AUGUSTO NUNES

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CONVERSANDO COM MEU PAI – Ronaldo Cunha Lima

Na quietude daquela noite densa,
reclamei numa saudade a presença
do meu Pai, que há muito já morreu!…
Sorumbático e só, fiquei na sala,
sem ouvir de ninguém uma só fala:
todos dormiam entregues a Morfeu.

Continuei sozinho da vigília,
contemplando a placidez da mobília,
num silêncio quase que perfeito;
quebrando apenas com o gemer da rede,
as pancadas do relógio na parede
e o pulsar do coração dentro do peito.

De repente, coberta com um véu,
uma nuvem nascia lá do céu,
na sala onde eu estava, caí…
era algo de espanto realmente
dissipa-se a nuvem lentamente
e vai surgindo a imagem do meu pai.

Boa noite, meu filho! E se assusta?
Tenha mais um pouco de calma, porque custa
novamente voltar por este trilho:
Eu rompi os umbrais da eternidade
para, em braços de amor e de saudade,
conversar com você, filho querido!…

Tenho assistido todos os seus passos,
suas lutas, vitórias e fracassos,
em ânsias que não posso mais contê-las:
eu lhe assisto, meu filho, todo dia,
em suas vitórias choro de alegria
e as lágrimas transformam-se em estrelas.

Tenho visto também seus sofrimentos
suas angústias, dores e tormentos
e esperanças que foram já frustradas;
tenho visto, meu filho, da eternidade,
o desencanto de sua mocidade
e o pranto de suas madrugadas.

Compreendo, também, sua tristeza
ante a ânsia que traz na alma presa
de adejar cortando monte e serra;
sua ânsia de voar, cantando notas,
misturar seu voo ao das gaivotas,
que beijam os céus sem deixar a terra.

Mas, ao lado dos atos de grandeza,
você me causa, filho, também tristeza,
em desgosto minh’alma já flutua:
Ontem, porque não estava pronta a ceia,
pra sua mãe você fez cara feia,
bateu a porta e foi jantar na rua.

Você não soube, meu filho, e no entanto,
ela caiu prostrada em um pranto
soluçando seu íntimo desgosto.
Nunca mais, meu filho, isto faça,
pois para o filho não há maior desgraça
que em sua mãe deixar rugas no rosto.

Nunca mais a ofenda, nem de leve!…
O seu amor a ele aos céus eleve
e escute sempre, sempre o que ela diz.
Peça a Deus para durar sua existência
e, se assim fizer de consciência,
você, na vida, tem que ser feliz.

Conduza-se na vida com altivez,
fazendo da probidade, da honradez,
para você o seu forte brasão;
aprofunde-se, meu filho, no estudo,
fazendo da justiça o seu escudo,
amando o povo como ao seu irmão.

Continue no trabalho a que se entrega
sem temer obstáculo nem refrega,
pois com a vitória sempre você vai,
e se assim fizer, querido filho,
sua vida há de ser toda de brilho,
e honrará o nome de seu pai.

E nisso a nuvem comoventemente,
aos poucos se junta novamente,
envolvendo meu pai num denso véu;
e num olhar meigo e bem sereno,
dirige para mim um triste aceno
e vai de novo subindo para o céu!

E eu fiquei chorando de saudade,
alimentando aquela ansiedade,
sem poder abrandá-la. Que castigo!
Por isso nunca mais dormi. Vivo na ânsia,
esperando que meu Pai rompa a distância,
prá vir de novo conversar comigo.

DEU NO JORNAL

DEU NA GRANDE MÍDIA BANÂNICA

* * *

Esse fascista reacionário silenciou não apenas sobre as chuvas em São Paulo.

Até agora ele também não deu uma única palavra sobre o calor da porra que está fazendo aqui em Recife.

E tem mais: Bolsonaro não disse nada sobre o trânsito horrível de Macapá, capital do Amapá.

A omissão deste presidente chegou ao cúmulo de não se manifestar sobre a poluição do Rio Una, lá em Palmares, minha terra natal.

Um absurdo, uma coisa horrorosa!!!

Este tipo de comportamento irresponsável deveria ser manchete de primeira página em todos os grandes jornais banânicos.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

NÃO É MALANDRAGEM

Já se passaram alguns anos desde que compus esse samba. Na época, fiquei receoso que alguém interpretasse mal, ou tomasse as dores de algum político, e acabei enviando ao JBF uma gravação bem amadora, sob pseudônimo.

