ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

LABIRINTO

Nem com os não merecer não nos perdera.
E, pelos possuir sem merecer,
as mesmas penas sofro que sofrera
por, outrora, querê-los e os não ter.

Ah! quem tal turvamento me entendera!
Em pranto, sinto, sem o compreender,
que eles são velas me esvaindo em cera,
velas em cuja flama arde o meu ser.

Penso que vou morrer, que o sol me apaga.
Olho-os, e ferem-me as pupilas deles;
beijo-os, e, então, sonegam-me o calor.

Não profundemos mais tão funda chaga!
E, pois que tanto mal me fazem eles,
devolvo-te os teus olhos, meu amor.

AUGUSTO NUNES

DIAGNÓSTICO ANTIGO

Haddad mira em Bolsonaro e acerta nos mais de 15 anos de desgoverno do partido que virou bando

“Temos um governo desastroso em várias áreas — política externa, meio ambiente, ciência e tecnologia, educação etc.—, que pode comprometer a recuperação e nos condenar, por anos, a um desempenho econômico medíocre”.

Fernando Haddad, em artigo publicado na Folha, divulgando só neste outubro de 2019 um diagnóstico que deveria ter publicado em 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015.

DEU NO JORNAL

CANALHA BANDIDA PROTEGENDO BANDIDO

Gilmar Mendes quer anular a pena de Lula, acusando Sergio Moro de parcialidade no processo do triplex.

Celso de Mello, segundo o Estadão, “sinalizou” que apoia a manobra.

Leia aqui:

“Integrantes da Corte dizem que o ideal é o julgamento ser retomado apenas quando o voto de Celso de Mello estiver ‘amadurecido’, já que a definição do resultado deve caber ao decano – que sinalizou, nos bastidores, a possibilidade de se alinhar a Gilmar e a Ricardo Lewandowski a favor do pedido do petista para derrubar a condenação.”

* * *

É de causar ânsia de vômito.

É phoda!!!!!!!

É pra torar!!!!!!

É pra arrombar a tabaca de Xolinha!!!!!!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

SÃO BENEDITO PRESO NA CADEIA DE PALMARES

O genial poeta paraibano Orlando Tejo, num lampejo de lucidez quase absoluta, definiu em artigo publicado na Revista A REGIÃO/Recife, 1983 que, “Nós, Os Meninos de Palmares”, crônica que abre um dos mais inspirativos livros de memória do gênero já publicado no Brasil, “que nunca leu em nenhum escritor pátrio, nada mais tocante nem de tanta grandeza, nenhuma página mais lírica e eterna do que a referida crônica.”

No último parágrafo do texto, prossegue o poeta, autor do impagável “Zé Limeira – O Poeta do Absurdo”, na sua apreciação: “Nesse delírio, o autor, na companhia de Romildo Pilica, Adeildo Baé, Antonio Maromba e Fernando Gata, os meninos mais felizes de todo os brasis, voam nas asas da liberdade rumo a Pirangi. Eles vão flutuando na grande tarde ribeirinha e, aconteça o que acontecer, não importa, eles vão a Pirangi. E eles são os únicos meninos do mundo que podem ir a Pirangi amorcegando estrelas vespertinas da ilusão. Lembrem-se: somente eles, os grandes vagabundos pequeninos, vão a Pirangi, unicamente eles, os “guardiões do vento, vigias do barulho das águas, apontadores de estrelas, gáveas ao vento, imagens do cão, arteiros.”

Pegando carona nas palavras do genial menestrel sonhador Tejo, menciono como impagáveis obras-primas, também as crônicas: “O circo de Pimpão”, do palhaço cotó, que transformou o sofrer em alegria; “As ruas e os seus nomes”, proezas de alcunha que não se encontra em lugar nenhum do mundo; “O Caixão da caridade”, paletó de madeira que os meninos se divertiam levando os ‘sem pátria’ para sacudir dentro do buraco do ‘nunca mais’; “Os nomes das pessoas”, proeza só existente em Palmares, do adolescente Luiz Berto; “Vaca braba”, mãe da Vaquinha mijona, que sumiu no mundo nas asas dum copo de vidro cheio de cachaça após a mãe encantar-se e nunca mais voltou a Palmares; “Telles”, O enigmático decifrador, cuja filosofia de vida era comer, cagar e dormir; “A Prisão de São Benedito”, alegoria beneditina que dá título ao livro; “A mulher de Alfredinho”, o corno inconformado que jurou dar um tiro de traque no autor; “A viagem a pé para Brasília”, a ousadia de seis aventureiros que tornaram Palmares mais famosa para os nativos do que o pousar do homem à Lua; “Dr. Sebastião Espírita”, o curandeiro picareta de letras indecifráveis; “A Manobra da carreta”, a aventura de um carreteiro sulista que fez Palmares parar; “Biu do Tacho”, o cachaceiro que chamava o governador, o prefeito e o delegado de ladrão às escondidas; “Luiz Guarda”, o misterioso homem de óculos de lente que matava todos os ladrões sem dó nem remorso; “Veludo do Pife”, o homem que morreu esquecido pelas novas gerações; “Amaro”, o homem da Coreia que vendeu de tudo e findou vendendo pitomba; “Dona Heloísa”, a professora frágil, dócil e delicada, que abriu as fronteiras do conhecimento para o adolescente Berto; “Mané Peito-de-Aço”, o homem que se inspirou em Tarzan, herói americano, e foi parar na Ilha de Itamaracá; “O Doido e o bêbado”, o doido que aproveitou a distração dos policiais, desapegou-se das amarras para não ficar na Tamarineira; “Uma história de corno”, o traído que pagou a viagem da ex esposa com o pé de lã; “Manoel Dionísio”, o homem que dizia que ‘mulher com ele não arenga; se arengar, não ganha; se ganhar, não leva; se levar, é dentro!’ E por último, aquela história tocante, comovente, eterna que, entre todas desse fantástico livro de reminiscência, merece uma ode a parte: “O velho rabeca”, o carnavalesco puro sangue que enxergava na arte do pastoril o sonho de registrar para a posteridade sua verve debochada, escrachada, escatológica, seu modo prazeroso de enxergar a vida e vivê-la eternamente. Encantou-se sem deixar sucessor!

