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J.R. GUZZO

UM ENIGMA A CADA ELEIÇÃO

Não é todo dia que o público fica realmente com vontade de receber com urgência uma notícia internacional – ou nacional, quando se pensa um pouco melhor no assunto. Daí, quando aparece enfim uma ocasião dessas, a imprensa não consegue entregar à sua audiência a informação que ela está querendo: quem ganhou as eleições nos Estados Unidos? Só que, desta vez, nem os veículos de comunicação, nem os comunicadores, têm alguma coisa a ver com o problema. A notícia não saiu na hora que deveria ter saído porque, em consequência direta da maneira como os Estados Unidos organizam a sua política e o seu sistema eleitoral, não havia notícia. Os americanos votaram na terça-feira, dia 3 de novembro; na quinta, 48 horas depois – não 4 ou 8, mas 48 – ainda estava para se bater o martelo. Resultado de eleição na Bolívia sai mais depressa.

Mesmo com a contagem final, porém, não dá para saber com 100% de certeza o que vai realmente acontecer. A votação majoritária do candidato da oposição, Joseph Biden, está sendo contestada na Justiça pelo candidato da situação, Donald Trump. Não há como informar com segurança absoluta se a vantagem numérica expressa nas eleições vai ser transformada, depois de contado o último voto, na entrega da presidência a quem teve mais votos. Também não se sabe como as coisas vão rolar no tapetão acionado pelo presidente Trump. Não está claro, nem mesmo, se os tribunais dos Estados, ou a Corte Suprema, podem por lei, por lógica ou por realidade política, mudar um resultado que saiu das urnas – e, menos ainda, quantos dias vai durar essa história, ou quanto tempo.

Por que demorou tanto? É o preço a pagar por um dos sistemas eleitorais mais esquisitos do mundo – tirando, é claro, eleição em país africano ou em recantos especialmente obscuros do Terceiro ou Quarto Mundos, nos quais em geral não existe nenhuma relação entre o resultado final e a vontade dos eleitores. Para começar, quem ganha as eleições presidenciais nos Estados Unidos não é o candidato que teve mais votos. É quem consegue a maioria, ou 270 votos, numa espécie de “Colégio Eleitoral” com 538 “votos estaduais”, atribuídos (pelo menos no papel) segundo a população de cada um dos 50 Estados; quem ganha nas urnas leva todos os votos daquele estado. (Com exceção de dois Estados, mas aí já nem vale a pena tentar entender.)

A apuração se faz como no Brasil de 100 anos atrás, com multidões de funcionários contando a mão os votos, um por um, em “juntas” espalhadas por mais de 9 milhões de quilômetros quadrados. Cada Estado conta do jeito que quer, na hora que quer, com os seus próprios apuradores e segundo as suas próprias leis e sistemas de apuração. Os eleitores podem votar pelo correio. Podem votar por e-mail. Podem votar depois de encerrada a votação no Estado vizinho, ou no seu próprio Estado. Podem votar até no dia seguinte – ou, então, na véspera da eleição, ou mesmo vários dias antes. Um candidato parlamentar que morreu em outubro foi legalmente eleito. Trata-se, em suma, de um monumental convite à fraude por parte de quem controla a apuração.

O resto desta salada não poderia ser muito melhor. As pesquisas de “intenção de voto”, pela segunda vez seguida numa eleição presidencial, foram um desastre; quinze dias atrás garantiam uma vitória de lavada de Biden sobre Trump e no fim, como se viu, foi uma disputa desesperada por meia dúzia de “votos decisivos” em fins de mundo como o “Nebraska”, o “Arizona” e outros lugares que nem os americanos sabem direito que existem.

Os Estados Unidos, onde há mais de um século, e em tantas coisas, se desenha o futuro do mundo, oferecem um enigma a cada eleição presidencial. Desta vez, metade da população não quis mudar nada. A outra metade quis voltar ao passado.

