CHARGE DO SPONHOLZ

ALEXANDRE GARCIA

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VIVA O CARDEAL

Vaticano. Amanhã, o teólogo e filósofo português José Tolentino Mendonça vai ser Cardeal. Em São Pedro, assim se diz por aqui. Foi uma ascensão rápida. Ano passado, era capelão na freguesia do Rato. Em Lisboa. E membro do Conselho Pontifício da Cultura (nomeado por Bento XVI). Em Roma. Lá, conheceu Francisco. Quase um desconhecido para o grande público, em fevereiro de 2018 conduziu o Retiro Quaresmal do Papa. “Interessa-me a espiritualidade do cotidiano”, disse na ocasião. A impressão que causou foi tão forte que logo iria ser Diretor da Biblioteca e do Arquivo Secreto do Vaticano. Arcebispo de Suava (África). E, agora, Cardeal. Com 53 anos. O segundo mais novo, entre todos. No mesmo dia em que correu a notícia da nomeação, recebemos seu artigo semanal para os jornais. Reafirmando tema tão atual, que é a solidão humana. Para uma (limitada) ideia de quem se trata, seguem trechos desse pequeno texto:

“À entrada de um café, aviso gentil impresso em tamanho garrafal, impossível de passar despercebido: Não temos Wi-Fi. Conversem uns com os outros. E, como tudo na vida, há quem o lesse e entrasse no estabelecimento a sorrir; e há quem, com visível desconforto, procurasse outro poiso. Conversar com os outros, ainda o saberemos fazer? Hoje, continuamos a conversar… no afã por conectar com o distante, e empobrecemos a relação com o que está próximo. O nosso discurso povoa-se de intermitências… Estamos e não estamos. O tempo real de escuta cai. A concentração dura o instante de um relâmpago. As conversas precisam de tempo. São as deambulações, as digressões e as derivas que nos conduzem à ciência do encontro, que nos desarmam enquanto falamos ou escutamos, que nos sobressaltam ou comovem, que nos deslocam interiormente, que nos interligam.

“Montaigne definiu a conversa como um falar franco que abre caminho a um outro falar. É um belo modo de descrever aquilo que numa conversa verdadeira acontece, quando a confiança oferecida pela palavra e sustentada pela escuta autorizam a expressão desse outro falar que está submerso em nós. Por isso, persiste sempre uma tensão na experiência da conversa… A vida é, de fato, essa circularidade. O autor dos Essais compara-a ao que acontece numa partida de tênis. Os interlocutores não estão estáticos. Mesmo parados movem-se, segundo a geometria da bola que voa de campo a campo. E o importante, por fim, não é fazer vencer as minhas ideias, nem se adequar às do outro, mas reagir em sintonia, compassar, cadenciar, aprender a alegria da troca”.

Francisco, ao assumir, disse que vinha “do fim do mundo”. Com o desejo de “trazer as periferias para o centro”. Em sua missão reafirmando, sempre, uma pregação permanentemente a serviço dos mais frágeis. E contra a exclusão. Pode não ter conseguido ainda mudar, no tanto que desejaria, a Igreja Católica. Mas, ao menos, vai mudando sua hierarquia. O protocolo, no Conclave de Eleição dos Papas, havia já sido alterado por João Paulo II. Ao determinar que só aqueles com até 80 anos teriam seus direitos mantidos. Rude golpe na velha Cúria. Com isso, dos 228 cardeais de hoje, só 128 votam. E podem ser votados. Francisco já fez 66 deles (52%) E, com o tempo, vai aumentar esse número. Mudança relevante que vem fazendo, aos poucos, é no peso dos votos. Com redução na importância dos continentes mais ricos. A Europa, que tinha 60 cardeais eleitores, hoje tem só 54. E América do Norte, de 14, caiu para 12. Enquanto aumentaram América do Sul, de 19 para 23. África, de 11 para 19. Ásia, de 10 para 16. E Oceania, de 1 para 4.

Tolentino aprendeu, com a vida, que a esperança é o contrário da utopia. E faz parte desse processo de reforma da Igreja. Amigo de Pernambuco, aqui veio diversas vezes (2008/15/17). E é, sobretudo, um grande poeta. Um padre poeta. Com quase 20 livros publicados. Da Madeira, é filho de pescador. Até confessa isso no seu artigo desta semana:

“Este verão revi o filme de Roberto Rossellini, Stromboli, e fiquei siderado com a cena da pesca do atum, mostrada ali como uma coreografia primitiva, intensíssima, até pungente. Durante essa longa cena só me recordava de meu pai, que foi também pescador. Eu fixava-o, com nitidez, de barco em barco, entre as personagens de Rossellini. Vestia uma camisa verde como há muitos anos, na última vez que o vi”.

É como se fosse uma premonição. Que quase todos os apóstolos escolhidos por Jesus tinham essa profissão. Mas deve-se, por fim, destacar, aqui, um estranho dom que tem. O de fazer com que todos os fisicamente próximos dele se sintam em paz. Como se uma aura misteriosa o cercasse. Por isso lhe disse, quando ainda era padre, “O amigo se prepare que vai ser Papa”. Seria o segundo nascido em Portugal. Depois de João XXI, mais conhecido como Pedro Hispano, em 1276. Ele achou graça. O tempo dirá se acertei.

DEU NO JORNAL

TÁ MUITO POUCO

A Vara de Execuções Penais de Curitiba calculou em R$ 4,9 milhões o valor da multa e da reparação de danos a ser paga por Lula na condenação pelo triplex.

Em regra, o pagamento seria necessário para a progressão de regime.

