O NOIVADO

Violante Pimentel

Dona Nazinha , viúva, tinha uma filha única, Maria das Dores. Ficava louca de preocupação quando Felisberto, seu futuro genro, chegava em sua casa para “noivar”, todas as noites.

Nesse tempo, anos 60/70 do século passado, era tradição as jovens casarem virgens. Também não saíam sozinhas com o pretendente, nem para assistir Missa. Todo cuidado era pouco, e as mães não confiavam nem nas ”batatinhas”.

Astuciosa como todas as mães, Dona Nazinha, para acalmar sua neurose, instalou o seu velho piano na sala de visitas, e no horário nobre do namoro da filha, permanecia executando alguma partitura musical do tempo do “ronca”. Às vezes, para tormento do casal, a distinta senhora resolvia cantar, com sua voz estridente e feia, acompanhando-se pelo instrumento de estimação. Às suas costas, a filha e o noivo, no sofá, namoravam como podiam.

Certa noite, a educada senhora demonstrou cansaço e resolveu deixar o casal a sós, longe da sua fiscalização. Justificou-se, alegando estar com dor de cabeça e que iria tomar um analgésico para repousar. Não se rendeu, e de cinco em cinco minutos, posicionava-se perto da sala, para olhar como estava o “namoro” e ouvir o que os dois pombinhos conversavam. Mas, logo teve uma decepção. Cismada com o silêncio dos namorados, adentrou à sala e viu o casal em pé, abraçado, e num beijo de “desentupir pia”. Os dois nem sequer perceberam a presença de Dona Nazinha, que voltou para o quarto em pânico.

Mais que depressa, a mulher pegou um despertador e programou para que “despertasse” a cada 15 minutos, na entrada da sala. Na cabeça de Dona Nazinha, isso seria uma forma de interromper o que o casal estivesse fazendo. A cena se repetiu por várias noites, até que o noivo, não aguentando mais o controle da futura sogra, resolveu antecipar o casamento.

Para decepção de Dona Nazinha, cinco meses depois do enlace, sua filha foi mãe e ela foi avó de um menino. O impacto da mulher foi grande. Sentiu-se traída miseravelmente pela filha e pelo genro. Viu que fizera papel de idiota, ao tentar fiscalizar o noivado da filha e preservar a sua virgindade.

2 pensou em “O NOIVADO

  1. Ela não teria do que se queixar nos dias atuais. O bebe nasce antes de começar o namoro propriamente dito, e a maioria nem casa. Tempos recatados aqueles!.

    • Obrigada pelo comentário, prezado Joaquimfrancisco! Realmente, os costumes mudaram bastante, nas últimas décadas., Com a independência financeira da mulher, ela se permite ser mãe solteira, enjeitando casamento. Os pais ficam chocados, mas terminam aceitando..

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