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MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

METAIS

Confesso que hesitei antes de escrever este conto. E hesitei mais ainda em publicar. Pela sua carga de violência. Não gosto de contar histórias violentas.

Mas, como já disse em várias oportunidades, às vezes os personagens de um conto me aparecem em sonho, pedindo para que eu conte suas histórias. E, nesse caso, um dos personagens insistiu muito. Primeiro, pedindo que eu escrevesse o texto, depois, que o publicasse. Ao todo, foram mais de uma dúzia de aparições, praticamente implorando que o caso fosse exibido em linguagem escrita.

Acho que ele me venceu pelo cansaço. Não quero mais sonhar com isso.

Eis, portanto, o texto encaminhado para publicação.

Apenas advirto: SE VOCÊ É UMA PESSOA CUJA SENSIBILIDADE RECOMENDA NÃO LER HISTÓRIAS VIOLENTAS, PARE DE LER AQUI.

Feita a advertência, vamos aos fatos.

Em uma manhã ensolarada de um dia qualquer, no meio da semana, um rapazinho, de seus dezesseis anos, caminhava em uma praça com seu cãozinho. Era um animalzinho pequeno e peludo, talvez um maltês ou um shitszu. Com a coleira presa a uma guia retrátil, às vezes se adiantava em relação ao seu humano, às vezes ficava um pouco para trás.

O rapaz, com algumas espinhas e muitas sardas no rosto branco, tinha o cabelo grande o suficiente para esconder um pouco dos olhos, mas não para chegar até os ombros. Parecia não ter se penteado naquela manhã. Vestia uma bermuda de estampa camuflada – aparentemente folgada para seu corpo franzino – e comprida, cobrindo suas pernas finas até a altura dos joelhos. A camiseta branca, surrada, com uma frase qualquer no peito, em inglês, bem poderia ser uma espécie de pijama. Nos pés, sandálias de borracha, dessas chamadas japonesas, com uma parte que se prende entre o dedão e o indicador.

Seguiam em plena harmonia, com as devidas pausas para o pequeno animal farejar alguma coisa ou fazer suas necessidades fisiológicas. Não demorou até o rapaz tirar um saco plástico de um dos muitos bolsos da sua bermuda, recolher dejetos sólidos do seu amigo canino e os depositar em um cesto de lixo. Depois seguiram em seu passeio matinal.

Estavam nisso, quando o rapazinho percebeu um sinal de perigo. Em sentido contrário, vinha um homem, de uns 30 anos, também acompanhado de um cão. Fisicamente bem mais forte que o rapaz, usava apenas calção e tênis. Aparentemente, havia saído de casa sem camisa, não pela falta da peça em seu guarda-roupa, e sim para exibir a pele bronzeada e a musculatura do tórax e dos braços.

Mas não era a compleição física do homem que havia gerado tensão no rapaz. O problema era o cão que o acompanhava: um pitbull, desses que metem medo mesmo quando estão presos em uma jaula de ferro.

Era um cão de pernas relativamente curtas, como costumam ser os pitbulls. O dorso mal chegava à altura do joelho do seu condutor, mas o peito largo e o pescoço grosso davam uma ideia da força daquele animal. Tinha o pelo marrom – salvo uma parte branca no peito – e olhos castanhos, o que fazia com sua cabeça parecesse a de uma estátua de bronze.

O rapazinho que caminhava com o shitzu (ou talvez um maltês) provavelmente não viu de imediato essa parte da cor dos olhos, por causa da distância que havia entre eles no momento do encontro, uns 80 a 100 metros. Mas deve ter percebido que o pitbull parou de andar e se postou com o corpo ereto e as orelhas e a cauda erguidas. Na linguagem corporal canina, isso significa estado de alerta. Ou, mais precisamente, que avistara o cãozinho. E que o via como um alvo.

O jovem também parou. Deu um rápido puxão na guia do seu bichinho de estimação, sinalizando sua parada, e olhou para os lados, como se pensasse em mudar de direção.

