O TELEGRAMA

Violante Pimentel

Minha mãe me contou. Era um começo de noite em Nova-Cruz (RN), quando meu pai chegou do trabalho, trazendo um telegrama vindo de Natal.

À luz de candeeiro, ele leu o telegrama em voz alta, onde viu escrito: “PROFESSOR CELESTINO MORREU.”

Minha mãe, filha de Celestino Pimentel, tomou o telegrama, leu novamente, e gritou: Não foi meu pai que morreu!!! Aqui está escrito “PROFESSOR CLEMENTINO MORREU”.

Muito choro na sala, principalmente da minha avó Júlia, prima/irmã de Clementino Câmara e das tias que tinham estudado em Natal, na sua casa.

Sempre ouvi minha avó falar com muito carinho desse primo/irmão, que ficou órfão de pai aos dois anos de idade, e de mãe, aos nove. Apesar do pai ter sido senhor de engenho, dono de terras e escravos, depois de sua morte, a família passou sérias dificuldades.

Clementino Câmara Nasceu na Praia de Pipa, em Tibau do Sul (hoje, Município de Goianinha), a 17.01.1888

Dona Júlia, minha avó paterna, dizia que Clementino aprendeu a ler atrás da porta, ouvindo aulas particulares.

Ainda garoto, em Natal, começou a trabalhar como serralheiro e depois como operário de fábrica de tecidos (Patronos e Acadêmicos, V. II, p. 194 – Veríssimo de Melo).

Aos 17 anos, em Natal, matriculou-se num Externato, completando sua alfabetização..

Começou a ensinar aos próprios colegas de classe, que tinham mais dificuldade em aprender.

Aos 18 anos, ensinava particular nas residências e também na casa onde morava em Natal, na antiga Rua dos Tocos, cuja sala foi transformada em sala de aula.

Já casado, numa das aulas particulares, mandou para casa, por mau comportamento, o aluno JOÃO CAFÉ FILHO Motivo: Ao ser chamado à atenção, o aluno, muito insubordinado, deu “uma banana” à dona Hilda, esposa do professor. Na época em que não se dizia palavrão, esse gesto significava uma grande irreverência. Professor Clementino nunca imaginou, que, décadas depois, esse aluno insubordinado chegaria à Presidência da República do Brasil, como chegou (Café Filho foi presidente do Brasil entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955. Filho de Presbítero da Igreja Presbiteriana, foi o único potiguar e o primeiro protestante a ocupar a Presidência da República do Brasil (junto com Ernesto Geisel).

Professor Clementino Câmara tornou-se autodidata, dedicando-se à leitura de jornais e se interessando pela História do Brasil e do Rio Grande do Norte.

Firmando-se como professor particular, fez boas amizades e conseguiu emprego num jornal da cidade, chegando a trabalhar como redator. Tempos depois, foi convidado para lecionar no Atheneu Norte-Rio-Grandense e posteriormente na Escola Normal, onde chegou a exercer o cargo de diretor. Sua disciplina era História e Geografia do Rio Grande do Norte.

Publicou as seguintes obras: “Revelações”, “Geografia e História do Rio Grande do Norte”, “Décadas”e “Romance do Atheneu”.

Clementino Câmara, além de professor, consciente das funções que exercia e da dedicação com que assumiu o magistério durante toda a sua vida, tinha dois posicionamentos não aceitos pela Igreja católica, nem pela forma de governo da época. Ele havia assumido sua função de intelectual, junto à Maçonaria e à Igreja Presbiteriana. Os dois posicionamentos se opunham aos princípios religiosos dominantes.

Pesquisou a linguagem popular e os costumes do povo do agreste, do campo e das praias, fazendo anotações, que se tornaram preciosas em sua vida literária. Transformou sua longa pesquisa em livro, ao qual deu o título de “GERINGONÇA DO NORDESTE.” (1937)

Esse livro merece uma especial atenção, pelo fato de ter sido censurado durante o Estado Novo. O livro buscava tratar a questão do estudo realizado por Clementino Câmara, sobre os termos falados pelas classes populares do sertão, agreste e praias do Nordeste. Na verdade, era um grande dicionário de gírias populares e que, por se tratar de um patrimônio intelectual da cultura potiguar, deveria ser publicado pelo governo do Estado, com base na lei estadual 145, que versava sobre o custeio de publicação de livros escritos por autores potiguares.
A recusa veio, então, pelo interventor Rafael Fernandes Gurjão, por meio do parecer emitido por uma comissão que julgara o livro como “ INADEQUADO E ATÉ PERIGOSO” para os jovens que porventura o lessem.