Acontece que, ano passado, mostrei o samba ao Mariano Júnior, do Hertz Studio, e ele se empolgou todo:

– Grave isso, homem! – disse ele, e já foi sugerindo o arranjo.

Acabou me convencendo, ao falar que poria um trombone de vara na introdução. Se tem um instrumento de sopro que me agrada é o trombone, talvez porque permita solos de notas graves, mas não tão graves como as da tuba. Seria como o violoncelo, entre os instrumentos de corda.

Voltando ao samba, ainda fiquei receoso de eu mesmo interpretar a peça – comentei isso com os amigos que encontrei na casa do Berto, em dezembro do ano passado. Mas acabei gravando minha própria interpretação.

“Só pra testar”, disse eu, na ocasião.

Acontece que, quando o pessoal do back vocal entrou em cena… aí não teve mais jeito! Lamento se alguém não gostar, mas “Não é malandragem” é mais uma de minhas canções que em breve estará em todas as plataformas digitais do planeta (YouTube, Spotify, Itunes, etc).

Para que os leitores que gostam de acompanhar os detalhes, a letra ficou assim:

Você, que, o povo um dia, pelo voto, elegeu,
Mas, que não honrou essa missão que recebeu,
Que depois de eleito, aproveitou a situação
Para roubar a nação!

Não venha dizer que é o doutor da malandragem,
E, por ser malandro, tinha que levar vantagem.
O que você fez foi se sujar na podridão
Da corrupção!

Superfaturamento,
Desvio de verba e cartel
Na licitação.
A prestação do serviço
Que só existe no papel.
Tudo armação!

Lavagem de dinheiro,
Esquema, propina pro fiscal
E a comissão
Vai para a diretoria,
Para fazer a alegria
Do chefão.

(Vou dizer)
Não é malandragem isso aí.
Não é malandragem, não é não.
O que você faz, sei o que é
É corrupção.

Fique você consciente,
Malandro não é um delinquente,
Nem um marginal.
Não tem que roubar ninguém
Pra ser esperto e se dar bem
No final.

DEU NO JORNAL

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CRÍTICAS E AUTOCRÍTICAS

Essa semana que passou, e até mesmo nesse domingo, o noticiário – principalmente aquele noticiário que tem lado – saturou nossos ouvidos, olhos e paciência, comentando os quarenta anos de fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), numa espécie de ritual que, com certeza, estava ligado a um túnel do tempo que ligava 2020 a 1917. Mas, isso tudo são bobagens de minha mente vazia. O que mais se ouviu e se leu nessas reportagens foi a palavra autocrítica, ou seja, a necessidade do partido fazer uma reflexão pública sobre seus “erros” do passado, pedir desculpas à sociedade, caso queira sobreviver ao resto do século.

Vamos por parte nessa história de crítica, autocrítica e erro que a imprensa militante pede, quase que de joelhos, aos pés do dono do PT. Pedem com um látego nas mãos, prometendo autoflagelo se o chefão da sigla assim o fizer. Todavia, obtém, no máximo, um olhar de desdém do chefão. Nada de crítica, nada de autocrítica, nada de reconhecer “erros”.

A palavra crítica vem do vocábulo grego “krinein”, cuja tradução mais aproximada é “julgamento de valor”. Assim, a autocrítica seria um julgamento de valor que a pessoa faz sobre si mesma, ou sobre seus atos, ações e decisões tomadas. E aqui começam as dificuldades para o PT e a sua recusa religiosa em fazer esse ato.

Fazer um julgamento de valor implica em ter consciência e reconhecer um parâmetro ético, moral e de conduta que baliza o momento inicial de uma ação, ato, ou modo de ser de alguém, isto é, implica em reconhecer que o ponto de partida de toda da vida está contida em um parâmetro. Da mesma forma, o caminho, ou jornada, e o ponto de chegada implica em uma fronteira ética, moral e legal que jamais deve ser ultrapassada, não importando o quão custoso isso será. A história do comandante Moscardó na guerra civil espanhola é um emblema e uma lição disso que eu estou falando.