Mas isso durou apenas um instante. Porque, no instante seguinte, ele olhou novamente para a frente e percebeu que o pitbull já vinha, em desabalada carreira, em sua direção.

Não foi possível identificar se o animal havia se soltado, ou se já passeava solto. Sabe-se apenas que o seu dono continuava caminhando lentamente, como se não houvesse percebido o ataque. Trazia em uma das mãos uma grossa corrente de aço inoxidável, a qual, presume-se, deveria estar presa ao pescoço do seu cão.

Enquanto isso, o cãozinho peludo já sentia a pressão das presas do pitbull em seu pescoço, enquanto era sacudido de um lado para o outro violentamente. Sua sorte parecia definida, quando algo inesperado aconteceu.

Sem muita pressa, e demonstrando total segurança em seus movimentos, como se fossem ensaiados, o rapazinho largou a guia, pôs a mão direita em um dos bolsos laterais de sua bermuda camuflada e sacou de lá uma pequena faca dobrável, consideravelmente pontiaguda.

Com surpreendente habilidade no uso do instrumento perfurocortante, o jovem desdobrou a faca, agachou-se e moveu a lâmina de baixo para cima, cravando-a no abdômen do pitbull, próximo às costelas. Depois, fez um movimento horizontal, rasgando a barriga do animal, desde o ponto da perfuração até a sua genitália.

Talvez pelo efeito da adrenalina em seu corpo, o pitbull não deu o menor sinal de que a perfuração houvesse lhe causado dor. Simplesmente caiu para o lado, debatendo-se, enquanto seu sangue e seus intestinos espalhavam-se pelo chão da praça.

Agora seu dono havia apertado o passo, e estava a uns dez metros do local do incidente. Olhos arregalados, boca aberta, parecia não acreditar na cena à qual acabara de assistir.

O rapazinho, então, com a mão, o braço, o rosto e a camiseta sujos de sangue, ficou novamente de pé, ergueu no ar a faca e gritou:

– Para o animal bravio, o aço frio!

Ao ver aquela cena, o dono do pitbull parou assustado. Demorou alguns segundos antes de ser tomado por ira e iniciar uma reação:

– Filho da puta! Tu matou meu cachorro! – gritou.

Transformando em arma a corrente que trazia à mão – e que poderia ter evitado todo esse problema – partiu em direção ao jovem, dando sinais de intenções nada pacíficas.

Mesmo diante daquela demonstração de fúria, o rapazinho, mais uma vez, não se abalou. Guardou a faca no mesmo bolso de onde a retirara minutos antes, e, enquanto levantava a camisa com a mão esquerda, procurava, com a direita, alguma coisa na parte de trás da sua cintura.

Retirou dali uma pistola preta, não muito grande. Engatilhou-a e disparou contra o dono do pitbull, que a essa altura estava a não mais que três metros de distância.

Foram dois disparos no peito. Enquanto o homem agonizava no chão da praça, o rapazinho aproximou-se dele calmamente. Ergueu a mão que segurava a arma, e disse, em voz alta, mas com uma serenidade assustadora:

– Para o humano inconsequente, o chumbo quente.

Pronunciadas aquelas palavras, guardou a arma, pôs carinhosamente nos braços o seu cãozinho ferido, e saiu caminhando lentamente, como se nada houvesse acontecido.

Próximo da esquina, havia um carro estacionado, de onde saiu uma mulher de uns 50 anos, que o abraçou e verificou os ferimentos do cãozinho.

Depois, todos embarcaram no veículo e deixaram o local.

A polícia chegou minutos depois, pedindo informações aos transeuntes sobre o ocorrido, mas não conseguiu nada relevante. Mesmo no prédio em frente à praça, de onde algum morador na janela poderia ter filmado tudo com o celular, os investigadores não conseguiram nenhuma pista.

