PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

COMPOSTURA – Padre Antônio Tomás

Triste mortal que de contínuo choras,
Anunciando a todos, voz em grita,
A desventura que te infelicita
Para a qual lenitivo ao mundo imploras,

Deste modo de certo não minoras
A funda mágoa de tua alma aflita:
Riso somente e não piedade excita
O vão clamor com que teu mal deploras.

Se não sabes sofrer as tuas penas,
De rosto alegre e ânimo jucundo,
Como as almas estoicas e serenas,

Aprende ao menos a sofrer calado,
Pois a maior desgraça deste mundo
É parecer aos outros desgraçado.

Padre Antônio Tomás, Acaraú-CE (1868-1941)

COLUNA DO BERNARDO

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

NEWTON SILVA - CALAMUS SCRIBAE

TRAGO O SEU AMOR DE VOLTA

A mulher, de uns tempos para cá, passou a frequentar fervorosa e assiduamente, as vigílias na igreja. Quando não era um retiro espiritual que durava a semana inteira, era o Ofício da Imaculada, varando as madrugadas. Noutras vezes, era a novena da Nossa Senhora do Não-Sei-O-Quê, novenas e mais novenas, vigília de oração pelas famílias, etc., etc.

– O padre disse que vamos ficar enclausurados para rezar o terço pela paz mundial. – dizia ela ao marido.

Paz mundial, coisa nenhuma! Foi em um desses retiros madrugadas adentro que ela conheceu um diácono que a seduziu entre terços, vigílias e rezas. Ela estava mesmo era nos braços de um negro banto de olhos melosos, bonito, viril e cheiroso, que a curou de todos os males e a levou consigo encantada, como num conto de Grimm.

A mulher que ele amava, desvencilhou-se dele como fumaça entre os dedos. Deixou todas as dores com ele e foi-se embora com diácono afro.

Ele não dormiu durante um mês inteiro.

A casa estava cheia de fotos, das coisas e do cheiro dela. Desandou e perdeu o prumo. Culpava Deus e a Igreja por tê-la perdido. Andava por aí como um notívago, perambulando maltrapilho pelos bares e noitadas. Tornou-se um ébrio e na bebida tentava esquecer, apedrejado, cruzando ruas e caminhos. Somente nos cabarés do baixo meretrício encontrava abrigo, pois há mais comiseração entre bêbados e prostitutas, do que entre clérigos e sacerdotes.

Foi numa dessas noitadas que, certo dia, viu pregado em um poste, um cartaz que dizia: TRAGO O SEU AMOR DE VOLTA. Relampejou nele, uma réstia de esperança. Enveredou-se então pelas ruas, em busca da cartomante que dizia trazer em três dias, a pessoa amada de volta.

A cartomante olhou para ele e se apiedou.

– Quer que ela volte pela linha branca ou pela linha preta? – perguntou a cartomante embaralhando as cartas. – Pela linha preta é garantido, mas vai lhe custar muito dinheiro. – frisou.

Ele pagou uma quantia considerável e ela fez o que tinha que ser feito e evocou as potestades do ar.

De fato ela voltou, três dias depois. Os olhos chorosos, cabelos desgrenhados, trêmula, mas não suplicando perdão. Ele a aceitou de volta. Recebeu-a efusivamente, encheu a casa de rosas.

A partir daquele dia, a mulher não saia mais de casa. Ele se recompôs e passou a enchê-la jóias, vestidos, perfumes e presentes caros, mas não de carinho e de afeto.

Mas a mulher não era mais a mesma. Não comia, não bebia, não falava, nem sequer dormia. Passava o dia todo apática em um sofá da sala com os olhos perdidos em um ponto qualquer no horizonte.

Mesmo assim, diante daquilo tudo, embriagado pela sua demência, ele estava radiante com a volta da pessoa amada, até que um dia, a situação tomou um rumo inesperado.

Os vizinhos sentiram um odor insuportável vindo do apartamento e acionaram a Polícia. Quando os policiais entraram no local, encontraram a mulher sentada na sala, diante da janela, já em adiantado estado de decomposição, com os olhos vividamente abertos e preservados, fitando serenamente, um ponto qualquer no horizonte.

