AS BRASILEIRAS (XV): Inezita Barroso

José Domingos Brito

Inezita Barroso (Mar/1925 – Mar/2015)

Ignêz Magdalena Aranha de Lima nasceu em São Paulo, em 4/3/1925. Cantora, atriz, folclorista, violeira, professora, bibliotecária e apresentadora de rádio e TV, é reconhecida como a mais antiga e mais importante expressão artística da música caipira do País. Descendente de uma tradicional família paulista e rodeada por várias influências musicais, desde cedo interessou-se pela música e aos oito anos já fazia apresentações em recitais de violão no Clube Germânia. Morava no bairro da Barra Funda, na Rua Lopes Chaves, ao lado da casa de Mario de Andrade, a quem admirava e ficava esperando ele passar todo dia enquanto brincava na calçada. Aprendeu a tocar violão aos sete anos e piano aos onze. Por esta época entrou em contato com as modas de viola durante as férias escolares em fazendas de parentes.

Na fazenda “eu fugia com meus primos para irmos ver os caipiras, os colonos tocarem. Inventava: vou com o Geraldo ver a vaca nova que chegou, dizem que é linda; vou lá e já volto. Já volto nada, eu ia para a roda de viola”, contou numa entrevista. Assim, durante sucessivas férias na fazenda, cresceu em contato com dois universos musicais bem diferenciados. Na cidade, fazia parte de grupos de criança tocando violão e cantando o repertório da época: Francisco Alves, Orlando Silva, tangos e valsas. Optou pelo caminho mais difícil, pois se naquela época violão era um instrumento masculino, imagine pontear uma viola caipira. Estudou na Escola Caetano de Campos e aos 10 anos tomou gosto pelos livros. Montou uma biblioteca na garagem, encadernava os exemplares, emprestava para os amigos, lia para os primos e mergulhou na obra de Monteiro Lobato.

Na mesma escola, concluiu o curso de Biblioteconomia em 1946 e passou a devorar as obras de Graciliano Ramos, Jorge Amado e do seu vizinho Mario de Andrade. No ano seguinte casou-se com Adolfo Barroso, advogado e irmão do ator Mauricio Barroso. Promoviam encontros e saraus no Centro Acadêmico XI de Agosto, onde Inezita se destacava cantando e tocando violão. Desde os tempos de namoro, ela convivia com essa turma de boêmios e artistas como Paulo Autran, Tônia Carrero e Paulo Vanzolini. Com o casamento ela incorporou não apenas o sobrenome Barroso, mas encarou a vida artística de forma profissional. Em seguida foi para o Nordeste e passou dois meses recolhendo músicas folclóricas. Foi no Recife que teve seu primeiro trabalho remunerado. Convidada pela Radio Clube, interpretou músicas colhidas por Mario de Andrade na década de 1930.

Em 1950 foi convidada por Evaldo Rui para estrear como cantora na Radio Bandeirantes, em São Paulo. Em seguida participou da transmissão inaugural da TV Tupi e atuou como cantora exclusiva da Radio Nacional e da Radio Record. No mesmo ano participou do filme “Ângela”, dirigido por Tom Payne e Abílio Pereira de Albuquerque. O primeiro disco veio em 1951, com as músicas “Funeral de um Rei Nagô”, de Hekel Tavares e Murilo Araújo e “Curupira”, de Waldemar Henrique. Em 1954 retornou à Radio Record para comandar o programa “Vamos falar de Brasil”, onde permaneceu até 1961. Em 1957 separou-se do marido e passou a viver mais livremente, dedicando-se também ao cinema. Trabalhou em oito filmes, chegando a receber o Prêmio Saci de melhor atriz, no filme “Mulher de verdade”, de Alberto Cavalcanti, em 1958. Mas seu talento principal estava mesmo na música, confirmado com o primeiro sucesso em 1953. Neste ano gravou “Marvada pinga”, de Ochelsis Laureano, e, no lado B, o samba “Ronda”, de Paulo Vanzolini, que só veio a fazer sucesso na década seguinte com outra cantora. O famoso samba paulista foi totalmente eclipsado pela engraçada moda de viola.