Tudo que se sabia era que se tratava de um rapazinho de aparência inofensiva, mas que sabia matar. E que, conforme a natureza dos seus inimigos, escolhia o metal com o qual lhes tiraria a vida.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

RÔMULO SIMÕES ANGÉLICA – MACAPÁ-AP

Prezado Berto,

Estou no Amapá, há uma semana. Vim para um trabalho de campo no município de Santana, vizinho a capital do estado, Macapá. Na segunda-feira à noite, durante um forte temporal, caiu um raio, seguido de um incêndio, em uma das sub-estações de energia da capital, e que na verdade, suprem todo o estado.

Foi aí que a população se deu conta, que das quatro existentes, apenas uma estava mal e porcamente funcionando.

Resultado:

Um verdadeiro caos em todo estado, como nunca tinha visto nada igual.

Hoje é o quarto dia seguido sem energia elétrica, e com as consequências desastrosas, que todos podem imaginar, como: falta de água potável, postos com combustível, mas sem energia para ligar as bombas, comércios fechados, gêneros alimentícios estragando nos refrigeradores das residências e dos estabelecimentos comerciais.

No hotel em que estamos hospedados, há um gerador funcionando de modo intermitente, porém não há sinal de celular e muito menos de internet.

Hoje decidimos vir ao centro da cidade, Macapá, sentamos na praça de alimentação de um shopping, que tem gerador, para rotear o celular no meu micro e tentar responder algumas mensagens. O problema é que grande parte da população teve a mesma ideia, sentados no chão ao redor de alguma tomada existente, para tentar carregar seus celulares.

Minha vontade era falar sobre a minha ausência na reunião de ontem, mas a indignação é tão grande que resolvi escrever esse pequeno relato.

Fiz algumas fotos, mas a conexão está tão ruim que vou tentar enviar pelo menos este texto. Procurem na internet que facilmente encontrarão fotos das filas quilométricas nos postos, além de notícias e pedidos alarmantes de socorro da população, neste canto esquecido do país.

Era isso, caros amigos, o retrato cuspido e escarrado deste pobre e malsinado pais.

Estou no estado do atual presidente do senado, e que por muito anos foi o domicilio eleitoral – barriga de aluguel – de um dos piores escroques da nação, que prefiro me abster de citar o nome. Basta dizer que, nesta época, se dizia que o Maranhão era o único estado brasileiro com 4 senadores e o Amapá com dois.

E dito isto, parafraseando o Berto, não precisa dizer mais nada para explicar as razões do caos neste pobre estado, usado e espoliado por políticos canalhas, apenas para seus benefícios e interesses próprios.

Muita indignação, meus amigos. Muita indignação!

Um forte abraço a todos.

R. Meu caro, lamento demais, lamento muito mesmo esse desmantelo que você está vivendo por aí, nesse recanto de mundo que teve o azar de ser o berço do Alcolumbre.

(Êita!!! Falei o nome do desgraçado!!!)

Você fez uma falta danada no encontro semanal da patota fubânica, acontecido ontem, quinta-feira.

Tem nada não: semana que vem você tira o atraso.

Vou torcer pra que tudo se resolva logo e que você possa cumprir sua missão aí no Amapá sem mais dores de cabeça.

Fique calmo, relaxe, controle o emputiferamento e lembre-se que esse é o nosso Brasil brasileiro!!!

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

DUAS CANTORIAS DE EMBOLADA E UM FOLHETO PARA LEANDRO GOMES

TEREZINHA E LINDALVA

* * *

LINDALVA E LAVANDEIRA DO NORTE NUM DESAFIO MALCRIADO

* * *

LEANDRO GOMES , O REI DO CORDEL – Manoel Monteiro

 Leandro Gomes de Barros
Nosso amado menestrel
Que em vez de alaúde
Usou caneta e papel,
Tipo, tinta, impressora
Na construção precursora
Do folheto, ou do cordel.

O cordel, este livrinho,
Escrito em versos rimados
Obedecendo um “tamanho”
Porque são metrificados
Conforme o que se comenta,
Da forma que se apresenta,
Teve aqui os seus primados.

