DEU NO TWITTER

ALERTA AOS LEITORES DO PIAUÍ

NEWTON SILVA - CALAMUS SCRIBAE

UMA MÃE NO QUARTO DE HOSPITAL

Sentada defronte à janela do quarto do hospital, absorta, uma mãe escrevia a esmo. Nem percebia a aragem com cheiro de eucalipto que entrava no quarto da filha doente, que dormia serenamente, depois de muitas noites insones, de febres, vômitos e dores. De faces rosadas, dormia como dormia um anjo dento de uma pintura. A mãe nem percebia que lá fora a tarde era tão bonita, com sombras dadivosas, longas, espalhadas na calçadas.

Um anjo sentava-se toda tarde com ela, descansando as asas enormes na janela. Ele, o anjo, também absorto, lia o que ela escrevia:

A minha doce menina já está bem melhor. Já não lhe doem as juntas dos dedos. também não tem tanta sede. Antes tinha tanta sede que não lhe podiam falar em água. Agora, está bem melhor.

Foi lindo saber como minha menina parou de delirar. Assustava-me quando ela dizia a respeito de seus delírios pequeninos. Sempre associei delírios à ideia da morte. Mas minha menina não pode morrer. Eu sim, posso morrer, mas ela não. Ela não sabe, mas eu troquei a morte dela com Deus. A morte de minha menina agora é minha e eu quero morrer antes dela.

Hoje de manhã, ela me falou com sua voz sumida que me amava como um passarinho. Que bom que Deus não a tirou de mim.

A mãe então guardou o escrito dentro de uma Bíblia e começou a orar. O anjo descansando as asas enormes na janela, trêmulo, chorava. É certo que ninguém sabe, mas as mães têm o poder magnífico de fazer um anjo chorar.

A menina, já acordada, restabelecida, com seus olhinhos pequeninos, olhava a tarde passar pela janela.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

EPITÁFIO – Bocage

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setubal, Portugal (1765-1805)

DEU NO TWITTER

COLUNA DO BERNARDO

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O CACHORRO QUE CHORAVA

Alagoas é um celeiro de bons jornalistas. A imprensa honesta, batalhadora e competente faz parte de nossa história. Tenho Ricardo Rodrigues como um dos melhores jornalistas atuantes e mais éticos. Foi ele que me relembrou o caso do cachorro que chorava. Um fenômeno que abalou, assanhou a cidade e o Brasil nos idos dos anos 70.

Ao completar 10 anos, Ricardo ganhou um lindo cachorro de se pai, Arlindo. Não pertencia a alguma raça específica, ou seja, era um legítimo vira-lata. Colocaram o nome de Johnson, em homenagem ao presidente dos USA. O cachorro ficou bonito danado, cresceu com muito apego ao dono.

Certa vez, durante a madrugada, arrombaram a porta e roubaram algumas bebidas e comidas no Bar de Seu Arlindo que se tornou ponto de encontro da boemia em Jaraguá. Ele resolveu levar o cachorro para dormir no bar, Ricardo esperneou, não queria deixar o cachorro. Johnson tornou-se patrimônio, cria e mascote do Bar do Arlindo. Os fregueses tinham maior carinho pelo cão-vigia.

O bar era frequentado por artistas e boêmios de Maceió. Seu Arlindo colocava música na possante vitrola Phillips, e a moçada curtia Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Elizeth Cardoso e outros grandes cantores da época enquanto dava um trato na cerveja e na branquinha.

Certa noite, Seu Arlindo notou Johnson chorar, o cachorro uivava quando tocava uma música específica; não eram todas. Finalmente descobriu: Johnson chorava apenas quando tocava a música de Altemar Dutra: “Vida Minha”.

Johnson tornou-se atração do bairro boêmio de Jaraguá. Quando aparecia um desavisado, os assíduos frequentadores apostavam como o cachorro chorava ao ouvir música. Alguns desatentos pagaram garrafas, caixas de cervejas para os malandros.

O fato se espalhou por toda cidade de Maceió. Entrou pelo Poço, Mangabeiras, Ponta da Terra, Pajuçara, até no Tabuleiro. Todos queriam conhecer o cachorro que chorava. O Bar do Arlindo de repente se encheu. Gente do povo, deputado, senador, coronel, capitão, ficavam pasmados com o choro de Johnson.