Imediatamente ele foi detido e acusado de homicídio doloso, ocultação de cadáver e crime de violação de sepultura, embora ele dissesse insistentemente, que só queria o seu amor de volta.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

FRANCISCO SOBREIRA – NATAL-RN

TEM AUMENTADO, CONSIDERAVELMENTE, O NÚMERO DE MULHERES ENVOLVIDAS EM CRIMES CONTRA O DINHEIRO PÚBLICO

Elas poderiam ser denominadas de ladras de colarinho branco, uma vez que pertencem à classe média alta (algumas até à alta), possuidoras de diploma universitário, vá ver que até mais de um, casadas com figurões da política e do empresariado. Não raro, como no caso recente do senador José Serra, há a cumplicidade de filha do acusado.

Curiosamente, difícil entender a razão, sempre que me deparo com uma notícia de uma mulher denunciada por esse crime, me vem à mente aquela expressão francesa “cherchez la femme“, que, em nosso idioma, quer dizer “procurai a mulher”; ou, em linguagem mais coloquial, mais popular, “procurem a mulher”.

Uma frase que não vem do anonimato, ao contrário de tantos ditos populares, mas da boca de um policial da peça de Alexandre Dumas, pai, “Os Moicanos de Paris”. Foi dita pela primeira vez no remotíssimo ano de 1864, quando ela estreou em Paris.

Com o significado de que se deve sempre ir atrás de uma mulher, para se decifrar o enigma de um crime, a expressão migrou para o restante do mundo; tornou-se presença obrigatória em diversos romances policiais de várias nacionalidades; e não é de todo improvável que tenha sido cooptada pelo cinema – isto é, nos filmes do gênero “noir“, nos quais um dos postulados básicos exige a presença da “femme fatale“, mais uma de outras tantas expressões exportadas da França.

Apesar de sua natureza inegavelmente machista.

DEU NO JORNAL

SE TREMENDO E SE OBRANDO

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, ligou nesta segunda-feira, 13, para o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e para o ministro da secretaria de governo, Luiz Eduardo Ramos, com a finalidade de apagar o incêndio que teve início com as declarações do ministro Gilmar Mendes – que afirmou, em uma live, que o “Exército está se associando a esse genocídio”.

No telefonema a Fernando Azevedo, Toffoli ressaltou que a visão do ministro Gilmar Mendes não representa o pensamento do STF.

Toffoli atua nos bastidores para tentar conter a escalada da crise.

Em nota, divulgada nesta segunda-feira (13), Azevedo e os comandantes da Marinha, Exército e Aeronática ameaçam fazer uma reclamação na Procuradoria Geral da República contra Gilmar.

* * *

Tão tudo se tremendo e se obrando nas calças.

O militante petista Dias Toffoli, propinado da Odebrecht, tem consciência da enormidade da babaquice praticada pelo pavão psicopata Gilmar Boca-de-Bacurinha (que, com os beiços tremendo, já soltou uma nota dizendo que não foi bem isso que queria dizer…).

E, por conta disso, tratou de ligar pros milicos e pedir desculpas.

Toffinho tem consciência de que o cabo e o soldado estão prontos pra entrar em ação na hora em que receberam as ordens pra pegar Gilmar lá no STF.

Já estão até dentro do jeep.

DEU NO TWITTER

DEU NO JORNAL

É HORA DE O PT PEDIR PERDÃO. PERDOAR SÃO OUTROS QUINHENTOS

Paulo Polzonoff Jr.

Lula: não se deixe enganar pelo gesto. Não, ele não está pedindo perdão

O jornalista Ascânio Seleme, do Globo, surpreendeu absolutamente ninguém ao publicar, no último sábado (11), um manifesto intitulado “É hora de perdoar o PT”, no qual conclama a população brasileira a perdoar o Partido dos Trabalhadores. Pelo que vi em minha bolha, as reações ao chamamento de Seleme variaram entre o “Jamais!” e o “De jeito nenhum!”. Seleme, contudo, toca num ponto importante e sobre o qual não há qualquer consenso: em que momento deixaremos o PT/Lula para trás?

Antes de tentar abordar a possibilidade/necessidade de perdoar o PT política e individualmente, convém dar uma espiadinha nos argumentos de Seleme, que começam com a seguinte frase: “Não há como uma nação se reencontrar se 30% da sua população for sistematicamente rejeitada”. Ele está falando, obviamente, dos 30% do eleitorado supostamente fiel ao PT.

Mas o que dizer da rejeição aos conservadores, aos evangélicos, aos liberais e até aos bolsolavistas que o mesmo PT nutre e estimula? Seleme, em seu texto, faz crer que o eleitorado petista (não militante) é vítima de um grande complô de centro-direita que o estigmatiza só (!) por causa da corrupção da “virtuosa” Era Petista. “Ninguém tem dúvida de que os malfeitos cometidos já foram amplamente punidos”, escreve o jornalista, mostrando que “ninguém” é uma palavra com significado completamente oposto, a depender de quem vê o mundo.