Trinta e cinco anos antes
De chegar mil novecentos,
Em Pombal, nasceu Leandro
Um dos maiores talentos
Que a poesia já deu,
Diz-se que ele escreveu
De cordéis, mais de quinhentos.

Leandro é da velha cepa,
De Inácio da Catingueira
De Romano da Mãe D’Água
Dos poetas do Teixeira,
De cangaceiro e polícia
Dos quais se deu a notícia
Pelos folhetos de feira.

Nasceu no tempo que carro
De boi era condução,
Luz era de lamparina,
Cuscuz de milho era pão,
“Pinto” pequeno era bimba
Água era de cacimba ,
Busca-pé era mijão.

Estava um novembro quente,
19 na folhinha,
Na Fazenda Melancia
Veio ao mundo a criancinha
Mas como o pão lhe faltou
Um tio Padre “ajudou”
A criar o poetinha.

Esse seu tio materno
Chamado Padre Vicente
Xavier de Farias que
Maltratava o inocente
De forma tão vil e rasa
Que ele fugiu de casa
Com 11 anos somente.

Imagine o sofrimento
Do poeta tão pequeno
Vagando pelas estradas
Sob sol quente e sereno,
Um viajor. tão menino,
Sem lar, sem pão, sem destino,
Sem conhecer o terreno.

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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PAULO TERRACOTA – CRUZEIRO-SP

Berto,

tomo a liberdade de entrar em contato com você para dizer que a live do professor Adônis foi de arrebentar a boca do balão.

Sempre fiquei como espectador durante as lives, inventadas pelo professor Mauricio Assuero  de Lima.

Mas, ontem deixei de lado a timidez e entrei no mundo dos lampadários da Besta Fubana, para fazer uma gozação com o professor Roque, que saindo do Mato Grosso do Sul, com destino a Paris, paga em Euro, para comer um viado brasileiro, que aqui, certamente, comeria de graça.

Depois dizem que nós os mineiros é que compramos bonde dos cariocas espertos.

Um grande abraço Papa, e por favor, transmita ao professor Adônis, meus parabéns pela excelente apresentação.

Um grande abraço do “mineiro residente em São Paulo, e Corinthiano de coração.”

R. Os parabéns pro Adônis já estão dados aí na sua mensagem. Que ele certamente vai ler ainda hoje.

O relato das peripécias de Adônis nos quatro cantos do planeta Terra, feito por ele próprio, aprontando presepadas em tudo quanto é lugar em cima da redondura do mundo, foi uma viagem arretada!

Relato com direito a muitas imagens que deram mais vida ainda ao nosso encontro.

A plataforma criada pelo colunista Maurício Assuero pra sediar nosso encontro semanal é fantástica.

Pois é, meu caro leitor, a reunião semanal da patota fubânica está crescendo e ganhando mais participantes a cada quinta-feira.

O debate de ontem, com a palestra do colunistas Adônis, foi tão animado e teve tanta participação das pessoas presentes que o horário foi ultrapassado.

Ao invés de terminar às 20:30, o desmantelo teve que ser espichado e só acabou depois das 21:00.

E pode aguardar que tem mais na próxima quinta-feira.

Abraços e um excelente final de semana!!!

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

QUASE FINADO

Segunda passada foi Finados. O dia de chorar nossos mortos. E lembrei de fazer, aqui, uma comemoração torta dessa data. Relatando, ao amigo leitor, como será meu triste fim. Cemitério de Santo Amaro, em frente ao túmulo do avô (ex-governador Agamenon Magalhães). Maria Lectícia olha para mim, com ar inocente, e diz: “Quando o primeiro de nós dois morrer, EU vou lhe enterrar aqui”. Fiquei preocupado. Não pelo fato da morte certa, um dia. E antes dela, claro. É o que desejo. Imitando Machado de Assis, com sua Carolina. Embora não tenha planos de que isso ocorra tão cedo. A preocupação era porque à direita do mausoléu, sob a inscrição HISTÓRIA, o sol da tarde é forte. E deve ficar muito quente, lá dentro. Desagradável, para os hóspedes. Por isso perguntei “De que lado?”. E ela, “Escolha”. No lado esquerdo, sob a inscrição VIRTUS, vi que havia pequena mangueira sombreando. Seria bem mais agradável. E disse, apontando, “Aqui”. Sei, portanto, até onde serei enterrado. Um privilégio.

