AUGUSTO NUNES

UM ASSASSINO PREMIADO COM A BOLSA DITADURA

Clemente (foto maior) e Márcio Leite de Toledo (destaque)

Márcio Leite de Toledo, paulista de Bauru, tinha 18 anos quando se engajou na Aliança Libertadora Nacional, organização de extrema esquerda fundada pelo terrorista Carlos Marighela. Tinha 19 quando foi enviado a Cuba para diplomar-se num curso intensivo de guerrilha. De volta ao Brasil em 1970, tinha 20 quando se tornou um dos cinco integrantes da Coordenação Nacional da ALN. Então com 19 anos, fazia parte do quinteto Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, o “Clemente”. Da mesma forma que o Paz da certidão de nascimento, o codinome Clemente contrastava com a alma perversa de um devoto da violência.

Em outubro de 1970, numa tensa reunião secreta, os componentes da Coordenação Nacional debateram o que fazer diante do assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, o Velho, que 11 meses antes substituíra o chefe supremo Marighela, fuzilado numa rua de São Paulo por um grupo de policiais liderado pelo delegado Sérgio Fleury. Convencido de que a ALN avançava com celeridade para a extinção, Márcio propôs aos parceiros do alto-comando uma pausa na guerra desigual. E pediu permissão para deixar o Brasil por alguns meses.

Clemente demorou dois segundos para concluir que Márcio era um desertor prestes a traí-los. Demorou duas horas para decidir que o companheiro pretendia entregar-se à polícia da ditadura e contar o muito que sabia. Demorou dois dias para convencer o restante da cúpula a avalizar seu parecer. Demorou um pouco mais para, com o endosso dos parceiros, montar um tribunal revolucionário, propor a pena capital e aprovar a sentença que, aos 20 anos, ajudou a executar numa rua de São Paulo.

Convocado para o que lhe parecia uma reunião de rotina, Márcio foi para o encontro com a morte no fim da tarde de 23 de março de 1971. Antes de sair do apartamento que lhe servia de esconderijo, o condenado que não tivera o direito de defender-se, e nem de longe suspeitava da tocaia, deixou um registro manuscrito: “Nada me impedirá de continuar combatendo”, prometeu-se. Não imaginava que fora proibido de continuar vivendo. Assim que chegou ao ponto combinado na região dos Jardins, foi abatido a tiros. Alguns foram disparados por Clemente, admitiu muitos anos mais tarde, numa entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, o terrorista em recesso.

O vídeo abaixo reproduz o trecho da conversa que transforma Clemente em assassino confesso. “Então nós fomos lá e cumprimos a tarefa”, diz o carrasco depois de resumir a decisão do tribunal revolucionário composto de três juízes com pouco mais de 20 anos de idade. “Você participou diretamente da execução, então?”, pergunta Geneton. Clemente assume a autoria do crime com a placidez de quem recita uma receita de bolo: “Essa é uma informação que até hoje eu não dei e, na verdade verdadeira, eu não dei também porque ninguém teve essa atitude de chegar e me perguntar diretamente”, divaga no preâmbulo com a expressão de coroinha que nunca roubou o vinho da missa. E então vai ao que interessa: “Participei, sim, da ação. A tiros… a tiros…”

Formada para vasculhar as catacumbas da guerra fria ocorrida durante o regime militar, a Comissão da Verdade dividiu os personagens do universo que lhe cumpria devassar em torturadores a serviço da ditadura e heróis da resistência. Uns merecem o fogo do inferno. Outros, a gratidão do país (e uma Bolsa Ditadura de bom tamanho). Em qual dessas categorias deveriam ser enquadrados Carlos Eugênio Coelho Sarmento da Paz e Márcio Leite de Toledo? O algoz pode alegar que a execução de um dissidente que também combatia a ditadura militar foi um acidente de percurso? Essa espécie de homicídio também foi anistiada? A família da vítima de um crime que o Estado não cometeu pode figurar na relação dos indenizados?

