PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

OS OLHOS DE CLEMÊNCIA – Luiz Guimarães Júnior

Os olhos dela, os olhos de Clemência
São como o infindo azul resplandecente:
Olhos em cuja luz misticamente
Desponta a estrela d’alva da inocência.

Nada perturba a calma transparência
Desse infantil olhar terno e dormente,
Onde se estampa ainda fielmente
Do Divino cuidado a paciência.

Deixa que eu cante, ó anjo, a formosura
Do teu olhar dulcíssimo: – entretanto
Cedo virá a hora ingrata e escura

Em que outra voz apregoará o encanto
Dos olhos teus, queimados de amargura,
De amor, de febre e de insensato pranto.

Colaboração de Pedro Malta

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A ECHARPE

Echarpe Pashmina – preferência de Clay Dolores

Clay Dolores, era o nome da moça. Cerca de 1,80m servindo de mural para uma jovem de rara beleza, pele mais macia que a própria seda, sem jamais fugir da moda vigente, e uma conta bancária que contrastava com a sua magreza elegante.

Linda! Uma jovem mulher linda!

Olhos pequenos e azuis, semelhantes aos olhos da loba branca vivendo e aparecendo furtivamente nas matas geladas do Alasca – desses aparecimentos que, ainda que não anunciados por trombetas, chamam e merecem atenção até dos pássaros que conseguem sobrevoar as áreas conservadas pela Natureza.

Herdeira, consciente que seria um dia a principal responsável pelo conglomerado empresarial que os pais construíram, num desses passeios de gôndolas por Veneza, conheceu “Raimundo”, um paraibano de Sapé – e por ele se apaixonou.

Raimundo era plantador de abacaxis em Sapé – um fruto que mais parece um torrão de açúcar, que consegue ser mais doce mais vezes que o abacaxi de Turiaçu – e certo dia cansou daquela labuta diária do plantio.

Vendeu parte do que tinha na agricultura familiar, pegou duas ou três cuecas, uma calça jeans rasgada no joelho, muito mais pelo uso que por moda, conseguiu a emissão do passaporte e entrou para um projeto de trabalhar como garçom em Veneza. Enquanto esperava o visto e a resposta do Consulado, estudou o básico do italiano nas 24 horas do dia.

Recebendo o visto, Raimundo chegou dias depois em Roma, e sequer esperou pela bênção do Papa. Num pulo só, mudou para Veneza e, em poucos dias já trabalhava na cozinha de um propagado restaurante, como Auxiliar.

Como era esforçado e não demorou a conhecer os melhores “cicchetti! (tiragosto em italiano), passou a trabalhar como Garçom. Surgia ali a oportunidade de contatos, de vivência e de conhecer melhor a cidade que o fez abandonar em definitivo a sua Sapé.

Foi exatamente quando trabalhava no “Vecio Fritolin”, um dos melhores bares e restaurantes de Veneza, que Raimundo teve o primeiro contato com Clay Dolores, à quem serviu o maravilhoso vinho “Tramin”. A gentileza com que Raimundo serviu a cliente, acabou cativando Clay, e uma nova e boa amizade estava formada.

Encontros em dias de folga. Passeios e convivência que acabaram levando a outro tipo de envolvimento. Algo forte, seguro e com perspectivas de boa culminância. Como dizia minha falecida Avó, passaram a transar oficiosamente.

Eis que, em pleno período invernoso, quando a echarpe é mais útil que a calcinha, Clay Dolores recebeu um comunicado familiar, solicitando sua presença sem demora – problema grave de saúde na família.

Em meio às tantas preocupações e soluções imediatas, Clay Dolores não demonstrava tanta aflição, preocupada exclusivamente com quem deixara momentaneamente em Veneza, em meio a tanta alegria de viver, bons vinhos, bons restaurantes e gente bonita. A vida – pelo menos a dela – enfim!