Na lápide, prometeu por frase que vivo repetindo, “Ai, que vida boa”. Se achasse ruim, poderia usar Poe, “Nunca mais”. Ou Sinatra, “O melhor ainda está por vir”. Ou Jimi Hendryx, “Nos veremos na próxima, baby. Não demore”. Ou, mesmo, Evita, “Cumpri minha humilde imitação de Cristo”. Só não a maldição que Shakespeare deixou para a dele, em Stratford-upon-Avon, “Maldito será aquele que mover meus ossos”. Ou a que Jô Soares deseja para o seu, “Enfim, magro”. Mas estou em dúvida. Ari Barroso, antes de partir, deixou no papel sua derradeira vontade. De que, no túmulo, estivesse a frase “Aqui jaz um homem que odiava jazz”. E a mulher não cumpriu. Desconfio que assim também será, comigo.

Para completar, fiz três pedidos. Primeiro. Não acredito em Deus, mas vai ver que ele existe. Nem que haja um céu, ou que mereça ir para lá. Só que se acaso for, com a enorme hipermetropia que tenho, não vou ver nada. “Como vai José?”. E, eu, “Quem fala?”. “É J. Cristo, rapaz, não estás me reconhecendo?”. Um vexame. O padre Sérgio Absalão, da Igrejinha dos Aflitos (na Rosa e Silva), garantiu que no céu todos seremos perfeitos. Sem precisar usar os tais óculos. Mas prefiro não confiar nessa tese. E pedi, então, para ser enterrado com eles. Lectícia prometeu. Mas estou quase certo de que não vai por no rosto, como pedi. Talvez, no bolso do paletó. Seja. Melhor que nada. Segundo pedido, isso acredito fará, que pusesse junto um charuto Montecristo. Pelo sim, pelo não…

Por fim, ninguém sabe, fui honrado com a mais importante comenda concedida pelo governo brasileiro, a Ordem do Rio Branco. Tanto que só pode ser entregue pelo Presidente da República. Quando o diplomata do Itamarati ligou, para combinar a cerimônia, pedi que mandassem pelos Correios. O homem disse que nunca ocorreu algo assim, antes. O normal é receber com pompas e bater fotos, para sair nas colunas sociais. Mas acabou aceitando. O terceiro pedido era de que Lectícia me enterrasse com ela. Pelo menos os amigos, que fossem ao velório, iriam saber que fui. Não teve conversa. “Faço não, é muito cafona”. Danou-se. Morto, no calor, sem ver direito, sozinho e descondecorado. A sorte é que isso vai acontecer apenas em 2.500. Ou ainda mais tarde, espero.

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CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TABICA DE BIMBA DE BOI

O casal vivia às turras, os dois com suas razões: a fama de mulherengo do marido e o ciúme incontido da mulher apaixonada, Lilibeth.

Antônio Pedro, por ser homem bonito, não pode sentir o olhar de uma garota que fica assanhado. Não precisaria de outra mulher, sua esposa é um belo espécime feminino. Porém, ele tem uma compulsão de querer transar com todas as mulheres do mundo.

A desconfiança e ciúme de Lilibeth aumentaram quando o marido passou a atender o celular longe do alcance, falando baixo. Ela pressentiu que era namorada nova, coisa séria, resolveu contratar um detetive. No escritório de Audálio no Edifício Brêda, ela acertou os honorários, forneceu-lhe informações, fotos do marido e um adiantamento. O detetive era bom e o Antônio Pedro era ruim em se esconder. As investigações foram rápidas e o crime facilmente descoberto. A namorada do marido trabalhava em um banco. Saía do trabalho às 16:30 h, no mínimo duas vezes por semana, Antônio Pedro apanhava Juliete, bonita moça, para passar o resto da tarde em algum motel da cidade. Variavam de local. O detetive mostrou fotografias para indignação e raiva de sua cliente.