“O que quer o jornalista Augusto Nunes quando publica um artigo como este?”, quis saber o homicida aposentado em novembro de 2008, quando tornei a exumar o episódio infame. Muito simples: queria deixar claro que não há nenhuma diferença entre o torturador que matou Vladimir Herzog e o terrorista que executou Márcio Leite de Toledo. Ambos são assassinos. A Comissão da Verdade discordou. Márcio ficou fora da lista de mortos e desaparecidos divulgada no relatório final. Clemente ficou fora da relação dos responsabilizados por violências contra inimigos do regime. O assassino foi absolvido. A condenação ao esquecimento perpétuo consumou o segundo assassinato da mesma vítima. Os sherloques do passado, diplomados na escola do cinismo, decidiram que um terrorista podia tudo. Até matar o companheiro de luta armada. Haja canalhice.

Em 2010, candidato a deputado federal pelo PSB do Rio, Carlos Eugênio Coelho Sarmento da Paz juntou o prenome de batismo ao codinome “Clemente”, adotado pelo antigo militante da ALN, expropriou o título de “Combatente da Guerra e da Paz” e foi à luta no horário eleitoral da TV. Como o tempo era curto, Carlos Eugênio Clemente espalhou pela internet um perfil resumido: Um dos mais valentes e temidos líderes da Ação Libertadora Nacional, homem de confiança de Carlos Marighella, o líder daquela organização. Temidíssimo pela repressão por sua coragem, furou mais de cem cercos à bala, matou pelo menos seis militares em seus confrontos nas ruas e um empresário que colaborava financeiramente com a tortura. Hoje é professor de música da UFRJ.

Faltou dizer que o professor de música já não precisava trabalhar. Graças à indenização concedida pela Comissão de Anistia, sobraram horas ociosas para a campanha. O que faltou foi voto: conseguiu apenas 567. “Eu só tive alguns segundos na televisão”, balbuciou o náufrago das urnas. A campanha serviu ao menos para mostrar que o pupilo de Marighella aprendeu com o mentor “a beleza que há em matar com naturalidade”. O serial killer dos anos 70 sempre acreditou que “ser terrorista é motivo de orgulho”. Ao morrer, em junho de 2019, o alagoano nascido em 1950 desfrutava em Ribeirão Preto da vida mansa que lhe garantira a decisão anunciada na portaria número 34 de 3 de fevereiro de 2010:

Declarar CARLOS EUGENIO SARMENTO COELHO DA PAZ, portador do CPF nº 022.477.858-75, anistiado político, reconhecer o direito as promoções à graduação de Terceiro-Sargento com os proventos da graduação de Segundo-Sargento e as respectivas vantagens, conceder reparação econômica em prestação mensal, permanente e continuada no valor de R$ 4.037,88 (quatro mil, trinta e sete reais e oitenta e oito centavos), com efeitos financeiros retroativos da data do julgamento em 13.08.2009 a 14.08.1998, perfazendo um total de R$ 577.416,84 (quinhentos e setenta e sete mil, quatrocentos e dezesseis reais e oitenta e quatro centavos), nos termos do artigo 1º, incisos I e II, Parágrafo Único da Lei nº 10.559 de 13 de novembro de 2002.

Se estivesse vivo, o assassino que encerrou sem arrependimentos nem remorsos sua torpe passagem pelo planeta estaria assinando manifestos em defesa da democracia. Mas não haverá outro Clemente. Assim como os Buendía de Cem Anos de Solidão, também um crápula condenado a 50 anos de abjeção não terá uma segunda chance sobre a terra.

DEU NO JORNAL

UM DOS DOIS TÁ MENTINDO

* * *

Estas duas notícias aí de cima são recentes.

A da esquerda é do último dia 15, publicada na página Brasil 247.

E a da direita é de hoje, sexta-feira, bem fresquinha, publicada na Exame.

Duas notícias que se chocam.

Ou Maia está certo e a pesquisa Exame está errada, ou então é o contrário. 

É uma coisa ou outra.

São duas informações mutuamente excludentes.

Segundo o levantamento da Exame, se for somado aos 41% de Ótimo os índices de Bom e Regular, o total pró-Bozó chega a 68%.

Por conta desse impasse, é a segunda vez hoje que vou apelar pro Ceguinho Teimoso, o fubânico que tudo investiga e tudo desvenda.

Peço ao caro Ceguinho que clique na manchete abaixo e leia a matéria completa.