Em segredo familiar, foi quase que obrigada a revelar o motivo de tamanho alheamento pela situação presente, em detrimento dos momentos vividos em terras italianas. A certeza da felicidade pessoal lhe deu coragem e essa a levou à revelação:

– Estou amando. Literalmente apaixonada. Me sentindo mulher completa, gente, feliz!

– E, podemos saber quem é esse príncipe? Indaga a aflita Mãe.

– É uma criatura ma-ra-vi-lho-sa. É o Bill!- Mas, filha, o Bill que está ao seu nível, é o Bill Clinton! E esse é casado com a Hillary! Afirma, ainda mais preocupada, a Mãe.

– Não “mama”! Na realidade, Bill é um tratamento carinhoso. É o Raimundo!

– Rai, o quê? Quase tendo um infarto, incrédula pela paixão da filha, quer saber mais a Mãe.
– “Mama”, é uma história muito longa. Coisas do amor que a vida nos prepara.

Clay Dolores a empresária salva pela echarpe

O doente da família, hospitalizado havia dias, não resistiu muito e acabou atendendo chamado do Criador para voltar ao barro. Passados alguns dias, missas de encomenda da alma, apoio espiritual à viúva, Clay Dolores retorna à Veneza para chorar no ombro do agora, Bill.

Passado aquele período de luto e sofrimento, a vida precisava ser tocada e o funcionamento do conglomerado de empresas tinha que voltar ao normal.

O toque da campainha na residência de Clay, a fez levantar do confortável sofá, abrir a porta e receber uma mensagem:

– Volte, imediatamente. Preciso de você, pois perdi forças e vontade de viver!

A intimação, na realidade, era para que Clay Dolores assumisse o comando das decisões empresariais, que não poderiam ficar sem direção e sem um norte.

Mas, havia Bill. E a relação com ele era mais forte. Era a sua vida que estava sendo dividida.

Clay arrumou apenas uma das muitas malas, com poucas roupas e a intenção de demorar muito pouco. O destaque na mala, uma echarpe “Pashmina”, uma das menos usadas na Itália, por conta do alto custo. A facilidade e rapidez do transporte a levou de volta à casa em poucas horas.

As conversas entre Mãe e filha aconteciam dentro de uma normalidade, de acordo com a casualidade. A mãe, enfim, se interessou por saber mais detalhes sobre Bill, ou, Raimundo.

Clay não tinha motivos para esconder detalhes, haja vista que a situação financeira do namorado muito pouco ou quase nada lhe interessava – o que ela queria e amava, era ele, o sujeito. Para ela, provavelmente, o primeiro e único amor verdadeiro de sua vida.

– Mãe, ele é um homem simples, trabalhador, honesto e muito carinhoso. É Garçom!

– O quuuêêê?

Como poderia, uma jovem com tamanha estrutura patrimonial, com dinheiro para ser consumido por cinco ou seis gerações, se bem administrado, se apaixonar por um Garçom?

– Volte hoje ainda e, por respeito, termine esse relacionamento e venha cuidar do que construímos durante anos para você.

Clay Dolores pegou a mesma bagagem que trouxera e saiu de casa. Em vez de voltar para Veneza e cumprir o desejo da matriarca, foi para Torino, mais distante de tudo. Entregou-se literalmente à bebida e a vulnerabilidade psicológica acabou por leva-la às drogas.

Viciou-se. Tornou-se dependente das drogas químicas. Suas contas bancárias rarearam e algumas tiveram saldos zerados. Nunca mais se comunicou com a mãe – e preferia não ter que encontrar Bill para não ter que contar-lhe o que a mãe lhe impusera.

Dormir nas sarjetas passou a ser sua melhor hospedagem. Nenhuma alimentação, nenhum banho, nenhuma comida. Só droga, droga e mais droga. Chegou a um avançado estágio de anorexia.

Por outro lado, a família começou a se preocupar. Telefonemas, mensagens de todos os tipos, e nada de resposta. Parentes mais próximos foram até Veneza, em vão. Continuaram as buscas e a procura, agora também por “Bill”, o Garçom.

