GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

ATÉ ONDE CHEGA O AMOR

Por Goyambú Bigeyes, Mestre por Harvard

Um jovem ansioso por conhecimentos dirigiu-se ao guru no alto da montanha e perguntou-lhe:

– Guru, vim de longe, milhares de quilômetros, e subi esta montanha íngreme, só para saber, sedento de conhecimentos e de água, faminto de alimento e justiça, qual é o limite de amor dos pais.

O guru, em meditação profunda, fechou os olhos e disse:

– Meu pupilo, vou contar-lhe um causo que se assucedeu-se em Pernambuco (o guru era nordestino da peste) que lhe revelará os limites do amor paterno:

Um dia, no Recife, a mãe avisa ao pai que o filho tinha uma comunicação a fazer no jantar, dizendo que achava que ele ia comunicar a eles que ele é homossexual.

O pai, assim como a mãe, sendo pessoas de esquerda, o que implica aceitar as diferenças e diversidades, ficou tranquilo, dizendo que tudo bem, se era essa a escolha e esse o caminho do filho, que assim fosse. Fariam tudo para mantê-lo acolhido e nada alteraria o amor que sentiam por ele.

À hora do jantar, sentaram-se à mesa, com uma solenidade desusada, o filho com os pais e uma irmã, que já sabia do problema do irmão e estava temerosa da reação deles à revelação que iria ser feita.

– Pois bem, meu filho, você queria nos dizer uma coisa…?

– Sim, papai e mamãe; queria dizer-lhes que aderi à extrema direita e sou um apoiador de Bolsonaro. Estou saindo daqui direto para as manifestações, para somar junto com o povo em favor desse ser iluminado que veio para salvar o Brasil da corrupção e do desastre econômico. Brasil acima de tudo e Deus acima de todos! Viva à reforma da previdência, viva às medidas do Moro contra a corrupção, abaixo o Congresso e o STF! Cadeia para Maia! Impeachmente para Gilmar Mendes e toda a cadelada safada!

O pai, sem perceber que o moleque havia enlouquecido completamente, virou-se para ele furioso e disse:

– Porra, seu burro, eu estava aqui tranquilamente pronto para lhe dar o meu profundo amor pensando que tu ias comunicar que tu és viado e tu me vens com uma porra dessas? Fora! Vai para a manifestação e fique por lá, não me ponhas mais os pés nesta casa!

MORAL DA HISTÓRIA: Ser bicha até pode, meu caro pupilo.

(O guru então convidou o pupilo a sair pelo mundo dando a boa nova e pedindo que cada um escrevesse seu próprio entendimento da moral da história para que todos pudessem compartilhar dos seus ensinamentos).

CHARGE DO SPONHOLZ

PERCIVAL PUGGINA

ÀS RUAS, BRASIL!

Ainda não eram oito horas da manhã de um domingo chuvoso, aqui em Nápoles, quando acordei pensando no que estava para acontecer no Brasil. Habitualmente, como tem ocorrido desde 2013, eu estaria, hoje à tarde, participando da manifestação no Parcão. No entanto, estou longe da minha terra e, pela primeira vez, longe do som da rua, longe do Parcão de Porto Alegre e do agito alegre e bem-humorado da querida Banda Loka Liberal.

Três horas da madrugada no Brasil… Arrumei um canto no quarto do hotel e gravei o vídeo que pode ser assistido no final desta postagem. Era uma forma de deixar meu recado, de reforçar a posição já expressa em artigo publicado aqui no JBF, de convocar os brasileiros às ruas e, de modo um tanto estranho, ainda com cara de quem saiu da cama, dizer o que distingue este domingo na história das mudanças em curso no nosso país.

As demais manifestações se fizeram contra a corrupção, contra os estragos do petismo, a favor da Lava Jato, para pressionar Eduardo Cunha a dar início ao processo de impeachment, a favor do impeachment, a favor da prisão após condenação em segunda instância, chamando o STF à responsabilidade. Neste dia 26, porém, a situação é diferente. Desta vez, o tema é Brasil. Mais do que qualquer outra coisa é o bem do pais que está no foco dos discursos e do clamor popular. Não o vejo como mobilização bolsonarista, ainda que para muitos isso seja o essencial; vejo este domingo como dia de um ruidoso e democrático clamor pelo país, para ser ouvido pelos mais surdos canais auditivos do Congresso Nacional. O clamor de um país em perigo iminente!