E que, por favor, me diga quem está mentindo e quem está falando a verdade.

Fico no aguardo.

Agradeço, mais uma vez, a atenção que tenho certeza irei receber do nosso confrade.

PERCIVAL PUGGINA

“QUERIDES ALUNES”

Chamou-me a atenção a notícia de que o Colégio Franco-Brasileiro, tradicional educandário carioca, passava a adotar a linguagem de gênero neutro nas comunicações formais e informais. O motivo desse pega pra capar ideológico é dado pela conjugação do feminismo radical com o movimento LGBTQI et alii na sua guerra contra o macho da espécie.

Em nota pública dirigida à comunidade escolar, o colégio disse:

“Querides alunes. Renovando diariamente nosso compromisso com a promoção do respeito à diversidade e da valorização das diferenças no ambiente escolar, tornamos público o suporte institucional à adoção de estratégias gramaticais de neutralização de gênero em nossos espaços formais e informais de aprendizagem”.

Embora a nota da escola pareça extraída de uma assembleia de militantes, seu inteiro teor informa que ela não “configura a obrigatoriedade da adoção da estratégia” porque “a normatividade linguística de neutralização de gênero (…) ainda evidencia certa restrição a esses usos”. Ou seja, a boa gramática ainda não foi para o lixo seco. Mas também fica claro o objetivo a ser perseguido. Afinal, diz, “a marcação neutra de gênero compareceu a diversas categorias gramaticais no passado de nossa língua” e “o uso da língua reflete as mudanças pelas quais a sociedade passa”. Abusam da História.

Enquanto conto até 10 vou decidindo saltar a fase dos presumíveis adjetivos, inclusive alguns muito corretamente aplicáveis ao caso. Então, vamos aos fatos. Além do Congresso Nacional, quase todas as Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores do país decidiram excluir a ideologia de gênero de seus planos de Educação. À época em que o tema foi objeto de acaloradas discussões, eu afirmei que para os grupos feministas radicais e para os radicais do movimento gay aquela sucessão de democráticas derrotas legislativas estava longe de significar que o assunto se esgotava. Eles manteriam o objetivo que, em última análise, não pode dispensar a sala de aula. Não pode prescindir do domínio das mentes infantis.

É sobre isso que o Colégio Franco-Brasileiro confabula e é para proteger as crianças disso que nos mobilizamos nacional e localmente contra a introdução da ideologia de gênero nas escolas através dos planos de educação. Levar uma criança ou uma escola inteira a falar de modo incompreensível o vasto vocabulário do “dialeto” de gênero, em construção, exige penetrar no que lhe dá causa: o ideológico e perigoso território do gênero. E o que é pior, do gênero que, ou se escolheria nas circunstâncias do cotidiano, como a echarpe de cada noite, ou na construção do coletivo, por reconhecimento da tribo.

O produto colhido por essa perversidade serão homens não masculinos, inadequados às mulheres que continuarem sendo femininas.

A PALAVRA DO EDITOR

UMA LISTA MUITO GRANDE

Recebi as informações abaixo do leitor Paulo Demétrio Veras, residente em Cariacica-ES.

Recebi a mensagem dele e fiquei abismado.

Abismado e em dúvida:

Será que as informações que ele me mandou são verdadeiras?

Trata-se de uma lista com vários itens que relacionam as prisões de figurões nos governos petistas.

Vou apelar pro nosso estimado fubânico Ceguinho Teimoso, o pesquisador que fuça tudo, investiga tudo e tudo descobre.

E, principalmente, que sabe o que é mentira e o que é verdade (esse negócio de feiquinius é coisa de baitola…).

Me diga, Ceguinho, estas informações que o leitor mandou, são verdadeiras???

E tem mais um detalhe de suma importância:

Em sendo verdadeiras, com certeza foram prisões ilegais, injustas e sem base em qualquer evidência.

Gostaria que você me mostrasse a injustiça e o erro que foram cometidos em cada um dos itens abaixo relacionados.

Agradeço antecipadamente a atenção que, tenho certeza, irei merecer de você!!!