Bill não existia. Era um tratamento carinhoso entre os dois, Clay Dolores e Raimundo. Nenhuma notícia. De ninguém. A Itália começou a ser literalmente “revirada” com distribuição de fotos por todas as instituições de segurança e hospitais. Nada. Nenhuma pista.

Como que estivessem esgotando todas as formas de procura e investigação, a Polícia italiana resolveu investigar as compras feitas através do cartão de crédito.

Alguns anos atrás – seis, para ser mais preciso – a emissão de uma venda estranha, principalmente pelo valor pago por uma única peça: uma echarpe.

Com a informação foi criada uma nova pista, e quem passou a ser procurada foi “a moça da echarpe”. Echarpe Pashmina, peça fabricada com lã e seda pura, com a qual os usuários se protegem do clima frio exagerado.

As buscas continuaram, agora com novas pistas. Até que, numa vivência comunitária de drogados com dependência química em Torino, foi encontrada uma jovem, já não tão jovem por conta do uso das drogas, que, para se proteger do frio, continuava usando uma echarpe. Echarpe Pashmina. Era Clay!

Após meses seguidos de tratamento intenso, Clay Dolores condicionou sua volta para casa, e para o gerenciamento dos negócios da família, com a aceitação de Bill, agora como seu marido.

Novas buscas em Veneza, agora para encontrar “Bill”, digo, Raimundo. No restaurante “Vecio Fritolin”, onde acontecera o primeiro encontro de Clay com o então Raimundo, mais tarde “Bill”, foi dada a informação que, Raimundo voltara para o Brasil, mais propriamente para Sapé, para gerenciar uma fábrica de beneficiamento de abacaxis, que havia sido comprada por uma família de italianos.

Como o comprador italiano falecera poucos anos atrás, ……. bem, aí já é outra história.

* * *

Este é um dos 50 contos que comporão meu segundo livro, “Cinquenta contos de réis” que está em fase de conclusão.

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

UMA ATLÂNTICA NO SERTÃO POTIGUAR

A cidade de Petrolândia em 1988 teve que mudar de lugar, pois a antiga foi para o fundo da barragem de Itaparica, construída no Velho Chico com a finalidade principal de geração de energia, porém o lago não conseguiu submergir totalmente a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, esta igreja, com estrutura de concreto armado, nem havia sido totalmente concluída e já teve que encerrar quase que totalmente suas atividades eclesiásticas, eu digo “quase” porque se realiza missas e até casamentos, esporadicamente. Na verdade esta famosa igreja não era a matriz, nem sequer ficava na sede de Petrolândia e sim no povoado de Barreiras. A igreja principal, mais antiga e sem estrutura para ficar submersa, foi destruída pelas aguas alguns anos após a inundação.

Mas no Nordeste houve outro caso menos famoso de uma cidade que teve de mudar de local para dar lugar às águas de uma represa: São Rafael no Rio Grande do Norte, cidade na margem direita do Rio Piranhas que foi alagada em 1983 pela barragem Engenheiro Armando Ribeiro. O rio já tinha expulsado da sua margem a cidade de Carnaubais, também no Rio Grande do Norte, antes da construção da barragem, devido às cheias que produzia nos períodos chuvosos. A bacia do Rio Piranhas-Açu é a maior das terras potiguares e da Paraíba, maior até que a do rio que nomeia o estado da capital João Pessoa.

A gigantesca barragem Armando Ribeiro cobriu também a linha do trem que seguia de São Rafael para Jucurutu e possivelmente até Caicó, vinda de Natal, este trecho nunca foi usado e não achei notícia sequer da estação em Jucurutu, mas os trilhos foram colocados. Talvez por já existir o projeto da represa, o projeto de ligação férrea foi abandonado. Já na inauguração da barragem, o trem não chegava mais nem a São Rafael, mas por causa da baixa procura que assolou todos os outros trechos ferroviários no interior do Nordeste.

