2016, quando a Constituição foi acintosamente rasgada na sessão de impeachment de Dilma Rousseff, outro grave incidente envolveu aquela Corte na primeira semana de dezembro de 2020. Encantados e profundamente gratos ao atual presidente do Senado, que engavetou pedidos de impeachment de que vários deles são alvo, os ministros conhecidos como “garantistas”, mais uma vez, afrontosamente, rasgaram a Constituição em seus votos para permitir a recondução do Sr. Davi Alcolumbre à presidência daquela Casa. Como ficaria muito feio que a inconstitucional reeleição beneficiasse apenas um dos potentados do Poder Legislativo, quatro ministros garantistas ainda estenderam o privilégio monárquico ao Sr. Rodrigo Maia, eterno ocupante da presidência da Câmara dos Deputados.

Tudo isso nas barbas do povo brasileiro, que no fim de semana mostrou, nas redes sociais, a sua profunda indignação e repulsa a essa ignomínia. A reação da sociedade foi de tal intensidade que os demais seis ministros se mobilizaram para, no próprio fim de semana, pôr cobro a essa vergonhosa conduta de seus colegas. Por 6 votos a 5, deixou – desta vez – de ser rasgada a Constituição, cuja guarda cabe exatamente àquela Corte.

O execrável episódio leva à reflexão a respeito de suas causas. Estaria o Supremo deslegitimado pelo fato de sucessivos presidentes da República haverem pinçado os ministros da mais alta Corte entre pessoas sem qualificação moral e sem suficientes conhecimentos jurídicos? Ou a causa estaria numa estrutura de poder exacerbado e sem nenhum controle outorgado pela própria Constituição de 1988 à Suprema Corte? Três fatores são centrais: nomeações de explícito caráter político; excesso de competências judicantes; e falta de controle dos atos dos ministros e do próprio STF. Ou seja, vários ministros são lacaios dos políticos, confiscam todas as competências dos demais tribunais do país, transformando o STF em fábrica de habeas corpus para políticos corruptos e para chefes de organizações criminosas. E, finalmente, o Conselho Nacional de Justiça não tem controle externo sobre o STF, sendo presidido e dirigido pelo próprio presidente da Suprema Corte.

Enfim, o Supremo Tribunal Federal não está submetido a nenhum órgão superior que controle os seus atos e os de seus ministros, não obstante as suas decisões sejam cada vez mais tendenciosas a favor da impunidade dos políticos e de seus asseclas, ao arrepio das normas constitucionais. Estas, quando não são simplesmente derrogadas pelas decisões monocráticas ou de uma das duas turmas, são interpretadas sempre a favor de determinados políticos da ocasião, como na decisão plenária sobre a prisão de condenado somente após trânsito em julgado (para favorecer Lula); o trancamento das atividades do Coaf (decretado por um presidente da Corte para favorecer a dinastia Bolsonaro); ou a remessa para julgamento pelos Tribunais Regionais Eleitorais dos processos-crime que envolvem os políticos corruptos não protegidos pelo foro privilegiado.

O rosário de decisões que desmoralizaram e continuam desmoralizando inteiramente o STF perante o povo brasileiro é imenso, devendo, a respeito, ser consultados os esclarecedores relatórios anuais da Transparência Internacional, ao nos atribuir as notas vexaminosas que nos colocam entre os países mais corruptos do planeta, a despeito de todas as revelações, prisões e condenações originadas da Operação Lava Jato.

A verdade é que os vícios do STF são estruturais e assim devem ser encarados.

Entendemos que deve ser instituída uma Corte Constitucional em substituição ao atual Supremo Tribunal Federal, cuja competência será a de decidir unicamente matéria de constitucionalidade. Não deve ser a nova Corte um foro de recursos de nenhum contencioso – civil, penal ou administrativo. Caberá à Corte Constitucional pura e simplesmente a competência declaratória da constitucionalidade ou não de lei, de atos normativos e administrativos. Ademais, qualquer cidadão poderá arguir essa questão constitucional, acabando-se com o atual monopólio dos partidos e das entidades pelegas do próprio Poder para arguirem essas questões de constitucionalidade.

