JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Mazzaropi

Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo, em 9/4/1912. Ator, cineasta e o empresário mais bem sucedido do cinema brasileiro. Durante três décadas foi considerado o maior cômico do cinema nacional no papel de Jeca Tatu. Vale ressaltar a transformação que ele realizou no personagem criado por Monteiro Lobato em sua obra-prima Urupês (1918). Trata-se de um caipira, ignorante e preguiçoso, cuja história foi parar nas páginas do “Almanaque Biotônico Fontoura”, em 1924. É uma peça publicitária que recomenda a ingestão do milagroso remédio para não se tornar um “Jeca Tatu”.

No conto de Lobato, o personagem é um ser desprezível, dependente e sem qualquer qualidade, que o autor chega a compará-lo a um cogumelo que nasce em paus podres. Desse modo, Lobato criou sem querer um preconceito em relação ao caipira, que perdurou por muito tempo. A transposição da história para o Almanaque consolidou o preconceito de forma definitiva, abrangendo todo o País. O livrinho era distribuído em farmácias e atingiu uma tiragem de 120 mil exemplares. Em alguns lugares mais remotos era a única opção de leitura e muita gente aprendeu a ler com esta publicação. Aos poucos o caipira foi assimilado como fraco, burro, preguiçoso e até antissocial. Certamente, não era essa a intenção do autor. Sua finalidade, com essa criação, foi tirar o caboclo da situação de penúria em que se encontrava; uma crítica à política governamental de abandono dirigida ao homem do campo.

Devido a popularidade do personagem em meados do século passado, Mazzaropi decidiu incorporá-lo e conseguiu a proeza de dar um novo significado ao personagem, moldando um novo caipira. Ao mesmo tempo em que satiriza sua situação, apresenta-o como um cara matreiro, sabido, dono de si e que acabava por enrolar e vencer seus detratores. Dos 33 filmes que produziu e atuou, sete têm Jeca Tatu no título. O personagem ficou grudado no ator. As relações entre o Jeca Tatu de Lobato e o de Mazzaropi já renderam algumas dissertações e teses acadêmicas. Não por acaso, tais relações incluem a mesma cidade –Taubaté– onde Lobato viveu e Mazzaropi foi morar aos dois anos e lá construiu seu império cinematográfico, a PAM Filmes. Dizem que apenas com os habitantes de Taubaté, seus filmes já pagavam os custos de produção. O que vinha do resto do País era lucro.

Filho de um imigrante italiano –Bernardo Mazzaropi- e uma portuguesa –Clara Ferreira-, a família mudou-se para Taubaté em 1914. Amácio passava longas temporadas na casa do avô materno, em Tremembé. O velho era um português tocador de viola, dançarino e animador de festas, às quais levava os netos. Aí tomou contato com a vida cultural do caipira, que incorporou mais tarde no cinema. Em 1919 retornam à capital e ele foi estudar no Colégio Amadeu Amaral, no bairro do Belém. Na escola era bom aluno, decorava e declamava poesias, e animava as festas escolares. Em 1922, com a morte do avô, voltam de novo à Taubaté. Seu pai abriu um pequeno bar e ele passou a frequentar assiduamente o circo. Os pais, tentando afastá-lo desse ambiente, mandaram-no para Curitiba para morar com um tio, onde foi trabalhar numa loja de tecidos. Aos 14 anos retornou à São Paulo e, pouco depois, ingressou na caravana do Circo La Paz. Entre uma atração e outra, ele conta causos e anedotas a troco de uma gratificação.

Em 1929, voltam a morar em Taubaté e ele passa a trabalhar como tecelão. Mas não abandona os palcos e atua nas escolas do bairro em fins de semana. Junto com a Revolução constitucionalista, de 1932, dá-se uma agitação cultural na cidade e ele estreia sua primeira peça de teatro: A herança do Padre João. Ele convence os pais a atuarem como atores e a “Troupe Mazzaropi” percorre diversas cidades do interior até 1944. Mas o ganho é pouco para manter a “companhia”. Com a morte da avó materna, recebeu uma herança e montou um barracão na capital, onde passou a exibir peças bem elogiadas pelos jornais paulistanos. No entanto, a saúde do pai complicou a situação financeira da companhia de teatro, encerrada após sua morte em 1944. Pouco depois estreou no Teatro Oberdan como ator e diretor da peça “Filho de sapateiro, sapateiro deve ser”, bem acolhida pelo público.