Uma nova São Rafael foi construída a cerca de 4 km da antiga com uma nova igreja. Para diminuir a saudade dos fiéis, a nova igreja era exatamente igual à antiga, isso mesmo, construíram uma réplica. Após o fechamento das comportas da Armando Ribeiro, a cidade inteira foi submersa, a torre da igreja era a única construção da velha São Rafael que podia ser vista quando o lago estava cheio e virou atração turística, dividindo com fosseis de mastodontes, preguiças e tatus gigantes a página destinada a cidade no site da Secretaria de Turismo do RN. A torre da matriz resistiu bravamente por quase 3 décadas ao sobe e desce do nível da água, mas em 17 de dezembro de 2010, já bastante danificada pela ação do tempo, a torre ruiu.

“Segundo a turismóloga Jane Santos, o desaparecimento da torre ocorreu por volta da meia-noite da quinta para sexta e foi ouvida por pescadores. “Algumas pessoas ouviram um barulho, mas não imaginaram que se tratava da torre da igreja velha”, disse. A notícia abalou a cidade, que tem no turismo um dos seus potenciais financeiros. Embora possua muitas outras belezas naturais, a torre da igreja, perdida no meio das águas do açude, era um dos lugares mais visitados da cidade, que mantinha um passeio de barco em sua volta, enquanto um guia turístico contava a história da transição da cidade antiga para a cidade nova”, publicava o blog Focoelho.

Hoje o site da SETUR-RN continua a divulgar a atração da igreja, mas para quem se atreve a fazer o mergulho com guias locais.

Vídeo do fantástico sobre Petrolândia

Video da TV Ponta Negra sobre a velha São Rafael.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Delmiro Gouveia

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu, Ceará, em 5/6/1863. Pioneiro da industrialização no País com o aproveitamento do potencial hidrelétrico. Seu pai faleceu na Guerra do Paraguai e, ainda criança, mudou-se com a família para Goiana (PE) e em seguida para Recife, onde a mãe veio a se casar com o advogado Meira Matos, que virou seu padrasto e patrão. Com a morte da mãe, começou a trabalhar, aos 15 anos, como cobrador da Brazilian Street Railways Company, chamada “maxambomba”, o primeiro trem urbano do país. Foi sendo promovido até chegar a chefe da Estação de Caxangá.

Dotado de espírito empreendedor, foi se aventurar pelo interior do Estado como caixeiro-viajante, em 1881. Dois anos depois, casou-se com a filha do tabelião de Pesqueira e voltou para o Recife. Viu no comércio de peles de cabras e ovelhas um bom negócio e, a partir de 1883, passou a viajar pelas cidades do interior, obtendo grande sucesso neste negócio. Três anos após, estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, comissionado, junto ao imigrante sueco Herman Theodor Lundgren, que viria a ser o fundador das Casas Pernambucanas. Em 1889 foi trabalhar no curtume do americano John Sanford, com matriz na Filadélfia. Em 1892 assumiu a gerência da filial brasileira, aprendeu a falar inglês, passou um tempo na matriz e na volta adquiriu as instalações do escritório da empresa que faliu. Em 1896 criou sua própria empresa, a Delmiro Gouveia & Cia. e foi contratando os melhores funcionários das empresas concorrentes.

Em 1898, decidiu alavancar o empreendimento e instalou um “mercado modelo” no terreno comprado do Derby Club, no Recife. Uma enorme área com 264 boxes com balcão de mármore e mandou erguer um palacete para sua residência. Em 1899 inaugurou o “Derby”, um grande centro comercial e de lazer com mercado, hotel de luxo, cassino, parque de diversões e loteamento residencial. Uma inovação no comércio, vista hoje como o primeiro “shopping center” do país. Na época, o poder político em Pernambuco estava com Rosa e Silva, vice-presidente da República. Inovador, agressivo no mercado e desligado dos políticos dominantes, Delmiro era visto como uma ameaça aos grandes usineiros. Jovem, rico, e uma tumultuada vida amorosa, era alvo constante de fofocas, escândalos e denúncias na imprensa, mantendo-o em constante evidência.

