O SOCIALISMO EM SEU ESTÁGIO MAIS AVANÇADO

Houve um tempo em que Luís Fernando Veríssimo era um escritor inteligente. Certa vez, ele escreveu, em tom de brincadeira, que o Brasil deveria adotar o socialismo, mas pular as etapas intermediárias e ir direto ao estágio mais avançado, que é reconhecer que ele não funciona.

Bem existe um país socialista no mundo que está se dando muito bem. Sabe por que? Porque adotou o capitalismo. Conheça agora o Vietnã.

O Vietnã é um país pouco maior que o estado de São Paulo, com uma população de quase cem milhões. Ocupa uma região do sudeste da Ásia conhecida como Indochina, tendo como vizinhos Laos e Camboja. No século XIX, tornou-se uma colônia da França. Em 1940, durante a II Guerra, foi invadido pelo Japão. Em 1954, foi dividido em dois países, um ao norte, ligado à China e à União Soviética, e outro ao sul, mais alinhado aos países do ocidente.

Logo após a divisão, o Vietnã do Norte começou a atacar de várias formas o governo do Vietnã do Sul, até chegar à guerra aberta. Em 1964 os EUA passaram a participar ativamente desta guerra ao lado do sul, o que durou até 1975. Quando os EUA se retiraram, o país foi reunificado sob o comando do Vietnã do Norte.

Até hoje, o Vietnã pode ser considerado uma ditadura, sob o comando do Partido Comunista do Vietnã, o único permitido pela constituição (existem vários “partidos” que disputam as eleições, mas todos eles devem ser associados ao PCV e obedecer a ele). Porém, em termos econômicos, um congresso do partido em 1986 definiu que o país deveria seguir uma “economia de mercado de orientação socialista”. Desde então, não há restrições para a propriedade privada, investimentos estrangeiros são bem-vindos, os empreendedores são incentivados e há poucas regulações governamentais sobre a economia, embora existam várias empresas estatais.

Como resultado, este pequeno país é um dos maiores exportadores mundiais de arroz e café, e o maior produtor mundial de castanha-de-cajú e pimenta-do-reino (sim, este pequeno país, 25 vezes menos que o Brasil, produz dez vezes mais castanha-de-cajú que nós). Indústrias estão se instalando. O turismo vem crescendo a passos largos. A revista inglesa The Economist afirmou que no Vietnã os “líderes comunistas são ardentemente capitalistas”.

O depoimento a seguir é do arquiteto e escritor João Cesar de Melo:

“Nas ruas das grandes cidades vê-se apenas capitalismo. Comércio. Milhões de pessoas comuns tentando atingir seus objetivos particulares. Milhares de empresas visando ao lucro. Publicidade por todos os lados. Grandes marcas internacionais, shoppings e bancos correlacionando-se com pequenos negócios, criando diversos níveis de renda, que criam diversos padrões de produção e de consumo, que dinamizam e fortalecem a economia como todo, distribuindo legitimamente a renda entre aqueles que trabalham. [..] Os vietnamitas levam tudo o que se pode imaginar (incluindo a família inteira) na garupa de suas motocicletas e oferecem diversos serviços (de pequenos restaurantes a barbearias) nas calçadas, sem qualquer regulamentação ou repressão.”

Interessante notar que enquanto os intelectuais brasileiros querem de todo jeito que as pessoas se movimentem através de transporte coletivo e estatal, no socialista Vietnã as pessoas preferem se locomover por conta própria em suas motos. Interessante também notar que as pessoas lá parecem saber cuidar de si mesmas, enquanto no Brasil muitos acham que a vida seria impossível sem um governo para regulamentar tudo, da quantidade de sal na comida até a lanterna da moto, passando, é claro, pelos patinetes. Continuando com o João Cesar:

“O Vietnam ilustra muito bem a correlação entre liberdade econômica e prosperidade social. Nenhum governo teria condições de oferecer aos vietnamitas o que o mercado lhes oferece hoje, principalmente o orgulho de saberem que tudo o que consomem vem do trabalho, não do estado. Num país com renda per capita anual de apenas USD 6 mil, vemos pessoas pobres bem vestidas, que se refrescam à noite com ventiladores ou aparelhos de ar-condicionado, que guardam alimentos em geladeiras, que se iluminam com lâmpadas, que cruzam as cidades em motinhos e que levam nos bolsos telefones celulares tão modernos quanto os encontrados no Japão, nos Estados Unidos ou na Europa. São coisas assim – não discursos socialistas ? que melhoram as vidas das pessoas. Visitei cidades pequenas e grandes. Cruzei o país de norte a sul de trem. Comi a comida deles nos restaurantes que eles frequentam. Passei dias inteiros andando nas calçadas. Só vi desenvolvimento baseado em comércio, em liberdade para viver, trabalhar e enriquecer. Vi pobreza em alguns lugares, mas não miséria. Vi um país inteiro trabalhando duro sem qualquer ideologia carimbada na testa. As bandeiras comunistas que pontilham a paisagem das cidades mostram-se como alegorias de um carnaval antigo. A propaganda anti-americana provoca gargalhadas quando olhamos ao redor e vemos os comerciantes preferindo dólares a dongs (moeda local), o McDonald’s lotado de vietnamitas, um grande hotel chamado Times Square, compras sendo pagas com Visa e Master Card, pessoas comuns vestindo Tommy Hilfiger, calçando Nike, bebendo Coca Cola, todas conectadas entre si e com o mundo pelo Facebook e Whatsapp.”

