A PALAVRA DO EDITOR

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

AINDA SOBRE OS PODERES DA REPÚBLICA

Em minha última coluna, falei sobre a luta entre os poderes e o quanto isso deixa o país desgovernado, mas sempre dá para piorar um pouco. Na verdade, em minha opinião, pode-se afirmar ser duvidoso que o Brasil seja, hoje, uma democracia. Dois fatos importantes:

A Associação Nacional do Ministério Público (aquele que chamei de “quarto poder”) manifestou-se assim sobre a possibilidade do presidente escolher um Procurador Geral que não faça parte da lista tríplice encaminhada pelo MP:

“…mais do que uma irresponsabilidade, um desrespeito com todos os procuradores da República que lutaram, ao longo de décadas, pela consolidação da lista tríplice como instrumento democrático de escolha para o cargo de procurador-geral da República. Comportamento típico de quem considera aceitável a via de exceção, antidemocrática e autoritária para atingir seus fins. A escolha do Procurador-geral da República por meio da lista tríplice é uma conquista não apenas da classe, mas de toda a sociedade, sendo-lhes instrumento essencial para a manutenção da independência do Ministério Público Federal.”

Traduzindo:

– Os procuradores admitem que lutaram “por décadas” pelo direito de escolher seu próprio chefe, ou seja, governar a si mesmos. Isso é chamado “instrumento democrático”.

– Para os procuradores, que não são eleitos, escolher seu próprio chefe é uma “conquista da sociedade”, sociedade esta que fica excluída do processo, tendo apenas o direito de pagar a conta sem reclamar.

– Para os procuradores, ter seu chefe indicado pelo presidente da república, eleito pelo povo, é “antidemocrático e autoritário”.

Enquanto isso, a revista on-line Crusoé e o site O Antagonista, certamente conhecidos por todos, acabam de noticiar terem sido censurados pelo STF. Receberam uma intimação, expedida por Alexandre de Moraes, determinando a exclusão sobre a reportagem que mostra Dias Toffoli fazendo parte das delações de Marcelo Odebrecht.

Estão aí vários elementos típicos de uma ditadura:

– O simples fato de censurar um órgão de imprensa já é um precedente grave.

– Como de hábito, há uma desculpa (bem esfarrapada): combater as “fake news“. Obviamente, constata-se que fake news é aquilo que o ministro disser que é.

– O ministro mostra que agiu a partir de uma solicitação do presidente do STF, que também é o objeto da reportagem. A lógica mais elementar sugeriria ao ministro Toffoli afastar-se do caso. Ao contrário, ele não se acanha em colocar o Supremo atuando em causa própria.

– O texto do ministro Moraes, quatro páginas do mais puro juridiquês, é ilegivel para a grande maioria dos brasileiros. É a reafirmação do antigo método de demonstrar ao povo que este está a serviço do estado, e não o contrário.

Se você que me lê acredita que o Brasil vive novos tempos sob o governo Bolsonaro, saiba que eu o invejo pelo otimismo. Para mim, pessimista incurável, estes “cem dias” já mostraram o rumo do novo governo: consertar algumas das pequenas bobagens que existem aos milhares em nossas leis e em nossa burocracia. Estas pequenas melhoras farão a alegria do povo e o convencerão que estamos no rumo certo. Enquanto isso, nossos podres poderes continuarão divertindo-se às nossas custas com seus elevados salários, suas escandalosas mordomias e seus intocáveis privilégios, entre eles o de estarem acima da lei quando praticam a mais escandalosa corrupção. Já está claro que Legislativo, Judiciário e Ministério Público seguirão em seus desmandos e o novo ocupante do Executivo fingirá, como seus antecessores, que tudo vai bem.

O povo brasileiro é como um escravo que agradece e beija os pés do senhor porque este anunciou, bondosamente, que vai aplicar apenas noventa chibatadas ao invés de cem.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

A SUCATEIRA E O ADVOGADO ESCROQUE

Dona Maria da Sucata é uma favelada íntegra. Tem orgulho de ser conhecida por todos por esse epíteto. Para sobreviver sai todos os dias com sua carroça humilde à procura de latinhas de cervejas vazias, refrigerantes, garrafas plásticas, copos descartáveis, papelões, peças de computadores, ferros velhos e outros objetos recicláveis. É uma recicladora do planeta.