Em 1946, foi convidado para estrear um programa ao vivo –“Rancho Alegre”- no auditório da Rádio Tupi, dirigido por Cassiano Gabus Mendes. Em 1950 o mesmo programa inaugura a TV Tupi, tendo como coadjuvantes atores como João Restiffe e Geny Prado. Convidado por Abilio Pereira de Almeida e Franco Zampari, estreou seu primeiro filme em 1952: “Sai da frente”, produzido pela Companhia Vera Cruz, onde atuou em outros filmes sempre contando com grande sucesso de bilheteria: “Nadando em dinheiro”, “A carrocinha”, “Chico fumaça” “Chofer de praça” etc. A partir deste último filme, além de ser o protagonista, acumulou as funções de produtor, roteirista e colaborando sempre com os diretores. 1959 foi o ano da virada em sua carreira com dois fatos importantes: 1º) foi convidado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o “Boni” da TV Excelsior e depois da TV Globo, para fazer um programa que ficou no ar até 1962. 2º) começou a produzir o filme que rendeu uma das maiores bilheterias do cinema nacional: “Jeca Tatu”. Consta que o filme foi visto por um público de oito milhões.

Em 1961, com muito dinheiro, alavancou seu espírito empreendedor, comprou uma fazenda em Taubaté e construiu um estúdio cinematográfico, uma oficina de cenografia e um hotel para os atores e técnicos. Produziu seu primeiro filme em cores: “Tristeza do Jeca”, que foi também o primeiro filme exibido na TV, ganhando os prêmios de melhor ator coadjuvante (Genésio Arruda) e melhor canção (Angelino de Oliveira). Em seguida lançou mais alguns recordes de bilheteria como “O corintiano” , “O puritano da rua Augusta”, “Uma pistola para Djeca” entre outros. Todos seus filmes eram lançados em 25 de janeiro, data da fundação da cidade de São Paulo. Foi capaz de enfileirar um blockbuster atrás do outro na sua cinematografia. Seus filmes, tal como nas chanchadas, divulgava a música brasileira, muitas vezes interpretadas por ele mesmo. Não era visto como cantor, mas não cantava mal. Tanto é que quase todas suas interpretações foram reunidas e gravadas em dois LP’s: “Os grandes sucessos de Mazzaropi”, vol. 1 e 2.

Seu último filme – “Maria tomba homem” (1982) – não chegou a ser concluído por ele. Foi vitimado por um câncer na medula óssea em 13/6/1981. Deixou como legado o Museu Mazzaropi (Taubaté, SP), com mais de 20 mil itens contando a história do cinema brasileiro. Toda sua fortuna, que não era pouca, foi distribuída entre seus funcionários e os cinco filhos adotivos. Em 1990 foi inaugurada a Oficina Cultural Amácio Mazzaropi, enorme prédio localizado no Bom Retiro (SP), mantido pela Secretaria da Cultura, com uma grande variedade cursos e atividades. Em 2006 foi homenageado em grande estilo com “Tapete Vermelho”, um filme dirigido por Luiz Alberto Pereira, com Matheus Nachtergaele no papel de “Quinziho”, uma cópia fiel do próprio Mazzaropi, que fez uma promessa de levar o filho até a cidade para ver um filme antigo do comediante. Uma ótima biografia do comediante foi escrita em 2010 por Marcela Matos, lançada pela editora Desiderata: “Sai da frente!: a vida e a obra de Mazzaropi”. Em 2013 foi lançado o documentário “Mazzaropi”, dirigido por Celso Sabadin, um relato de sua vida e carreira, contando com depoimentos de grandes nomes do cinema e da TV.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

LUIZ PEIXOTO – FORTALEZA-CE

Prezado e desassombrado editor dessa vibrante gazeta,

será possível colocar esse depoimento do ex-presidente (ora preso a outros compromissos) a respeito do REGIME MILITAR??

Perceba que em NENHUM momento ele diz que foi ditadura…

Grato pela atenção,

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A MÃO ENVELHECIDA E MACHUCADA

Mãos envelhecidas postas em oração

Não sei que horas eram, mas sei que era noite. Um estado febril desconhecido me nocauteou, após uma tarde inteira de brincadeiras no quintal da casa.

