PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DO PREGADOR PECCADOR – Bocage

Bojudo fradalhão de larga venta,
Abysmo immundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na sciencia burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:

No pulpito um domingo se apresenta;
Prega nas grades espantoso murro;
E acalmado do povo o grão sussurro
O dique das asneiras arrebenta.

Quattro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas [qu’rendo]
Um peccador dos mais desaforados:

“Não (diz uma) tu, padre, não me engodas:
Sempre me ha de lembrar por meus peccados
A noite em que me deste nove fodas!”

Colaboração de Pedro Malta

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A GENIALIDADE DE PINTO DE MONTEIRO

O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

* * *

 

A resposta de Pinto de Monteiro numa cantoria com João Furiba

João Furiba:

Cruzei o velho Saara
montado numa bicicleta.
Matei leão de tabefe,
Crivei serpente de seta.
Fiz das penas d’uma hiena
Um blusão pra minha neta.

Pinto do Monteiro:

João até que é bom poeta
Mas sabe ler bem pouquinho.
Vou fazer-lhe uma pergunta,
responda meu amiguinho :
– Quem diabo foi que te disse
que hiena é passarinho ?

* * *

O meu cavalo é dum jeito
Que nem o diabo aguenta,
Entra no mato fechado,
Toda madeira arrebenta,
Dá tapa em bunda de boi
Que a merda sai pela venta.

* * *

Lá no meio da caatinga,
Sem moradia vizinha
Bem na beira de um riacho
Um pé de palmeira tinha.
Meu avô, nesse lugar,
Começou a trabalhar
E chamar de Carnaubinha.
Parece que estou vendo
Um homem cortando cana;
Uma engenhoca moendo
Os três dias da semana.
Fazer cerca, queimar broca,
Raspar milho e mandioca,
Da massa, fazer farinha;
Comer com mel de engenho,
Ai, que saudades que eu tenho
Da minha Carnaubinha.

* * *

Ovo de pato e marreca
Quebrar na beira do poço,
Abrir milho, na boneca,
Pra ver se tinha caroço;
Ir pra beira da estrada
Jogar pedra e dar pancada
Em cabra, bode e suíno;
Em cachorro, pontapé,
Que isso tudo foi e é
Brincadeira de menino.

* * *

Mas essa estória de dente,
Para mim, nada adianta;
Eu não preciso de dente;
Eu quero é peito e garganta:
Pois sabiá não tem dente,
É quem mais bonito canta!

* * *

Eu sou Severino Pinto
Da Paraíba do Norte
Sou feio, porém sou bom
Sou magro, mas muito forte
Depois d’eu tomar destino
Temo a Deus não temo à morte.

* * *

Há vários dias que ando,
Com o satanás na corcunda:
Pois, hoje, almocei na casa
Duma negra tão imunda,
Que a prensa de espremer queijo
Era as bochechas da bunda!

* * *

Eu admiro o tatu
Com desenho no espinhaço
Que a natureza fez
Sem ter régua nem compasso
E eu com compasso e régua
Tenho planejado e não faço.

* * *

Esta palavra saudade
conheço desde criança
saudade de amor ausente
não é saudade, é lembrança
saudade só é saudade
quando morre a esperança.

* * *

Gostei muito de mulher
No meu tempo de rapaz
Mas depois que fiquei velho
A trouxa envergou pra trás
Sentou-se em cima dos ovos
Que a ponta encostou no ás.

* * *

Admiro o vagalume
Enxergando de mato a dentro
Com sua lanterna acesa
Sem se importar com o vento
Apaga de vez em quando
Poupando seus elementos.

(“elemento” no linguajar nordestino é pilha)

* * *

No tempo da mocidade
Eu também já fui vaqueiro.
Não tinha jurema grossa,
Mororó nem marmeleiro.
Fui cabra de vista boa,
Negro de corpo maneiro.

