OS BRASILEIROS: Mazzaropi

Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo, em 9/4/1912. Ator, cineasta e o empresário mais bem sucedido do cinema brasileiro. Durante três décadas foi considerado o maior cômico do cinema nacional no papel de Jeca Tatu. Vale ressaltar a transformação que ele realizou no personagem criado por Monteiro Lobato em sua obra-prima Urupês (1918). Trata-se de um caipira, ignorante e preguiçoso, cuja história foi parar nas páginas do “Almanaque Biotônico Fontoura”, em 1924. É uma peça publicitária que recomenda a ingestão do milagroso remédio para não se tornar um “Jeca Tatu”.

No conto de Lobato, o personagem é um ser desprezível, dependente e sem qualquer qualidade, que o autor chega a compará-lo a um cogumelo que nasce em paus podres. Desse modo, Lobato criou sem querer um preconceito em relação ao caipira, que perdurou por muito tempo. A transposição da história para o Almanaque consolidou o preconceito de forma definitiva, abrangendo todo o País. O livrinho era distribuído em farmácias e atingiu uma tiragem de 120 mil exemplares. Em alguns lugares mais remotos era a única opção de leitura e muita gente aprendeu a ler com esta publicação. Aos poucos o caipira foi assimilado como fraco, burro, preguiçoso e até antissocial. Certamente, não era essa a intenção do autor. Sua finalidade, com essa criação, foi tirar o caboclo da situação de penúria em que se encontrava; uma crítica à política governamental de abandono dirigida ao homem do campo.

Devido a popularidade do personagem em meados do século passado, Mazzaropi decidiu incorporá-lo e conseguiu a proeza de dar um novo significado ao personagem, moldando um novo caipira. Ao mesmo tempo em que satiriza sua situação, apresenta-o como um cara matreiro, sabido, dono de si e que acabava por enrolar e vencer seus detratores. Dos 33 filmes que produziu e atuou, sete têm Jeca Tatu no título. O personagem ficou grudado no ator. As relações entre o Jeca Tatu de Lobato e o de Mazzaropi já renderam algumas dissertações e teses acadêmicas. Não por acaso, tais relações incluem a mesma cidade –Taubaté– onde Lobato viveu e Mazzaropi foi morar aos dois anos e lá construiu seu império cinematográfico, a PAM Filmes. Dizem que apenas com os habitantes de Taubaté, seus filmes já pagavam os custos de produção. O que vinha do resto do País era lucro.

Filho de um imigrante italiano –Bernardo Mazzaropi- e uma portuguesa –Clara Ferreira-, a família mudou-se para Taubaté em 1914. Amácio passava longas temporadas na casa do avô materno, em Tremembé. O velho era um português tocador de viola, dançarino e animador de festas, às quais levava os netos. Aí tomou contato com a vida cultural do caipira, que incorporou mais tarde no cinema. Em 1919 retornam à capital e ele foi estudar no Colégio Amadeu Amaral, no bairro do Belém. Na escola era bom aluno, decorava e declamava poesias, e animava as festas escolares. Em 1922, com a morte do avô, voltam de novo à Taubaté. Seu pai abriu um pequeno bar e ele passou a frequentar assiduamente o circo. Os pais, tentando afastá-lo desse ambiente, mandaram-no para Curitiba para morar com um tio, onde foi trabalhar numa loja de tecidos. Aos 14 anos retornou à São Paulo e, pouco depois, ingressou na caravana do Circo La Paz. Entre uma atração e outra, ele conta causos e anedotas a troco de uma gratificação.

Em 1929, voltam a morar em Taubaté e ele passa a trabalhar como tecelão. Mas não abandona os palcos e atua nas escolas do bairro em fins de semana. Junto com a Revolução constitucionalista, de 1932, dá-se uma agitação cultural na cidade e ele estreia sua primeira peça de teatro: A herança do Padre João. Ele convence os pais a atuarem como atores e a “Troupe Mazzaropi” percorre diversas cidades do interior até 1944. Mas o ganho é pouco para manter a “companhia”. Com a morte da avó materna, recebeu uma herança e montou um barracão na capital, onde passou a exibir peças bem elogiadas pelos jornais paulistanos. No entanto, a saúde do pai complicou a situação financeira da companhia de teatro, encerrada após sua morte em 1944. Pouco depois estreou no Teatro Oberdan como ator e diretor da peça “Filho de sapateiro, sapateiro deve ser”, bem acolhida pelo público.

