MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Em 1984, a obra profética de George Orwell, vemos uma sociedade dominada por um governo totalitário. Existe uma classe “superior”, a dos membros da elite; existe uma classe trabalhadora; e, entre elas, existe uma classe média. É interessante notar que a classe inferior é, de certa forma, mais livre que a classe média: essa é vigiada com mão de ferro pelo governo, enquanto os outros (chamados de “proles”, corruptela de “proletários”) são considerados inofensivos e fáceis de controlar. Em especial, relacionamentos privados são quase proibidos para a classe média: tudo é feito para retirar deles qualquer individualidade. Duas pessoas conversando sozinhas são vistas como possíveis subversivas.

Em 2021, os proletários continuam se aglomerando diariamente nos ônibus e metrôs como sempre fizeram, continuam fazendo filas nos supermercados (que funcionam em horários restritos para “evitar aglomerações”!!!) e continuam frequentando os botecos da periferia e os bailes funk. Já a classe média está trancada em casa, proibida de caminhar sozinha em uma praça ou um parque, sob pena de ser acusada de “falta de empatia”.

Só na minha cidade, mais de trezentas mil pessoas passam mais de uma hora e meia todo dia fechadas em ônibus lotados na ida e volta para o trabalho. Aparentemente o covid-19 não existe no transporte coletivo: o governador do estado já declarou pessoalmente que a culpa pelo avanço dos casos de covid é das “aglomerações” e das “festas clandestinas”, e todo dia a TV mostra, com bumbos e fanfarras, a polícia cercando e invadindo lugares onde vinte ou trinta ou cinquenta pessoas cometeram o “crime” de estar em um mesmo lugar.

Não sei se sou só eu que estranhei quando, no ano passado, todo mundo de um dia para o outro começou a falar em “distanciamento social”. Ora, para evitar a propagação de um vírus, é preciso distanciamento físico. “social” não tem nada a ver com isso – não precisamos deixar de conversar ou de manter contato com os outros para evitar ser contaminados.

Cada dia mais me convenço que não foi erro, foi ato falho. O objetivo é mesmo o distanciamento social: impedir as pessoas de manterem contato umas com as outras. Basta pensar como a vida social e o contato humano sempre estiveram ligados à celebração do comer e beber (necessidades básicas), e observar a perseguição de hoje aos restaurantes, bares ou simples festas de aniversário, eleitos como os “culpados” pela pandemia.

Não é pela pandemia: é porque é nos bares e restaurantes, mais do que no trabalho ou na fila do supermercado, que as pessoas conversam, trocam ideias, formam opiniões, sentem-se parte da sociedade. E isso assusta a classe dominante. Melhor manter as pessoas em casa, recebendo informações previamente preparadas via grande mídia. Opinião própria, só aquela previamente aprovada como “aceitável”. Interação com os outros, só se for pelas “redes sociais”, que podem ser monitoradas, controladas, influenciadas e se necessário manipuladas. Basta conseguir que as pessoas tenham medo de conversar com os amigos e receio de mostrar suas ideias, e temos o paraíso para qualquer ditador.

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