Dona Maria da Sucata tem um neto incapaz que é viciado em craque. Por ser inábil em conter sua vontade, não pode ver nada fácil que furta para sustentar o vício da droga. O medo dela: que ele seja executado por débito com os traficantes que não perdoam.

Recentemente foi preso numa boca de fumo, e desceu diretamente para o “Muro das Lamentações” do município de Abreu e Lima. Não houve audiência de custodia porque Dona Maria da Sucata não pôde pagar um advogado, e na hora não havia defensor público para acompanhá-lo.

O Defensor Público plantonista estava ocupado com afazeres pessoais!

Busca aqui, busca dacolá, ela encontrou um advogado para acompanhar o neto, mas de cara ele cobrou mil paus. Ela pagou. Ele não deu recibo do dinheiro recebido e prometeu soltar o neto de Dona Maria da Sucata em menos de vinte quatro horas se ela conseguisse mais mil.

Depois do acerto com o advogado, Dona Maria da Sucata trabalhou dia e noite, quase desmaiando de fome para conseguir o dinheiro. Conseguiu juntar sucatas que valiam mais de dois mil paus, mas o dono do depósito a ludibriou, burlou-a na pesagem e só pagou a metade do valor. Mas, mesmo assim ela aceitou e agradeceu, pois estava precisando do dinheiro para entregar ao advogado que prometera soltar o neto.

Dinheiro na mão, neto liberto! – disse sarcástico o advogado escroque!

Do depósito de sucata com o dinheiro dentro do“porta seio”, ela foi direto para o advogado e entregou a outra metade combinada, sem receber comprovante. De posse do dinheiro o advogado disse a ela que esperasse em casa, preparasse uma feijoada para comemorar a liberdade do neto no outro dia. Não pediu procuração do custodiado, nem cópia do CPF, RG, CTPS, nem endereço residencial, nem rol de testemunhas para preparar a defesa do indiciado. Nada!…Nada! Só quis saber do dinheiro!

Passadas duas semanas do prometido, e depois de várias idas ao “Muro das Lamentações” para visitar o neto, Dona Maria da Sucata descobriu que o advogado a tinha enganado. Sequer visitou o neto. Quem compareceu ao ato processual designado foi um defensor público nomeado pelo juiz que, a contragosto, não abriu o bico na audiência.

Temendo pela vida do neto nas duas visitas feitas ao Inferno de Dante, ela procurou outro advogado que prometeu soltar o neto em vinte quatro horas. De cara para trabalhar no caso e entrar com o pedido de relaxamento de prisão lhe cobrou três mil paus de entrada e os outros três mil divididos em duas parcelas de mil e quinhentos.

Desconfiada com a proposta do “advogado” ela procurou uma vizinha que tinha sido vitima das mesmas artimanhas do jurisconsulto escroque, inclusive, forçada por ele, teve de vender uma casa que alugava para complementar a renda familiar, e o jurisperito não soltou o filho conforme havia prometido. O causídico lhe furtou tudo. Não passou recibo e o viciado continua preso à espera de um habeas corpus de Gilmar Mendes.

Desesperada e vendo a hora o neto morrer envolvido com gangues lá dentro do Inferno de Dantes ela recorreu a uma pessoa de bom coração, lide comunitária, que conhecia um advogado muito solícito que trabalhava para uma ONG da qual ela fazia parte como voluntária!

Sem cobrar nada de Dona Maria da Sucata, o advogado, já aposentado, comovido com o sofrimento dela e percebendo a angústia, o desespero de o neto ser morto lá dentro, juntou provas da incapacidade transitória dele, participou da primeira audiência, juntou as provas da incapacidade do neto da sucateira e requereu ao juiz exame de insanidade mental do preso que foi provado por uma junta médica nomeada pelo magistrado como incapaz, e o juiz o soltou por insuficiência de provas da materialidade do delito e por incapacidade mental do prisioneiro.

Após o neto solto e já em casa, Dona Maria da Sucata recebeu a visita de uma vizinha com o mesmo problema com o filho, informando que tinha sido procurada pelo advogado que a enganou, cobrando-lhe o mesmo valor para soltar o filho em vinte quatro horas como o havia feito com o da “velha da carroça”. E a vizinha queria saber da lisura do tal advogado à colega para confiar a tentativa de soltura do filho a ele.