O presidente da Petrobras no governo do PT, foi preso;

– O presidente dos Correios no governo do PT, foi preso;

– O presidente do Banco do Brasil no governo do PT, foi preso;

– O presidente da Eletrobras no governo do PT, foi preso;

– O presidente da Nuclebras do governo do PT, foi preso;

– O presidente da Valec do governo do PT, foi preso;

– O presidente da Caixa Econômica Federal do governo do PT, foi preso;

– O presidente do BNDES do governo do PT, foi preso;

– 3 presidentes do PT, foram presos;

– 3 tesoureiros do PT, foram presos;

– 5 secretários do PT, foram presos;

– O líder do PT na Câmara dos Deputados, foi preso;

– O líder do PT no Senado Federal, foi preso;

– A presidente da República do PT sofreu impeachment, perdendo o cargo;

– O ex-presidente da República do PT foi preso;

Um dos vários membro da alta cúpula do PT que foram pra cadeia, o Tesoureiro João Vaccari Neto, escoltado pela Polícia Federal rumo ao deprimente cárcere onde iria cagar de cócora

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A GENIALIDADE DE IVANILDO VILANOVA

O Poeta pernambucano de Caruaru Ivanildo Vilanova, um dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade

É o céu uma abóbada aureolada,
Rodeada de gases venenosos,
Radiantes planetas luminosos
Gravidade na cósmica camada!
Galáxia também hidrogenada,
Como é lindo o espaço azul-turquesa
E o sol, fulgurante tocha acesa,
Flamejando sem pausa e sem escala!
Quem de nós pensaria em apagá-la?
Só o Santo Autor da Natureza!

De tais obras, o homem e a mulher
São antigos e ricos patrimônios.
Geram corpos em forma de hormônios,
E criam seres sem dúvida sequer.
O homem, após esse mister,
Perpetua a espécie, com certeza.
A mulher carinhosa e indefesa
Dá à luz uma vida, novo brilho,
Nove meses, no ventre, aloja o filho,
Pelo Santo Poder da Natureza!

O peixe é bastante diferente:
Ninguém pode entender como é seu gênio!
Ele reserva porções de oxigênio
E mutações para o meio ambiente!
Tem mais cartilagem resistente
Habitando na orla ou profundeza,
Devora outros peixes pra despesa
Tem a época do acasalamento
Revestido de escamas, esse elemento,
Com a força da Santa Natureza!

O poraquê ou o peixe elétrico, é um tipo genuíno,
Habitante dos rios e águas pretas,
E com ele possui certas plaquetas
Que o dotam de um mecanismo fino!
E com tal cartilagem, esse ladino
Faz contato com muita ligeireza,
E quem tocá-lo padece de surpresa
Descarga mortífera, absoluta,
Sua alta voltagem eletrocuta,
Com os fios… da Santa Natureza!

A tartaruga é gostosa, feia e mansa,
Habitante dos rios e oceanos!
Chegar aos quatrocentos anos
Pra ela é rotina… é confiança!
Guarda ovos na areia e nem se cansa
De por eles zelar como defesa.
Nascido os filhotes, com presteza,
Nas águas revoltas já se jogam,
Por instinto da raça não se afogam
E também pelo Poder da Natureza!

O canário é pássaro cantor,
Diferente de garça e pelicano.
Papagaio, arara e tucano,
Todos eles com majestosa cor!
O gavião é um tipo caçador
E columbiforme é a burguesa,
O aquático flamingo é, da represa,
A ave, a rapace agigantada,
Eis o mundo das aves, a passarada
Quanto é grande, poderosa e bela, a Natureza!

A gazela, o antílope e o impala
A zebra e o alce, felizardo,
Não habitam em comum com o leopardo,
O leão e o tigre-de-bengala!
O macaco faz tudo mas não fala,
Por atraso da espécie,ou por franqueza,
Tem o búfalo aspecto de grandeza,
O boi manso e o puma tão valente,
Cada um de uma espécie diferente
Isso é coisa também da Natureza!

E acho também interessante
O réptil de aspecto esquisito
O pequeno tamanho de um mosquito,
A tromba preênsil do elefante
A saliva incolor do ruminante
A mosca nociva e indefesa
A cobra que ataca de surpresa
Aplicar o veneno é seu mister:
De uma vez mata trinta, se puder
Mas é coisa também da Santa Natureza!