Como que saindo de uma penumbra, tive lucidez para perceber por detrás daquela fumaça que saía da xícara de chá, uma mão envelhecida que dirigia a xícara para a minha boca, enquanto a outra forçava meus ombros para facilitar a ingestão do milagroso chá de erva cidreira e uma pílula.

Chá bebido, aquelas mesmas mãos envelhecidas me acomodaram sobre o travesseiro macio e cheiroso, ao mesmo tempo que puxava o lençol para me cobrir por inteiro, e me dar mais conforto.

A porta da camarinha ficou entreaberta, o que me permitia, antes de fechar os olhos, ver a movimentação na cozinha.

Aquelas mesmas mãos envelhecidas cuidavam de pôr em ordem as tralhas usadas no dia a dia da cozinha. Em seguida, as mãos envelhecidas limpavam uma mesa, e sobre ela, estendiam uma toalha, depois mais outra e finalmente um lençol branco. Em seguida, aquelas mesmas mãos punham carvão num ferro de engomar, aproveitando para abanar com o abanador de palha, e garantir o ponto de passar do ferro.

Devo ter adormecido e não vi o que aconteceu depois. Mas, como o estado febril não me deixava dormir, acordei no meio da noite, e vi, ao lado do meu catre, uma cadeira de balanço com alguém sentado. Não vi quem era. Mas vi que, as mesmas mãos envelhecidas dos atos anteriores coziam em remendos umas roupas velhas de trabalho do meu pai.

O dia seguinte já estava claro, quando acordei e vi aquela mesma mão envelhecida, sobre a minha face, e em seguida na garganta, verificando se a febre continuava. Pude perceber que a mão cheirava a pó de café, e, além de envelhecida, tinha também muitas estrias de bondade.

Mãos envelhecidas que falavam sem soltar um único som. Que diziam tudo, ao mesmo tempo que não diziam nada – apena faziam. E, vi que, em muitas ocasiões, postas, serviam também para orar, conversando com Deus, como fazem todas essas mãos envelhecidas, calejadas e nobres.

Eram as envelhecidas mãos da minha mãe.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MARTHA MARIA MAGALHÃES – UBERLÂNDIA-MG

Caro Editor,

Faço um pedido especial ao nobre editor:

Seria possível publicar este vídeo na nossa querida gazeta?

Um depoimento certeiro do jornalista Paulo Martins.

Muito obrigado

E Viva o Brasil!!!!

CARLOS IVAN - ENQUANTO ISSO

NOTAS

As crises institucionais chegaram pra ficar, tomar assento, se estabelecer no comando do país, para tumultuar o ambiente, já distorcido. É confusão partindo em todas as direções. O Poder Judiciário detona acusações até nos componentes da própria Justiça. O Legislativo, em vez de fiscalizar o Executivo, detona desaforos, alfineta indiretas, sem agir conforme as normas. O Executivo, em vez de se preocupar somente com os destinos do país, atualmente à deriva, não se toca, espeta. Os desentendimentos aporrinham a população. Deixam à mostra a vaidade, o egoísmo, o poder irritante. Ofusca a reflexão e o bom senso. Os brigantes parecem desconhecer os preceitos da Constituição de 1988, considerada a mais democrática de todas. As divergências, generalizados, derrubam a ordem, desorganizam a vida pública, abatem a economia, desmoralizam a paz social. Engrossam as desconfianças porque deixam o país combalido. Consagram incertezas. Forçam a sociedade a desconfiar do conceito nos poderes constituídos que deviam apenas prezar as boas ideias a fim de gerar emprego e renda, constantemente. Causar boa impressão até no exterior. Não, apenas, individualmente. Como acontece, atualmente. Cada um botando o podre na mídia. As grosseiras discussões desviam o foco de denúncias da Lava Jato, talvez com o propósito de enfraquecer o combate à corrupção. Deturpação que permanece fortalecida no país.

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A China enfrenta sério dilema. Por causa do severo programa de controle de natalidade, iniciado em 1980, dando preferência à geração do filho único, do sexo masculino, um rapaz por família, a quantidade de mulheres ficou exageradamente menor. A população masculina cresceu excessivamente. A consequência de sobrar homens e faltar mulheres, resulta num incrível drama social. De acordo com as projeções, caso a população de homens cresça nesse ritmo, os especialistas estimam que em 2020 haverá treze milhões de homens a mais do que mulheres. A estatística torna a China um dos países mais desequilibrados do mundo. Força a mulher, para não sobrar e nem ficar solteira, antes dos 27 anos, dar preferência ao casamento e a maternidade para escapar do título de “sheng nu”, mulher que sobrou. Visando reparar o erro do passado, o Partido Comunista Chinês incentiva a mulher a procurar casamento o quanto antes. No entanto, tem muita mulher que não pensa em casamento, por enquanto. Em vez do matrimônio, a mulher tá preferindo evoluir na educação. Obter formação universitária, gozar de excelente vida de solteira, ser feliz sem a companhia de homem para fugir do padrão chinês, em vigor por várias décadas. Seguindo o preceito extremamente patriarcal.

