SCIENTIA POTENTIA EST

O título acima é uma expressão latina que significa conhecimento é poder. Provérbios assemelhados ao do cabeçalho são encontrados, em hebreu, no Livro dos Provérbios traduzidos como O homem sábio é forte e O homem de conhecimento consolida a força. Em resumo, a frase alega que ter e partilhar conhecimento é a base para aumentar a reputação de alguém e de influenciar outros, portanto, ter poder.

O inglês Francis Bacon (1561-1626), afiançava que O conhecimento é em si mesmo um poder. Paciência! Não enveredarei por esse caminho para não cansar meus leitores ocasionais abordando um tema que não domino. Pretendo, sim, correlacionar o ditado a fatos que vivenciei, os quais nunca esquecerei.

Nos meus 18 anos de idade, na condição de datilógrafo – quando datilógrafo era categoria funcional -, conheci um senhor que trabalhava como vigia na mesma repartição pública estadual que eu. Compenetrado e simples, seu Amarildo era capaz de discorrer, num linguajar próprio, sobre a sua compreensão da vida e da racionalidade humana com impressionante lucidez para alguém de pouca instrução.

Sem saber como nem por qual razão, ele afirmava que quando passava por dificuldades ou se desgostava da existência, sempre lhe ocorria um pensamento iluminado. E me alertava: Não esqueça, menino, “nada na vida é por acaso”. Isso, ele dizia sem recorrer a qualquer contexto espiritual ou divino, como embasamento.

A verdade é que o conhecimento intuitivo daquele vigia teve o poder de marcar profundamente a minha percepção existencial, tanto e de tal modo, que ao presenciar discussões sobre as razões de ser, disso ou daquilo, ocorrem-me sempre as lembranças dos papos com seu Amarildo enfatizando: “Nada na vida ocorre por acaso”.

Outro fato digno de registro aconteceu em 1965, quando eu era calouro na Escola de Engenharia da UFRN. No final daquele ano, a faculdade estava em ebulição por conta das festividades para a celebração de formatura da 2ª Turma da Escola onde, inesperadamente, onze concluintes ficaram reduzidos a dez.

Três dias estavam reservados para a programação comemorativa de conclusão do curso, seguida de uma viagem de lazer ao exterior. Para a maioria dos concluintes, senão para a totalidade da turma, a primeira viagem para fora do país. Porém, uma desagradável surpresa empanou um planejamento de anos.

José Moacir de Albuquerque, 23 anos de idade, transferido da Escola Politécnica de Pernambuco para Natal, em 1964, para ficar perto de sua família e se integrar à turma de concluintes de Engenharia do ano seguinte, faltou à solenidade.

Numa viagem de Nova Cruz para Natal, a serviço do órgão que o abrigava como auxiliar de engenheiro, Moacir resolveu dirigir o Jeep em que viajava, contrariando o alerta do motorista sobre o risco de ele não possuir carteira de habilitação. O desastre ocorreu na Br-226/RN, na denominada Reta Tabajara, quando efetuou uma ultrapassagem infeliz. O motorista ficou com a vida, mas ele perdeu a sua.

A consternação no meio universitário foi geral. Seus colegas, num ato magnânimo de solidariedade, doaram a importância arrecada para custear a viagem dos sonhos deles aos familiares do desafortunado concluinte.

Para mim, tal atitude, justamente nas comemorações do conhecimento recém-adquirido, serviu para aumentar a reputação dos engenheirandos perante à sociedade natalense, influenciar pessoas na prática da benevolência e, de exemplo, como melhor partilhar o ter durante a transitoriedade do que chamam poder.

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