Senhores congressistas, nós sabemos quem são e estamos vendo o que fazem. Nada é mais prejudicial e ultrajante quanto a lentidão em tempo de urgência, quanto o corpo mole quando a hora exige energia, quanto a ‘negociação de interesses’ quando o dever se impõe. Sim, os senhores podem fazer qualquer coisa, inclusive tudo o que não deveriam, mas não esqueçam de que, antes, a nação escolheu um caminho a seguir. Essa escolha foi a força vitoriosa do pleito e responde pelos mandatos da maioria dos senhores. Ouçam a voz das ruas e não se desviem dele.

É o que sinto junto com muitos brasileiros nestes dias em que, retomado o país pela força indômita das urnas de outubro, percebemos a mobilização dos que, devendo seus mandatos aos eleitores do Presidente, emitem claros sinais de haver perdido sintonia com o interesse nacional.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

NOVOS COMPROVANTES

A todo o instante o cotidiano brasileiro expede comprovantes pelos quais as tecnologias vão, crescentemente, expandindo o desábito à leitura, no papel.

No dia 7 de abril, por intermédio do texto publicado aqui no JBF, intitulado APOLOGIA AO LIVRO, exaltei a importância desse companheiro, fiel, desapaixonado, o livro. Porém, apontei circunstâncias que concorrem para a sua gradual obsolescência.

Afirmei que os livros já são encontrados rotineiramente nos lixões e que a inapetência à leitura, à beira do enjoo, por sobradas razões sugere conjecturar que as gerações pósteras poderão incorrer em falta grave, quiçá contravenção, se forem flagradas em ato de leitura ostensiva. No mínimo, será encaminhado a um manicômio aquele que, em via pública, se detiver às páginas de um livro. Por essa afirmativa tachas me vieram ao lombo: exagerado, escatológico, disparatado, hiperbólico, airado e por aí além.

Pois bem, agora me chega a notícia, fidedigna, relativa à colisão frontal entre dois caminhões. Um transportava frangos abatidos, o outro, livros. Em vinte minutos um magote de circunstantes encarregou-se de saquear completamente a carga de frangos não sobrerrestando sequer um naco de galináceo para uma canja a um enfermo.

No dia seguinte compareceu ao local dos destroços um inspetor educacional, incumbido de erguer um relatório circunstanciado acerca do que sucedera ao caminhão livreiro. Tomado de assombro o inspetor, — até então de face decomposta em desgosto —, constatou, satisfeito, que, salvante o escangalho das embalagens, nenhum livro fora furtado pelos saqueadores.

Tudo bem que livros e letras não fazem parte do cardápio dos que, entregues ao propósito de guarnecer-se de provisões de boca, habitam as franjas da sociedade.

Porém, com o perdão da virtude que me faz companhia desde o berço sertanejo, os saqueadores se houveram muito mal em não expandir suas práticas ilícitas ao carregamento livresco, subtraindo pelo menos um livro, ainda que a título de curiosidade. Se tal houvesse ocorrido isso se prestaria a refrigerar o ideário do livro que é o de ter sido concebido para tornar-se andejo, viver pelos caminhos, de mão em mão, de porta em porta, não em caixas mortuárias, se deslocando em múltiplas direções, procedimento similar ao das abelhas que, ao alçarem voo em busca do néctar, prestam valioso serviço à natureza e à humanidade. Durante o seu trajeto, as abelhas vão espalhando, naturalmente, por sobre os ovários das flores, os grãos de pólen que carregam nas suas corbículas, realizando, desse modo, a polinização responsável pela fecundação de frutos e, consequentemente, das árvores.

O fato da carga livreira ter recebido apenas olhares desinteressados dos saqueadores acentua a convicção de que o livro se encaminha, desapressadamente, para o rol das peças museológicas. Não é achismo, é realismo exato.

Quem já foi herói da utilidade, quem já prestou inestimáveis serviços, agora vai-se encaminhando para a obsolescência, para a necrópole da desutilidade. O sopro da modernidade é impiedoso, empurra todos para o ostracismo. Que diga o carro de boi, o jumento e outros personagens. Que amanhã o livro não seja tão caluniado e vilipendiado quanto sucedeu ao jumento!