Em consequência, ficarão suprimidas as demais competências do STF, que não mais poderá conceder habeas corpus, nem tratar de crimes atribuídos ao presidente da República e demais altas autoridades em face da supressão do foro privilegiado (que deve ser um dos demais requisitos estruturais necessários ao exercício das novas funções da Corte Constitucional).

Por conseguinte, nenhuma das competências extraconstitucionais outorgadas ao atual STF pela Carta de 1988, em seu art. 102, deverá prevalecer. A nova Corte, além da declaração da constitucionalidade das leis, deverá declarar, com repercussão geral, a prevalência dos tratados firmados pelo Brasil sobre normas constitucionais ou legais conflitantes ou incompatíveis com tais convenções, notadamente no tocante aos direitos humanos, ao meio ambiente e ao clima.

Propõe-se, ainda, que a Corte Constitucional seja formada por 11 ministros, com mandato de oito anos, cujos cargos serão preenchidos automaticamente pelos mais antigos membros do Superior Tribunal de Justiça, ou em rodízio pelos decanos dos três tribunais superiores (o STJ, o STM e o TST). Retira-se, dessa forma, a competência do presidente da República para nomear os ministros da mais alta Corte do país, providência essa que dispensa maiores justificativas, em face do descalabro que as nomeações políticas têm causado a todo o país pela errática atuação do atual STF. Além disso, o prazo máximo de oito anos de judicatura para os membros da Corte Constitucional atende, de um lado, à necessidade de permanente renovação dos seus quadros de magistrados e, de outro, permite a consolidação de uma experiência necessária para o exercício dessas relevantes funções de Estado.

E o Conselho Nacional de Justiça terá plena jurisdição administrativa, normativa, orçamentária, fiscalizatória e disciplinar sobre a Corte Constitucional. O CNJ será, para tanto, formado unicamente por promotores, advogados e auditores – deixando de ser composto de juízes, o que é uma aberração -, não mais sendo presidido pelo presidente da mais alta Corte.

Essas mudanças estruturais, ligadas à competência restrita, à nomeação automática sem interferência dos demais Poderes, ao prazo máximo de judicatura e à fiscalização externa pelo Conselho Nacional de Justiça, virão atender às necessidades de restaurar a legitimidade da mais alta Corte do país, hoje degradada por defeitos em sua constituição e consequente atuação.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE CANGAÇO

Valdir Teles (1956-2020)

Waldir Teles glosando o mote:

Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.

Quando morre um parente ou um amigo
Resta só lamentar, ninguém dá jeito
A tristeza se aloja em nosso peito
A angústia se apossa do abrigo
O seu corpo levado pra o jazigo
É seguido por uma multidão
Nem compensa apertar na sua mão
É inútil dizer não vá agora
Quando morre um alguém que a gente adora
Nasce um broto de dor no coração.

* * *

Chico Nunes glosando o mote:

A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

Vivo em eterna agonia
Sem saber o resultado
Deus já me deu o atestado
Pra eu baixar à terra fria.
Em volta só vejo o mal
Deste meio social,
E espero sozinho o dia
De minha hora derradeira…
A saudade é companheira
De quem não tem companhia.

* * *

José Lucas de Barros glosando o mote:

A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

Chico Motta viveu de cantoria,
Imitando as graúnas sertanejas,
Nos ardores de inúmeras pelejas
Que aprendeu a enfrentar com galhardia;
Seu programa, nem bem raiava o dia,
Acordava o sertão alvissareiro,
Mas, depois do seu verso derradeiro,
Que inda está, nas quebradas, ecoando,
A viola, em silêncio, está chorando,
Com saudade da voz do violeiro.

* * *

Pinto do Monteiro glosando o mote:

Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

Me lembro perfeitamente,
Quando em minha idade nova,
O meu pai cavava a cova
E eu plantava a semente.
Eu atrás, ele na frente,
Por ter força e mais idade,
Olhando a fertilidade
Da vastidão da campina,
Aquela chuvinha fina
Me faz chorar de saudade.

* * *

Severino Ferreira glosando o mote:

O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.

Sei que Pinto deixou como recinto
A Monteiro que é sua cidade
O Nordeste até hoje tem saudade
De um poeta pacato e tão distinto
Outro galo não faz mais outro pinto
Que seja poeta e verdadeiro
Se pegar a galinha no terreiro
E tentar fabricar o ovo “gora”
O Nordeste poético ainda chora
Com saudade de Pinto do Monteiro.