Lilibeth controlou-se, haveria pegá-los em flagrante. Esperou uma oportunidade. Certa tarde ela notou que seu marido telefonava do celular falando baixo. Coisa só percebida por mulheres ciumentas, elas têm esse incrível faro. Às três horas da tarde o maridão foi tomar banho, dizendo que haveria uma reunião, uma grande venda com um fazendeiro. Antônio Pedro trabalha em uma representação de adubo. Ganha altas comissões nas vendas.

Lilibeth gritou para o marido que estava saindo para comprar cigarro. Porém, dirigiu-se ao carrão do marido, abriu a mala e deixou-a aberta. Recolocou as chaves no mesmo local onde apanhou. Segurou uma tabica de bimba de boi que ficava permanentemente pendurada no porta-chapéus, voltou ao carro, entrou na mala e trancou-se por dentro. Mesmo com a mala espaçosa, ficou desconfortável. Ela deitou-se com as pernas encolhidas com ânsia e coragem.

Antônio Pedro ligou o carro, o barulho do motor aumentou o desconforto. Em torno das quatro horas, o carro parou em uma rua movimentada. Lilibeth sentiu a porta abrir e entrar uma mulher cumprimentando Antônio com um “Ôi querido” meloso, e acomodou-se no assento dianteiro. Sentiu o perfume caro da serelepe, O carro partiu, Lilibeth ouviu um diálogo com dor no coração, com vontade de esganar os dois.

– Meu amor. Quero fazer aquelas coisas maravilhosas. Hoje estou com uma vontade… Vou lhe matar na cama!

– E eu vou lhe dar um banho de gato!

– E a Jararaca continua ciumenta? Será que ela desconfia de nós?

– A Jararaca pensa que é inteligente vive me ameaçando. Mas é burra. Jamais saberá de nós dois. Tomo meus cuidados.

– Meu amor, na próxima semana completa um ano de nosso namoro. Você me prometeu aquele colar, lembra-se?

– Não me esqueci, vamos comemorar juntos, vou inventar uma viagem para Salvador. Você diz no trabalho que está doente.

Lilibeth se conteve até por medo de estar correndo em uma pista de alta velocidade. A raiva no seu peito era tão grande que pensava ter um infarto naquele momento. O carro ainda rolou alguns minutos. Houve outros diálogos para desespero de Lilibeth. O carro diminuiu a velocidade, deu uma entrada à esquerda até frear. Ouviu-se a voz de Antônio Pedro: “Quero uma suíte com piscina”. Antônio Pedro manobrou até que parou de vez na garagem do motel. Nesse momento ele ouviu um barulho, alguém batendo por dentro da mala. Assustado dirigiu-se para traseira do carro, percebeu que havia alguém dentro. Quando abriu, deu-se a grande surpresa: Lilibeth saltou como uma fera, com a tabica de bimba de boi na mão gritava alucinada:

– Sua puta! Jararaca é a puta que a pariu!

Avançou na garota de vinte anos de porte elegante e bonita. Enquanto Antônio foi buscar ajuda na portaria, Lilibeth encheu Juliete de porrada, como se a culpa fosse só da garota. Houve escândalo no motel, o gerente chegou em socorro. Custou a se acalmarem. Colocaram Juliete num táxi e o casal voltou para casa no carro, com constantes ataques de choro e raiva de Lilibeth. Ao chegar, ela expulsou o marido de casa. Três meses depois fizeram a paz, ele voltou. Estão vivendo no maior amor, nem parece que houve o caso da tabica de bimba de boi. Quem quiser que entenda e que se meta nas brigas de casal.