Sociólogos, filósofos, professores da UFAL tentaram explicar o fenômeno. Muitas páginas foram escritas em tese de mestrado sobre o cachorro que chorava. Teorias fizeram trabalhar os tipos das máquinas de datilografias da época.

Certa noite apareceu o jornalista Bernardino Souto Maior. Ao ouvir o uivo do cachorro ao som da música do Altemar Dutra, foi taxativo com Arlindo:

-“Vou levar você e o cachorro para o Programa Flávio Cavalcante.”

Naquela época, na TV Tupi de São Paulo, o Programa Flávio Cavalcante, tinha a maior audiência no Brasil. Havia um quadro chamado “Fora de Série”, onde Flávio apresentava histórias interessantes, fenômenos e outras gaiatices. Não deu uma semana, Bernardino entrou no Bar do Arlindo:

– “Prepare uma jaula para o cachorro. Aqui estão nossas passagens para São Paulo. Vamos viajar amanhã e entrar no ar ao vivo no domingo.”

Numa fria madrugada de sexta-feira no Aeroporto Campo dos Palmares, entraram no avião: Arlindo, Bernardino e o já famoso Johnson.

Na hora do programa todos estavam nervosos, era ao vivo. Se o cachorro falhasse, seria um vexame televisionado para todo o Brasil. Até que chegou o momento. Flávio Cavalcante com sua empáfia de apresentador estrelado iniciou:

-“E agora meus amigos de todo o Brasil. Vou apresentar Johnson, o cachorro que veio das Alagoas. Um sentimental cachorro que chora quando ouve Altemar Dutra.”

Entraram no palco da TV: Bernardino e Seu Arlindo com Johnson. Depois de algumas perguntas, e fazer o suspense, se o cachorro ia chorar ou não, finalmente Flávio manda rodar a música. Maior expectativa. Quando se ouviu: “Eu acordei chorando…e tu não acreditaste…vida minha…..”, o nosso querido Johnson irrompeu em uivos. Chorou com lágrimas caindo como se fosse um personagem de novela mexicana.

A plateia e todos os expectadores ligados na TV deliraram. Maior sucesso, muitos aplausos. Johnson era a nova sensação do Brasil. Por conta disso, no outro dia, Johnson foi convidado para gravar no programa da Cidinha Campos.

Quando os três retornaram à Maceió, no aeroporto havia jornalistas, rádios pedindo entrevistas. Seu Arlindo continuou com sua birosca sob a vigilância do famosíssimo Johnson.

Na quinta-feira daquela semana, uma multidão foi assistir na televisão do Bar do Arlindo o Programa Cidinha Livre, tinha sido gravado. Durante a apresentação, quando iniciou a música “Vida Minha”, Johnson irrompeu no choro duplamente, ao vivo e na televisão.

Muitos quiseram comprar nosso herói canino. Veio proposta do Recife, da Bahia, do Rio de Janeiro. Um milionário de New York mandou uma oferta fabulosa. Mas Seu Arlindo preferiu conservar Johnson junto a ele, fazendo guarda em seu bar e brincando com o filho Ricardo.

Nunca mais um alagoano foi tão aplaudido em rede de televisão nacional. Difícil um sucesso como o do inesquecível Johnson, o cachorro que chorava.

EVENTOS, ESPETÁCULOS E BABADOS

É HOJE! – ARRAIÁ COM ELBA RAMALHO

A gente espera o ano todo pelo São João, momento de celebrar nossas tradições, preparar quitutes e dançar muito forró nas festas de rua.

Porém, em função do momento atual, nós da Celpe, Companhia Energética de Pernambuco, te convidamos para uma festança em um formato diferente.

Na segurança da sua casa, com uma live estrelada pela cantora Elba Ramalho.

Essa grande artista, que sempre está presente nos arraiás de todo o Brasil, fará um show inesquecível, ao vivo em seu canal do Youtube.

Esperamos você e sua família para forrezear conosco!

Saiba mais detalhes da programação clicando aqui.

Siga as nossas redes sociais e use #arraiadaenergiacomelba

PERCIVAL PUGGINA

UM INQUÉRITO TOTALMENTE FORA DA CURVA

Preocupou-me o voto do relator, ministro Edson Fachin, em relação ao inquérito instaurado pelo STF para investigar ameaças, manifestações antidemocráticas em relação àquele poder, notícias falsas e o que mais possa parecer perigoso, assustador ou difícil de ser tolerado por suas excelências. O inquérito, já haverá percebido o leitor, é uma sacola de feira, onde laranjas e couves se misturam com uvas e tomates. Está aberto, até mesmo, para investigar contas de campanha eleitoral, ainda que haja um tribunal superior para isso em pleno funcionamento.