* * *

Jó Patriota glosando o mote:

A casa que tem criança
Deus visita todo dia.

Quando a criança adormece
A mãe já fraca do parto
Nos quatro cantos do quarto
Deus em pessoa aparece.
O Santo Espírito desce
Distribuindo alegria
Aquela rede sombria
Tem uma mão que balança
A casa que tem criança
Deus visita todo dia.

* * *

ANTONIO SILVINO , O REI DOS CANGACEIROS – Leandro Gomes de Barros

Antônio Silvino, Afogados da Ingazeira-PE, (1875-1944)

O povo me chama grande
E como de fato eu sou
Nunca governo venceu-me
Nunca civil me ganhou
Atrás de minha existência
Não foi um só que cansou.

Já fazem 18 anos
Que não posso descansar
Tenho por profissão o crime
Lucro aquilo que tomar,
O governo às vezes dana-se
Porém que jeito há de dar?

O governo diz que paga
Ao homem que me der fim,
Porém por todo dinheiro
Quem se atreve a vir a mim?
Não há um só que se atreva
A ganhar dinheiro assim.

Há homens na nossa terra
Mais ligeiros do que gato,
Porém conhece meu rifle
E sabe como eu me bato,
Puxa uma onça da furna,
Mas não me tira do mato.

Telegrafei ao governo
E ele lá recebeu,
Mandei-lhe dizer: doutor,
Cuide lá no que for seu,
A capital lhe pertence
Porém o estado é meu.

O padre José Paulino
Sabe o que ele agora fez?
Prendeu-me dois cangaceiros,
Tinha outro preso fez três,
O governo precisou
Matou tudo de uma vez.

Continue lendo

COMENTÁRIOS SELECIONADOS

UMA GAZETA QUE ACABA A SOLIDÃO E DÁ SENTIDO À VIDA

Comentário sobre a postagem UMA “LIVE” DA CAROCHINHA

Adonis Oliveira:

Meninos,,,

Antes de descobrir o JBF, eu vivia numa solidão de dar dó.

Parecia até cachorro que caiu de caminhão de mudança.

Eis que de repente, não mais que de repente, do nada, me surge pela frente uma multidão de cabras muito mais malucos do que eu.

Um nível de doidera que eu nunca jamais havia imaginado que fosse possível.

Com tudo que é confusão, brigas, baixarias, encrencas, porradas, xingamentos…

É bom demais fazer parte de uma confraria que reúne o que existe de mais representativo desse Brasil de malucos.

Até comunista parisiense tem.

Já pensou???

* * *

“O Jornal da Besta Fubana deu sentido à minha vida. Aleluia, aleluia!!!”

AUGUSTO NUNES

AUTÓPSIA DE UMA CHICANA

No recesso do lar, Gilmar Mendes usa linguagem de gente, diz frases inteligíveis e até encurta palavras. Sua mulher, Guiomar Feitosa, por exemplo, virou simplesmente Guio. Em retribuição, ela passou a chamá-lo de Gil. Além de economizarem duas consoantes e uma vogal, os apelidos têm um som mais carinhoso. Também os trajes caseiros são singelos. O Gilmar doméstico gosta da linha bermudão, camisa de mangas curtas, meias soquete e par de tênis novinho em folha. É esse o combo popularizado pelas fotos que o mostram zanzando por Lisboa, sempre perseguido por algum turista brasileiro com um celular na mão e um cacho de insultos na ponta da língua.

As coisas mudam quando está em ação o ministro do Supremo Tribunal Federal. Terno escuro e gravatas sombrias, óculos de primeiro da classe no grupo escolar, os instintos mais primitivos traduzidos nas caras e bocas desenhadas pelos lábios possantes, o centroavante rompedor do Timão da Toga faz bonito com seu repertório de jogadas repulsivas. Carrinhos por trás, gols de mão, cotoveladas no nariz do adversário, cravos da chuteira pisoteando braços de goleiro, pontapés no tornozelo – é vasto o repertório de lances abjetos assimilados pelo bacharel em Direito nascido em Mato Grosso que ganhou do presidente Fernando Henrique Cardoso uma vaga no STF. Foi a recompensa pelos serviços prestados aos chefes e amigos no comando da Advocacia-Geral da União.