Em 1946, foi convidado para estrear um programa ao vivo –“Rancho Alegre”- no auditório da Rádio Tupi, dirigido por Cassiano Gabus Mendes. Em 1950 o mesmo programa inaugura a TV Tupi, tendo como coadjuvantes atores como João Restiffe e Geny Prado. Convidado por Abilio Pereira de Almeida e Franco Zampari, estreou seu primeiro filme em 1952: “Sai da frente”, produzido pela Companhia Vera Cruz, onde atuou em outros filmes sempre contando com grande sucesso de bilheteria: “Nadando em dinheiro”, “A carrocinha”, “Chico fumaça” “Chofer de praça” etc. A partir deste último filme, além de ser o protagonista, acumulou as funções de produtor, roteirista e colaborando sempre com os diretores. 1959 foi o ano da virada em sua carreira com dois fatos importantes: 1º) foi convidado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o “Boni” da TV Excelsior e depois da TV Globo, para fazer um programa que ficou no ar até 1962. 2º) começou a produzir o filme que rendeu uma das maiores bilheterias do cinema nacional: “Jeca Tatu”. Consta que o filme foi visto por um público de oito milhões.

Em 1961, com muito dinheiro, alavancou seu espírito empreendedor, comprou uma fazenda em Taubaté e construiu um estúdio cinematográfico, uma oficina de cenografia e um hotel para os atores e técnicos. Produziu seu primeiro filme em cores: “Tristeza do Jeca”, que foi também o primeiro filme exibido na TV, ganhando os prêmios de melhor ator coadjuvante (Genésio Arruda) e melhor canção (Angelino de Oliveira). Em seguida lançou mais alguns recordes de bilheteria como “O corintiano” , “O puritano da rua Augusta”, “Uma pistola para Djeca” entre outros. Todos seus filmes eram lançados em 25 de janeiro, data da fundação da cidade de São Paulo. Foi capaz de enfileirar um blockbuster atrás do outro na sua cinematografia. Seus filmes, tal como nas chanchadas, divulgava a música brasileira, muitas vezes interpretadas por ele mesmo. Não era visto como cantor, mas não cantava mal. Tanto é que quase todas suas interpretações foram reunidas e gravadas em dois LP’s: “Os grandes sucessos de Mazzaropi”, vol. 1 e 2.

Seu último filme – “Maria tomba homem” (1982) – não chegou a ser concluído por ele. Foi vitimado por um câncer na medula óssea em 13/6/1981. Deixou como legado o Museu Mazzaropi (Taubaté, SP), com mais de 20 mil itens contando a história do cinema brasileiro. Toda sua fortuna, que não era pouca, foi distribuída entre seus funcionários e os cinco filhos adotivos. Em 1990 foi inaugurada a Oficina Cultural Amácio Mazzaropi, enorme prédio localizado no Bom Retiro (SP), mantido pela Secretaria da Cultura, com uma grande variedade cursos e atividades. Em 2006 foi homenageado em grande estilo com “Tapete Vermelho”, um filme dirigido por Luiz Alberto Pereira, com Matheus Nachtergaele no papel de “Quinziho”, uma cópia fiel do próprio Mazzaropi, que fez uma promessa de levar o filho até a cidade para ver um filme antigo do comediante. Uma ótima biografia do comediante foi escrita em 2010 por Marcela Matos, lançada pela editora Desiderata: “Sai da frente!: a vida e a obra de Mazzaropi”. Em 2013 foi lançado o documentário “Mazzaropi”, dirigido por Celso Sabadin, um relato de sua vida e carreira, contando com depoimentos de grandes nomes do cinema e da TV.

14 comentários em “OS BRASILEIROS: Mazzaropi

  1. É incrível a capacidade do nosso amigo Brito de fuçar e encontrar minúcias dos seus biografados. Eu desconhecia mais de 50 por cento das informações acima e olha que eu tenho quase toda filmografia do querido comediante.
    Ótimo trabalho e também ótima contribuição para divulgação das coisas NOSSAS, reconhecimento daqueles que lutaram , venceram e ajudaram com muito suor e esforço a grandeza da nossa cultura atual, com valores diversos, mas sempre muito brasileiro.