Depois de algumas premiações como cantora de rádio, veio o primeiro LP “Inezita Barroso” em 1955, lançado pela Copacabana, seguido de alguns sucessos, como “Viola quebrada”, de Mario de Andrade; “Mineiro tá me chamano”, de Zé do Norte, entre outras. Em 1956 gravou mais três LPs: “Coisas do meu Brasil”, “Canta Inezita” e “Lá vem o Brasil”, cujos títulos indica seu apego à música de raiz. No mesmo ano publicou o livro “Roteiro de um violão”, consolidando uma carreira de artista e pesquisadora. Outros sucessos, como “lampião de gás” e “Fiz a cama na varanda” vieram em 1958. Uma sucessão de LPs foram surgindo: “Eu me agarro na viola”, “Danças gaúchas”, “Canto da saudade” etc. Com a fama consolidada, recebeu um telefonema de Juscelino Kubitschek, em meados de 1959, convidando-a para animar o ambiente em Brasília. Bateu o telefone na cara do interlocutor achando que fosse trote. O presidente teve que ligar novamente. Em 1962 gravou o LP “Clássicos da música caipira”, vol. 1, e o vol. 2 em 1972. Três anos depois gravou o LP “Inezita de todos os tempos”, incluindo pontos de candomblé, músicas folclóricas do Mato Grosso, “Negrinho do pastoreio”, de Barbosa Lessa e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Pouco antes viajou pelos EUA, Rússia, Israel realizando cantorias e conferências sobre o folclore brasileiro. Em Portugal recebeu o título de Doutora Honoris Causa, da Universidade de Lisboa.

Gravou quase todas as músicas sertanejas e folclóricas mais conhecidas e lançou centenas de cantores e duplas regionais no programa da TV Cultura no período 1980-2015, “Viola minha viola” o melhor e mais longevo programa da TV brasileira. Neste período lecionou Folclore durante 14 anos na Universidade de Mogi das Cruzes e durante alguns anos, também, na Faculdade Capital de São Paulo. Em 1985, gravou um LP com músicas escolhidas pelos fãs: “Inezita Barroso: a incomparável”. A partir de 1990 passou a acumular mais um programa de rádio – “Estrela da manhã” – na Rádio Cultura, das 5 às 7hs. da manhã. Em 2003, foi condecorada pelo Governo de São Paulo Geraldo com a medalha “Ordem do Ipiranga”, recebendo o título de comendadora da música folclórica brasileira. Em 2010 recebeu o Grande Prêmio da Crítica em MPB, da Associação Paulista dos Críticos de Arte e no ano seguinte foi lançada parte significativa de sua obra numa caixa com 6 CDs: “O Brasil de Inezita Barroso”.

Em 2013 o pesquisador Arley Pereira publicou sua biografia “Inezita Barroso: a história de uma brasileira” e o ano seguinte foi pleno de realizações e reconhecimentos pelo seu trabalho: entrou para a APL-Academia Paulista de Letras e foi eleita pelo ICCA-Instituto Cultural Cravo Albin como uma das 12 cantoras-compositoras mais importantes do Brasil. Neste ano foi publicado outra biografia: “Inezita Barroso: Rainha da Música Caipira” do jornalista Carlos Eduardo Oliveira, mas narrada em primeira pessoa por ela mesma. Em dezembro levou um tombo na casa de sua filha, em Campos de Jordão; foi internada no Hospital Sírio Libanês em fevereiro de 2015 e faleceu em 8 de março, no Dia Internacional da Mulher. Sua carreira artística durou mais de 60 anos e deixou 80 discos 78 rpm, LPs e CDs. Notabilizou-se não apenas como defensora ferrenha das raízes da música regional brasileira, mas também como uma antropóloga ou etnóloga da música regional brasileira, seguindo os passos de seu antigo vizinho Mário de Andrade.

Em setembro de 2017, o Itaú Cultural dedicou a 36ª edição de sua “Ocupação” com uma grande amostra de seu legado, quando foi apresentada sua vídeo-biografia, um documentário de 85 minutos, realizado pela TV Cultura e dirigido por Helio Goldsztein. Na ocasião foi lançado seu site oficial, onde pode se ver uma galeria de fotos e ouvir toda sua obra.

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BOBALHÕES ZISQUERDÓIDES

Só PT e Psol defendem a ditadura que submete sua população à fome e atira em civis desarmados.

Esses bobalhões deveriam viver lá, sob o regime criminoso de Nicolás Maduro que tanto admiram.

* * *

Além de PT e PSOL, tem mais outros bandos de tabacudos que adoram o sanguinário ditador da Venezuela.

Um tirano que, felizmente, se encontra em estágio terminal.

Pra estes babacas cegados pela paixão ideológica zisquerdóide, vamos botar o nosso mascote, o jumento Polodoro, pra rinchar.

Rincha, Polodoro!!!

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RECOMENDAÇÃO

Quem quiser saber como pensa a esquerda brasileira e o qual o tipo de matéria que ela tem na cabeça, recomendo que leia a coluna de hoje do nosso estimado confrade Goiano Braga Horta, intitulada Um Golpe de Mestre.

Garanto a vocês que será um excelente programa pra levantar o astral neste domingo.