Na semana passada, porém, a força-tarefa admitiu o direito de Lula a ir para o semiaberto por haver “garantia integral” do pagamento, com base nos bloqueios
de valores já realizados.

* * *

Uma multa de apenas R$ 4,9 milhões é uma minxaria.

Prum bilionário feito Lula, chega a ser humilhante este valor.

Gleisi Hoffmann certamente vai dar uma declaração dizendo que isto é mais uma tentativa de avacalhar o PT.

Eu acho que a defesa do presidiário deveria pleitear uma multa maior, compatível com o ego e a megalomania de Lapa de Corrupto.

Certamente Lula deve estar se sentindo ofendido por ter sido multado numa quantia tão irrisória.

A PALAVRA DO EDITOR

TERMINA HOJE A ENQUETE FUBÂNICA

A mais influente, isenta e prestigiada instituição de pesquisas do Brasil, o Instituto Data Besta, informa que a Enquete JBF que está no ar será encerrada hoje, quarta-feira.

Se ainda não o fez, não deixa de exercer o seu dever cívico-fubânico.

Vá aí do lado direito desta gazeta escrota e dê o seu pitaco.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

OS POETAS – Benedicta de Mello

Os poetas são quase imateriais;
um painel de crepúsculo, de aurora;
pousam-nos n’alma, cantam, vão-se embora,
sem que nós os vejamos nunca mais.

Eles são nossos filhos, nossos pais;
choram por todos e ninguém os chora;
são sempre do presente, são de agora;
quando sucumbem ficam imortais.

O seu pranto constrói nossa alegria;
tiram da própria dor nossa poesia;
contentes e infelizes vão passando.

Iguais no nascimento, iguais na morte,
são donos de igual vida e de igual sorte;
fogem do amor para morrer amando.

Colaboração de Pedro Malta

CHARGE DO SPONHOLZ

ALEXANDRE GARCIA

SUPREMO NA BERLINDA

Um jornalista sério e equilibrado tuitou nesse fim-de-semana adjetivos sobre o Supremo, tão agressivos que eu não seria capaz de reproduzir aqui. Na segunda-feira, ouvi o mesmo do dentista, do garçom, da balconista e do policial. Eu nunca percebera antes tanta raiva e tanta descrença contra a nossa corte suprema. A Constituição segue Montesquieu e, já no segundo artigo, diz que os poderes são “independentes e harmônicos entre si”. É óbvio que os três poderes têm que estar em primeiro lugar harmônicos com as aspirações do povo, pois o primeiro artigo da Constituição estabelece que “todo o poder emana do povo”. Assim, o Poder Judiciário, embora não seja escolhido pelo voto popular, igualmente emana do povo, com escolhidos pelos representantes eleitos.

Não estaria o Supremo, portanto, que estar em harmonia com as aspirações do povo, como a de combater a corrupção, punindo os corruptos? Claro, o Supremo não pode ser um tribunal de exceção, tampouco pode ficar sob a tutela de emoções expressas nas ruas ou nas redes sociais. Mas não pode ficar numa torre de marfim, acima e distante da sociedade em que jurisdiciona Justiça em última instância. Entre Robespierre e Salomão, melhor pender para a sabedoria salomônica, ainda que o jacobino fosse de “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Nesta semana, o Supremo terá que ser salomônico, na decisão sobre um habeas-corpus em que o réu não foi ouvido de novo após o depoimento de colaborador premiado que o acusa. Sem regra escrita sobre isso no Código de Processo Penal nem na Lei da Colaboração Premiada o sensato é que valha após a manifestação do Supremo; não antes. Diz-se que se retroagir em benefício dos réus, prejudicaria 32 sentenças da Lava-jato, com 143 condenados. Seria um tiro de bala de prata na grande operação contra a corrupção. A conferir.

Ainda atingindo o Poder Judiciário, parece não haver harmonia dentro dele próprio. O mais ativo dos acusadores, como chefe da Procuradoria-Geral, Rodrigo Janot, revelou que estava disposto a matar o Ministro Gilmar Mendes dentro do Supremo, e suicidar-se em seguida. E que usava bebidas alcoólicas no seu gabinete, para aliviar as tensões. Mesmo sem crime cometido, o Supremo reagiu como histórias de ficção: cassou-lhe o porte de arma, aprendeu-lhe a pistola, retirou de seus escritório e apartamento computadores e celulares, criando a figura de crime de pensamento, que até agora só existia na lista de pecados religiosos. E é bom constatar que tudo isso é porque o Supremo virou tribunal penal de primeira instância para uma multidão de privilegiados, pela Constituição de 1988. Quando foi promulgada, o então Presidente da República, José Sarney, declarou: “Com esta Constituição, o país fica ingovernável”.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PEDRO MALTA – RIO DE JANEIRO-RJ

Berto,

O vídeo abaixo, além de agradar olhos e ouvidos sensíveis, vai deleitar os mais exigentes leitores dessa gazeta escrota e querida por todos nós.

Fraterno abraço

O balé russo, de Igor Moiseyev, executando a Dança de Zorba

AUGUSTO NUNES

ANTA INTERNACIONAL

Dilma revela que, só para humilhar Lula, a polícia brasileira inventou uma tornozeleira que faz o usuário andar curvado

“Lula não pode sair com um controle eletrônico amarrado na perna. Ele quer sair como um inocente. Só se sai da prisão com a cabeça em pé, não se sai curvado”.

Dilma Rousseff, numa entrevista coletiva em Madri, revelando que a polícia brasileira, só para humilhar Lula, inventou uma tornozeleira eletrônica que faz o usuário andar curvado.