No Nordeste há quem diga que o carão
Possui certos poderes encantados
E, que, através de fenômenos variados,
Prevê a mudança de estação.
De fato, no auge do verão,
Ele entoa seu cântico de tristeza
E, de repente, um milagre, uma surpresa:
Cai a chuva benéfica e divina!
Quem lhe diz, quem lhe mostra, e quem lhe ensina?
É somente o Autor da Natureza!

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UMA POTENTE CAGADA GENERALÍFERA

* * *

Pela magnificência da cagada e pelo fedor do tolôte que esse general excretou, ele merece uma homenagem jumentífera.

Um lindo rincho 4 estrelas, oferecido pelo nosso estimado jumento Polodoro.

Rincha pro general, Polodoro!!!

A PALAVRA DO EDITOR

DIA DE COMEMORAÇÃO

Na condição de branco puro, ariano dos zoios azuis, de pele claríssima, filho de pais alvos e neto de avós brilhosos, hoje vou comemorar o Dia da Felicidade Branca.

Sou branco na cor e branco no procedimento.

Não peido em público e tomo banho com sabonete.

No dia de hoje, meu dia, Dia da Felicidade Branca, recomendo a todos a leitura de um livro que tenho na minha estante.

Este aqui:

É o livro intitulado “Adagiário Brasileiro”, escrito pelo cearense Leonardo Mota (1891-1948), que foi professor, advogado, promotor de justiça, jornalista e historiador.

O meu volume é de 1987, publicado pela Editora Itatiaia, de Belo Horizonte.

Fecho esta postagem com um print da página 367 desta obra.

Os tabacudos do “politicamente correto” vão adorar!

São algumas falas e ditos populares, coletados pelo autor do livro em seus minuciosos estudos, pesquisas e entrevistas com pessoas do povão.

Aqui estão apenas algumas frases saídas da boca da mundiça e coletadas por Leonardo Mota.

Tem muitas outras mais no livro.

COLUNA DO BERNARDO

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VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A TREPADEIRA

A árvore trepadeira que se chama vulgarmente Cipó matador tem, segundo assevera A. St’Hilaire (botânico francês), um tronco direito, porém delgado e fraco, necessitando do apoio de outras árvores mais robustas.

Segundo os botânicos, o surgimento das trepadeiras foi uma resposta evolutiva às plantas de caules frondosos, fortes e grossos. A disputa por radiação solar estava levando essas plantas a evoluírem, tornando-as cada vez mais altas, com copas cada vez mais frondosas e com crescimento cada vez mais rápido. As ancestrais das trepadeiras, por outro lado, não conseguiam concorrer com estas plantas e começaram a usar as mesmas como suporte para o seu desenvolvimento. Valendo-se de menos recursos energéticos, nutricionais e solares, as trepadeiras foram evoluindo, agarrando-se às árvores frondosas e alimentando-se da sua seiva, a ponto de cobri-las totalmente, abafando-as e matando-as.

Um advogado, que há anos morava no Amazonas, retornou a Natal e abriu um escritório de advocacia. Logo nos primeiros meses, os clientes foram aparecendo.

Dentro da seriedade que lhe era peculiar, Dr. Pedro, o causídico, tinha senso de humor e gostava de conversar. Contava fatos pitorescos, relacionados ao Amazonas, tema que fazia brilhar os seus olhos.

Dizia que o que mais agradava ao seu espírito de advogado era quando funcionava na defesa de um réu, perante o Tribunal do Júri. Para tanto, considerava-se um excelente orador e articulador. Gostava de comentar nas rodas de amigos e colegas, os inúmeros debates, já travados com advogados de renome.

Havia grande interesse dos seus amigos e colegas em vê-lo atuar no Júri, pois conheciam sua fama de grande tribuno. E sua estreia em Natal foi um sucesso. Entretanto, meses depois, começaram a notar que o causídico estava se tornando repetitivo nas suas teses de defesa. Criara um chavão e o repetia em todos os júris em que atuava.

Esse chavão consistia em comparar o sofrimento de um réu em julgamento, com o sofrimento de uma árvore hospedeira de uma trepadeira, tal qual o falado “cipó matador do Amazonas”.