* * *

SEVERINO PINTO E LOURIVAL BATISTA

Uma cantoria improvisada de Meia-Quadra nos anos 70

Constante da coleção Música Popular do Nordeste, organizada por Marcus Pereira

DEU NO JORNAL

NOBEL EM MÃOS ERRADA

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, ganhou o Nobel da Paz 2019 por sua iniciativa decisiva para resolver o conflito de fronteira com a vizinha Eritreia, no leste da África.

O anúncio do 100º Prêmio Nobel da Paz foi feito na manhã desta sexta-feira (11), em Oslo, na Noruega.

* * *

Acabei de enviar um veemente protesto à comissão que outorgou este prêmio.

Prêmio Nobel para um negão não é certo.

O certo teria sido dar o Nobel da Paz pra um branquelo assim feito Lula, que levou a paz para as favelas cariocas, extinguiu a pobreza no Brasil e acabou com a fome em todo o mundo.

Como louro dos zóios zazuis e de raça ariana, quero deixar bem clara minha inconformidade com esta premiação.

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TEM TABACUDO PRA TODOS OS GOSTOS NESTE MUNDO

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SANCHO PANÇA – SÃO BERNARDO DO CAMPO-SP

São Bernardo está entre as cidades finalistas do Prêmio Top Destinos Turísticos do Estado de São Paulo

Referência nacional no segmento de Turismo Industrial, selecionado por comissão julgadora e votação popular, o município de SBC concorre com na categoria Turismo de Estudos e Intercâmbio, em busca do seu segundo título consecutivo na premiação, que é promovido pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e pela Associação de Profissionais de Turismo, Skal Internacional São Paulo.

O Prêmio Top Destinos Turísticos tem como finalidade valorizar e selecionar os melhores destinos turísticos do Estado de São Paulo

A votação popular será encerrada no dia 15 de novembro. A cidade concorre nesta etapa com os municípios de Botucatu, Piracicaba e Sorocaba.

“A seleção de São Bernardo para concorrer na final desta premiação tão importante em todo o Estado de São Paulo é mais um reconhecimento do trabalho que temos desenvolvido na área do turismo da nossa cidade. São Bernardo mostrou que é possível sim atrair turistas com gestão e ousadia”, afirmou o ALCAIDE DE SBC.

Para ajudar a eleger São Bernardo como um dos destaques do prêmio Top Destinos Turísticos 2019, basta acessar o link clicando aqui .

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A PALAVRA DO EDITOR

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O TRABALHO

Durante os muitos milênios da existência do Homo sapiens, a vida foi dura: primeiro, fugindo das feras e caçando o que desse. A descoberta da agricultura trouxe mais segurança, mas sem moleza: era trabalhar de sol a sol para conseguir colher alguma coisa. Os animais domesticados ajudavam, mas também davam trabalho.

Como somos um “animal social”, nas palavras de Aristóteles, desde os tempos da pré-história vivemos agrupados, com os mais diversos nomes: bandos, tribos, povoados, feudos, cidades, países, nações. Em todos eles, sempre houve os que mandavam e os que obedeciam. Durante quase toda a história, os que mandavam conseguiam sua posição por herança de família ou pela guerra. Entre os que obedeciam, quase todos se conformavam em viver assim por toda a vida.

Uma das grandes preocupações dos que pertenciam ao grupo dos que mandavam era aumentar a quantidade de gente sob suas ordens, porque o trabalho a ser feito era muito, sempre. Era necessário então manter os súditos contentes, na medida do possível, e fazer com que estes se preocupassem apenas com duas coisas: produzir e se reproduzir. Fosse um povoado ou um reino, quanto mais gente para trabalhar, melhor: agricultores, pastores, pedreiros, ferreiros, carpinteiros (e soldados, naturalmente). Com toda esta gente trabalhando, os líderes podiam se dar ao luxo de não trabalhar e viver às custas de uma parte do trabalho dos outros. Como não é possível tirar muito de quem não tem quase nada, mesmo o grupo dos que mandavam não vivia na opulência.