Eis por que “A Prisão de São Benedito e outras histórias” caiu no gosto popular, encanta o mundo e é sucesso absoluto de venda e crítica até hoje.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

A SAGA DO CARROCEIRO

Veja aquele carroceiro
Que vai seguindo ligeiro
Puxando a sua carroça,
Num viver amargurado
Vive mal alimentado
Seu abrigo é uma choça,
Relegado ao desdém
Sempre nesse vai e vem
Mora na periferia,
Mas vive alegre e contente
Porque luta honestamente
Pelo pão de cada dia.

Você que vai num carrão
Por favor, preste atenção,
Naquele trabalhador
Que lhe falta quase tudo
Não teve acesso ao estudo
E nem tem anel de doutor,
Porém vive satisfeito
Mesmo humilde desse jeito
Fazendo seu quebra-galho.
Cumpre bem sua rotina
Sem falcatrua ou propina
Só come do seu trabalho.

Quando por ele passar
Ao invés de buzinar
Ou lhe fazer xingação,
É bom que medite um pouco
Não o classifique de louco
Mas analise a questão.
Note q’ele vai suado
E o suor derramado
Que escorre pelo seu rosto
É a marca registrada
Da luta amarga e pesada
Que enfrenta por ser disposto.

Sendo um homem de coragem
Encarou a reciclagem
Como a sua profissão,
Com garra força e capricho
Vive recolhendo o lixo
Que gera poluição,
O seu trabalho legal
Ajuda o rio e o canal
A menos se obstruir
Ao invés de debochá-lo
Criticá-lo ou chasqueá-lo
É bem melhor aplaudir.

Com o seu trabalho decente
Preserva o meio-ambiente
E tira a sujeira da rua,
É um cidadão de bem
Vive do pouco que tem
Sem trapaça ou falcatrua,
O que arruma em sua lida
Mal dá pra comprar comida
Nunca lhe sobra dinheiro,
Vive de bolsos vazios
Mas contém cunho e brios
Viva o nobre carroceiro.

ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

TROVAS DE GERALDO AMÂNCIO

Dos sofrimentos das massas
A cantoria nasceu
Canta a história das raças
Que a própria história esqueceu.

As violas afinadas
Nos desafios medonhos
Sonorizam as madrugadas
Enchendo as noites de sonhos.

Ódio da lembrança eu varro,
Rancor eu nunca guardei,
Por saber que eu vim do barro
E a ele retornarei.

Vencer não é recuar,
Só podem vencer um dia,
Os que aprendem a voar
Com as asas da ousadia.

Da ânsia de almas sedentas
De amor, beleza e magia,
Eu fabrico ferramentas
Pra construção da poesia.

Quando a noite vai embora
Nas bordas do amanhecer,
O parto sem dor da aurora
Faz a luz do sol nascer.

Cuida o homem do roçado,
Ara a terra, cava e planta,
Quando escuta no telhado
A canção que a chuva canta.

Meu coração todo dia
Depois que envelheceu
Adquiriu a mania
De lembrar quem me esqueceu.

Geraldo Amâncio Pereira é poeta, repentista, trovador, cordelista e contador de causos. Nascido no sítio Malhada da Areia, município do Cedro, Ceará, em 29 de abril de 1946. Cursou faculdade de História em Fortaleza. Começou com acompanhamento de viola em 1966. Participou de centenas de festivais em todo o país, e classificou-se mais de 150 vezes em primeiro lugar. Organizou festivais internacionais de repentistas e trovadores, além do festival Patativa do Assaré. É autor das três antologias sobre cantoria em parceria com o poeta Vanderley Pereira. Gravou 15 CDs ao longo da carreira, além de ter publicado cordéis em livros. Apresentou o programa dominical “Ao Som da Viola”, na TV Diário em Fortaleza.