Aliás, não se requer muita sensibilidade para perceber, no teor do voto, o esforço do ministro para proclamar o caráter excepcional, quase interdito a reiterações da Portaria e do subsequente inquérito que criou todo esse constrangimento à Corte. Enquanto falava, o ministro ia balizando, ao bom ouvinte e ao bom leitor, todas as manifestas demasias e impertinências da Portaria GP Nº de 14 de março de 2019 e em sua aplicação. Fosse tudo de tão bom fundamento quanto vêm tentando fazer crer os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que razões teria Edson Fachin para sublinhar, em reunião plenária, a necessidade de um inquérito do STF respeitar súmula vinculante (a de nº 14) editada pelo próprio tribunal sobre o “direito de amplo acesso dos advogados aos elementos de prova (…) que digam respeito ao exercício do direito de defesa”? Pois é.

Que necessidade teria o ministro de, em defesa da liberdade de expressão, propor a supressão do escopo do inquérito de postagens, expressões, manifestações pessoais e compartilhamentos se elementos assim já não estivessem acolhidos no escopo do inquérito em desrespeito àquela liberdade? É um desafio à capacidade de compreensão. Do mesmo modo, por que sublinhar o caráter “atípico” desse tipo de aplicação dos artigos 42 e 43 do Regimento Interno, que “não é nem deve ser usual”? E a grande obviedade comparece ao voto do ministro relator eivada de subjetividade: “Aquele que julga não deve investigar, menos ainda acusar, eis a premissa da isenção, sinônimo de independência. Ao fazê-lo, como permite a norma regimental, esse exercício infrequente e anômalo submete-se a um elevado grau de justificação e a condições de possibilidade sem as quais não se sustenta”. Subjetividade pura! Será que isso descreve a situação da poderosa vítima que investiga e julga suposto réu?

É bom lembrar o que está prescrito com todas as letras no art. 43 sobre essa exótica atribuição conferida ao presidente do STF: “Ocorrendo infração à lei penal na sede ou dependência do Tribunal, o Presidente instaurará inquérito, se envolver autoridade ou pessoa sujeita à sua jurisdição, ou delegará esta atribuição a outro Ministro”. Como pode essa jurisdição extravasar a sede ou dependência do Tribunal, sair ao ar livre, atravessar a praça, cruzar os céus da pátria e investigar crime praticado por suspeito morador nos confins do território nacional, sem sair das dependências do STF? Onde foram parar o “juízo natural” e o “fruto da árvore envenenada”?

Cada vez que leio os dois artigos do Regimento Interno do STF que respaldam o inquérito (ademais sigiloso!) presidido por Alexandre de Moraes, mais se consolida em mim a percepção de que foram pensados e redigidos como forma de dar tratamento especial a crimes eventualmente cometidos no espaço físico do tribunal, criando ali um mundo à parte. É algo tão singular em relação aos nossos costumes que o ministro relator, se empenhou em promover uma espécie de lockdown do inquérito instaurado pela Portaria GP 69. É para seguir funcionando, mas não deve contaminar as práticas forenses, seja no STF, seja noutros tribunais. Não sirva ele de exemplo.

Vamos ver como votam os pares, mas fiquei com a sensação de que o ministro prestava uma sequência de socorros: um de natureza corporativa, de apoio à própria corte já enrolada nas demasias do inquérito em curso; outro de socorro aos investigados, estabelecendo limites e contenções, fechando portas e janelas para que algo assim nunca mais volte a acontecer.

Por fim, participo da mesma preocupação expressa em artigo que li recentemente: o STF faz o que sua maioria quer. Sempre dá um jeito de impor esse querer, seja mediante uma “interpretação conforme”, seja alegando uma “omissão do parlamento” que não fez a lei necessária, ou ao gosto da Corte, seja mediante “modulação” de decisão extravagante, seja por alegada “inação das autoridades competentes”. Enquanto o STF vislumbra assombrações do passado em certas mobilizações de rua, seu modo de agir fica, por vezes, muito parecido com o preocupante vulto de uma ditadura do judiciário. Ao exibir-se à nação repartindo espaços de protagonismo no noticiário político, o Supremo, querendo ou não, convoca a cidadania a opinar sobre o que discute, decide e faz.