Tudo isso era agravado pela oposição que fazia ao poderoso grupo político liderado por Rosa e Silva. Assim, suas mercadorias eram constantemente apreendidas e de vez em quando recebia ameaças de morte. Em janeiro de 1900, o mercado foi incendiado supostamente a mando de Rosa e Silva, com quem ele foi tomar satisfações. Por ter agredido o vice-presidente, foi preso. Mas foi solto no dia seguinte através de um “habeas corpus”. Sua esposa abandonou-o, retornando à casa dos pais, e ele volta ao comércio de couro, abrindo nova empresa, a Iona & Krause. Em setembro de 1902, apaixonou-se por uma jovem menor de idade, propõe uma fuga e se escondem na Usina Beltrão. A jovem, de 16 anos, era filha do governador de Pernambuco, nascida fora do casamento. No mês seguinte a jovem é resgatada e ele fugiu num vapor em direção a Penedo (AL).

Em 1903 instalou-se em Pedra, um lugarejo perdido no sertão, mas de localização estratégica para os negócios que pretendia instalar. A cidade, localizada na Microrregião alagoana do Sertão do São Francisco, é uma divisa com três estados: Pernambuco, Sergipe e Bahia. Ali comprou uma fazenda às margens da Ferrovia Paulo Afonso e começou a construir uma grande empresa com currais, açude e prédios para o curtume. Pouco depois mandou buscar a jovem que havia sido raptada – Carmélia Eulina do Amaral Gusmão – com quem teve três filhos. Sua empresa prosperou e em pouco tempo transforma-se num grande entreposto comercial de peles de bode e carneiro. Em seguida passou a explorar o potencial energético da Cachoeira de Paulo Afonso. Em dois anos construiu uma Usina Hidrelétrica com potência de 1.500 HP, inaugurada em 1913. No ano seguinte fundou a “Companhia Agro Fabril Mercantil” a primeira fábrica na América do Sul a fabricar linhas de costura e fios para malharia. A I Guerra Mundial (1914) impediu a chegada dos produtos ingleses e garantiu a conquista desse mercado. Em pouco tempo a fábrica estava exportando para o Peru e Chile. Construiu uma vila operária, abriu estradas e os funcionários recebiam vários benefícios. A “Fábrica de Linhas Estrela” e a cidade que ele construiu eram modelos para a época. Em 1943 a cidade passou a se chamar Delmiro Gouveia.

O poderio econômico da empresa – em 1916 tinha 2000 funcionários e produzia mais de 500 mil carretéis de linha por dia – chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica. Por motivos políticos e questões de terras, entrou em conflito também com vários coronéis da região. Em 10/10/1917 ele estava em frente ao seu chalé, quando foi assassinado com três tiros disparados por pistoleiros. O assassinato é atribuído pela maioria de seus biógrafos aos coronéis José Rodrigues de Lima (de Piranhas) e José Gomes de Lima (de Jatobá), os quais entraram em conflito com ele por motivos políticos e econômicos. Nunca se descobriu quem foram os reais mandantes do assassinato, mas houve quem incluísse no rol dos suspeitos os diretores da Machine Cotton. Os herdeiros não resistiram e foram pressionados a vender a fábrica à empresa inglesa, detentora na América Latina da marca “Linhas Corrente”. Ato contínuo, os ingleses destruíram os prédios da fábrica e lançaram as máquinas e equipamentos no Rio São Francisco, livrando-se da incômoda concorrência.

