ORIENTAÇÕES IMEDIATAS

Fernando Antônio Gonçalves

Alguém já disse que os que se esquecem do passado não conseguem bem caminhar para desafiadores amanhãs, mais intrincados que os ontens, onde “todos reconheciam seus lugares.” Alguns livros guardam uma notável atualidade, inúmeros tornando-se releituras obrigatórias para os que desejam, estabelecendo vínculos com o passado, enxergar futuros brasileiros, alinhavando procedimentos estratégicos capazes de viabilizar emergentes e complexos cenários. Para os que buscam adquirir, ou proclamar, ou difundir uma brasileiríssima cidadania, recomendaria uma acurada releitura de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, uma outra de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e o notável O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, esse intelectual com “incrível capacidade de viver muitas vidas numa só”, segundo Antônio Cândido.

Leituras complementares, além disso, também farão um bem “do tamanho de um bonde”, pelo efeito desabestalhador que causam, ampliando criticamente horizontes, eliminando os “obstáculos epistemológicos” tão acuradamente estudados por Gaston Bachelard. Uma delas, eu a encontrei numa estante do saudoso meu pai, desmontada para facilitar mudança de domicílio de mãe enviuvada. De Alceu Amoroso Lima, No Limiar da Idade Nova parece que foi escrito ano passado, tamanhas são as evidências de lá saltadas para um cotidiano ainda pardacento como o atual, nada céu de brigadeiro, muito embora já repleto de assustadores acontecimentos, nos quatro cantos do planeta.

De 1935 e dedicado a Jacques Maritain, o livro do Alceu assim se inicia: “Todo homem que pensa, hoje em dia, compreende e sente que estamos vivendo uma grande véspera da história”. Nas suas pouco mais de trezentas páginas, Alceu vê “a conformidade do presente”, “um cansaço geral”, “tudo envolvido numa atmosfera de aventura e messianismo”. Ele, já no distante 1935, nos adverte, parecendo hoje, sobre as diversas decadências que nos estão afetando: a econômica, a biológica, a política, a moral, a cultural e a religiosa, tudo apontando para “a irremediável dissolução da burguesia clássica, afundada no seu egoísmo, na sua obsessão pelo dinheiro, no seu sexualismo exasperado, no seu abandono de todas as disciplinas do espírito”. E vaticina, exemplarmente antecipador: “Nós, cristãos, devemos trabalhar, portanto, por um mundo novo e não defender o cadáver de um mundo decrépito, corrompido de liberalismo e de socialismo, nem nos devemos empenhar de corpo e alma, em restaurações autoritárias que não são mais, por vezes, do que a deificação da força ou do super-homem nietszcheano e anti-cristão”.

Sou um admirador dos escritos do Alceu. E do homem Alceu, também. E do intelectual que sabia auscultar ditos e ruídos acontecidos quase subliminarmente, imperceptíveis aos olhos pouco calejados de leituras mais descortinadoras. Um convertido, a la Maritain, que defendia uma rehumanização da economia, ao advertir que “todo exagero provoca o exagero contrário”.

E mais ele disse: “Não é possível traçar um quadro uniforme da sociedade contemporânea. Cada país tem seus problemas, cada povo seu temperamento, cada continente sua tradição histórica”. Uma questão eminentemente sociológica, salvo para os que nunca estudaram sociologia. Ou dos que se intoxicaram de ideologias outrora cativantes.

Para melhor conhecer Alceu Amoroso Lima, recomendo a leitura reflexiva das cartas trocadas entre Alceu e Mário de Andrade – Correspondência: Mário de Andrade & Alceu Amoroso Lima, Leandro Garcia Rodrigues (org.), São Paulo, Edusp/PUC-Rio, 2018, 328 p. Um total de 56 cartas trocadas, onde Mário busca vivenciar a incerteza da busca, enquanto Alceu proclamando a certeza dessa mesma busca. Onde Mário identifica um Alceu indigitando uma catolicidade conformista repleta de compromissos fáceis, retratado tal e qual aquele néscio de que fala Gregório de Matos: “Que não elege o bom, nem o mau reprova / Por tudo passa deslumbrado e incerto”.

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