Durante o século 19, muita coisa mudou. Surgiram máquinas que fabricavam sozinhas coisas que antes exigiam muito esforço, graças à descoberta de novas fontes de energia, denominadas combustíveis fósseis (o primeiro foi o carvão, depois veio o petróleo). Em pouco tempo, coisas que antes eram privilégio dos poucos ricos passaram a estar ao alcance de todos.

Outra coisa que mudou foi a divisão entre os mandantes e os mandados. Começou a se espalhar a idéia de que as pessoas deveriam escolher coletivamente os seus líderes, e até trocá-los periodicamente, em um sistema que foi chamado Democracia. A sociedade continuou a ser dividida entre os que mandam e os que obedecem, mas ficou mais fácil passar de um grupo a outro. E a maior riqueza permitiu que o grupo que manda (também conhecido por governo) ficasse maior.

Na chegada ao século 20, o mundo já era outro. Pela primeira vez na história, muitas sociedades passaram a conhecer o conceito de fartura: os bens disponíveis, de comida e roupa até casas e automóveis, eram tão abundantes e tão baratos que era possível escolher, e ninguém tinha mais medo de ficar sem. Ainda era necessário trabalhar para poder pagar pelas coisas, mas ao contrário do camponês de séculos antes, que trabalhava sete dias por semana para conseguir apenas o suficiente para não morrer de fome, o homem do século 20 podia se dar ao luxo de trabalhar em expediente fixo e folgar nos fins de semana, ao mesmo tempo em que tinha acesso a luxos que eram impensáveis dois ou três séculos antes: água encanada, luz elétrica, casas aquecidas, máquinas para costurar e lavar roupa, geladeira, fogão a gás, rádio, televisão. E, naturalmente, o governo continuou crescendo, já que era possível confiscar cada vez mais dos que trabalhavam.

Neste nosso século 21, ocorreu algo interessante: as facilidades tecnológicas são tantas que a necessidade de uma população grande desapareceu. O trabalho de apenas uma parte das pessoas é suficiente para atender às necessidades de todos. Muita gente pode viver sem produzir nada, às custas dos outros. Vamos dar nome aos bois:

– Os pobres que vivem do bolsa-família.

– Os jovens nem-nem da classe média, que nem estudam nem trabalham, e têm como projeto de vida viver às custas dos pais até o dia em que possam viver às custas dos filhos.

– Os encostados no governo, tipo “assessor adjunto do departamento de planejamentos fictícios da secretaria municipal de empregos inúteis”.

– Os que herdaram uma aposentadoria ou pensão de alguém.

Todas estas pessoas são improdutivas: não produzem riqueza, apenas a consomem. Não contribuem com o progresso da sociedade, ao contrário, o atrasam. Mas se observarmos bem, o governo parece gostar delas, tanto que cria incentivos para que seu número aumente ainda mais. Por quê? Porque estas pessoas têm para o governo uma utilidade importante: elas votam.

Se alguém tem uma vida boa graças a um governo X, em quem este alguém vai votar? No governo X, óbvio. Nestes tempos em que a riqueza é tanta que dá para o governo abrigar um monte de políticos e ainda sobra para sustentar um monte de gente improdutiva, estes políticos vão fazer o possível para manter a situação exatamente como está. Como? Garantindo que exista uma grande quantidade de gente que vive às custas dos outros e não quer que nada mude: estas pessoas irão sempre votar em políticos que farão exatamente isso.

Como isso irá acabar? Difícil dizer. Os pessimistas acham que o sistema atual é uma pirâmide que vai desabar. Os otimistas acham que a tecnologia compensará a redução da população produtiva. E os chineses acham que somos um bom fornecedor de soja, frango e minério de ferro, e nos pagarão o suficiente para que possamos continuar comprando deles todo o restante, que nós não sabemos fazer.