Por falta de sorte, o requerimento foi parar nas mãos do Cônego Amâncio Ramalho, Diretor do Departamento de Educação do Estado e guardião dos interesses do Estado Novo, em se tratando de política educacional. O trabalho foi jogado no Arquivo Público Estadual, como se fosse lixo.

Em 1986, conforme relata Geraldo Queiroz (op. cit., p. 17 a 21), localizou-se um processo no Arquivo Público Estadual datado de 4.10.1937, no qual Professor Clementino Câmara, invocando a lei estadual nº 145, de 6 de agosto de 1900, de incentivo à cultura, sancionada pelo então Governador Alberto Maranhão (V. “MARANHÃO, Alberto Frederico de Albuquerque”, Século XIX), solicita a publicação de um estudo sobre as classes populares do sertão, agreste e praias do Nordeste, onde colhera elementos para constituir um vocabulário típico e que, assim entendia, logo seria incorporado ao léxico. O Governador, à época Rafael Fernandes, que em pouco tempo seria Interventor, indeferiu o requerimento, face ao parecer contrário recebido. Entre outros argumentos, alegava-se o realismo de certas expressões que não podiam cair em mão de pessoas de pequena idade. (Na verdade, Dr. Edgar Barbosa, um dos Membros da Comissão, aprovara-o, reputando-o como ótimo glossário de modismos, dos mais completos que já se editaram no Brasil. Acompanhando-o, apenas sugerira a exclusão de alguns termos; o terceiro membro, Sr. Véscio Barreto, omitira-se e o Cônego Amâncio Ramalho, na condição de Diretor do Departamento Estadual de Educação, encaminhara a decisão).

Cinquenta anos depois, “post mortem”, ironicamente, seu trabalho seria reconhecido. Clementino Câmara, primeiro ocupante da Cadeira nº 19 da Academia Norte-rio-grandense de Letras, é nome de rua, de escola e de Loja Maçônica, em Natal. Faleceu, em Natal, a 18 de setembro de 1954. Levou para o túmulo essa mágoa.

Mas, se isso serve de consolo, cinquenta anos depois, seu trabalho foi encontrado no Arquivo Público Estadual, resgatado e estudado por um aluno de pós-graduação da UFRN, que o usou como tese. Após aprovação da tese pela Comissão Especial da UFRN, o livro do Professor Clementino Câmara, GERINGONÇA DO NORDESTE foi publicado, com o subtítulo A FALA POPULAR DO POVO, onde na capa figura apenas o nome do autor Geraldo Queiroz, e já está na 2ª Edição (Natal -2009).

4 pensou em “O TELEGRAMA

  1. Nesse dia, não. Tinha morrido CLEMENTINO (Professor Clementino Câmara).. Professor Celestino só morreu em 1967. Meu pai confundiu os nomes, à luz de um candeeiro.

  2. Cara Violante: Então, quer dizer que o livro é de Clementino Câmara, mas é Geraldo Queiroz que aparece como o autor? É isso mesmo? Já vi várias vezes esse livro exposto na Livraria Saraiva e não me interessei por ele, por achar que fosse escrito por Queiroz. Poderia me esclarecer sobre isso? Agradeço antecipadamente. Um abraço.

  3. Boa noite, prezado Francisco Sobreira! Comprei o livro, porque gostei do título. Tive uma grata surpresa, em casa, quando vi que era um trabalho de pós-graduação, baseado no livro Geringonça do Nordeste (1937), de Professor Clementino Câmara, cujo pedido de publicação com respaldo na lei estadual 145, de 1900. foi indeferido, e passou cinquenta anos jogado no Arquivo Público Estadual. Por sorte, foi encontrado.
    Alberto Maranhão abriu as portas do jornal “A República” para os talentos da terra e,
    enfim, sancionou a lei nº. 145, de 6 de agosto de 1900, autorizando o Tesouro Estadual publicar obras
    literárias de efetivo interesse para a cultura norte-rio-grandense. “Um dos raros homens de Estado
    preocupados e enamorados pela cultura literária, arte, música”, dele disse Câmara Cascudo (História do Rio
    Grande do Norte, p. 491).

    Um abraço.

Deixe uma resposta