DEU NO JORNAL

TODOS JUNTINHOS

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fugiu como o diabo na cruz de explicações sobre sua amizade com André Felipe de Oliveira.

André Felipe foi preso pela Polícia Federal, quarta (10), na venda milionária de respiradores para o governo do Pará.

André e Maia dividiram uma mansão em Brasília, anos atrás.

* * *

Dividir a mansão é o de menos.

Eu tô curioso mesmo pra saber é se dividiam a mesma cama.

E, em caso positivo, quem era que…

Ah… Deixa pra lá…

Vamos fechar a postagem com um flagrante autenticamente banânico.

No meio, o corruptor ativo André Felipe de Oliveira, preso quarta-feira passada por grossa ladroagem.

Ladeando sua linda figura, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e o do Senado, David Alcolumbre.

Câmara e Senado são os órgãos que constituem um dos poderes dessa república surrealista, o Poder Legislativo.

Tudo certo, ajustado e coerente.

É pra arrombar a tabaca de Xolinha!!!

J.R.GUZZO

COMO CUMPRIR O QUE PEDE A OMS?

Para ser um bom cidadão e um bom patriota, hoje em dia, você precisa obedecer às instruções da Organização Mundial da Saúde em tudo o que diga respeito ao coronavirus. É o que mandam fazer o Supremo Tribunal Federal, o Senado, a Câmara dos Deputados, os artistas da TV Globo e o juiz de São João do Meriti: enquanto a OMS não disser que a epidemia está eliminada, mantenha o máximo possível de “distanciamento social”, não siga nenhuma recomendação médica que não seja aprovada pelos chefes da organização e, principalmente, não discuta.

Não se trata de uma opção, e sim um dever legal. Para dar um exemplo prático: os habitantes da já citada São João do Meriti, no Rio de Janeiro, estão sendo obrigados a manter a quarentena por ordem do juiz local. O prefeito, achando que o que valia era a decisão do STF pela qual só as “autoridades locais”, e ninguém mais, podem tomar medidas quanto a covid-19, liberou as atividades econômicas no município. O juiz proibiu a população de obedecer à prefeitura – mandou seguir o que a OMS diz e, segundo ele, a OMS quer que o comércio de São João do Meriti continue fechado. Não foi o único.

Há um problema sem solução nisso aí: trata-se de saber qual seria, no fim das contas, a decisão da OMS que está valendo hoje, pois ela pode perfeitamente não ser a de ontem. Nem os diretores da organização sabem; como, então, a gente poderia saber?

No começo da epidemia, no final de 2019 na China, a OMS viveu uma intensa fase de “gripezinha que vai passar daqui a pouco”. Disse que o vírus não podia ser transmitido do animal para o homem. Condenou as recomendações de não se viajar para a China. A um certo momento, foi politicamente correto combater o distanciamento. “Abrace um chinês”, recomendava-se nessa época. Depois, à medida em que os mortos começavam a se empilhar, trocaram o sinal e passaram a ser os campeões mundiais da “quarentena radical por tempo indeterminado até a descoberta de uma vacina”. No Brasil, é essa a fase da OMS que está em vigor.

Desde então, a OMS já disse que se deveria testar a cloroquina como possível tratamento para a covid-19. Tempos depois, determinou que todos os testes fossem suspensos. Agora, ao que parece, suspendeu a suspensão e está achando que sim, seria bom testar a cloroquina de novo. Em seu mais recente surto de posições que se contradizem e se anulam entre si, uma diretora afirmou que a transmissão do vírus a partir de pessoas que não têm sintomas “é muto rara”. Um dia depois outro diretor garantiu o oposto – disse que estava “absolutamente convencido” de que há transmissão por parte dos “assintomáticos”, embora não pudesse demonstrar com números a sua afirmação. Então: como cumprir as determinações da OMS se não se sabe se a determinação é essa ou é aquela?

Quando um diretor diz uma coisa e outro diretor diz o oposto, parece haver uma prova provada de que um dos dois está errado, já que não podem ter razão ao mesmo tempo. É possível, ainda, que nenhum dos dois esteja certo. O indiscutível, depois de todo esse tumulto mental, é que a OMS não pode, realmente, garantir que saiba o que está fazendo. Poderia ser apenas um problema dela – mas é um problema concreto para os brasileiros, cujas vidas cotidianas se veem afetadas diretamente por decisões que o STF, o Congresso e mais uma penca de autoridades continuam levando a sério.