E aqui está o primeiro problema intransponível para o PT fazer sua autocrítica. Se ela parte de um valor moral, ético e de responsabilidade, esses valores não encontram eco na própria estrutura genética do partido. Muitos analistas dizem que a gênese do PT são as diretrizes leninistas do começo do século XX. Não é de todo verdade. Sua forma de ação está mais para os conceitos gramscianos de visão de mundo: a desfaçatez, a mentira, a imoralidade, a violência, a ilegalidade. Tudo em nome de uma utopia que a história já demonstrou que, quando implantada, colhe como fruto apenas cadáveres daqueles cidadãos que escraviza.

O PT jamais fará uma autocrítica, haja vista que para fazer isso ele necessitaria ter como fundamento o respeito por toda a tradição judaico-cristã de moralidade e ética. Para se fazer uma autocrítica é necessário que se aceite o arcabouço civilizacional que o mundo construiu ao longo dos séculos e à custa de milhões de mortos, em incontáveis guerras. Para se fazer a autocrítica necessária, deve-se não somente aceitar o fundamento ético, moral, social e legal que protege o indivíduo em sua unicidade, em sua – e olha a redundância aqui – individualidade, mas também proteger e se tornar bastião desses valores, sob quaisquer circunstância. E esse valor genético o PT não possui, e possivelmente nunca o terá, haja vista ser um fator de gênese, ou seja, deve nascer junto com a ideia e não tem como ser agregada depois.

O segundo ponto que a autocrítica leva é o reconhecimento de erros. Aliás, a autocrítica serve para isso também: o reconhecimento de erros cometidos, dentro do arcabouço civilizatório, e as tentativas de correção desses erros, aceitando as regras da civilização até as suas últimas consequências.

E chega-se à segunda impossibilidade relativa ao PT e à autocrítica necessária. Caso o partido faça autocrítica e reconheça os seus “erros”, toda a cúpula do partido irá parar na cadeia. E por um motivo simples: o que o PT cometeu, ainda que a imprensa partidária chame de erro, na boa e velha língua de Camões, tem outro nome: crime. Isso mesmo… CRIME. O que p PT cometeu durante seus quarenta anos de existência nas esferas em que ele dominou politicamente, seja em prefeituras, em governos estaduais e no governo federal, não foram erros. Foram crimes.

Mensalão, petrolão, o caso Toninho do PT, o caso Celso Daniel, o caso Valdomiro Diniz, o caso do caseiro do Palocci, as vendas de medidas provisórias, o caso dos empréstimos consignados de aposentados, as palestras milionárias, o porto de Mariel, o caso Schahin, o caso da indústria naval brasileira, que construiu um navio, mas que as seguradoras garantiram que se o navio fosse lançado ao mar ele se desmontaria no primeiro contato com a água, demonstram, de forma cabal que, ao contrário do que a imprensa amiga publica, os ditos “erros” do PT, em linguagem mais clara e mais afeita à legalidade possuem outro nome, bem menos glamouroso.

Fazer autocrítica, neste caso, significaria trazer todo esse entulho para a luz do dia. Ainda que a dita “Constituição cidadã” impede que o sujeito produza provas contra si mesmo, a autocrítica que tanto a imprensa amiga pede, exporia, não digo mais podridão, porque o PT não esconde mais a podridão. Ela está exposta e fedendo para quem tem nariz e olhos para ver e cheirar. O que essa autocrítica exporia é o modo como o PT quase conseguiu apodrecer os fundamentos da civilização nas terras brasileiras. Ficariam expostos todos os crimes cometidos pelo partido. Todos os que se possam imaginar, contemplando de A a Z o modo como seguiu-se à risca o mando de Gramsci. Apodreça todos os fundamentos da sociedade. Quando ela cair ficará fácil dominá-la.

Eis o motivo pelo qual o PT jamais fará uma autocrítica. Para fazê-la é necessário dois fundamentos: respeitar e defender o arco civilizatório da sociedade e ter em mente do que se cometeu foram erros. Duas coisas que o PT sabe que não tem e não fez: não tem respeito pelo processo civilizatório humano e não cometeu erro algum. Mas sabe que despreza e quer destruir esse arcabouço civilizacional para implantar a sua barbárie de genocídio e sabe que o que de fato ele cometeu chama-se CRIME. CRIME e não erro.

ALEXANDRE GARCIA

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