SECA

A seca, faz 50 anos, atormenta o Nordeste. Enerva o nordestino. Basta os “cabas da peste” se lembrar da perda de culturas agrícolas e da morte de 4 milhões de animais de criação para tremer, feito vara verde. Reviver péssimas lembranças. Foi difícil o sertanejo esquecer as agruras que as secas de 2012 a 2013 fizeram na Região. Devido à estiagem prolongada, o prejuízo foi gigantesco. Muita gente lamentou as perdas. O setor de eletricidade, em virtude da enorme baixa nos reservatórios das usinas, teve de ligar as termelétricas, tipo de energia cara, e amargar prejuízos. Outra lamentável recordação das secas foi o desvio das verbas que eram destinadas para a construção de açudes públicos que acabaram servindo apenas para a construção de poços e açudes em terras de famílias ilustres da Região. Coisa de politicagem.

Mas, como sobrou alguns tostões dos desvios, a sobra monetária ainda deu para iniciar a construção de alguns açudes, especialmente no Ceará, um dos estados mais secos do Nordeste. Os famosos açudes do Ceará, com a baixa do nível das águas, assustaram. Até o Castanhão, o maior reservatório de água doce do estado, construído no leito do rio Jaguaribe, justamente para substituir a irregularidade dos invernos na área do semiárido, com a braba estiagem, deixou nordestino apavorado.

As piores mazelas da seca são a migração em massa, a fome generalizada, a sede e, sobretudo, a miséria. O estado menos castigado com a estiagem, em 2018, foi o Maranhão. Enquanto os demais estados choravam a falta de chuvas, o Maranhão enfrentava pesados aguaceiros que provocavam enchentes, desabrigando famílias. Contudo, depois de passar por vexames com as secas, com a perda de culturas agrícolas, criação de animais e inclusive de pessoas em função da fome, parece que a situação mudou em 2019. Pra melhor. Nos meses de abril e maio choveu intensamente em vários estados da Região. Verdadeiros temporais e chuvas acima da média castigaram, com enchentes, velozes correntezas nos rios, sangramento de barragens e alagamentos em diversas cidades nordestinas. Até no Piauí caíram bons aguaceiros. Em alguns locais, o mês de abril trouxe pesadas chuvas. As maiores nos últimos 10 anos. Em Natal, RN, no mês em foco, recebeu 465 mm de chuva. Coisa rara há 30 anos. Em Oeiras, no Piauí, as fortes chuvas de abril causaram medo na população, acostumada, faz tempo, com apenas chuvisco. Agora em maio, tempestades causaram transtornos nos municípios de Barreiros, na Mata Sul de Pernambuco, e na Região Metropolitana do Recife,. O que provocou tanta chuva no Nordeste, em abril, foi a intensa atuação da Zona de Convergência Intertropical que elevou a temperatura da superfície da água no Atlântico Norte.

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O brasileiro anda acabrunhado com a carestia de vida. Queda do poder de compra. Alta de preços que priva o cidadão de comprar alimentos para abastecer a casa e garantir a sobrevivência da família. Muitos fatores interferem no aumento de preço de alimentos. Seca, má colheita e pestes causam descontentamento no supermercado, na comida por quilo cobrada pelos restaurantes. No setor de serviços básicos, então, a explosão de preços assusta, desde 1999. Um dos pontos essenciais para a inflação de preços é a ausência de política fiscal austera. A disparada da inflação acima da meta estabelecida pelo governo. Os erros governamentais cometidos em 2012. A desconfiança na determinação de políticas fiscais que agravaram a precariedade de infraestrutura, a alta carga tributária, a burocracia berrante, a elevadíssima taxa de juros SELIC e a falta de confiança nos governos que inibiram os investidores.

A luta contra o custo de vida não é novidade no país. Desde 1913, os trabalhadores urbanos se reuniam nas praças do Rio de Janeiro para protestar em comícios contra os aumentos abusivos dos gêneros alimentícios de primeira necessidade. Os movimentos sociais não aguentavam mais o aumento do preço do feijão no mercado. A elevação do custo de vida, o preço que o consumidor paga pela compra de um bem ou serviço. No ano de 1978, o Movimento do Custo de Vida colocou mais 20 mil pessoas na Praça da Sé, em São Paulo, repudiando a carestia. O ato aconteceu em plena vigência da ditadura militar que não fez o povo retroceder.

O ato culminou com a aprovação de um abaixo-assinado, contendo 1,3 milhão de assinaturas, solicitando três medidas. Congelamento de preços de alimentos, aumento real geral de salário e um abono emergencial, sem desconto posterior. Vez por outra ressurgem movimentos populares contra a carestia, protestando contra as políticas econômicas que não beneficiam as classes menos abonadas. Não evitam a estagnação da economia, não impulsionam a indústria para gerar emprego. Falta ativar políticas aprimoradas para não ficar dependente apenas da reforma da Previdência, que não é tudo no fomento econômico. Basta ver o retrato da economia brasileira para notar que ela anda enfraquecida, anêmica, bastante vulnerável, atualmente. Afinal, é com políticas públicas que se aquece uma economia. Por mais fraca que seja.

