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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

MOTES BEM GLOSADOS

Dedé Monteiro, o Papa da Poesia, nascido em setembro de 1949, no sitio Barro Branco, município de Tabira, Pernambuco

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote

Saltei mas de mil cancelas
Na estrada dos desenganos.

Na estrada dos desenganos
Contei mais de mil palhoças,
Pequenas, pobres, singelas,
Passei por mais de mil roças,
Saltei mais de mil cancelas,
Dormi em mais de mil redes,
Saciei mais de mil sedes,
Desmanchei mais de mil planos,
Fiz mais de mil amizades,
Deixei mais de mil saudades,
Na estrada dos desenganos.

Passei por mais de mil cruzes,
Acendi mais de mil velas,
Divisei mais de mil luzes,
Saltei mais de mil cancelas,
Mais de mil vezes chorei,
E o pranto que derramei
Valeu por mais de mil anos…
Desfiz mil sonhos queridos,
Soltei mais de mil gemidos
Na estrada dos desenganos.

Ganhei mil cabelos brancos,
Fiz mais de mil sentinelas,
Venci mais de mil barrancos,
Saltei mais de mil cancelas,
Escutei mil passarinhos,
Pisei mais de mil espinhos,
Padeci por mil ciganos,
Ganhei mais não do que sim,
Deixei mil partes de mim
Na estrada dos desenganos.

* * *

Zé Mariano glosando o mote:

Vejo um quadro pintado de saudade.
Na parede da minha solidão.

Relembrando meus tempos de criança,
Os momentos alegres que passei
Na casinha de barro onde morei,
Muito simples, mas farta de esperança,
O orgulho que tinha a vizinhança
Já me vendo um futuro cidadão,
Quando lembro a ponteira do pião
Enrolando na minha mocidade,
Vejo um quadro pintado de saudade
Na parede da minha solidão.

Se fingir que dos anos me esqueci,
Se por ser vaidoso ou por desgosto,
Sem ter traumas, as rugas do meu rosto
Vão mostrar que de fato envelheci.
Na escola da vida eu consegui
Receber o diploma de ancião,
E na hora da minha conclusão,
No canudo manchado da idade
Vi um quadro pintado de saudade
Na parede da minha solidão.

Ela foi me dizendo que voltava
Eu fiquei aguardando seu regresso
Foi-se um ano, dois anos, sem sucesso
Nem recado, nem carta ela mandava
Quando alguém por capricho perguntava
A esquecesse poeta, sim ou não?
Respondia com a voz do coração
Implorando por sua liberdade
Tenho um quadro pintado de saudade
Na parede da minha solidão.

Pra poder esquecer quem certo dia
Fez morada na sombra do meu peito
Resolvi por em prática meu direito
De viver como um pássaro em harmonia
Dei um laço abraçando a poesia
E depois de tomada a decisão
Coloquei toda a minha inspiração
No lugar de quem era outra metade
E nunca mais vi um quadro de saudade
Na parede da minha solidão.

* * *

A TAMPA DO TABAQUEIRO –  Dedé Monteiro

Vovô morreu muito pobre
Sem nada deixar de herança
Mas me deixou por lembrança
Um tabaqueiro de cobre.
Nunca vi coisa tão nobre,
Era um troféu verdadeiro!
Na tampa tinha um letreiro
Que o velho escreveu pra mim
Pedindo pra não dar fim
A tampa do tabaqueiro.

Por isso eu nunca emprestava
O tabaqueiro a ninguém,
Mas quando chegava alguém
Pedindo tabaco, eu dava
O bicho nunca secava,
Pois quando estava maneiro
Eu machucava o tempero,
Torrava o fumo e fazia.
Tinha vez que nem cabia
A tampa do tabaqueiro…

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BANHO DE MAR À FANTASIA

A Avenida da Paz se apinhava de gente de toda espécie e classe social no domingo anterior ao carnaval. A partir das 8 da manhã já começavam a chegar as troças, as fantasias, as críticas e os blocos para o grande desfile do Banho de Mar à Fantasia coordenado pela COC – Comissão Organizadora do Carnaval da Prefeitura de Maceió. Nas imediações da Fênix um palanque dava guarida para uma banda tocar músicas de carnaval e o povo na rua, fantasiado ou não, pulava e dançava até mais tarde no maior calor ô..ô…ô…ô…ô…ô. Depois um mergulho, com fantasia no corpo, na água límpida transparente, esverdeada dos mares da Avenida.

