VERDADES E MENTIRAS

Esse caso do Intercept começa, e acaba, com gravações ilegais. E não comprováveis. Que podem trazer verdades, até. Ou, também, mentiras absolutas. O que faz lembrar o filósofo italiano Umberto Galimberti, para quem “o símbolo do herói moderno deveria ser Ulisses” (Il Gioco delle Opinioni). Não o brasileiro, Ulisses Guimarães, que conduziu a resistência democrática ao golpe de 1964. Ou o Ulisses de Joyce, que nem se chamava Ulisses. E eram dois. Com o romance relatando um dia (16.06.1904) nas vidas de Leopoldo Bloom e Stephen Dedalus, em Dublin. Para Galimberti, seria o Ulisses grego. Rei de Ítaca. Por sua invenção do cavalo de Tróia. Em cujo ventre soldados teriam se escondido, para abrir as portas da cidade. Porque esse Ulisses seria portador dos valores básicos que se espera das sociedades modernas, mentira e astúcia. Retraduzindo essas palavras, para dar-lhes mínimos de dignidade, astúcia passaria a ser a capacidade de encontrar o ponto de equilíbrio entre forças contrárias. E, mentir, habitar a distância que separa aparência e realidade. Com Ulisses, inaugura-se a dupla consciência da realidade e sua máscara.

Na filosofia, temos verdades da razão, em que seus opostos são impossíveis. E, diferentes, verdades de fato, que admitem opostos. Como as de opinião. Comparando, pode-se dizer que as da razão acabam sendo necessárias. Ao contrário, por contingentes, das de fato. Por se referir não ao que é, mas ao que muda. Por oscilar, entre o ser e o não ser. Nem sempre é fácil separar as duas. Lewis Carrol, em carta a Mark MacDonald, dá bom conselho: “Não esteja tão certo de crer em tudo que lhe contam… Se você se esforçar para crer em tudo, vai acabar sendo incapaz de acreditar nas verdades mais simples”. É um caminho. Mentir, no sentido de esconder a realidade, é a marca do Brasil de hoje. A das certezas inventadas. A da banalização da esperteza. A da mentira utilitária. Todos sabem que as gravações são ilegais. Que tudo pode ser mentira. E não estão nem aí. Só porque convém. A inquisição no Senado, semana passada, foi um espetáculo deprimente. Com falsos moralistas, processados, e réus, fingindo ser pessoas de bem.

DONA ELZITA. Com essa mãe, que chorou seu filho, se vai um pedaço negro da história do Brasil. Perda imensa. Não a conheci. Mas, em palavras de Cortazar (Graffiti), “a mim também me dói”.

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  1. Excelente arrazoado. Mas, a bem da verdade, tampouco o de Homero se chamava Ulisses, mas Odisseu – o que não muda em absolutamente nada a moral da história. Como disse Marco Túlio Cícero, o maior dos oradores da Roma Antiga:
    “Ita finitima sunt falsa veris, ut in præcipitem locum non debeat se sapiens committere.”
    [Estão as coisas falsas tão próximas das verdadeiras que um homem sábio não deveria nelas confiar de modo precipitado].

  2. Por ter participado da Comissão da Verdade, achei que o nobre doutor tivesse mais facilidade do que outros para reconhecer um juiz suspeito.

    Mas a lenga lenga é a mesma: começa e acaba com gravações ilegais.

    Como pode ter certeza disso se Dallagnol se recusou a entregar seu celular aos peritos da PF?

    Por que não defende um mandado de busca e apreensão na “sede” do Intercept? Por que não defende a prisão de Greenwald e seu marido que é deputado federal?

    Tudo isso não ficaria muito claro? Por enquanto é só guerra de narrativas. Né não?

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