CHARGE DO SPONHOLZ

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

DISFARCE

Eu cantarei de amor tão loucamente
que nos sentidos meus porás cuidado:
terei o olhar no teu olhar dobrado,
cantos verei na tua voz silente.

Dir-me-á de ti o teu perfume alado
como um anjo de vôo impenitente.
Mas eu direi melhor de ti, somente
com teu nome espalhar por todo lado.

Tu sorrirás, decerto: “Que tolice!
Como pode esse insano embriagar-se
de palavras de amor que eu não lhe disse?”

E eu tudo te direi, sem dizer nada.
Nem será, meu falar, mais que o disfarce
do silêncio de uma alma enamorada.

AUGUSTO NUNES

GOVERNADORES ACHAM MORO MAIS PERIGOSO QUE O PCC

Para os governadores que sonham com Sergio Moro fora do comando da segurança pública, é irrelevante o medo causado ao país que presta por organizações criminosas como o PCC e congêneres. O que tira o sono da turma é o pavor provocado por um ministro que, quando juiz, ousou engaiolar bandidos da classe executiva.

Desde sempre, governadores se queixam da inexistência de uma política nacional de segurança pública. Em um ano, o ministro Moro já estabeleceu suas linhas gerais e iniciou a ofensiva contra os inimigos do Estado de Direito. Também pediam de meia em meia hora que fosse transferida para a União a missão que achavam impossível: abrandar a insegurança crônica dos cidadãos desprotegidos. É o que está ocorrendo com a redução generalizada dos índices de criminalidade.

Além de ver Moro pelas costas, os governadores querem encurtar o acesso às verbas do ministério ressuscitado. As coisas ficariam mais fáceis se emplacassem na gerência do ministério exumado o ex-deputado Alberto Fraga, que cobiça o cargo desde que perdeu o emprego no Congresso. “O Moro não entende de segurança pública”, recita Fraga. Se fosse assim, não estariam tão inseguros os meliantes que até recentemente se julgavam condenados à eterna impunidade.

O presidente Bolsonaro afirmou que a ideia morreu. Que seja enterrada, sem choro nem vela, no mausoléu das ideias de jerico.

CHARGE DO SPONHOLZ

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

VIDA E MORTE FRENTE A FRENTE

Na frente do cemitério
Tem uma maternidade,
Achei que era muito sério
Aquela fatalidade,
Infeliz coincidência
Ou total incompetência?
Quem sabe, falta de sorte,
Ficar em contrapartida
De um lado a casa da vida
Do outro a casa da morte.
Na primeira a esperança
Renova-se a cada instante,
Vindo à luz uma criança
Do ventre de uma gestante,
Dando o seu primeiro passo
Para um futuro brilhante,
Traz confiança e alegria,
Que momento interessante!
Na segunda, é a tristeza,
Que ali vive impregnada,
Os prantos rolam nas faces,
A saudade faz morada,
Onde se escuta lamentos
De dor e de sofrimentos
E é ali que a criatura
Deixou a missão cumprida
E o corpo baixa sem vida
Numa fria sepultura.
Assim em lados opostos
Situações diferentes,
A primeira traz a vida
Que nos deixa bem contentes,
Na segunda, menos sorte,
É a casa que abriga a morte
Pra o descanso eternamente.

DEU NO TWITTER

DE FURICO ARREGANHADO PARA A PLATÉIA

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

TODO AMOR É ÚNICO

Ambos haviam saído da adolescência quando começaram a namorar. Num piscar de olhos o amor disse sim e tudo começou como num conto de fadas à moda Marie-Catherine d’Aulnoy, no final do século XVII.

Não havia tempo ruim para os dois. Qualquer incidente bizarro do cotidiano, por desimportante que fosse, era motivo para rirem e mostrar ao mundo que estavam felizes. Coisas da juventude.

Depois de três meses de namoro ambos resolveram noivar. À moda antiga, românticos, os dois passaram de frente a uma loja de vender alianças e ele perguntou-lhe qual a que ela mais se identificava. E ela, feliz da vida, indicou uma da vitrine, simples. Ele comprou e ambos ficaram noivos ali mesmo dentro da Loja Alianças, sob o olhar emocionado da atendente.

Depois do noivado, começaram a organizar a vida. Compraram enxoval e demais utensílios domésticos de uso diário para uma casa de um casal que se preze organizada.

Menos de um ano de noivado, estavam os dois pombinhos à frente do Juiz da Vara de Família e Casamentos dizendo sim à liberdade de escolha; e um mês depois, para a felicidade da família materna, estavam no altar da igreja de frente para o pároco, prometendo estar com a amada na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-a, respeitando-a e sendo-lhe fiel em todos os dias da vida, até que a morte os separe.