Humor de altíssima qualidade.

Leiam as linhas e as entrelinhas.

Imperdível!!!

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UNIR, JAMAIS. DESUNIR SEMPRE

Carlos Brickmann

A proposta de reforma da Previdência não foi ainda integralmente enviada ao Congresso, e a parte que foi enviada está sob análise de quem entende: não é de um dia para outro que se vai avaliar toda a reforma. Mas, mesmo assim, mesmo sem saber muito bem de que se trata, o mercado se animou: já aceita receber juros menores em títulos do Tesouro (caíram de 13,5% para 9,5%) e o dólar deu uma boa descida diante do Real.

A base parlamentar de Bolsonaro é insuficiente para garantir a vitória da reforma – mas a força de sua expressiva vitória eleitoral, somada à boa reação do mercado, pode perfeitamente levar o Governo à vitória, a menos que, insatisfeita pela fraqueza da oposição, a família do presidente a reforce. É o que está ocorrendo: o senador Flávio, o filho 01, propõe que o Congresso mude a reforma. Se o filho do presidente deixa de defender suas propostas e sugere mudanças, como convencer quem nem parente é?

Todo o planejamento da reforma está baseado na redução das diferenças entre aposentadorias, hoje imensas: funcionário público aposentado recebe o salário integral dos ativos, filha de militares tem direito a manter a pensão após a morte do pai, assalariados da iniciativa privada têm limite bem mais baixo. Pois o senador 01 quer igualar os guardas municipais, para fim de aposentadoria, a policiais. Pode ter razão, mas não é essa a reforma que o Governo de seu pai propõe. Com união é difícil. Sem união, impossível.

No rumo

Valeu a pena ver, pela TV e pelo YouTube, as cenas da fronteira entre o Brasil e a Venezuela nos últimos dias, antes do fechamento da fronteira pelo presidente Nicolás Maduro. Muita gente cruzava a fronteira, sempre no sentido Venezuela-Brasil; ninguém no sentido Brasil-Venezuela. Se não há problemas na Venezuela, como afirmam os bolivarianos brasileiros, por que há tanta gente saindo? Vale conferir as imagens no You Tube.

Estranha coincidência

Não houve, nos últimos dias, alterações de preço nas refinarias da Petrobras. O dólar caiu. Mas, de quarta para quinta, em Brasília a gasolina passou de R$ 3,80 para R$ 4,23 – de repente, as marcas de todas as grandes distribuidoras tiveram alta parecida, sem maiores explicações. Diz o colunista Cláudio Humberto que, por causa deste surpreendente evento, espera-se que Bolsonaro autorize os produtores de álcool e as refinarias a fornecer combustível diretamente aos postos, sem precisar entregá-lo a distribuidoras que só elevam os custos.

Justiça x distribuidoras

O repórter Cláudio Tognolli foi processado por críticas duras que fez às distribuidoras de combustíveis – entre outros termos, usou “assalto ao consumidor” para definir a atitude das empresas. A Associação Nacional de Distribuidoras de Combustíveis, Lubrificantes, Logística e Conveniência – Plural – que reúne BR, Shell e Ipiranga, donas de 70% do mercado, entrou na Justiça acusando-o de difamação. O juiz José Zoéga Coelho, do Juizado Especial Criminal, decidiu pela absolvição sumária. Uma derrota importante da Plural: o repórter bateu duro e ficou claro que nada mais fez exceto investigar e descrever os fatos que havia investigado e confirmado.

O falso herói

O principal repórter da principal revista alemã era uma farsa: inventava histórias magníficas e as publicava como se fossem verdadeiras. A revista, com todo seu sistema de controle de qualidade, publicou tudinho, sem nada questionar. E, se não fosse um repórter cujo prestígio não se comparava ao do falso herói, tudo se manteria sem problemas, enganando os leitores.

O principal repórter, um dos mais conhecidos e conceituados da Alemanha, era Claas Relotius; a revista, respeitadíssima, é Der Spiegel. E o jornalista que desmontou a farsa, Juan Moreno, também da Der Spiegel, foi quase massacrado ao colocar em dúvida as verdades do grande repórter. E, no entanto, tinha razão: hoje, a Der Spiegel adverte no site, onde há matérias de Relotius, que não há como garantir que sejam verdadeiras.

Lutar e provar

Moreno, jornalista nascido na Espanha e criado na Alemanha, desconfiou de Relotius depois de uma reportagem que fizeram juntos. Moreno deveria acompanhar um grupo de migrantes até a fronteira e contar a viagem; Relotius, nos Estados Unidos, se infiltraria num grupo civil de milicianos dispostos a bloquear a passagem dos migrantes. Estranhou as informações do colega e começou a verificá-las. Aos poucos, descobriu que Claas Relotius entrevistara pessoas que nunca havia visto, descrevia locais em que nunca havia estado. Demorou até que alguém prestasse atenção no que dizia; nesse período, perdeu oito quilos.