Nos últimos anos a inflação ficou abaixo dos 4% e o desemprego abaixo dos 3%. O PIB vem crescendo acima de 5% ao ano desde os anos 80. O mais importante: sabem quanto os vietnamitas pagam em impostos ao governo “comunista”? 14%. Sabem quanto pagamos no Brasil, para um governo que alguns reclamam ser “neo-liberal”? 38%

Podemos concluir disso tudo que o capitalismo não depende do governo, depende da liberdade. Claro que uma democracia é melhor que uma ditadura em vários aspectos, mas o livre mercado pode tornar ambas equivalentes do ponto de vista econômico. Se um regime não-democrático como o Vietnã permitir que as pessoas tenham liberdade para trabalhar, produzir, comprar e vender, haverá progresso e riqueza. Este progresso muito provavelmente acabará por conduzir o país a um sistema político mais livre.

* As citações de João Cesar de Melo são de um artigo seu publicado em Instituto Liberal

10 pensou em “O SOCIALISMO EM SEU ESTÁGIO MAIS AVANÇADO

  1. Comunismo com liberalismo econômico é que alguns chamam corretamente de capimunismo. Funciona em países em que a população nunca teve tradição de liberdade individual, normalmente as asiáticas.

    Lá também tem um rígido código de conduta entre os governantes comunistas, que quando é pego roubando pouca coisa, vai ao pelotão de fuzilamento em curto espaço de tempo, paga a bala usada e sua família cai em desgraça.

    Aqui no Brasil isso jamais seria viável, por tradições culturais. Vejam os casos de Venezuela e Cuba. São nossas referências para a implantação do socialismo. Portanto comparar com os casos asiáticos não cabe.

  2. Não cabe? Uma ova!
    Cabe sim, a comparação feita por Marcelo, e muito bem.
    A coisa mais fácil de se mudar, quando se sabe como fazer, é mudar a cultura predominante em um grupamento humano. Só precisa que os líderes tenham a virtude necessária para dar o exemplo e saibam como gerenciar adequadamente o processo de mudança.
    Infelizmente, ambas as coisas são extremamente raras por estas bandas da América Latina: Líderes virtuosos e competentes no gerenciamento das mudanças.
    Durante grande parte da minha vida profissional, este foi o meu trabalho junto a grandes organizações. Sempre funcionou! Por que será que comigo funcionou e não funciona com o Brasil?

    • Não cabe comparação, pois o capimunismo existente em alguns asiáticos não se aplicaria no BR.

      No Capimunismo os direitos coletivos prevalecem sobre os individuais e a liberdade individual e de pensamento é zero.

      Aqui precisamos de liberalismo econômico com liberdades individuais e liberdade política.

      • João, no Vietnã existe bastante liberdade individual e o governo já parou de falar em direitos coletivos e luta de classes faz algum tempo.

        É verdade que falar mal do governo ainda não é bem recebido, mas o que eu quis mostrar em meu artigo foi justamente que eu prefiro não poder falar mal do governo COM liberdade econômica do que SEM.

        • Único ponto que discordo. Prefiro poder criticar e ter liberdade econômica. Ainda é um sonho para o Brasil, mas realmente prefiro assim. Meu motivo são as benesses eventuais do mercado mundial, que pode favorecer governos incompetentes e a velha escumalha populista de sempre, qualquer que seja sua vertente política. Aqui temos liberdade de crítica e a mão pesada do estado, em três níveis diferentes, e é isso que precisa e deve ser corrigido. E é exatamente isso que 57 milhões de eleitores esperam do atual governo. De resto, parabéns, uma ótima aula.

  3. E que vantagem o povo tem podendo falar mal do governo? Só se fala mal do que não funciona. Se o governo da China, do Vietnã ou seja lá de onde for der as condições necessárias para as pessoas viverem e se desenvolverem, pouquíssimos vão querer falar mal.

    Quanto a direitos coletivos no Brasil é como caviar. Nunca vi nem comi, só ouço falar.

    • E os direitos individuais básicos (saúde, educação, segurança, poder empreender, viajar, casar, separar, etc, etc) parecem bem assegurados por lá. Talvez não possam votar.
      Mas o que adianta isso para nós. Temos os piores e os mais caros políticos do mundo.

  4. O grande problema para nós é que, conhecendo nossos representantes, tenho quase certeza que jamais se adaptariam a algo parecido. Para eles, tem que haver tetas suficientes a toda a súcia.

    Só se conseguíssemos trocar quase todos.

  5. Prezados amigos,
    Eu sou espírita Kardecista e acredito firmemente que nossa missão nesta terra é trabalhar pelo nosso aperfeiçoamento.
    Minha proposta é que ajudemos esses políticos ladrões a acelerar seu processo de desenvolvimento. Vamos despachá-los todos para as profundas dos infernos, que é para ver se, da próxima vez que vierem, retornam um pouquinho menos canalhas.
    Uma conversa de pé de orelha com o satanás lhes faria muito bem. Quanto antes melhor!

Deixe uma resposta