Ao que Dona Maria da Sucata, curta e grossa, a alertou e aconselhou-a:

– Minha filha, aquilo é um ladrão descarado! Me roubou dois mil reais e não fez nada pelo meu neto. Eu não sei como a OAB mantém nos seus quadros um cabra safado desses enganando o povo desesperado! Se fosse por ele eu teria enterrado meu neto há muito tempo. Foi graça a solidariedade de um advogado de uma ONG que meu neto está comigo. Tome o telefone onde ele presta serviços voluntários e ligue, ou senão procure Fulana, líder comunitária, que ela lhe leva até ele.

Antes de se despedir de Dona Maria da Sucata e agradecer-lhe a orientação, o celular da vizinha toca. Ela atende. Era o advogado querendo saber se ela já estava com o dinheiro na mão para ele ir pegar e preparar a defesa do filho…

ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

A RELIGIÃO NOS VERSOS DE GERALDO AMÂNCIO

Voltando o Cristo querido,
O profeta mais profundo,
Ele vai para a montanha
Fazer o sermão segundo,
Na oficina da vida
Vai ver se conserta do mundo.

Num pantanal de terror
A juventude se joga,
Só escapa se usar
Conversão em vez de droga.
Sem o socorro de Deus
Num mar de lama se afoga.

Ou o mundo dialoga
Com Jesus de Nazaré,
Ou marcha para um abismo
Sem ver o fim onde é.
Cantando o hino do medo
Na procissão dos sem fé.

Por Deus esse mundo é
Feito, pensado e regido.
O edifício do bem
Só pode ser construído,
Quando o código do bem
Por nós for obedecido.

Serão novas Canaãs
Com painéis de nova cor.
Em vez de presídios, templos,
Em vez do ódio o amor.
A construção do caminho
Da volta do Salvador.

Geraldo Amâncio Pereira é poeta, repentista, trovador, cordelista e contador de causos. Nascido no sítio Malhada da Areia, município do Cedro, Ceará, em 29 de abril de 1946. Cursou faculdade de História em Fortaleza. Começou com acompanhamento de viola em 1966. Participou de centenas de festivais em todo o país, e classificou-se mais de 150 vezes em primeiro lugar. Organizou festivais internacionais de repentistas e trovadores, além do festival Patativa do Assaré. É autor das três antologias sobre cantoria em parceria com o poeta Vanderley Pereira. Gravou 15 CDs ao longo da carreira, além de ter publicado cordéis em livros. Apresentou o programa dominical “Ao Som da Viola”, na TV Diário em Fortaleza.

A PALAVRA DO EDITOR

CORTE CAPILAR BUCETÍFERO

Meu querido amigo-irmão Rubão, conterrâneo de Palmares, me mandou ontem uma foto pelo zap.

Uma foto de Zeca Cu-de-Apito, conhecido feirante e figura muita estimada lá na nossa terrinha de nascença.

Ele trabalha vendendo macaxeira e inhame.

Segundo Rubão, Cu-de-Apito cortou o cabelo na barbearia de outro amigo comum, o Primo.

Nome do corte: Racha de Priquito.

Um corte especial pra quem não tira buceta da cabeça e nela pensa o tempo todo.

Vai aqui como sugestão para as barbearias do Brasil inteiro.

A ideia de Cu-de-Apito é derrotar o jogador Neymar, que vive lançando modas capilares.

Vejam que lindo:

XICO COM X, BIZERRA COM I

DESENCONTRO DE SOLIDÕES

Na encruzilhada de uma cidade grande todos os vícios que as grandes cidades têm marcam encontro no mesmo horário: stress, engarrafamento e uma neblina chata e incessante às 6 da tarde, sol já escondido. Na rua estreita, cruzamento com uma outra rua qualquer, destinos embaçados imiscuem-se num sinal vermelho. Entre os dois carros, lado a lado, além dos pingos da chuva miúda sentimentos parecidos, solidões semelhantes. Não fosse o verde do sinal, ali ficariam naquela esquina debulhando sonhos e vontades iguais, um a pastorear o outro e sendo pastoreado numa reciprocidade necessária, repleta de cumplicidade. As buzinas não permitem que o arrepio evolua para um carinho ou um mero aceno, um alô, uma troca de números, quem sabe? Obedientes à lei e sem ter como competir com a impaciência dos outros motoristas que faziam fila na rua estreita, fizeram a curva para lados opostos, os dois carros, as duas vidas, as duas solidões.