DEU NO JORNAL

RECORDISTA EM CANA

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral foi condenado a mais 33 anos, 3 meses e 13 dias de prisão.

É a 12ª condenação dele na Lava Jato.

Somadas, as penas chegam a 267 anos.

* * *

Um número significativo e que engrandece qualquer currículo: 267 anos cagando de cócoras no aparelho do presídio.

Dois séculos e mais 67 anos.

Ou, ainda, dois séculos e meio, e mais 17 anos.

100 + 100 + 50 + 17

São números que não chegam nem perto das quantias que o apadrinhado de Lula roubou.

Mas são algarismos bastante significativos na vida de um orgulhoso corrupto.

Um recorde banânico.

ALEXANDRE GARCIA

BISPO ASSUSTA FIÉIS

* * *

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

OPINIÕES ANTIGAS

Eu tenho a mania de colecionar revistas antigas. Volta e meia eu releio uma revista que comprei nos anos 80 ou 90. Acho interessante comparar o que mudou e o que não mudou no mundo desde então. A forma de viver mudou muito, mas ao mesmo tempo certos hábitos e certos conceitos permanecem imutáveis. Como exemplo, vejam alguns trechos de uma edição de 1983 da revista SOMTRÊS (onde o colunista fubânico José Nêumanne Pinto era um dos críticos musicais).

A primeira coisa interessante é a apresentação de um produto – no caso, um microfone – produzido por uma certa indústria brasileira. Na matéria, o jornalista cita declarações do presidente da indústria:

“Mesmo que custe mais barato, não é justo tirar emprego dos brasileiros comprando componentes de fábricas no Japão ou nos Estados Unidos.” Certamente o industrial acha justo que todos paguem mais caro, porque o João, e não o Bill ou o Massao, não pode perder o emprego.

“Os microfones estrangeiros não têm nenhuma garantia. E, no entanto, continuam entrando milhares de aparelhos por mês, pelo contrabando.” Agora ficou mais claro: o consumidor não sabe escolher, por isso compra “errado”. O governo deve então “proteger” o consumidor, obrigando-o a comprar o produto X e não o Y.

A conclusão do artigo também é bastante esclarecedora:

“O industrial oferece explicações minuciosas sobre os processos industriais, defende tenazmente a indústria nacional, mas se recusa a revelar o preço de seu produto: ‘Ora, dizer simplesmente quanto custa um equipamento não reflete a longa experiência do fabricante, sua seriedade no trabalho e nem suas responsabilidades sociais. Nós temos 40 anos de experiência e fabricamos um bom microfone. Ponto final.’ “

E você, consumidor, achando que tinha direito de saber quanto pagar… Nada disso: você deve pagar aquilo que o fabricante acha que o produto dele vale, incluíndo aí todas as virtudes que ele mesmo se atribui. Claro que para isso é importante que o governo ajude, proibindo que você, pobre consumidor, caia no erro de querer escolher onde gastar seu dinheiro.

A repetição incessante da afirmação que “as pessoas não sabem escolher e alguém deve tomar conta delas”, que todos nós ouvimos desde crianças, sem dúvida é eficiente. Vejam o que aparece na seção de cartas da revista:

“Quero fazer um protesto […] em nome de todos os amantes de música internacional. Algumas gravadoras mutilam seus lançamentos, assassinando as capas dos discos. Encartes com letras e ficha técnica são suprimidos, sem contar o material de baixíssima qualidade. […] Será que alguém pode tomar alguma providência?”

Bem, meu caro, quem deve tomar alguma providência é você. Se o produto não lhe agrada, não compre. Compre do concorrente. É assim que funciona o mercado. É bem verdade que por aqui não há mercado, já que o governo proíbe você de comprar os discos vendidos em outros países e o obriga a comprar a versão fabricada aqui, que segundo você é pior. Ainda bem que existe o governo para tomar conta de nós, não é mesmo?

Mas em outra seção, a revista entrevista um advogado fã de ópera, que se queixa da falta de apresentações líricas em nossos teatros, e sugere:

“O município devia entrar com verbas para garantir a temporada lírica oficial. [..] No Brasil, há muito pouca probabilidade de um Placido Domingo se apresentar por aqui. [..] O custo é altíssimo.”

Não é uma maravilha? Eu gosto muito de uma coisa, mas não quero pagar o preço “altíssimo”. Então o governo deveria usar o dinheiro dos outros para bancar aquilo que eu gosto.

Trinta e seis anos depois, as coisas não mudaram muito. Não acho que vá ser diferente nos próximos trinta e seis.

A PALAVRA DO EDITOR

FALA, SENHOR JUIZ!

Pelo que apurei, este julgamento aconteceu no mês de julho passado.

O Juiz Márcio Luiz Cristofoli, de São Miguel do Oeste-SC, condenou dois sujeitos pelo bárbaro assassinato de um advogado.

Vale a pena ouvir o que falou o magistrado: