PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O ANEL DE VIDRO – Manuel Bandeira

Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
– Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, –
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste…
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, Recife-PE, (1886-1968)

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ ALVES FERREIRA – SÃO PAULO-SP

Caro!

Tenho enviado mensagens que, como escrevi em primeiros contatos, é forma de desabafo e evita gastos com analistas, ida a igreja ou falta de amigo.

Agora, o assunto é o tal de imposto digital, ou CPMF disfarçada..

Parece uma ideia sensacional, vinda de uma cabeça que só poderia ser de gênio.

Mas, não precisa ser gênio para enfiar no lombo do povo imposto quando se precisa de dinheiro para financiar sei lá o que.

Como dizia mestre Millor: me impõem e depois me chamam de contribuinte.

Mas, parece que que apesar de ter votado, incentivado familiares e brigado com outros tantos pelo nosso Messias, hoje ele se rende ao gosto do poder e esquece promessas de campanha.

Agora, mais essa para o prego no caixão.

Infelizmente, toda reforma sempre passa pelo bolso de quem não pode reclamar: os mais pobres.

Temos no congresso bancadas do futebol, dos funcionários públicos, evangélicos, do “toma lá dá cá” e por aí vai.

Mas. onde está a bancada do “zé povinho”, aqueles que realmente criam riquezas, passam a via inteira trabalhando, pagando impostos e se aposentam com a “merreca” de no máximo R$ 5 mil e tanto e, olhe que são poucos – Dilma por exemplo – que o conseguem.

Agora vem de novo a tal da CPMF, disfarçada ou sob a mentira que irá criar empregos e, é tão pouco que ninguém sentirá.

Começou assim e, a medida da necessidade ou cara de pau foi aumentando e sufocando quem pouco tem.

R$ 2 reais em R$ 1 mil? Para as ilustres excelências parece nada – afinal até tapioca era comprada com cartão corporativo – pois quase nunca põem a mão no bolso para pagar algo.

Brasília, nossa ilha de fantasia; o resto do país? Dane-se, pague e não reclame!

Mesmo que meu desabafo vá para lixeira, exprimi meu pensamento e opinião, que é quase nada, mas me senti no direito de assim proceder.

Desculpe ter tomado seu tempo.

Abraço, inté!

COLUNA DO BERNARDO

CHARGE DO SPONHOLZ

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J.R. GUZZO

A RETÓRICA INÚTIL DA OPOSIÇÃO

A um mês e meio das eleições municipais que vêm aí, o candidato do PT à prefeitura de São Paulo tem 1% das intenções de voto. Para sentir um pouco o espírito da coisa: é metade do que tem, por exemplo, um concorrente que se apresenta como Mamãe Falei. Como é possível que esteja acontecendo uma coisa dessas com o partido que há 40 anos serve como a mais sagrada estrela-guia que a esquerda brasileira já teve em toda a sua história? Justo em São Paulo, onde vive e vota a maior concentração de trabalhadores do Brasil, é isso que o Partido dos Trabalhadores tem a apresentar? Em São Paulo, onde estão a alma, o coração e os músculos políticos do seu marechal de campo vitalício, o ex-presidente Lula? É isso mesmo: 1%.

Fica difícil perceber como o PT e Lula pretendem exercer um papel decisivo no futuro do Brasil se em São Paulo, a maior, a mais popular e a mais brasileira de todas as cidades do país, 99% da população não quer saber deles. Não adianta nada dizer, como estão dizendo, que o verdadeiro candidato da esquerda é outro – um político que nunca foi eleito para nada, tem como única realização estimular a invasão de imóveis com documentação enrolada e é apresentado como o “preferido” de Lula. E daí? Se o dono do partido não quer o candidato do partido na cidade-chave para qualquer eleição brasileira, não dá para concluir que ambos estejam fortes; não se inventou ainda a divisão que seja capaz de somar. Além disso, só faria sentido agir desse jeito se fosse para ganhar a eleição. Não é perdendo em São Paulo que se vai a algum lugar na política deste país; só concorrer, e ler depois na imprensa que o seu candidato teve uma belíssima votação, mas foi derrotado, é o tipo da coisa que não resolve a vida de ninguém.