Devido ao seu ímpeto empreendedor, inovações e conquistas na área econômica e industrial, tornou-se um mito na história do Brasil. No centenário de seu nascimento, em 1963, foram realizados eventos em algumas capitais e homenagens no Congresso Nacional. Em 1977, estreou a peça O Coronel dos Coronéis, escrita por Maurício Segall, No ano seguinte, o cineasta Geraldo Sarno realizou o documentário Delmiro Gouveia: O Homem e a Terra, que, sete anos depois, foi transformado no filme Coronel Delmiro Gouveia. Sua trajetória já foi contada em diversos livros biográficos e de ficção. Foi o primeiro industrial brasileiro com forte caráter nacionalista, que enfrentou o “imperialismo econômico”, conforme seu depoimento publicado no livro de Olympio Menezes: Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife, IJNPS/MEC, 1963. p. 134. “Nossa Fábrica ocupa 2.000 operários brasileiros e nossa linha é fabricada com matéria prima exclusivamente nacional. Esperamos que o público não deixará de comprar a nossa linha, de superior qualidade, para dar preferência a mercadoria estrangeira ou com rótulo aparente de nacional. Se não fosse a linha “Estrela” o preço de um carretel estaria por 500 réis ou mais; o público deve o benefício do barateamento deste artigo de primeira necessidade, à nossa indústria”.

Em 1993, a Federação das Indústrias de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, a FUNDAJ e o BANDEPE instituíram o “Prêmio Delmiro Gouveia de Vanguarda Industrial”, destinado a distinguir anualmente “as indústrias que se destacarem pela adoção de inovações nas áreas de qualidade, relações trabalhistas, gestão empresarial e interação com a comunidade”.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOÃO CARLOS RODRIGUES – SÃO PAULO-SP

Nobre Editor,

Existe gente que é contra e fica esbravejando.

Mas é este tipo de coisa que Bolsonaro quer combater nas nossas escolas.

Força, senhor Ministro da Educação!!! 

Conte conosco.

Os derrotados nas urnas que se danem.

Meu abraço

CARLOS IVAN - ENQUANTO ISSO

INFLAÇÃO

O histórico da inflação no Brasil é claro. Aponta que desde 1930, o país vive num sobre e desce sem fim. Sem encontrar o Norte para controlar os preços. Mas, no meio das turbulências, o país, às vezes, encontra saídas lenitivas para abrandar o sofrimento no bolso. A inflação em maio, cansada de correr acelerada, diminuiu o ritmo. Com leve freada, em maio trocou a corrida pela caminhada. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) registrou 0,13% em maio, contra o apresentado em abril, de 0,57%. Embora a redução da taxa não traga alegria para o consumidor, todavia representa uma desaceleração repentina da inflação. O consolo é constatar uma queda no nível inflacionário mensal. Situação que não acontecia há 13 anos. Afinal, desde o ano de 2006, a economia não registrava um índice mensal tão baixo. Com essa apuração, o IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulga. No ano, a inflação acumulada é de 2,22%. Enquanto no acumulado em 12 meses, o IPCA foi de 4,66%.

O apanhado, embora diminuto, está dentro dos cálculos do governo que estabeleceu a meta de 4,25% para a inflação deste ano, podendo variar entre 2,75% a 5,75%. Em abril, o que pesou na balança da cesta básica foi a majoração do preço de alimentos, tomate, frutas e o feijão que apresentou melhora da colheita de maio. Outra contribuição formidável foi o do setor de transportes. As passagens aéreas ficaram mais baratas em 21,82%. Outros setores que prestaram valiosa colaboração para derrubar o IPCA em maio foram a saúde e a área de cuidados pessoais. O reajuste dos remédios constatado em abril de 2,25%, caiu graciosamente para apenas 0,82% em maio.

Os itens que se comportaram mal na apuração dos dados para o novo índice de inflação foram a conta de luz, o botijão de gás e a gasolina que mostraram rebeldia para o IPCA de maio. Perfeito vigilante do desemprenho da inflação e dos juros, o Banco Central não desgruda a atenção para esse embate. A finalidade específica é controlar a taxa de inflação. A estratégia é simples. Quando a inflação aumenta, está alta, o BC sobe os juros. A intenção é reduzir o consumo de modo a forçar a queda de preços. No entanto, quando inflação cai ou anda baixa, o BC diminui os juros com o propósito de estimular o consumo. A responsabilidade de determinar a taxa de juros é do Copom (Comitê de Política Monetária) que desde 1996 está em ação. Em maio passado, a taxa de juros ficou no patamar de 6,5%. Tomara que baixe daqui pra frente. O país precisa disso para levantar voo. Sair da lama.