A toga que o cobre adverte: sai Gil e entra no Pretório Excelso o Eminente Ministro Gilmar Mendes, o Maritaca de Diamantino, o Gerente-Geral da Fábrica de Habeas Corpus para Culpados, o Morubixaba da Segunda Turma, o Juiz dos Juízes, o Doutor em Tudo. Muda o dialeto. Nos votos, troca “proibição” por “vedação”, “caminho” por “senda”, “proteger” por “albergar”. Nada acontece contra alguém, mas “em desfavor de”. Nenhum assunto é discutido: está “em comento”. Ao latinório e ao juridiquês castiço, Gilmar adiciona citações de juristas alemães e trechos em inglês sem tradução. No fim do texto impenetrável, o superministro condensa o espetáculo da arrogância em três palavras: “É como voto”.

Essa é a última linha do inverossímil palavrório em que Gilmar Mendes tentou provar que é inconstitucional o trecho da Constituição que proíbe a reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado. As 64 páginas caberiam na seguinte frase: “Para que não haja perigo de melhorar, vamos manter onde estão o Rodrigo Maia e o Davi Alcolumbre”. Ao optar por um calhamaço que funde todos os truques, trejeitos e trapaças que marcam seu estilo, Gilmar ministrou uma aula magna de tapeação. E produziu um documento que merece figurar como fecho glorioso de uma História Universal da Chicana.

Chicana, explicam os dicionários, é um substantivo feminino que significa “processo artificioso, abuso de recursos e formalidades em questões judiciais; querela de má-fé, cavilação; ardil, sofisma”. O voto de Gilmar é tudo isso – e mais um pouco. O objetivo era jogar no lixo o parágrafo do artigo 54 que fixa em dois anos o mandato dos membros das mesas do Congresso, “vedada a recondução para o mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente”. Para deixar claro que não é bem assim, o ministro da defesa de bandidos faz uma viagem no tempo e no espaço que tem vaga assegurada na mais exigente Antologia das Discurseiras de Porta de Cadeia.

O voo do Maritaca de Diamantino começa pelo Parlamento britânico, faz uma escala nos Estados Unidos, avança para a Espanha renascida das cinzas da ditadura de Francisco Franco, recua para os tempos do imperador Pedro II, sobrevoa a República Velha, ameaça pousar no Brasil dos anos 50, arremete ao topar com a ditadura militar instaurada em 1964 e acaba reduzido a destroços pela colisão com os fatos. Segundo Gilmar, todos os regimes e épocas provam que não há democracia sem reeleição no Legislativo. E por que não no Brasil? Porque a Constituição de 1988 incorporou um entulho autoritário legado pelos generais-presidentes, mais especificamente por Artur da Costa e Silva. Foi o pai do Ato Institucional nº 5 quem resolveu livrar-se de parlamentares que, na chefia das casas do Congresso, viviam colocando pedras no caminho dos liberticidas. Gilmar louva sobretudo dois heróis da resistência: o senador paulista Auro de Moura Andrade e o deputado mineiro José Bonifácio Lafayette de Andrada.

Haja safadeza. Quem conhece a História aprendeu que foi Auro quem, em 2 de abril de 1964, declarou vaga a Presidência da República porque João Goulart deixara o país sem autorização do Legislativo. Até o gramado da Praça dos Três Poderes sabia que João Goulart estava em Porto Alegre. O descendente de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, era o presidente da Câmara em 13 de dezembro de 1968, a sexta-feira em que foi decretado o AI-5. Zezinho Bonifácio apareceu no plenário para avisar que o Congresso entraria em recesso por tempo indeterminado. Irritado com a tranquilidade do presidente, o deputado Celso Passos, do MDB mineiro, berrou o desafio: “Seja mais Andrada e menos Zezinho”. O desafiado preferiu a segunda opção: olhou na direção de Passos, fechou o punho direito, cruzou os braços e revidou com uma “banana”.

Entre uma mentira e um soco na verdade, Gilmar infiltra citações dos atuais ministros do Supremo que nada têm a ver com o caso da reeleição. Todos menos Marco Aurélio Mello. A exceção faz sentido. Marco Aurélio é o atual decano. E Gilmar herdará o posto em julho de 2021, com a aposentadoria do ministro indicado pelo primo Fernando Collor. Aos olhos do Maritaca de Diamantino, Marco Aurélio é um interino que exerce imerecidamente as funções do Pavão de Tatuí. A autópsia da chicana disfarçada de voto informa que Gilmar Mendes já está treinando para entrar na história como o pior decano de todos os tempos.