Iniciava o desfile oficial perante o palanque armado com os jurados escolhidos pela COC para entregar a taça de campeão. Primeiramente vinham as críticas e troças com a irreverentíssima turma do Bráulio Leite, Santa Rita, Rubem Camelo, Vadinho, João Moura, Napoleão. Esses não perdoavam governo e governantes. Depois vinham fantasias. Tarzan e sua esposa eram o casal devorador de prêmios, saíam sempre de Tarzan e Jane durante o carnaval, mas no Banho de Mar à Fantasia se fantasiavam como casais famosos: Sansão e Dalila; Marco Antônio e Cleópatra… Fusco, militar da aeronáutica tinha suas tiradas. Certa época o filme do momento era “Amar foi minha ruína”, Fusco saiu de moça grávida, e atrás um cartaz “Amar foi minha ruína”. Lincoln Jobim um especialista, se fantasiava de Seu Fortes, um doido conhecido na cidade que andava com muitos cachorros, Lincoln era um artista, imitava Seu Fortes melhor que o próprio.

O desfile finalizava com a competição entre os blocos carnavalescos: Vulcão, Bomba Atômica, Pitanguinha vai à Lua, Vou Botar Fora, Cara Dura, Cavaleiro dos Montes, maior disputa. Depois de passar pelo palanque das autoridades e jurados os blocos continuavam arrastando as multidões na avenida, atravessavam a ponte do Salgadinho e perto do coreto entravam na Rua Silvério Jorge 290, onde o general Mário Lima esperava cada bloco com bate-bate de maracujá, cerveja gelada e um bom tira-gosto para os músicos. Tocavam 4 ou 5 frevos, depois seguiam em frente, outro bloco já estava na porta. Minha casa era uma festa, amigos dançavam, faziam o passo na enorme varanda durante o restante da tarde.

Acompanhávamos os blocos na entrada e saída, uma alegria entre os amigos, figuras das mais conhecidas entravam no embalo, como as badaladas cronistas, Lilian Rose e Maria Cândida, o deputado Guilherme Palmeira, a fina flor do soçaite alagoano, Almir Furtado, Edson Frazão, Marta Mendonça, delegado Aurino Malta, misturavam-se com o povão, era a democracia carnavalesca. Atrás dos blocos mesclava-se engenheiro e servente, médico e enfermeiro, capitão e soldado, filhas de Maria e prostitutas de Jaraguá. Os blocos terminavam de tocar em minha casa ao entardecer, festa antecipada do carnaval. Namoros feitos, outros desfeitos, a alegria do carnaval tomava conta da juventude.

Ao pôr-do-sol o povão voltava para suas casas. Cansados, os blocos recolhiam seus estandartes esperando o carnaval chegar.

Certa vez, no lusco-fusco do anoitecer, Arnaldo, aluno do NPOR, passou todo frajola por mim e Uchoa, dois guerreiros cansados. Ele deu um sorriso de superioridade mostrando sua companheira abraçada pela cintura. Era Guiomar, uma das piniqueiras (assim chamávamos maldosamente as empregadas domésticas) mais disputada, mais paquerada da região. Ele se dirigiu à praia agarrado na cintura fina daquela monumental mulata calipígia e desejada. A inveja é o pior sentimento do mundo. Demos apenas meia-hora. Na calada da noite, a areia fofa da praia absorvendo o barulho, fomos nos achegando em direção onde Arnaldo amava Guiomar.

Eles entretidos não perceberam que chegamos bem perto. Ao ver o casal abraçado, rolando na praia, virando-se, lambuzando-se de areia, demos um grito que assustou nosso amigo e a bela Guiomar: “É a Polícia!!!!”. Arnaldo nu, completamente melado de areia, levantou-se gritando incontinente: “Sou tenente do Exército Brasileiro, sou tenente do Exército!!!”. Só percebeu a brincadeira quando demos uma gostosa gargalhada. Nos retiramos, deixamos os dois pombinhos se amarem. Olhando para trás percebi dois vultos entrando no mar, na água calma e morna da Avenida. Num mergulho o casal tirava a areia do corpo, a fantasia natural de “bife à milanesa”, a derradeira do Banho de Mar à Fantasia.

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