ROQUE NUNES – CAMPO GRANDE-MS

ALEGRIA

Prudêncio Alegria, ou melhor, simplesmente Alegria, era o tipo de pessoa que se pode chamar de “chave mestra”. Não havia porta que a sua presença não abria. Desde mansão de quarenta quartos até barraco que mais parecia biboca de bosquímano. Sempre com um sorriso no rosto, uma fala mansa, uma palavra certa para o momento certo, Alegria era a encarnação do que hoje, os Zés bundinhas da cidade grande chamam de “Relações Públicas”. Fico até imaginando o que seria um “relações privadas” desse povo que nunca bebeu água em canudo de taboca.

Aliás, quem me contou a história de Alegria foi o escrevinhador deste conto. Eu só estou repetindo como “escuitei” dele. Então, se algo estiver diferente reclamem com ele e não comigo. Eu, a bem da verdade, nem sei escrever “dereito”. Mas, o que fiquei sabendo era que Alegria era o cabo eleitoral perfeito, em época de eleição. Candidato que contasse com o apoio de alegria estava eleito, e o adversário desistia antes mesmo de se iniciar a votação.

Alegria era um desses seres viventes, sem eira e nem beira. Nunca aceitou um cargo público. Deus me livre – dizia ele – essa história de cargo público era entregar a alma a belzebu e se ver amarrado, para sempre. Não possuía nada de seu. Vivia na casa de um, ou de outro, encostado, como se dizia antigamente. Mas, por incrível que pareça nunca deixou de pagar suas dívidas, nunca pediu favor, nunca esmolou. Aliás, dívida nunca tinha e ninguém nunca cobrava nada dele. Bem relacionado, com quase todo mundo lhe devendo favores, da casa do governador, ao casebre do carroceiro Alegria sempre tinha roupa lavada e passada, cama para deitar, comida, bebida e o bolso forro, além do cigarrinho de palha que vivia debruçado na varanda de seu beiço.

Chegou a eleição e o Coronel Bitônio Monteiro, eleito governador, muito contente pelo fato de ter Alegria ao seu lado, recebeu votos de cidade que nem sabia que existiam no seu Estado. Nessa eleição era Alegria que chegava primeiro, montava o palanque e era quem apresentava o candidato à população. Se o coroné Bitonho é candidato do Alegria, eu voto nele, diziam os mais velhos, com um sorriso que vinha expor todos os seus gastos dentes em anos de labuta e sofrimento. O outro lado, quando soube que o Coronel Bitônio tinha como cabo eleitoral, o Alegria, desistiu do pleito, de modo que foi corrida de um cavalo só.

Candidato eleito, diplomado e empossado, o Coronel Bitônio convidou Alegria para morar no Palácio Governamental. Casarão em estilo vitoriano, com mais quartos que o puteiro de Maria Bago Mole no interior do Estado. Alegria se instalou em uma bela suíte, tomava café da manhã, almoçava e jantava na companhia do governador e sua família. Aliás, qualquer refeição não começava sem a presença de Alegria. Até certo dia, quando o governador soube que Alegria vinha falando mal do seu governo. Chamou-o em um ajantarado de domingo.

-Alegria, responda-me: quem lhe dá casa, comida, roupa lavada e mordomias?

– O sinhô, ora!

– Então, Alegria, eu ouvi dizer que você vive falando mal do meu governo, é verdade?

– Sim sinhô!

– E, por quê?

– Ora coroné… não importa que tipo de governo existe… eu sou do parecê que, tendo um governo, ele tem que ser derrubado, de qualquer jeito, por causa das safadezas feitas.

E saiu da sala, deixando o Coronel Bitônio com a xícara de café suspensa no ar.

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