Adiante, ele diz que “Hoje, respeitadas as suas idiossincrasias naturais, homens e mulheres de esquerda devem ser convidados a participar da discussão sobre o futuro do país. Têm muito a oferecer e acrescentar”. Será que têm mesmo? Porque o que mais vejo os homens e mulheres de esquerda fazendo é “tomar e tirar”. E não estou me referindo, aqui, à corrupção. Trata-se de uma forma de ver o mundo e de fazer política que tem como objetivo silenciar o debate e destruir qualquer ponte que se queira criar. De Tabata Amaral a David Miranda, passando por Randolfe Rodrigues, Gleisi Hoffmann, Jandira Feghali e quetais, só vejo intenção de impor uma visão de mundo que o outro extremo, aquele que a esquerda não cansa de xingar de violento, racista, misógino, homofóbico, inculto, indiferente e perverso, rejeita no todo ou em parte considerável.

Adiante, Seleme escreve uma sequência de quatro afirmações apaixonadas. Três delas são equívocos assustadores e uma delas, no contexto geral da argumentação, só pode ser lida como uma confissão de cinismo. Confira comigo no replay: “Mas o PT é maior que isso e, como já foi dito, para ladrões existe a lei. Imaginar que o partido repetirá eternamente os mesmos erros do passado é uma forma simples, fácil e errada de se ver o mundo. Os erros amadurecem as pessoas, as instituições, os partidos políticos. Não é possível se olhar para o PT e ver só corrupção. O petismo não é sinônimo de roubo, como o malufismo”.

E os três parágrafos seguintes podem ser resumidos da seguinte forma. Primeiro, o PT deve ser perdoado porque, quando no poder, teve a oportunidade de pôr em prática seu autoritarismo latente, mas não pôs. Se não fez isso antes, não fará mais. Em segundo lugar, ele sugere que qualquer um que não tenha “boa vontade” para com o PT faz parte de “um grupelho ideológico, burro e pequeno”. Por fim, deve-se perdoar o PT porque “o Brasil não tem tempo para esperar por uma outra esquerda, renovada e livre da influência do PT” e “O país precisa se reencontrar logo para construir uma alternativa ao bolsonarismo, este sim um problema grave que deve ser enfrentado por todos”.

Dessa vez vai ser diferente

Apesar da argumentação bastante falha, baseada em pressupostos para lá de questionáveis, o manifesto de Ascânio Seleme é compreensível. Ele dialoga justamente com o militante petista que se sente excluído do debate público porque jura de pés juntos que, apesar do Lula Livre pichado na parede do quarto, nunca compactuou nem jamais compactuará com métodos heterodoxos de governo.

Seleme só ignora um elemento importante nesta equação: o trauma do brasileiro. Politicamente, ainda estamos muito distantes de perdoar o PT enquanto instituição, seus principais líderes e também militantes. E não é só por causa da roubalheira. A corrupção é só a parte mais visível de algo mais profundo, de uma ojeriza pelos métodos, pela retórica, pelos personagens – pela tragédia inteira.

É preciso deixar de marginalizar os 30% do eleitorado petista e construir pontes? Idealmente, sim. Mas, se essa ponte há de ser construída (e não superfaturada!) tendo por base a misericórdia, a segunda-chance, o dessa-vez-vai-ser-diferente, é preciso levar em conta que, no mundo muito concreto da luta político-eleitoral, talvez não exista nada mais valioso do que o perdão.

E como concedê-lo de boa vontade, como pede o articulista, se politicamente o PT continua se aliando com o que há de mais nefasto no mundo das ideias? Como perdoar uma instituição que, por exemplo, felicita o Partido Comunista chinês por seus 99 anos de uma história macabra? Que apoia o regime de Nicolás Maduro? Uma instituição cujos olhos brilham diante da realidade da Coreia do Norte e Cuba. E que não passa um dia sequer sem apontar o dedo para o resto das pessoas, dizendo que elas são fascistas?

Em se tratando de Partido dos Trabalhadores, seu eleitorado, os militantes, os líderes e sub-líderes, e a instituição como tal só terão alguma chance de serem perdoados depois que pedirem desculpas e mudarem de atitude – mas daí isso desconfiguraria o petismo enquanto movimento político. Enquanto modo de pensar. Enquanto forma de ver os outros seres humanos.

