UMA FLORESTA DESENCANTADA

Marcos André M. Cavalcanti

Leitor assíduo da coluna do ilustre imortal José Paulo Cavalcanti Filho, confesso que muito me impressionou (como sempre), a leitura intitulada ADEUS, AGNALDO, em que o ilustre articulista discorre com invulgar maestria e elegância um drama real, incomensurável e difícil de aceitar – A EUTANÁSIA. publicado no JBF no dia dos mortos.

De plano, nestes contrastes da vida, lembrei de um amigo que vive no Japão, e não pude me furtar ante uma intrigante constatação por ele relatada: A de que o principal cartão postal e símbolo do Japão – o Monte Fuji – trás à reboque, um lado taciturno e aterrador: O grande numero de suicídios cometidos no sopé do sacro monte, símbolo maior daquele país, mais precisamente numa floresta denominada Aokigahara, onde algum transeunte desavisado pode se deparar com um cenário de puro horror nessa que é mais conhecida como a Floresta dos Suicidas do Japão.

Diferentemente da eutanásia, o suicídio é um assunto que sempre provoca grandes debates psicológicos, morais e religiosos. No entanto, o que acontece na floresta de Aokigahara transborda por vezes qualquer entendimento.

A fama dessa floresta correu o mundo, porque os suicídios por lá ocorre com muita frequência. Ressalte-se que, apesar do país ter contabilizado, só no ano de 2014, mais de 25 mil pessoas que optaram pelo suicídio – homem em sua maioria – (média de 70 por dia), o Japão não está na lista dos 10 países onde se mais comete suicídios.

O mais estranho é você encontrar motivos para tal desígnio, não é a extrema pobreza, desemprego, dívidas, dificuldades econômicas, pressão social. Sobra, então, a danada da depressão.

Na falta de uma explicação plausível para inúmeros suicídios, criou-se um sem números de lendas. Uma delas acalenta que os depósitos de ferro das rochas provoca erros nas bussolas, fazendo com que seja extremamente fácil as pessoas perderem-se e entrarem em desespero. Outra, fala de monstros, fantasmas e Goblins (criaturas geralmente verdes que se assemelham a duendes) assombrando a floresta, e que os espíritos dos suicidas para sempre vagueiam na área.

Procurando minimizar o problema, as autoridades colocaram até placas e sinais proibindo o suicídio na floresta. Placas com frases de auto ajuda: “a vida é um dom precioso”, “Pense mais uma vez em seus pais, irmãos ou filhos (…). Por favor, não sofra sozinho, peça ajuda primeiro”, diz o apelo.

Os arredores da floresta são altamente protegidos para evitar suicídios com patrulhas e câmeras de segurança. A caminhada é permitida na floresta, mas ninguém faria isso voluntariamente neste lugar, pois muitos saem, mas outros entram na floresta para não mais voltar.

Nesse caso, é melhor se garantir, vendo o monte Fuji e a medonha floresta, em filmes e painéis fotográficos.

2 ideias sobre “UMA FLORESTA DESENCANTADA

  1. Marcos, me permita dizer que concordo com você. Além da magistral forma de apresentar o problema, o texto bem escrito, digno da capacidade do dr. José Paulo, trazia uma reflexão impressionante de dois extremos: um de saída da vida; outro encarregado de relatar ao mundo a partida. Duas vistas em perspectiva de um problema sem volta. Eu li em silêncio umas duas ou três vezes, como se tivesse presente a partida de Agnaldo. Depois li uma duas ou três vezes em voz alta como se tivesse orando. Em todas as situações, como lágrimas nos olhos.

  2. Exatamente, mestre Assuero. Texto marcante que mexeu com todos nós. E ainda, como sempre, envoca textos de Pessoa:”Vem, dolorosa/ Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes/ Sabor de água sobre os lábios dos cansados”. Dr. Paulo é foda!

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