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Faz um ano a Holanda inaugurou uma ponte de concreto protendido, projetada por uma impressora 3D na Universidade de Tecnologia de Eindhoven. Inicialmente, a ponte de pequenas dimensões, foi destinada aos ciclistas. Na construção, a ponte recebeu apenas o concreto necessário. Sem perder a segurança, mas, reforçada para receber a imensa quantidade de bicicletas que circulam entre duas importantes estradas do país.

Resistente, os construtores calculam que a ponte, além de durar mais de trina anos de uso, tem estrutura para suportar peso de até cinco toneladas. A construção que demorou somente três meses fica na cidade de Gemert. Dessa forma, a Holanda se integra aos EUA e à China no grupo de países que substituem a mão de obra pela máquina.

A tecnologia tem um dom. Despreza as formas tradicionais de construção e através da automação, implanta o trabalho automático, utilizando máquinas inteligentes e equipamentos autossuficientes. A técnica da robótica faz o computador, munido de conceitos fundamentais, facilitar o trabalho das pessoas, enquanto aumenta a produtividade. O lado negativo é o desemprego, com a redução de postos de trabalho.

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A natureza é fantástica. Onde houver condições, luz, calor, umidade e solo fértil, a mãe natureza não perde tempo. Marca presença. Faz brotar a vegetação nativa. Por causa da diversidade climática, a vegetação muda de aspecto. Nos desertos, em virtude da carência de água, sempre escassa, a vegetação típica da área é rala e espaçosa. Nas estepes predomina as gramíneas. Já nas florestas temperadas, começa a aparecer a variedade de árvores. Porém, nas florestas tropicais, situadas em zonas equatoriais, caso do Brasil, embora o solo seja pobre em nutrientes minerais, mas por conta da temperatura elevada e de chuvas em abundância, prevalece a quantidade de árvores gigantes. Extremamente altas, como pau brasil, jacarandá, peroba e jequitibá-rosa.

Essas características garantem enorme produtividade. Graças à decomposição das matérias orgânicas, fontes de nutrientes, o ecossistema é renovável, sempre robusto. Perfeito cenário para atrair tanto animais vertebrados como mamíferos, aves, répteis e anfíbios, como os insetos, os invertebrados. Os maiores berços de floreta tropical ficam na África, Ásia, Austrália, América Central e do Sul. No Brasil, então, a floresta tropical é beleza. A flora, rica e exuberante, inclusive na vasta quantidade de espécies de árvores, a variedade chega a 300 espécies num espaço relativamente pequeno, exibe um encantador manto verde. As copas das árvores encobrem o chão. Algumas, árvores crescem tanto que chegam a atingir a altura de 60 metros.

Contudo, as raízes, como não se aprofundam na terra, as florestas tropicais, também denominadas como Floresta Amazônica, Mata Atlântica e Mata de Araucária, são facilmente derrubadas. Daí os desmatamentos causando preocupações. Os debates sobre as maneiras de como adotar medidas para preservar este ecossistema, responsável pela emissão de volumosa quantidade de oxigênio na atmosfera e servir de filtro para impedir a elevação da temperatura, não param. São constantes. Por isso, as críticas e os protestos contra a devastação desses fantásticos biomas que deformam a paisagem dos locais onde antes existia riqueza em profusão.

4 pensou em “SECA

  1. Carlos Ivan, vou discordar de você. Seca não causa miséria. O que causa miséria é a ignorância, e o que causa ignorância, no Brasil, é a política. Como comentou nosso colega Adônis, ontem, a remessa de dinheiro de Brasília para os estados do Nordeste para “combater a seca” apenas aumenta o poder dos Calheiros, dos Sarneys, dos “coronéis” todos que impedem o desenvolvimento, pois necessitam de um povo miserável e à beira do desespero, dispostos a vender seus votos por uma cesta básica.

    Me pergunto: se cortássemos todas as ajudas, bolsas e verbas a fundo perdido, que fariam os políticos do Nordeste? Só vejo duas opções: ou mudariam de ramo, abrindo caminho para gente melhor, ou assumiriam eles mesmos a tarefa de transformar seus estados em lugares produtivos (mesmo que fosse não por bondade, mas por interesse próprio).

    Soluções há muitas, a única coisa que se precisa fazer é não deixar os políticos impedirem o progresso. Quantos lugares do Nordeste já são polos produtores de frutas, por exemplo, e quantos mais poderiam ser? Quantos indústrias poderiam se instalar? Quando traria de lucro um turismo bem gerido? Quanta energia barata poderia ser obtida dos ventos?

    Mas fica difícil quando, por exemplo, depois de muita gente investir dinheiro em usinas eólicas, confiando na estabilidade econômica e jurídica do país, alguns políticos tentam inventar uma lei que diz que o vento pertence ao estado e que quem usa tem que pagar royalties.

    Seca causa miséria? É só olhar, por exemplo, para Israel.

    • Caro Marcelo Bertoluci eu confesso que sou obrigado a concordar com vc a respeito do tema seca. De fato, como o Brasil tá sufocado até o pescoço com ignorância de todo lado e política viciada, só funciona numa direção, sem retorno, a miséria, crescente, campeia no Brasil. E não hora pra acabar.

  2. Caro Maurício Assuero, vixe como teve nego que enriqueceu com a indústria da seca no Nordeste. E tem outros, os novatos, emburacando pelo mesmo caminho, vez que as tetas da “viúva” continuam expostos para a ladroeira.

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