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PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AO DIA DO JUÍZO – Gregório de Matos

O alegre do dia entristecido,
O silêncio da noite perturbado
O resplendor do sol todo eclipsado,
E o luzente da lua desmentido!

Rompa todo o criado em um gemido,
Que é de ti mundo? onde tens parado?
Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.

Soa a trombeta da maior altura,
A que a vivos, e mortos traz o aviso
Da desventura de uns, dos outros ventura.

Acabe o mundo, porque é já preciso,
Erga-se o morto, deixe a sepultura,
Porque é chegado o dia do juízo.

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CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A COROA PODEROSA

Gerson é um homão, trinta e poucos anos, mais de 1,80 metros de altura, corpo de atleta, cara bonita. Xodó das meninas no tempo de solteiro. Hoje advogado brilhante, ambicioso, atuante.

Ao contrário de muitos especialistas defensores de que a beleza feminina está no auge entre 17 e 22 anos, Gerson assegura que o auge da beleza feminina está na maturidade. Uma mulher de quarenta, cinqüenta, sessenta anos, sabe o que o homem gosta; é bela em sua elegância, em saber o que deseja.

Meses atrás, Gerson frequentava um curso de pós-graduação com alguns colegas advogados, promotores, juízes, inclusive uma advogada, cinquenta e poucos anos, senhora letrada, inteligente, de um bom humor notável. Ele teve uma empatia instantânea com essa madame, viúva, bela e gostosa.

Dora, três casamentos além de casos amorosos. O mais rumoroso, por certo, com um governador do Estado. Teve também um discreto caso com uma artista da rede Globo, que se apaixonou, passava fim de semana em Maceió, para estar com esse belo espécime de mulher.

Dora foi muito poderosa nos bastidores da política. Nas brigas do poder ela metia a mão de ferro, elegantemente, protegendo seus partidários no emaranhado da corte. Seja no poder Executivo, Judiciário ou Legislativo, durante o mandato de seu amante governador, ela foi ouvida, teve poder de decisão. Esse poder não conquistou à-toa, foi pela inteligência, firmeza e posições tomadas, principalmente na cama.

A coroa tem ânsia de viver. O mais de meio século não deixou marcas na jovem alma. Mulher alegre, corpo bem cuidado, bem moldado; teve ajuda, certamente, das academias de ginástica e cirurgiões plásticos.

Mulher de muita leitura, gosta de fazer cursos, atualizar-se, aprender. Gerson e Dora frequentavam o mesmo curso há dois meses. Todas as noites estudavam juntos, gostavam da companhia recíproca. Ele a via como uma irmã mais velha, mas havia atração, apreciava os decotes ousados dos vestidos de nossa musa.

Certa noite, os colegas foram terminar um trabalho em grupo no espaçoso apartamento de Dora na praia de Ponta Verde. Mais de duas horas de discussão numa mesa circular, deixaram a conclusão do trabalho para outro dia. Dora ofereceu um gostoso lanche: moqueca de siri mole, regado a vinho branco e uísque. Foi o ponto alto da noite. O grupo se divertiu até tarde, ouvindo boa música, papo alegre, inteligente. Gerson dedilhando um violão, cantou: “Dora, rainha do frevo e do maracatu…”. Recebeu um beijo lambido no ouvido.

Foi sugerido continuarem os trabalhos no sábado, no mesmo local.

Sábado pela manhã, Dora foi ao mercado comprou camarão e arabaiana, o prato da noite, filé de peixe ao molho de camarão. Ligou para todos os componentes do grupo, se desculpando, pedindo adiar o trabalho para terça-feira. Só não telefonou para Gerson.

uando ele, carregando livros e papéis embaixo do braço, pontualmente tocou a campanhia, Dora abriu a porta do apartamento, com um largo sorriso e um boa-noite, estava maravilhosa de vestido azul colado ao corpo. Gerson estranhou quando sua amiga falou no trabalho adiado. Convidou-o para entrar, seria uma companhia agradável se ficasse para jantar.

Sentaram-se na varanda com vista à praia iluminada por uma azulada lua bonita refletida no mar e nas palhas dos coqueiros. O uísque rolou, bons tira-gostos, até Dora servir o peixe com camarão.

Ao voltar para a varanda, colocou uma música suave, americana, iniciava assim: “Heaven I’am heaven…”, isso é, “Paraíso, estou no paraíso”.Gerson deu-lhe a mão, saíram dançando, escorregando pela sala, ele cantava a canção em seu ouvido, puxava seu corpo com vigor, iniciaram uma seção de carinho e carícias, até ela sussurrar, pediu para ser levada ao quarto. Num impulso, colocou-a nos braços como se fossem recém-casados, empurrou a porta, entrou no quarto, soltando-a ternamente na cama. O resto é silêncio, como diria Shakespeare.

Depois dessa noitada de muito amor, os dois continuam se encontrando secretamente no mínimo duas vezes por semana, para uma seção de matinê na suíte presidencial do belo apartamento da coroa, que continua poderosa.

A PALAVRA DO EDITOR

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Moacir Laurentino e Sebastião da Silva glosando o mote:

Quem quiser ter saudade do meu tanto
Sofra e ame do tanto que eu amei.