Deveria estar acontecendo justo o contrário disso aí – a esquerda, pelo que se diz todos os dias ao público, é quem teria de estar ocupando neste momento os cinco primeiros lugares de qualquer disputa política no Brasil. O governo federal, com quem vive em guerra desde a última eleição presidencial, é tido e havido como morto a cada 24 horas. O Judiciário, nos seus galhos mais altos, parece se preparar para conceder indulgência plenária, em matéria de corrupção e quaisquer outros crimes, ao ex-presidente. Há um combate diário pela “quarentena”, esforços extremos para dificultar a produção e uma lavagem cerebral permanente com a intenção de culpar “o governo” pelas 140 mil mortes e todas as demais desgraças da covid-19. São anunciadas o tempo todo “sanções econômicas” e “represálias políticas” contra o Brasil por parte dos países do Primeiro Mundo por conta dos incêndios no Pantanal e do desmatamento na Amazônia. As classes intelectuais apoiam a necessidade de “algum tipo” de intervenção internacional para salvar a parte do território brasileiro que consideram “patrimônio da humanidade”.

De acordo com o diagnóstico da esquerda, e de seus parceiros naquilo que se descreve como áreas “liberais” e “civilizadas” da “sociedade”, há problemas sem solução com o teto de gastos públicos, as propostas de renda mínima, o desemprego, a queda no investimento estrangeiro, os danos da produção rural ao meio ambiente, a “violência policial”, as transações financeiras da família presidencial, a falta de apoio aos quilombolas, à demarcação das terras indígenas e às causas que são descritas como “identitárias”, “inclusivas” ou “sociais”. Metade dos ministros está permanentemente na porta da rua. O Congresso está contra o governo. O Judiciário está contra o governo. Os artistas de novela estão contra o governo. A mídia bate recordes diários de exasperação indignada contra um presidente da República que considera o pior de toda a história do Brasil – e contra o seu governo, tido como quase tão ruim quanto ele.

Diante dessa desgraceira sem fim, o PT, no seu papel oficial de Nossa Senhora da Oposição, já deveria estar nomeando o ministério do próximo governo; em vez disso, seu candidato à prefeitura de São Paulo tem 1% dos votos. Nem o governo federal nem os problemas reais do país melhoram um miligrama com isso. Mas é justamente aí que está um dos piores bodes da política brasileira de hoje. A elite nacional, da universidade ao Magazine Luiza, da mídia que se chamava grande aos banqueiros de investimento de esquerda, detesta o presente governo como nenhum outro governo brasileiro foi detestado – mas simplesmente não consegue, não para efeitos práticos, organizar uma oposição capaz de agir com um mínimo de coerência, eficácia e força moral para oferecer alguma alternativa séria às coisas como elas são hoje. O mesmo estado de coma deixa como mortos-vivos o Congresso, os 33 partidos que hoje têm alvará de funcionamento e o resto do mundo político. O resultado é que o governo está disputando uma partida sem que haja outro time em campo.

Há muito barulho de arquibancada – mas torcida brava não muda placar de jogo, e nem xingar a mãe do juiz é fazer oposição. Oposição é trabalhar com possibilidades reais de sucesso para trocar de lugar com quem está mandando; o resto é dinheiro falso. O que se tem hoje é isso – muita nota de R$ 300. Os adversários do governo, na verdade, parecem felizes em fazer tudo o que não é importante num trabalho político que pretenda dar certo. Enchem o noticiário, dia e noite, com bulas de excomunhão contra o presidente da República. Paralisam, no Congresso, no Ministério Público e nos tribunais, o trabalho de governar – a cada vez que perdem uma votação, ou a cada vez que o governo decide alguma coisa, vão correndo pedir à Justiça que anule o que foi decidido. Mostram plaquinhas de protesto no festival de cinema de Cannes. Fazem desfile de índio em Frankfurt. Criam grupos de vigilantes para combater a “direita” no Twitter. Queimam a bandeira nacional. Estão em guerra permanente contra o racismo, o machismo, a homofobia, a degradação da atmosfera, os fertilizantes, os “agrotóxicos”, a desigualdade, a presença da polícia nas favelas. Acusam o governo dos delitos de desemprego, recessão econômica, alta do dólar, excesso de religião, não uso de máscara, genocídio, morte das onças-pintadas e só Deus sabe mais o quê.

Nada disso rende um único voto na hora da eleição, mas é muito mais fácil do que fazer trabalho político de verdade. É bem cômodo, no fundo, desligar a televisão depois de ver a sova que o governo leva diariamente no Jornal Nacional e dizer para si mesmo: “Mais um dia de vitórias na luta contra o fascismo bolsonarista”. Sai de graça, dá cartaz e não tem nenhum risco. Também é muito fácil viver na política quando existe uma alucinação chamada “Fundo Partidário”, negociata legal que transfere dinheiro dos impostos diretamente para o bolso dos políticos. Nos anos em que há eleições, eles ganham mais; neste 2020, por exemplo, o contribuinte está sendo extorquido em R$ 2 bilhões. Eis aí um ponto, talvez o único, em que o PT e o partido turbinado por Bolsonaro na última eleição estão 100% de acordo – são eles os que ficaram com as maiores verbas, cerca de R$ 200 milhões cada um. O fato é que o sujeito não precisa mais ganhar uma eleição para ganhar dinheiro; o fundo garante. Pode ser menos, é claro, mas não tem erro. Entende-se, aí, onde foram parar o espírito de combate do PT, a “militância”, as “lutas” etc. Para que esse perrengue todo? O que interessa é sair candidato. Se você, além disso, já ganhou de presente um emprego público no “aparelhamento” em massa da era Lula-Dilma, sua vida está resolvida.