Hoje, a Der Spiegel reformulou seu controle de qualidade e abriu uma investigação interna: como pôde ser tão enganada por tanto tempo?

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O DUELO

José Ramos

Maracanã superlotado ao fundo – torcedores privilegiados assistem Garrincha “matando” Jordan

Tardes de domingo, Maracanã superlotado. Áreas externas sem espaços para estacionamento de veículos, e as torcidas continuavam entrando pelas duas rampas de acesso.

Dia de clássico. Dia de Mané. Dia de duelo entre Mané e Jordan – os dois mais diletos e respeitosos adversários que o futebol já mostrou no mundo inteiro. Mané, vestido com o manto do “Glorioso” Botafogo; e Jordan, vestido de Flamengo, como um touro “sofrendo” espetadas em Madri.

Garrincha nunca foi um atleta na acepção da palavra. Era uma pessoa que gostava de brincar com a bola, de se divertir com os amigos, de passar o tempo entre os amigos de Pau Grande, povoado onde nasceu e continuou por anos, morando, criando passarinhos e fazendo filhas. Fez uma reca delas – nem sei quantas.

Aos domingos “descia” para General Severiano, onde se juntava ao compadre Nilton Santos, ao Bob, ao Manga, ao Pampoline e ao Quarentinha, para descerem para o Maracanã e encontrar o amigo Jordan, de quem mais uma vez “roubaria” o bicho da feira da semana seguinte.

De um lado, Valdir Amaral, e do outro, Doalcey Bueno de Camargo, nas narrações radiofônicas afirmavam:

– Lá vai Mané com a bola para cima do Jordan. Hoje ele é só alegria. Balança, faz que vai, mas não vai. Volta e dá outra balançada… e Jordan dança, hora na frente, hora de lado, mas na maioria das vezes, atrás. Levanta, e volta a cair com novo drible. Esse Mané não tem jeito!

Era esse, sempre, o “script” do duelo que mais tinha de magia e beleza plástica, como se fora uma cena do cinema mudo de Chaplin. Tudo calmo, todo mundo observando e ao mesmo tempo rindo! Rindo sem que houvesse um palhaço fazendo graças.

Era apenas um gênio se divertindo, e brincando de jogar bola no Maracanã, diante do compadre Jordan.

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NOTAS

Carlos Ivan

O setor serviços ainda não engrenou. Tenta, mas não consegue dar o pulo do gato. Em 2018, registrou o quarto ano de queda. Desde 2015, o setor serviços recua, ao contrário da indústria e do setor de varejo que começam a esquentar. Abrangendo o comércio de bens e da prestação de serviços, que empurraram o PIB nacional pra cima, em outros períodos, o setor serviços, apesar de exercer fundamental importância econômica e social, precisa mostrar realmente serviço e não perambular de andador, se arrastando feito cobra pelo chão.

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A Igreja Católica mudou de atitude. Após cinquenta anos de silêncio total sobre os escândalos sexuais, praticados por alguns membros do clero nos bastidores dos templos religiosos, o Vaticano expulsa o ex-cardeal norte-americano Theodore McCarrik, de 88 anos, acusado de cometer abusos sexuais contra um adolescente. O curioso é a punição não permitir apelação ao pontífice acusado. A intenção é apagar a péssima imagem da Igreja Católica, arranhada com os escândalos registrados nos Estados. Unidos e no Chile.

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No Brasil, nada presta, desde que a coisa pública seja tratada com desídia ou omissão. Alguns dos motivos que emporcalham a saúde pública é o baixo salário pago aos médicos, a falta de condições de trabalho, que é péssima, a precariedade de instalações, equipamentos e de estoque de medicamentos existentes nos hospitais da rede pública. Enquanto os gestores se preocupam com a aparência externa dos prédios dos hospitais, esquecem o fundamental.

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A Transordestina é problema. Projetada para desenvolver a economia nordestina, a ferrovia não anda. Dos 1.753 quilômetros de trilhos projetados para ligar 81 dos estados do Piauí, Pernambuco, até o porto de Suape, e Ceará, finalizando no porto do Mucuripe, foram assentados apenas 600 quilômetros.Todavia, ao abandono jogaram 49 vagões vazios, muitos metros de trilhos, todos enferrujando ao relento. Em vez de escoar a produção de grãos e do polo gesseiro do Araripe da região.

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