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Água é o recurso natural mais abundante na Terra. Jorra de várias fontes. Graças à água, a vida floresce no Universo. Também se faltar água, a vida desaparece do Planeta, num piscar de olhos. As diversas formas de vida, humana, animais e plantas, somem. O precioso líquido é tão importante que cobre dois terços da superfície terrestre. Até o organismo do homem anda cheinho de água e não pode secar, senão só restarão ossos. A água se apresenta sob três aspectos, estado líquido, sólido ou gasoso. Na fase líquida é incolor e transparente. Porém, armazenada em grandes volumes assume a cor azulada. Solidificada, a água vira gelo. Basta atingir zero grau Celsius. No entanto, quando a temperatura chegar a cem graus Celsius, ferve. Toda vez que a água muda do estado sólido para o gasoso, durante a baixa da temperatura, provoca chuva. Para sobreviver na antiguidade, o homem se estabeleceu na margem de rios. Sabiamente, os egípcios se fixaram nas margens dos rios Nilo, Tigres e Eufrates para não depender das chuvas. Caso haja escassez de água na lavoura, os vegetais morrem. Não produzem.

Todavia em virtude de condenados costumes, o homem já percebe que, se não tomar cuidado, a água um dia pode sumir da face da Terra. Em alguns lugares terrestres, começa a faltar água para determinadas atividade por causa, principalmente de desperdício, vazamentos caseiros, e da poluição que ameaça os mananciais. Na Ásia, o despejo de esgotos no leito de rios, afeta as reservas. Força o racionamento para manter precário consumo. Evitar o esgotamento.

A falta de políticas públicas e a redução de investimentos complica o fornecimento de água para as metrópoles. Enquanto os gestores ficarem preocupados apenas com a reeleição, a sociedade passa vexames com a falta d’água. A solução tem sido a frequência do reuso da água, particularmente na agricultura. Os agricultores de frutas e hortaliças do Ceará, mais precisamente da zona rural de Iguatu, descobriram uma tecnologia caseira. A mistura de cascalho, pedras, areia, brita, pó de madeira, esterco de gado e minhoca, excelente produtora de húmus em reservatório, faz o agricultor cearense utilizar a água que seria destinada aos esgotos, para umedecer o chão e colaborar na exploração de produtos agrícolas de pequeno porte. A baixo custo, para melhorar a renda e comprovar que a criatividade também é uma atividade lucrativa.

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Coitada da Venezuela. Faz 10 anos passa por sufocos. Crises brabas. Padece de instabilidade social, passa por declínio político, encara grave decadência econômica. Dona de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, estimada em mais de 300 bilhões de barris, a Venezuela bota a Arábia Saudita, Canadá e Irã para trás. Depois da Primeira Guerra Mundial deu uma guinada. Saiu da dependência da agricultura para a exportação de petróleo. Em 2017, as exportações bateram na casa dos US$ 18 bilhões. Graças às vastíssimas reservas de petróleo, às imensas fontes de recursos naturais e excelente diversidade ambiental, a República Bolivariana da Venezuela vestiu o manto da riqueza. Exibiu poder econômico. No entanto, depois que entrou na onda de movimentos políticos perversos, que eclodiram no país, o cenário mudou. Radicalmente. Os consecutivos erros políticos arrasaram as riquezas acumuladas desde a crise do petróleo, em 1973. Apesar do preço do barril de petróleo explodir, não impediu a elevação dos gastos públicos, não evitou a multiplicação da dívida externa, a desvalorização da moeda local e nem a queda do poder aquisitivo da população. Até a corrupção saiu do esconderijo. Por causa de trapaças e de gestores incompetentes a indecência política alastrou-se pelo país.