  2. Todos os filmes brasileiros que agradaram ao público e foram sucesso de bilheteria não receberam dinheiro público via Embrafilme, Ancine ou lei Rouanet.

    São as produções de Mazzaropi, da Atlântida e dos Trapalhões.

    • Caro Ex-microempresário:

      A maior prova de que quem é talentoso, produz coisa boa, é respeitado e nunca precisou de Lei Rouanet para roubar os brasileiros honestos, trabalhadores e pagadores de impostos, é o cineasta Halder Gomes, que produziu e dirigiu Cine Holyúde, O Shaolen do Sertão, Os Parças, e agora: Cine Holyúde 2: A Chibata Sideral, que estreou no dia 21 de março de 2019, com recorde de bilheteria.

      O cineasta Halder Gomes é exemplo de dignidade sem precisar bajular Louanet para roubar os brasileiros, como o fazem todos os chupadores do pau de Lula!

    • É isto caro Ex-microempresário.[

      Como disse nosso amigo Cícero Tavares, logo abaixo, quem tem talento não precisa de dinheiro público para ter sucesso.

  3. Caríssimo colunista Brito:

    Fiz um comentário supimpa a respeito do seu extraordinário texto sobre o ícone das comédias atlânticas, MAZAROPPI, logo cedo, mas infelizmente, quando tentei enviar, travou, “deu o bode” e eu não o recuperei mais.

    Fica a intenção! E isso é o que conta!

    Nosso editor Luiz Berto realmente criou uma obra-prima chamada de “Jornal da Besta Fubana”, um espaço internético democrático jamais visto em lugar nenhum do planeta, aberto a todas as críticas, opiniões, sugestões, sem discriminação de sexo, raça, cor, religião, o diabo a quatro. Sem contar que, nos comentários, coisa inimaginável em outros jornais, o espaço é uma porteira aberta onde passa boi, cabra, vaca, veado, cavalo, jumento, cachorro, galo, galinha, tudo isso e muito mais de forma democraticamente republicana, com cada um no seu quadrado respeitando o espaço reservado.

    A grandeza dessa Gazeta Escrota está nessa primazia republicana!

    Por exemplo: Não fosse o Jornal da Besta Fubana nós, leitores e colunistas, jamais tomaríamos conhecimento da importância de um memorialista feito o nobre colunista, que resgata dos recônditos personagens que fizeram a história do Brasil, seja na música, no cinema, no teatro, na televisão, e que estavam esquecidos nos índex culturais a esperar de um “resgatador”.

    Parabéns pelo excelente texto nobre colunista. Mais uma vez esse espaço é honrado ótimo excerto a respeito de um ícone: MAZAROPI!

  4. Tens razão Cícero sincero. O JBF é realmente um página valiosa de informações úteis e preciosas.
    Grato pelo reconhecimento da minha modesta contribuição

  5. Recebi do nosso Editor Berto o e-mail abaixo:
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    Já está no ar o seu excelente texto de hoje.

    Como excelente são todos os outros.

    Dá gosto editar uma página que tem um colaborador do seu quilate.

    Que você continue fazendo muito sucesso.

    Abraços e um domingo arretado pra todos nós.

    Berto
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    e mandei-lhe outro dizendo que ao ver tais palavras da Editoria fico ancho que só a bixiga,, como ele costuma dizer, e que ele também é responsável pelo sucesso que esta coluna vem atraindo

  6. Desculpe JONAS, mas eu não concordo com você. Mazzaropi é muito melhor e mais autêntico do que Chaplin. Procure ler a biografia e os fatos reais referentes a
    Chaplin e você vai entender o tipo de pessoa que ele foi. Nunca foi um gênio,
    era maniupulador e muito ambiciosdo, exatamente o oposto do nosso humilde e talentoso Mazzaropi.
    Sorry.

    • Bom, eu ja vi filmes dos 2, na verdade apenas trechos do Mazzaropi, e devo dizer: dou muito mais risada com Chaplin. Mas é isso né, humor é que nem cú, cada um tem o seu.
      Sorry!

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