Dois anos depois de casados, sem filhos, sem motivos, sem desentendimentos, ambos resolveram separar. Ela foi para um lado em busca não se sabe do quê, e ele também. Depois, ela arrumou um novo companheiro e resolveu com ele ficar, sem se casar. Ele fez o mesmo; porém casou-se.

Vinte e cinco anos depois de separarem, ambos se encontram. O amor e a admiração que um nutria pelo outro não mudou anda. Ela com dois filhos, viúva; e ele com dois filhos, casado. O mesmo sorriso, a mesma admiração, o mesmo prazer da juventude emergiram nos corações de ambos, como a lua após o sol se por. Abraçaram-se, beijaram-se, choraram. Curiosamente, ele a abraça como no passado, as lágrimas correndo dos olhos, pergunta-lhe:

– Amor, se a gente se amava tanto. Gostava tanto a ponto de até hoje o amor continuar vivo, latente, latejante, por que a gente se separou?

E ela, fingindo não lhe dar ouvido, mas aplicando-lhe um beijo demorado, responde:

– Era porque nós dois éramos dos adolescentes irresponsáveis; mas hoje somos maduros e eu estou viúva!

Beijou-lhe mais uma vez e se foi sem olhar para trás.

* * *

Comentários sobre o filme “Cenas de Um Casamento” do genial diretor Sueco Ingmar Bergman

DEU NO TWITTER

PARA AS VÍTIMAS DE ENCHENTES

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

REESCREVENDO O PASSADO – Parte 2

Encerrei a coluna da semana passada em 1945. Fim da guerra, início de um esforço de reconstrução. Vamos continuar daqui, rumo à crise de 2008.

De 1945 para cá, a economia tornou-se algo muito difícil de entender e mais ainda de explicar. Por quê? Porque é exatamente essa a intenção: criar um emaranhado de normas e instituições que ninguém sabe como funcionam. Só o que o povo precisa saber é que o governo é sempre bondoso e necessário e que sem os burocratas e os políticos, o capitalismo malvado exploraria os pobres.

Com as economias européias destruídas pela guerra, criou-se um arranjo em que todas as moedas teriam como referência o dólar, e este teria seu valor lastreado em ouro, à taxa fixa de 35 dólares a onça (aproximadamente 1,25 o grama). Isto colocou os EUA (que em 1945 tinham guardadas vinte mil toneladas de ouro) em uma situação muito confortável. Dono da famosa “maquininha de fabricar dinheiro”, o governo foi fabricando mais e mais dólares, sempre sob a promessa de que 35 dólares tinham o mesmo valor que uma onça de ouro. Era uma equivalência virtual, já que continuava em vigor a proibição de possuir ouro, criada em 1929.

Se o governo dos EUA não era obrigado a trocar dólares por ouro para seus cidadãos, era obrigado a fazê-lo para os bancos centrais de outros países (essa foi a condição para que todos aceitassem o dólar como lastro de suas próprias moedas). E aí começou o problema. É uma lei imutável e irrevogável da economia: se a quantidade de algo aumenta, seu valor diminui (e vice-versa). Como a quantidade de dólares aumentando sem parar, os outros países começaram a achar que era mais negócio ter umas barrinhas de ouro em seus cofres do que ter papéis coloridos que supostamente valeriam a mesma coisa. Em vinte anos, as reservas de ouro dos EUA caíram para menos da metade, e era óbvio que se esta política continuasse, em algum momento elas iriam acabar.

Em agosto de 1971 o presidente Nixon anunciou duas medidas: a primeira, que surpreendeu o mundo, foi declarar que o dólar não estava mais lastreado em ouro. Dali em diante, o valor de uma nota de dólar viria simplesmente da autoridade do governo. A segunda medida, ao contrário da primeira, não deve ter surpreendido ninguém: para combater a inflação, o governo anunciou um congelamento de preços! (spoiler: não funcionou)

Continue lendo

A PALAVRA DO EDITOR

UMA DEFINIÇÃO IRRETORQUÍVEL

O fubânico lulo-petêlho Fanático Furioso, que perpetra comentários zisquerdistas furiosa e incansavelmente o dia todo e todos os dias, acha um absurdo ter um cabra feito Bolsonaro na presidência.

Um cabra que ele chama de louco, de burro, de nulidade, de esculachador de fêmeas, de terror ambulante, de descontrolado, de perseguidor de baitolas, de destrambelhado, de comedor de capim, de fascista… de… de… 

E mais de um monte de coisas.

Mas o mesmo zisquerdista Fanático Furioso acha normalíssimo o fato de termos tido um Lula e uma Dilma na Presidência da República.

É pra arrombar a tabaca de Xolinha!!!!

Num dá mesmo pra levar esse povo a sério.

De jeito nenhum.

O genial Paulo Guedes, que não erra uma sequer, acertou no alvo de novo com esta frase irretorquível: