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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PAULO MOURA – RECIFE-PE

“O escritor pode ser louco, mas não enlouquece o leitor, ao contrário, pode até desviá-lo da loucura. O escritor pode ser corrompido, mas não corrompe. Pode ser solitário e triste e ainda assim vai alimentar o sonho daquele que está na solidão”, disse Lygia F. Telles.

Não sei que mania é essa de chamar autor de louco, mas parece que é consenso. Doctorow, escritor americano, fala que “escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia”, Rubem Fonseca, um dos maiores contistas brasileiros vivo, retifica que ele errou ao falar esquizofrenia, “escrever é uma forma socialmente aceita de loucura.”.

De certa forma que todos os escritores são loucos à sua maneira. Há os de loucura mais contida, tímida, quieta; outros, de loucuras mais expressivas, libidinosas, menos tímidas e mais às claras. Entretanto apenas a loucura não sustenta o ato de escrever, segundo ele; ainda que seja condição indispensável para qualquer escritor. Para além da loucura é preciso ser alfabetizado, mas não muito, só o suficiente para escrever de uma forma que o leitor sinta e, acima de tudo, veja. Ver, para poder entender. Rubem se pergunta: “para ser escritor é preciso ser inteligente? ”, ele mesmo responde usando a palavra de outro autor, Seth Morgan: “conheci centenas, centenas de escritores e muito pouco, pouquíssimos eram inteligentes” vemos então que a inteligência pode ser dispensada; ainda bem.

No entanto, para além de louco e alfabetizado, Rubem fala que um escritor precisa ser motivado à escrita, imaginativo e paciente. Sem imaginação não há literatura, é a condição basal da escrita criativa. A paciência entra, também, como o elemento onipresente que acompanha todo o processo, mas com requintes de acabamento (se é que podemos chamar assim), de cada texto. É preciso ser paciente, a literatura não tem pressa, está além do tempo, ultrapassando-o. Não há um lugar específico onde caiba a literatura, ela não cabe em nenhum e também cabe em todos ao mesmo tempo.

No dia 1 de dezembro de 2019, fui convidado a uma confraternização em um apartamento da Zona Norte do Recife; cheio de loucos. Loucos da poesia, loucos da prosa, loucos das narrativas jocosas e loucos das palavras harmoniosas, cifradas e acompanhadas pela música.

Havia loucos de toda ordem e de todos os gostos.

E, à frente de todos os loucos, o anfitrião da festa, o maior de todos os tresloucados, Luiz Berto. Figura imponente e que logo me chamou a atenção assim que entrei em sua casa. Carregando um sotaque que não deixava dúvidas de onde tinha vindo e arrastado pela simplicidade de quem já passou por muitos causos na vida e sabe muito bem o que realmente importa no final das contas: família e amigos.

O anfitrião teve a graça e a doçura de me presentear com um exemplar de cada obra sua e, dentre elas, o desavergonhado O Romance da Besta Fubana.

Mas não paramos ali. Pude ouvi-lo falar de sua obra, narrando com a polidez de um grande prosador, dominando com beleza e delicadeza cada construção semântica. Uma graça! Vi e ouvi, in loco, aquilo que Ruben Fonseca falara sobre ser escritor: louco – acima de tudo -, imaginativo, paciente e, embora seja uma característica dispensável, largamente inteligente. Um encontro que não esquecerei e que muito me inspirou.

Quando iniciei a leitura d’O Romance da Besta Fubana, fui capturado de imediato.

Enlaçado pelo cotoco dos pés, como um cabrito, e chacoalhado de um lado para outro. Laçado pelo realismo mágico do nordeste no brilhantismo de Luiz Berto. Estava diante de uma obra gigante e de um autor sem igual. Feliz por ter sido agraciado pela obra e ainda mais por ter ouvido o autor falar dela com aquela paixão desenfreada.

Devorei a Besta e fui devorado por ela nas primeiras semanas de dezembro.

Quando acabei, fiquei de boca babada e corpo e alma arriados.

A Besta tinha seguido seu rumo de volta, para explorar os recantos da via láctea e eu, aqui, estava órfão dela.

Obrigado, Luiz Berto.

R. Que é que vou falar, meu jovem e mais recente amigo???!!!

Me diga mesmo: que é que vou dizer depois de tudo isso que você escreveu???

Logo você, também escritor e também ficcionista, autor do livro Transa, uma coletânea de contos de primeiríssima qualidade:

Hein???

O que vou dizer diante de tudo isso que você escreveu?

Tô aqui tão ancho que vou dar o calado por resposta.

Aliás, vou aproveitar o pretexto e informar que quem quiser adquirir a Besta, ou qualquer um dos outros livros meus, é só entrar na página da Editora Bagaço, clicando aqui.

E mais não digo.

A não ser que me perguntem…

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE LEANDRO GOMES DE BARROS

Valdir Teles

No momento em que Pinto faleceu
As violas pararam de tocar
Deus mandou o Nordeste se enlutar
Respeitando o valor do nome seu
Pernambuco ao saber entristeceu
Paraíba até hoje está doente
Só tem galo cantando atualmente
Porque Pinto mudou-se do poleiro
Com a morte de Pinto do Monteiro
Abalou-se o império do repente.

Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

* * *

Domingos Martins da Fonseca

Falar de nobreza e cor
É um grande orgulho seu
Morra eu e morra um nobre,
Enterre-se o nobre e eu,
Que amanhã ninguém separa
O pó do nobre do meu.

* * *

Manoel Macedo

Fui cantador violeiro
Nas terras do meu sertão
Mas deixei a profissão
Em Goiás fui açougueiro
Eu trabalho o dia inteiro
Com minha faca amolada
Mas da profissão passada
Uma coisa me consola
Ainda tenho a viola
Como relíquia sagrada.

* * *

Dudu Morais

A lei do retorno é dona
De uma justiça tamanha
Porque quem bate se esquece
Da cara do que apanha
Mas quem apanhou se lembra
Da cicatriz que arranha.

* * *

Oliveira de Panelas

No saco de cego tem:
Arroz, feijão e farinha
fubá de milho e sardinha,
tem pão, café, tem xerém
algum dinheiro também,
sal, bolacha, amendoim,
tem pé de porco e pudim,
tem tripa e carne de bode.
Só outro cego é quem pode
ter tanta salada assim.

* * *

Otacílio Batista Patriota

Certa vez fui convidado
Para dançar numa festa
Perto de Nova Floresta
Na Vila do Pau Inchado
Eita forró animado:
Chega a poeira cobria
Mas a mulher que eu queria
Do Pau não se aproximava
Quando eu ia ela voltava
Quando eu voltava ela ia.

A garota Manuela
Quis viver só de um negócio
Entrava sócio e mais sócio
Dentro do negócio dela
Eu fui lá falar com ela
Mostrando o que possuía:
Ela somava e media
Meu negócio não entrava
Quando eu ia ela voltava
Quando eu voltava ela ia.

* * *

O IMPOSTO DE HONRA – Leandro Gomes de Barros

O velho mundo vai mal
E o governo danado
Cobrando imposto de honra
Sem haver ninguém honrado
E como se paga imposto
Do que não tem no mercado?

Procurar honra hoje em dia
É escolher sal na areia
Granito de pólvora em brasa
Inocência na cadeia
Agua doce na maré
Escuro na lua cheia.

Agora se querem ver
O cofre público estufado
E ver no Rio de Janeiro
O dinheiro armazenado
Mande que o governo cobre
Imposto de desonrado.

Porém imposto de honra
É falar sem ver alguém
Dar remédio a quem morreu
Tirar de onde não tem
Eu sou capaz de jurar
Que esse não rende um vintém.

Com os incêndios da alfândega
Como sempre tem se dado
Dinheiro que sai do cofre
Sem alguém ter o tirado
Mas o empregado é rico
Faz isso e diz: — Sou honrado.

Dizia Venceslau Brás
Com cara bastante feia
Diabo leve a pessoa
Que compra na venda alheia
O resultado daí
É o freguês na cadeia.

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CHARGE DO SPONHOLZ

ALEXANDRE GARCIA

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