Contava o advogado:

“No Amazonas, existe uma trepadeira, que se desenvolve como hóspede de uma grande árvore, servindo-se de sua seiva e arrochando-a de forma tão violenta, que a árvore não resiste e morre por asfixia.”

Para melhor entendimento dos jurados, comparava o Promotor de Justiça à trepadeira ou cipó matador, e a árvore, ao réu sendo atacado e morrendo pela dificuldade imposta pelo Promotor à sua defesa.

Esse chavão foi se tornando conhecido, a ponto de apelidarem o causídico de “cipó matador do Amazonas”, coisa que, se ele soubesse, jamais perdoaria ao autor dessa falta de respeito.

Sempre que o Dr. Pedro ia defender um réu no Tribunal do Júri, os adeptos de apostas se movimentavam. Uns apostavam na repetição do conhecido chavão. Outros apostavam que dessa vez, ele iria fazer uma defesa diferente, e não repetiria o chavão.

Feitas as apostas, ficavam todos aguardando o desenrolar do discurso do advogado de defesa. Alguns já se consideravam perdedores das apostas, quando, de repente, o discurso de Dr. Pedro era intercalado com o mesmo “recado”:

“Senhores jurados: estive vários anos na região Amazônica, lugar onde predominam as maiores árvores existentes na face da terra. A floresta amazônica é, sem dúvida, a mais exuberante floresta equatorial do mundo. Mesmo assim, de vez em quando, imensas árvores centenárias são sufocadas e mortas, por um tipo de planta trepadeira, também chamada de “cipó matador”, que se alimenta de sua seiva, e se trança de uma forma tão fechada sobre elas, que as leva à morte. Uma vez ou outra, há um grande relâmpago e cai um raio sobre a trepadeira, matando-a. É como se o relâmpago viesse em socorro da grande árvore que estava sendo sugada pela trepadeira. Daí por diante, aquela árvore que está sendo morta pelo sufoco, ressurge como um milagre da natureza e volta a florescer, exuberante como antes.

Estamos numa situação equivalente. De um lado, estou defendendo o meu constituinte, que coloco no lugar da árvore agonizante, sofrendo e resistindo à imensa violência de quem, aparentemente, não tinha condições de destruí-lo. Do outro lado, o ilustre Promotor de Justiça, que parece ser aquela insignificante planta, conhecida como “cipó matador”, apertando sempre o meu constituinte, já sufocado e sem chance de defesa.”

Essa argumentação desenvolvida por Dr. Pedro tornou-se uma constante, em todos os seus discursos nos Tribunais onde atuasse como advogado de defesa. Daí por diante, o defensor do réu apelava, cada vez mais, para o sentimentalismo dos Jurados, atento aos argumentos acusatórios do representante do Ministério Público.

No final, ganhava a aposta quem houvesse confiado na repetição do chavão da trepadeira, ou “cipó matador do Amazonas”.

Voltando aos dias atuais, ano de 2020, o ano gêmeo tão esperado, chego a pensar que algum “cipó-matador” abraçou o mundo e a ciência, agindo de forma traiçoeira, e jogando na humanidade o CORONAVÍRUS, que continua fazendo vítimas. Parou tudo por certo tempo, mas não parou o processo eleitoral, sendo o povo induzido a enfrentar as urnas, “sem correr risco de contaminação”. O Vírus, de conluio com os políticos, deu uma trégua aos brasileiros, durante o processo eleitoral, que ainda não terminou.

Como em alguns Estados, o povo aguarda o 2º turno das eleições municipais, as promessas e abraços continuam.

Convém alertar o eleitor que irá votar no 2º turno, que não aceite dos candidatos abraços apertados e demorados, pois eles podem absorver sua energia, chegando a sufocá-lo ou coisa pior, tal qual fazem as trepadeiras ou cipós- matadores com as grandes árvores.

Essas demonstrações de carinho dos candidatos, visando agradar o povo para chegar ao poder, podem ser maléficas. Eles podem estar utilizando o eleitor em benefício próprio, subindo nas suas costas e lhe dando migalhas.

Vale a pena evocar o pessimismo do imortal poeta Augusto dos Anjos:

“a mão que afaga é a mesma que apedreja”.