Mas assim como um tango triste vivifica Carlos Gardel e a Guerra de Carnudos ressuscita Euclides, tu reaparecerás neste leitor escasso, amigo livro, sempre que uma tecnologia se propuser a substituir a tua linguagem.

DEU NO JORNAL

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PORQUE O SOCIALISMO É UMA UTOPIA

Você já ouviu falar da Alemanha? E você lembra que entre 1945 e 1989 existiam duas Alemanhas, a “ocidental” e a “oriental”? Bem embora ambas fossem habitadas pelo mesmo povo, falassem a mesma língua, compartilhassem o mesmo passado e a mesma cultura, elas eram bem diferentes.

Na Alemanha Ocidental, fabricava-se Mercedes, BMW, Porsche e Audi, nomes que até hoje povoam sonhos pelo mundo inteiro. Enquanto isso, ali ao lado, a Alemanha Oriental fabricava apenas um carro: o Trabant.

Para quem não conhece: o Trabant é um carro menor que um Fiat 147, com a carroceria feita de resina plástica. Tinha um motor dois tempos de 0,6 litros e 25 cv. Ficava longe de satisfazer as normas ocidentais sobre poluição e segurança (um exemplo: o tanque de combustível ficava junto do motor). Outra diferença importante: enquanto do lado ocidental um alemão podia entrar em uma loja e sair dirigindo seu carro, no lado oriental o Trabant tinha uma fila de espera de aproximadamente dez anos (você não leu errado: dez anos). Por isso, um Trabant usado valia o dobro, ou mais, do que um novo.

Qual a explicação? É simples: a Alemanha Ocidental era um país capitalista. Lá, pessoas podiam criar empresas e estas empresas podiam fabricar e vender produtos, obtendo lucro. Havendo várias empresas, as pessoas podiam escolher qual produto comprar, por isso as empresas se esforçavam para oferecer produtos melhores que a concorrência (entenda-se “melhor” no sentido de qualidade ou preço, ou ambos); a empresa que não oferecesse um bom produto, não conseguiria lucro. Como sabemos, a indústria alemã era tão competente que seus automóveis eram (e são) cobiçados no mundo inteiro.

Por outro lado, a Alemanha Oriental era um país socialista. Na economia socialista, as pessoas não podem almejar lucro: elas trabalham para o governo, e o governo paga quanto quer, já que não há alternativa. Como o salário não pode aumentar, não há nenhum incentivo para inovar ou mesmo para trabalhar com mais qualidade ou eficiência do que a média. O governo era o dono da única fábrica de automóveis, e não precisava agradar a ninguém: ou o consumidor comprava um Trabant, ou ficava sem nada. Por isso, o Trabant permaneceu praticamente igual de 1957 até 1989, e só parou de ser produzido porque a Alemanha Oriental deixou de existir.

A definição clássica diz que o socialismo é a “ausência de propriedade privada dos meios de produção”. Não é uma boa definição: diz apenas o que o socialismo não é. Faltou dizer o que é, e como funciona. Afinal, no socialismo os meios de produção continuam existindo. O importante não é definir de quem são, é definir quem os administra e controla.

Empresas como a Mercedes ou BMW têm literalmente milhares de donos, já que suas ações são negociadas em bolsa. Qualquer um pode ser dono de um pedaço delas. Não é a propriedade delas que importa. O que importa é que há presidentes, diretores e gerentes que tem responsabilidades definidas e incentivos claros: se trabalharem bem, podem ser promovidos e ganhar mais. Se trabalharem mal, podem ser demitidos.

Na fábrica da Trabant a história era outra. Todos ali eram empregados do governo. Ninguém tinha incentivos para produzir um carro melhor. O comportamento esperado dos funcionários não era inventar novidades que iam dar mais trabalho para todos: era acomodar-se à burocracia, cumprir as normas, não arranjar problemas e não mexer no que estava quieto (se você que me lê foi ou é funcionário público vai entender o que estou dizendo). Aliás, mesmo que um diretor qualquer tivesse a boa vontade de querer atender melhor o consumidor, como faria? Como ele poderia saber o que as outras pessoas preferem, sem o mecanismo do mercado para informar? Se houvesse um pouco de verba disponível para melhorar o Trabant, seria melhor colocar freios a disco ou marcador de gasolina? Na dúvida, o Trabant não tinha nem um nem outro.