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Em 1939, o sociólogo americano Edwin Sutherland afirmou, quando uma alta personalidade política, pessoas influentes e de elevado status social, cometem infrações financeiras, lesam a ordem econômica ou tributária de um país no exercício do cargo, prticam infração. Apelidada de colarinho branco. Os crimes mais comuns de colarinho branco são fraudes, suborno, uso de informações privilegiadas, venda de influências, peculato e lavagem de dinheiro. Apesar da ilegalidade, tem ministro do STF, Dias Toffoli, defendendo a troca de punição. Em vez de cadeia, cumprimento de penas alternativas ao praticante do crime de colarinho branco uma vez que não houve violência no ato da ilegalidade. Atinge apenas a moral e os bons costumes na alta esfera. Porém, o impacto causado por esse tipo de crime afeta diretamente o cidadão. Priva o doente de receber medicamentos normalmente, prejudica a assistência médico-hospitalar, impede governos de construir escolas, fazer saneamento básico, cuidar da mobilidade urbana. As violações afetam, inclusive a circulação de riquezas no país. Prejudicam, enfim, a vida da sociedade. Defender a liberdade para os praticantes de crime colarinho branco, apesar de legal, é imoral. Afinal, soltar empresários, gente da alta sociedade, caciques políticos de carrada é um estímulo à corrupção. Agressão à honestidade.

*
O professor exerce a nobre missão de transmitir conhecimentos à juventude para enfrentar o futuro. Prepara a mente da garotada, via aprendizagem, para cair em campo consciente de ter condições para enfrentar a forte concorrência no mercado de trabalho. O mestre complementa o ensino da personalidade, numa mútua divisão de responsabilidades com o Estado e a família. Para ser professor, o profissional se qualifica. Estuda, pesquisa, se dedica integralmente ao projeto com o fim de obter base para ensinar, profissionalmente. Pelos parâmetros atuais, não está fácil despertar o interesse do estudante nos estudos. Atrair a concentração no processo de aprendizagem. Isso, exige respeito, compreensão e paciência para juntos, mestre e aluno, estabelecerem um padrão de relacionamento sadio, visando os objetivos da educação. Todavia, as agressões em sala de aula, praticadas contra os docentes, colocam o país no topo da violência na escola. Em vez do ensino e da aprendizagem, as escolas do ensino fundamental e médio, reservadas para alunos de 11 a 16 anos, têm se transformado em palco de agressões verbais, físicas, bullyng e vandalismo. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico-OCDE condena a impunidade dos estudantes agressores. Situação bem diferente da Coreia do Sul, Malásia e Romênia onde as agressões aos professores se mantem no nível zero de violência. Para satisfação geral.

PENINHA - DICA MUSICAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

FERNANDO TAVEIRA – ARARAQUARA-SP

Saudações meu nobre editor!

Uma pergunta para os leitores desta página:

Se no Brasil houvesse uma legenda denominada Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores, seria de esquerda ou direita?

E eu respondo:

Esquerda, certamente.

Pois era esse o nome do partido nazista de Adolf Hitler.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS – Alphonsus de Guimaraens

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria… ”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — “Por que não vieram juntos?”

Colaboração de Pedro Malta

A PALAVRA DO EDITOR

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

FESTA DE SANTO AMARO DA PARIPUEIRA

Praia de Paripueira

Pablo Victor Gagliano nasceu em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, criança bonita de chamar atenção, um bebê rosado, lourinho de olhos verdes. Na juventude era cortejado pelo mulherio, as moças e coroas se apaixonavam ao conversar com aquele rapaz elegante, gentil e bonito.