Toda a série FORROBOXOTE, Livros e Discos, disponível para compra no site Forroboxote. Entregas para todo o Brasil.

A PALAVRA DO EDITOR

A PALAVRA DO EDITOR

O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

Pesquisando o que escreveu o historiador de filmes épicos, Paulo Telles, chegamos ao ano de 1964, e no deparamos com o diretor italiano Paolo Pasolini, MARXISTA e ATEU, quando lança O Evangelho Segundo São Mateus, a versão mais polêmica (ao lado de A Última Tentação de Cristo, de 1988, de Martin Scorsese) da vida de Cristo. Sem a aura de santidade expressa em Rei dos Reis (1961) de Nicholas Ray, A Maior História de Todos os Tempos (1965) de George Stevens, e Jesus de Nazaré (1977) de Franco Zeffirelli. Neste filme o CRISTO é um Messias bárbaro, um agitador das massas que usa seus sermões em defesa dos oprimidos, com o intuito de transformar um mundo socialmente injusto.

O leitor poderá perguntar por que um ATEU se interessar em filmar a vida de Jesus Cristo. Muito simples: a figura de Cristo exercia nele uma fascinação não religiosa, mas poética e política. E em Cristo ele admirava sua poesia, força, e carisma. Apenas não aceitava Jesus conforme a Igreja Católica e a teologia, mas acreditava que a mensagem de Jesus conforme o Evangelho de Mateus era revolucionária, ao passo que, para o cineasta italiano, Cristo era uma personalidade corajosa, rebelde, e revolucionária tal qual sua mensagem. Era o Cristo que ia salvar o povo não das penas do inferno, mas da própria ignorância do ser humano.

A película épica que tem a duração de mais de duas horas segue de maneira fiel os textos de Mateus sobre todas as etapas da vida de Cristo, de seu nascimento à ressurreição. O Cristo pasoliniano( referência feita ao cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini), no entanto, é revolucionário, mais HUMANO que DIVINO, com muitos traços de doçura e que reage com raiva à hipocrisia e à falsidade dos homens. A obra prima de Pasolini, consegue, com recursos limitados realizar um filme belo, cativante e intenso. Uma forma poética em alguns aspectos de se contar a história de Cristo, já conhecida por muitos. É um filme simples, belo e poético e político também!!!

A Igreja e os fiéis censuraram o diretor italiano Pasolini pela falta de doçura do intérprete de Jesus, no entanto era um Cristo destinado a ser um nativo rebelde à prepotência colonialista profeta apocalíptico da riqueza ilícita, de açoite em punho fazendo a reforma agrária para perplexidade e horror dos falsos pregadores e beatos apegados à propriedade privada. Pasolini põe as melhores parábolas e ensinamentos na boca de seu intérprete principal, ora doce, ora feroz, tudo emoldurado por uma fotografia linda e trilha sonora espetacular, trilha esta que, além do erudita, traz até um emocionante blues de raiz, para quem prestar bastante atenção.

O Evangelho Segundo São Mateus traz uma figura que repassa seus ensinamentos, mas ao mesmo tempo é reacionário, gritando por muitas vezes, humano, chorando em outros momentos, assustador, sussurrando acontecimentos futuros. Todos já conhecem a história bíblica e Pasolini é extremamente sagaz ao se aproveitar disso para contar uma história sutil, sem muitos diálogos em seu início mas de uma profundidade enternecedora. No filme, Jesus não é apenas um barbudinho bonitinho de olhos azuis, com cara de coitado e fala mansa. De fato, Cristo foi muito mais do que isso. As Suas palavras eram afiadas como espadas, provocavam as paixões humanas, e mudaram o mundo para sempre. E a fita capta essa essência, sem sentimentalismo barato, sem enfeites ou rodeios.

É curioso que, recentemente, há cerca de pouco mais de 10 anos, o Vaticano tenha elegido o filme como o melhor sobre a vida de Jesus quando que na época do seu lançamento não foi bem visto por eles. Como já disseram é realmente espantoso que o melhor filme sobre Jesus (por muitas pessoas e até mesmo o Vaticano) tenha sido feito justamente por Pasolini(UM ATEU CONVICTO!!!). Há quem diga que o filme perde alguns pontos pelo elenco amador, pois é justamente o contrário, vê-se que esse é o ponto mais bonito do filme e que torna ele mais especial e comovente, é o povo representando o povo, é ter um Jesus com algumas características diferente do que temos em mente e acho que com elenco profissional não teria a mesma força.