A jornada mais difícil

Há algum tempo, acho que quando Lula estava prestes a ser preso, em 2018, e fez aquele comício todo embriagado de si mesmo no Sindicato dos Metalúrgicos, propus em minhas redes sociais uma pergunta muito simples: se Lula viesse a público, pedisse desculpas, dissesse que merecia ficar um tempo na cadeia, doasse todo o patrimônio para uma instituição de caridade e jurasse jamais pegar num microfone novamente, você o perdoaria?

Poucos se atreveram a responder. Alguns me chamaram de comunista e petista enrustido. As poucas respostas giravam todas em torno de uma questão: como acreditar no arrependimento de Lula? Sim, foi a esse ponto que chegou a credibilidade do sertanejo que se tornou operário na cidade grande para depois virar Presidente do Brasil.

Tenho para mim que o perdão é a Virtude das Virtudes. É aquilo que realmente nos diferencia dos bárbaros. Mas é algo que demanda certo estado de espírito, certo contexto e uma altivez toda especial tanto de quem perdoa quanto de quem é perdoado. Perdão que se pede assim, publicamente, cheira a mentira. Perdão que se dá publicamente fede a vaidade.

Mais do que isso, o perdão é um gesto extremamente pessoal, íntimo. Do oprimido para o opressor, em silêncio, depois de uma profunda reflexão. Não pode ser dado e recebido, portanto, assim no atacado.

Do ponto de vista pessoal, é bastante possível perdoar o PT e o petismo. Talvez até seja mesmo recomendável. Afinal, ficar acumulando raiva e rancor não faz bem para a saúde. Mas, para usar um termo da moda, não se trata de uma jornada fácil. Até porque para perdoar assim é preciso, antes de mais nada, abdicar do conceito muito secular de justiça a que estamos apegados – e que às vezes é só um codinome para vingança.

Ainda não tive a oportunidade de me submeter a esse processo. O PT simplesmente não é um assunto muito presente em minhas preocupações existenciais, espirituais, metafísicas. O que, pensando bem, talvez até tenha sido uma forma acidental de perdoar por meio do esquecimento. Digo, o PT existe, Lula existe, o 13 existe, Gleisi Hoffmann e Dilma Rousseff e Zé Dirceu existem.

Mas apenas como um elemento a mais numa paisagem muito maior, mais complexa e admirável do que isso.

CHARGE DO SPONHOLZ

DEU NO JORNAL

GILMAR MENDES ULTRAPASSOU TODOS OS LIMITES ACEITÁVEIS

Rodrigo Constantino

O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, avalia com o comando das Forças Armadas e à Advocacia-Geral da União (AGU) uma reação ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. No sábado (11), em videoconferência, o magistrado disse que o Exército está se associando a um “genocídio”, em referência à pandemia de Covid-19 no Brasil e a ausência de um titular no Ministério da Saúde.

Ao Estadão, Azevedo disse que está “indignado” com “acusações levianas” de Gilmar Mendes. No domingo (12), o ministro questionou a presença predominante de militares na Saúde e opinou para que a situação “seja revista”.

Não é de hoje que Gilmar Mendes se mete onde não foi chamado para fazer comentários políticos esdrúxulos. O ministro não se comporta como um juiz de última instância, mas sim como um agitador político, um comentarista de opinião que resolveu fazer oposição – demagógica ainda por cima -, ao atual governo.

Mendes disse que é “ruim, péssimo” o governo ter um ministro militar “interino” em meio a essa pandemia, e que isso seria uma estratégia para afastar o presidente dos óbitos, transferindo para governadores a responsabilidade. Além de leviana, a acusação extrapola e muito o decoro de sua função, ainda mais quando define como “genocídio” tal postura.

Toda crítica a ministros do STF é recebida por eles como um “ataque à instituição” e à própria democracia. Mas eles se sentem no direito de comparar Bolsonaro a Hitler, de definir como genocídio a postura do governo, e de promover uma ingerência ímpar e sem precedentes no poder Executivo.

Esse grau de politização do Supremo é provavelmente o maior risco existente hoje à nossa democracia. Quem fala em perigo de autoritarismo ou fascismo vindo do governo federal, e faz vista grossa a essa conduta bizarra do STF, calibra muito mal suas prioridades, e está míope, talvez pelo ódio patológico que sente pelo presidente.

Não dá para tolerar mais essas declarações estapafúrdias de ministros do Supremo. As instituições estão se esgarçando de forma perigosa. Se esses ministros querem derrubar o atual governo, que abandonem a toga e disputem eleições! Ou então que se calem e se limitem a declarações técnicas por escrito, em seus votos sobre questões constitucionais.

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VERGONHA NACIONAL