Moacir Laurentino:

Numa noite de insônia e de saudade
a angustia invadiu meu coração.
Eu senti a maior recordação
dos amores da minha mocidade
lamentei suspirei senti vontade
de beijar a mulher com quem sonhei
mas sem esse direito eu já fiquei
e nem ela possui o mesmo encanto
quem quiser ter saudade do meu tanto
sofra e ame do tanto que eu amei.

Sebastião da Silva:

Quem me fez padecer tanta ilusão
deixou todos meus sonhos destruídos
o murmúrio do adeus nos meus ouvidos
e a tristeza rasgando o coração.
Já tentei esquecer mais foi em vão
só eu sei quantas vezes já chorei
já gastei todos lenços que comprei
ensopados das gotas dos meus prantos
quem quiser ter saudade do meu tanto
sofra e ame do tanto que eu amei.

* * *

Ivanildo Vilanova e Severino Ferreira glosando o mote:

Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Nobel foi o inventor da dinamite
Criador de um prêmio especifico
Deu progresso ao projeto cientifico
Onde a nossa ciência tem limite
Hoje em dia se atende o seu convite
Sem os louros da sua academia
Mas se o Deus que inspirou barra do dia
Não conhece liceu nem faculdade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Severino Ferreira:

Vamos ver quem conhece aonde é
O país dos Assírios e Caldeus
Jafetanis, Fenícios, Cananeus
Descendentes da raça de Noé
E qual foi o motivo que José
Se tornou o esposo de Maria
Ela teve Jesus na estrebaria
E não perdeu o valor da virgindade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Pra ganhar o Nobel só é preciso
Conhecer de sentido e odalinfa
Ser parente da paz, irmão da ninfa
Ser parente do amor, irmão do riso
É tirar oito e meio em improviso
Tirar nove em métrica e harmonia
Nove e meio em repente e teoria
Tirar dez na escola da saudade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Severino Ferreira:

Vamos ver quem possui inteligência
Pra lembrar Tiradentes, o mineiro
Que foi preso no Rio de Janeiro
Por um povo de pouca consciência
Que D. Pedro gritou: “Independência”
Que o mundo esperava e pretendia
Qual o mês, a semana, hora e o dia
Que a princesa assinou a liberdade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Vamos ver quem possui perspectiva
Pra falar sobre monte, terra e gleba
Pra falar sobre a vida de algum peba
Arrancando as raízes da maniva
E a gata que está receptiva
Quer um gato pra sua companhia
Quanto mais ela arranha, morde e mia
Mas o gato ansioso tem vontade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

* * *

Pinto do Monteiro glosando o mote

O cavalo do vaqueiro
Nas quebradas do sertão.

Quebra galho de aroeira,
De jurema e jiquiri,
Rasga beiço e calumbí,
Mororó e quixabeira.
Quebra-faca e catingueira,
Urtiga braba e pinhão;
Pau-serrote e pau-caixão,
Baraúna e marmeleiro,
O cavalo do vaqueiro
Nas quebradas do sertão.

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

São Severino dos Ramos
Enriqueceu com promessa.
Dilma promete e tropeça,
Nós, sem tropeçar, penamos.
E a seca, enquanto esperamos,
Vai minando a região
Que inda aguarda a plantação
Da semente da bonança.
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

* * *

Antonio Piancó Sobrinho glosando o mote:

Só partindo é que se sabe
Como era bom ter ficado.

Parte gente todo dia
Para as capitais do sul
Pensando num mundo azul
Repleto de fantasia
Porém a sua alegria
Termina mal tem chegado
Só o serviço pesado
No mundo inteiro lhe cabe
Só partindo é que se sabe
Como era bom ter ficado.

Passa os dias ressentido
Lamentando o seu pesar
Pensando um dia voltar
Para o seu torrão querido
Com o coração partido
E o peito dilacerado
Chorando, desesperado
Pede a Deus que a dor se acabe
Só partindo é que se sabe
Como era bom ter ficado.

A PALAVRA DO EDITOR

O MENINO ENCANTOU-SE

Minha mãe gostava muito de cantar enquanto passava a roupa da família, em cima da mesa onde comíamos nossas refeições.

Ela só fazia uma pausa quando tinha que soprar, pelo buraco do ferro de engomar, o carvão em brasa que estava lá dentro.

Uma das músicas que Quiterinha cantava sempre era “Menino de Braçanã“.

E eu, menino, me apaixonei por aquela música que tinha a palavra “menino” no título.

Com o passar dos anos, descobri o nome do autor e, a partir de então, Luiz Vieira, um pernambucano de Caruaru, se tornou um dos meus ídolos.

Nos anos 70 ele fez uma apresentação numa churrascaria que ficava às margens do Lago Paranoá, em Brasília, e foi quando eu o conheci pessoalmente.

Lembro-me que naquela noite bati o recorde da casa: tomei 18 doses de caipirinha, enquanto ouvia embevecido suas interpretações.

Ontem, dia 16 de janeiro, Luiz Vieira encantou-se com 91 anos de idade.

E eu passei o dia ouvindo suas músicas, todas elas inspiradas, tocantes, envolventes.

Paz do Meu Amor, Prelúdio pra Ninar Gente Grande, Menino Passarinho, Inteirinha, Guarânia da Saudade…

Sujeito talentoso que só.

Descanse em paz, seu cabra!


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