Como não poderia deixar de ser, houve protestos violentos contra o filme, e a EXTREMA DIREITA jogou ovos podres no Palácio do Festival de Veneza durante seu lançamento, que, paradoxalmente, acabou ganhando o prêmio do Escritório Católico Internacional de Cinema, e cuja obra foi dedicada à memória de João XXIII, por Pasolini considerá-lo o papa mais próximo das ideias progressistas do evangelista Mateus, que procurou mostrar Jesus Cristo para os judeus como o Messias esperado, o Messias das profecias, enfim, o Messias do povo.

Há quase um quarto de século, mais precisamente no ano de 1995, quando o cinema completou 100 anos de existência, esta obra de Pasolini foi inclusa entre os 100 melhores filmes de acordo com o Vaticano, que elaborou uma intensa lista, na categoria de Religião, ao lado de obras como A Vida e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (1905) de Ferdinand Zecca, Nazarín que é um filme de drama mexicano de 1959 de Luis Buñuel, e Ben-Hur (1959) de William Wyler.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

CEM DIAS DE SOVA

Muito se disse e se escreveu sobre os cem dias do governo Bolsonaro, mas uma particularidade ficou esquecida: as sovas que as oposições aplicaram ao lombo no governo, evidentemente aos moldes da severidade dos seus rijos costumes e com a prontidão e perícia que lhes são habituais nesse gênero de ofício. Seu lema é fazer crer que estão sempre certas e o governo sempre errado. Supletivamente, no papel de verdugo, vem alguns setores da imprensa. Basta abrir uma revista, um jornal, um canal de televisão ou de rádio, para deparar um temporal de pancada sobre o dorso do governo. Chamam atenção os comentários de alguns integrantes da imprensa. De açoite em punho, nutrem particular estima em maldizer o governo, menoscabá-lo. Será que nesses cem dias de governo não sucedeu uma única virtude, uma única distinção que possa ser louvada?

A crítica é fortuna mais rica que o aplauso. Aquela aperfeiçoa, este ilude. “Antes salvar-se pela critiquice a arruinar-se pelo aplauso”. Porém, criticar pelo vezo de falar mal não exprime gesto digno de apreço. Demais, as aferições, desde os primórdios, somente ocorrem após a execução de uma tarefa. É assim com o estágio probatório no Serviço Público, com o contrato de experiência nas empresas, com o rendimento do alunato nas escolas, e por aí além. Apesar disso, querem por que querem que em cem dias já estejam regeneradas todas as pisaduras e escoriações impressas no lombo do Brasil pelos albardões de governos anteriores. E não é só. Há exasperada irritação derivante de o chefe do executivo ser pessoa que discrepa do gabarito, do protótipo. Sua figura, sua conduta, contraria o padrão que está no imaginário; “queres incomodar ponhas-te diferente”. Por mais que se tente nunca será possível modificar a personalidade de uma pessoa de modo a fazer com que ela se ajuste ao que se pensa que ela deveria ser. As pessoas dessemelham, os costumes modificam.

Apesar da pancadaria ruidosa, algumas vezes raivosa, que não falte ao Brasil a crítica de boa semente: que brota do zelo por um Brasil melhor, que tem o propósito visível de corrigir rumos, que torce para o navio não submergir às profundezas. Felizmente, há na imprensa personagens imbuídas desse sentimento contributivo. Claudio Humberto, rádio Band News, DF, com sua crítica castiça e bem articulada, bate, mas de maneira pedagógica. Suas críticas, por vezes duras, denotam profundo sentimento de fraternidade ao Brasil; as faz sempre pugnando pelos brasileiros: “cidadão brasileiro, contribuinte brasileiro, sociedade brasileira, povo brasileiro, eleitor brasileiro, trabalhador brasileiro”.

As sovas dos cem dias são indícios do que está por vir no restante do mandato: uma saraivada estalante de tundas. Essas práticas iminentes ancoram a sugestão para que o governo busque amparo nas guarnições de couro como forma de prevenir os efeitos dos açoites que tem as costas como destinatárias.

PENINHA - DICA MUSICAL