As consequências negativas da instabilidade política foram imediatas. A pobreza cresceu da noite pro dia, os registros de crimes passaram do limite, em cada esquina alguém tombava sem vida, os distúrbios políticos viraram rotina. Foi justamente a desconfiança política que trouxe Chávez a tiracolo para implantar a Revolução Bolivariana, em 1998. Daí pra frente, nada mais deu certo na Venezuela. Era greve geral nacional quase todo dia. O PIB enfraqueceu, desmoronava frequentemente. Mas, os absurdos não paravam. Pelo contrário, acelerou a fuga de capitais estrangeiros, provocou mais desvalorizações da moeda. A desgraceira foi tão grande que a indústria petrolífera tomou um seríssimo prejuízo calculado em 13 bilhões de dólares. Isto no ano de 2003.

Com a chegada de Nicolás Maduro em 2013, conduzido ao cargo de Presidente por decreto e exibindo poderes especiais, a Venezuela emborcou, ante o poderio do autoritarismo. A criminalidade aumentou, a hiperinflação se fez presente e os produtos básicos sumiram em meio à onda de manifestações, protestos e tumultos. As tensões provocaram tragédias, instalaram o caos econômico, estabeleceram filas pra tudo, trazendo fome e abusos. De todos os tipos. Em 2018, a inflação fixou-se em 130.606%, totalmente fora de controle. Entre 2013 e 2017, o PIB emagreceu 37%. Por conta da busca queda, a população venezuelana vive sem água, luz e comida em casa. Sofrendo as consequências do bloqueio aéreo e naval. Devido à má gestão. No entanto, o óleo, por ser do tipo pesadão, encarece. a extração. Mas, foi a política, a responsável pela queda de produção de petróleo na Venezuela. O baixo investimento no setor, fechou mais da metade dos 70 poços de petróleo que existiam no país em 2016. Em setembro de 2018, só restavam 25 poços ativos. Com as sanções planejadas pelos Estados Unidos a tendência é a situação da Venezuela piorar absurdamente. Para comprar um rolo de papel higiênico, o consumidor leva um montão de bolívar, moeda nacional. Segundo previsão do FMI, caso o país permaneça nesta situação, a inflação é capaz de fechar o ano na casa de 1 milhão por cento. Coisa de louco.

*
No passado, devido ao atraso do país, hospital público só prestava atendimento médico a quem tinha carteira assinada. Era contribuinte da Previdência Social. Quem não se enquadrava nesta situação, sobrava. O Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social-Inamps, órgão oficial da saúde pública, só atendia trabalhador classificado. Comprovadamente empregado. Mas. Apesar da discriminação, havia respeito e consideração com a população.

O SUS-Sistema Único de Saúde só apareceu em 1988. Como é obrigação do país atender o povo nas doenças, devido à quantidade de pacientes, presta péssimo serviço a 80% da população. Em função da precariedade, o SUS é criticado por mais de 70% da população que não tem plano de saúde particular. Porém, mesmo censurado, o SUS é tido como um dos programas de assistência pública no mundo, em eficiência. A grosso modo são mais de 150 milhões de pessoas atendidas pelo SUS em diversas modalidades. Estratégia de Saúde da Família, Programa Nacional de Imunização, Programa Mais Médicos, Programa Farmácia Popular, Prevenção e Controle HIV/AIDS, Sistema Nacional de Doação e Transplante de Órgão, Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea e Rede de Atenção Psicossocial.

Para um país pobre como o Brasil, custear um serviço público tremendamente caro, é dose. Ainda mais quando é mal administrado e obrigado a prestar assistência a pessoas de reduzido poder aquisitivo que envelhecem rapidamente por falta de acompanhamento médico regular. Para 2019, a Lei Orçamentária Anual reserva R$ 128 bilhões para a saúde pública, quantia considerada insuficiente para o custeio do SUS. Faz 30 anos, os gestores classificam a saúde como despesa, embora seja investimento para os entendidos na matéria. Daí a redução da contribuição dos municípios cair para 3% e do governo federal despencar para apenas 40% dos investimentos.

PENINHA - DICA MUSICAL