Algum admirador do socialismo dirá que mostrei um capitalismo perfeito, mas que no mundo real existem injustiças, corrupção e todo tipo de defeitos. Concordo. O ser humano não é perfeito, ao contrário. Mas é o que temos. O capitalismo não foi feito para anjos, foi feito para humanos imperfeitos. Por isso mesmo, fornece os mecanismos para se auto corrigir, concedendo a todos o poder de ser consumidores e de escolher. É exatamente por isso que o governo deve se manter afastado do mercado: não pode haver concorrência justa se um dos concorrentes é o dono do poder. Afinal, o governo também é formado por pessoas imperfeitas e sujeitas à tentação.

O socialismo, por outro lado, funcionaria bem com anjos. Porque, na ausência de incentivos e de mecanismos de correção, seu funcionamento depende de pessoas imunes a qualquer tipo de mau comportamento, e suficientemente altruístas para fazerem sempre o melhor sem esperar nada em troca. E é exatamente por depender de condições que no mundo real não existem, é que o socialismo é um sistema utópico.

JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

“VAI FICANDO POR AÍ, VELHO. DE REPENTE O NEGÓCIO SOBE”

Praça das Palmeiras em Carpina, perto do antigo cabaré de Maria Bago Mole

Maria das Dores era uma das mulheres da vida difíceis mais próximas de Maria Bago Mole, a famosa cafetina do Cabaré de mesmo nome no Século XIX, que ficava na Zona Norte do baixo meretrício de Carpina, localizado na bifurcação de Cruz das Almas Penadas, local onde se matou muita gente e onde se encontravam todos os dias os caminhoneiros e cortadores de cana dos engenhos das redondezas.

Famosa por saber estimular os fregueses nos momentos de languidez “piquiana”, que as “meninas” chamavam de “pau sem esperança”, com pouco tempo Maria Bago Mole elevou Maria das Dores a condição de administradora de viúvo solitário e endinheirado, que havia se esquecido completamente da feitura de um “cara preta”, “boca de macaco”, “boca de Gilmar”, como era chamada a “carne mijada” na época pelos freqüentadores do cabaré.

Sua tática consistia em relaxar o velho, fazer com que ele se esquecesse da viúva, dos problemas do engenho, para isso entrava com ele no quarto, tirava-lhe a roupa na penumbra do candeeiro, começava-lhe a alisar o peito, pegar nos cachos murchos e estimular a mimosa que estava mais adormecida do que bêbado no final de noitada cachacista.

Certo dia Maria Bago Mole deu a missão à Maria das Dores para encorajar um velho viúvo que, depois de perder a esposa no coice de jumento na boca do estômago, perdeu completamente a vontade de viver. Como não lhe conseguiu estimular a mimosa pelo método convencional, partiu para o radical, que consistia nas suas táticas de vinte anos de profissão.

Mandou o velho ficar de papo para baixo, nu, com o frinfa para cima e começou a passar óleo de peroba pelas beiradas, rezando agarrada com a “bicha” do moribundo: “Deus, fazei com que esse santo crie azas e voe para entrar no buraco.” Deus, fazei com que esse santo crie azas e voe para entrar no buraco.” Depois de repetidas vezes sem sucesso, Maria das Dores, com os braços dormentes, com cãimbra, de tanto movimento sem resultado, exclamou:

– “Valha-me Deus! Vai ficando por aí, meu velho, que de repente o negócio sobe e a gente soca dentro, porque de minha parte já perdi a esperança.”

E saiu de mancinho do quarto deixando o velho roncando, nu, com a bunda para cima banhada de óleo de peroba, certamente pensando na mulher que havia perdido com o coice do jumento.

“A velhice tem dessas coisas: A melhor coisa da vida o tempo mata” – pensou Maria das Dores e se foi-se a contar a “tragédia” a Maria Bago Mole, que ficou sirrindo-se de se mijar pensando no seu gambrião, Bitônio Coelho, que há dois sábados não aparece para lhe apagar o fogo na bacurinha nos aposentos do cabaré.