Ao formar-se em engenharia química foi convidado para trabalhar numa indústria instalada em Maceió. Ele apaixonou-se pela cidade, nunca havia imaginado uma cor do mar tão bela, as praias, um paraíso cheio de coqueirais, ficou morando na bela terra do poeta Lêdo Ivo, de quem era fã e já havia lido seus livros. As jovens da cidade caíram em cima de Pablo. Além de bonito e educado, ele tinha um comportamento exemplar. Não era chegado às noitadas, nem às farras com garotas de programa comuns ao pessoal da terra. Era o genro que toda mãe deseja. Sua vida de solteiro não durou muito, apareceu Regina, uma bela morena de cabelos cacheados, lábios grossos e de uma simpatia contagiante. Ele rendeu-se aos encantos da moça e casou-se em numa festa de arromba, como quis Dona Mercedes, sua sogra.

Pablo em pouco tempo fez um pé de meia e construiu sua casa de praia na belíssima Paripueira, sua paixão. Uma casa grande onde nas férias levava seus dois filhos, passava todo o verão, não perdia a alegre e tradicional Festa de Santo Amaro, início de janeiro, com muita música, bebida, folguedos e quermesse da Igreja.

Quando os filhos se tornaram adolescentes preferiam ficar em Maceió. Era um desgosto para Pablo. Por conta disso ele transformou sua enorme casa numa pousada. Há alguns anos ele a administra em fim de semana. Às vezes Regina prefere ficar em Maceió, entretanto, ele sempre vai fiscalizar os serviços na pousada por Dona Cícera, a arrumadeira, e pelo jovem Gerson, administrador, porteiro, faz tudo da Pousada Cruz Alta.

Regina sempre foi ciumenta, mesmo sem Pablo dar motivos. As mulheres olham com admiração e excitação para seu lindo marido, às vezes se insinuando, afinal o cara é um tipão de coroa, porém, o comportamento dele é exemplar.

Pablo, de repente, ficou relaxado com os deveres conjugais junto à esposa. Só faziam amor quando Regina insistia, o que a deixou encucada. Até que, certo dia ela leu numa revista que o primeiro sintoma de um homem que está traindo é a frieza sexual com a esposa.

Regina procurou Audálio, detetive especializado, no Edifício Breda. Depois de um mês de investigação seguindo o suspeito, ele nada encontrou. Mostrou fotografias do marido no trabalho, nas ruas, na pousada, tomando banho de mar, sempre desacompanhado. Durante as noites que ela não o acompanhava, ele dormia sozinho em Paripueira. O experiente Audálio concluiu que o marido estava passando apenas por uma fase sem entusiasmo, embolsou o dinheiro combinado e entregou-lhe as fotos. Regina não ficou contente com as investigações. Ela sentia no corpo e no comportamento a mudança do marido.

No início de janeiro, Regina inventou que não podia acompanhar o marido à Festa de Santo Amaro em Paripueira, pediu desculpas por não ir. Ele disse que não havia problema e partiu feliz da vida para seu paraíso.

Ela percebeu essa alegria no ar. Deixou o maridão viajar. Ao anoitecer, sem avisar, partiu célere em busca de um flagrante do marido com alguma sirigaita. Eram sete da noite quando Regina entrou na pousada perguntando pelo esposo. Dona Cícera e o administrador, o jovem Gerson, disseram que estava no quarto assistindo televisão. Regina bateu à porta com força, Pablo custou a atender. Assim que abriu, a esposa entrou de repente perguntando quem estava com ele, queria conhecer a puta de seu marido. Pablo ficou assustado. Regina procurou no banheiro, armário, guarda-roupa, quando percebeu que ele estava sozinho, começou a chorar. Só parou quando foi consolada pelo paciente marido. Dormiram na pousada, Pablo nessa noite empenhou-se em suas obrigações conjugais.

No dia seguinte, Regina depois do almoço retornou à Maceió. Pegou suas coisas e partiu. Quando dirigia pela estrada, no meio do caminho, lembrou que havia deixado os óculos escuros que havia comprado na Alemanha. Retornou imediatamente. A porta do quarto não estava na chave, ao abrir, surpreendeu-lhe a cena chocante. Seu belíssimo marido estava abraçando o administrador Gerson, alisando seus cabelos, beijando seu rosto. Regina avançou que nem uma leoa deu uma tapa no marido, saiu correndo, tomou o carro retornando para sua casa.

Regina hoje, um ano depois, mudou seu modo de vida, não se sabe se por vingança ou por prazer. Quem quiser encontrá-la todo fim de semana está nas baladas de Maceió, dançando, bebendo, namorando.