O que fica faltando, no fim dessa história, é um candidato capaz de fazer sentido. Não adianta olhar para o outro lado à procura de uma alternativa para Lula. Vão achar quem? Fernando Henrique? Gilmar Mendes? Eymael, um democrata-cristão?

Faltam dois anos para a eleição presidencial de 2022. Se continuarem achando que Bolsonaro vai desaparecer por encanto na esfera celestial, só porque “não é mais possível continuar assim”, vamos continuar nessa balada até 1º de janeiro de 2027.

DEU NO TWITTER

FALA, BÁRBARA!

DEU NO JORNAL

SAUDOSAS LÁGRIMAS SERÃO DERRAMADAS

Um sindicato anunciou “abraço simbólico” na sede da Petrobras, no dia do aniversário da estatal.

A pelegada convidou políticos do Psol, PCdoB e PT, além de Lula e Dilma, responsáveis pelo assalto que quase quebrou a estatal.

* * *

O aniversário da Petrobras, que está completando 67 anos, é hoje, sábado, dia 3.

Coerentemente, Lula e Dilma, símbolos maiores da dilapidação da empresa, irão participar do furdunço vermêio, que será realizado às 3 da tarde no Rio de Janeiro.

A tônica deste evento, o simbólico abraço pelegal zisquerdóide, vai ser o derramamento de lágrimas.

Saudosas lágrimas pelo fechamento das torneiras corruptivas.

A choradeira vai ser tanta que a segurança da empresa já providenciou até uma equipe de emergência para o caso de inundação do local.

Um flagrante dos bons tempos de rapinagem petralha na Petrobras, na pena do colunista fubânico Sponholz

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O DIÁRIO TAQUI!…

Havia certo alvoroço na Contadoria. Estávamos em 31 de dezembro de 1956. Último dia de trabalho, a moçada inquieta, festas de fim de ano à vista…

Seu Aragãozinho, o Contador, “arrancava os cabelos” pela falta de um documento, exatamente no dia em que se deveria juntar tudo para fazer o Balanço Anual.

Mas apareceu uma diferença de centavos; a mais miserável para qualquer contabilista. Nesses casos era preciso cotejar todos os papéis do mês para se encontrar o erro que provocara a diferença.

Pois, no exato dia “D” desapareceu o lote do Diário do Movimento de 15 de setembro de 1952, imprescindível para se elucidar uma daquelas diferenças de centavos que tanto perturba os Contadores. E cadê o Diário?

Notou-se um vai-e-vem incomum no setor; gavetas abrindo-se e fechando-se, armários vasculhados, muitos funcionários consultados e Seu Costa Souza, o Subgerente, quase perdendo a paciência; um inferno.

Nisso aparece um cabra novo, que passara no concurso em 2º lugar, doido para comprovar sua eficiência e dispara um cochicho no ouvido de um colega:

– Se estão procurando o Diário de 17 de setembro, vou busca-lo!…

Era Biuzinho de D. Zefa, registrado na Cédula de Identidade como Severino Alexandre de Melo, rapaz de 19 anos, seco que só uma vara de bater pecado mas ágil como um macaco procurando macaca.

Desceu a escadaria como quem desce num escorrego de brinquedo e mandou-se, às carreiras, para a Praça da Independência, onde ficava o arquivo do jornal de Dr. Chateaubriand.

Lá, acionou velho amigo, Fernando da Cruz Gouveia, e quase se ajoelhou pedindo-lhe a edição do Diário de Pernambuco de 15.09.1952.

Pagou o preço e nem quis recibo. “Queimou o chão” de volta à Agência.

Lá chegando, esperado com ansiedade, estufou o peito como se o “Herói do Dia” fosse, disparou uma frase que ficaria no anedotário e provocaria em todos uma risadaria incontida.

A preocupação continuou reinando até que horas depois o arquivista trouxe o Diário Contábil tão procurado.

Mas valeu o espírito de iniciativa daquele novo funcionário, que depois foi enaltecido pelos seus chefes, em que pese sua inocente interpretação do problema.

Mas ninguém se aguentou quando ele disse com o maior entusiasmo:

– O Diário “taqui” meu chefe!…