DEU NO TWITTER

DEU NO JORNAL

A CANHOTA NOS ARES

* * *

Os gastos estão na ordem decrescente zisquerdal certíssima: PSOL, PCdoB e PT.

Eu só fiquei curioso pra saber se nestas fantásticas somas, feitas com dinheiro público, estavam passagens pra Paris ou Nova Iorque.

Isto a notícia não esclarece. Vou perguntar pra Manuela.

Bom, o que importa mesmo é o seguinte:

Tá confirmada a afirmação do nosso estimado colunista Goiano: depois que Lula assumiu o poder, os pobres passaram a comer iogurte e a andar de avião.

Como estes três partidos, Psol, PCdoB e PT, além de pobres, paupérrimos, também defendem os miseráveis, a teoria do nosso colunista está sobejamente comprovada.

Os pobres estão nos ares!!!

Pobres viajando de avião: uma conquista dos governos petistas que Bolsonaro extinguiu

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ DOMINGOS BRITO – SÃO PAULO-SP

Caro Berto

Em comemoração ao centenário de Clarice, podemos oferecer aos leitores do JBF sua primeira e a última entrevista.

Está na minha página Tiro de Letra.

Para acessar, basta clicar aqui.

Abraços

A PALAVRA DO EDITOR

UMA GAZETA ESCANCARADA

Foi publicada na seção de cartas desta gazeta escrota mensagem de um leitor do Rio de Janeiro perguntando se podia mandar seus textos pro JBF.

Como aqui se publica de tudo e de todos, eu respondi que era só enviar o material.

Ao prestar atenção no nome do remetente, que se dizia jornalista, vi que coincidia com o nome de um deputado estadual fluminense.

E, pra tirar a dúvida, mandei uma mensagem perguntando se era ele mesmo que estava exercendo um mandado na Assembleia Legislativa do Rio.

Vou transcrever do jeito que ele me respondeu:

Estou sim, Berto.

A generosidade do povo fluminense me fez o deputado estadual com o maior número de mandatos do país: treze.

Comecei em 1970, no antigo Estado da Guanabara. São 50 anos de vida pública.

A propósito, tenho aproveitado alguns artigos do nosso Besta Fubana no meu programa diário na Rádio Bandeirantes (que se chama ‘Reclamar Adianta’)

Seu blog é minha leitura obrigatória bem cedo.

Aceite o abraço grato desse carioca que lhe é credor da mais genuína admiração

Átila Nunes

PS: Meu filho está no 3º mandato de vereador no Rio. Como você sabe, nossa família é muito, digamos, criativa em matéria de nomes: meu pai se chamava Átila Nunes e me deu o nome de Átila Nunes.

Meus dois filhos (um, infelizmente, já falecido) receberam o nome Átila Nunes.

Meus netos, idem (Átila Nunes virou sobrenome).

Quem escapou foi a cachorrinha de estimação Beagle aqui de casa. Ela escapou por pouco de ser batizada de Lola Átila Nunes…

Vocês viram? Pois é.

Tô fazendo esta postagem só pra me amostrar.

Uma excelência estadual fluminense, que é declaradamente leitor diário e fiel – um cabra bem humorado e irônico -, pedindo espaço neste blog imundo.

Fiquei ancho que só a peste!

Alguns leitores já fizeram comentários baixando a lenha no fubânico parlamentar.

Nada de novo ou anormal. Tudo conforme a rotina e o regulamento deste espaço aberto e democrático, onde cabem todas as opiniões, tendências e gostos.

Disponha sempre, Deputado Átila Nunes.

O espaço é todo seu.

E prepare o lombo pra levar cacetada!

Elogios são mais difíceis, mas também podem aparecer.

Aproveito a oportunidade pra dizer o seguinte:

Atenção, senhores políticos do Brasil inteiro, de vereador a senador: estamos às ordens de todos vocês.

Só espero não receber este mesmo tipo de solicitação vinda de Maia ou de Alcolumbre.

Ou de Doria…

Aí já seria demais!!!

Vôte!!!