NOS TEMPOS DA BALADEIRA

Baladeira de menino macho

Como sempre tiveram o rabo muito comprido, os tempos da saudade e da malinagem dos meninos dos anos que ainda estão se bulindo dentro dos caixões de madeira, ainda podem ser alcançados, pois estão acabando de dobrar a última esquina. Percure e verás!

Mas, percure mesmo, como se estivesse bulindo nessa porra de telefone celular. E, se tu não achar, é por causa que é uma besta quadrada. Ou nunca fostes criança!

As férias do final do ano eram as mais melhor, apois duravam quase que o final do mês de dezembro, o mês de janeiro todinho, e mais a premêra semana de fevereiro. Contanto nos dedos das duas mãos e nos dedos todinhos dos dois pés, ainda vai faltar dedo prumode dar certim.

Aí a gente se danava a malinar, caçando passarinho. A gente fazia espeto de passarim prumode ajudar Vovô e Vovó no dicumê que dá sustança.

Nós era uma primaiada só. Do lado dos fios da Tia Maria com Tio Antônio, era uma reca grande, mas tinha mais mulher. Homem mesmo, eram apenas três: Zé Luciano, Raimundo Lúcio e Sebastião. Os outros irmãos era tudo mulher. Adispois nós soube que quase tudo deu pra rapariga. Teve até uma (Elzidan) que botou venda de auferecer xiri em Casa Amarela, bem no centrim de Recife.

Sebastião, dos três primos machos, era o que mais sabia caçar de baladeira, e tinha boa pontaria. Tinha preferência pra matar beija-flor, apois gostava de procurar a bichinha se debatendo entre as folhas secas, pegar as duas partes do bico, rasgar e engolir o coração das bichinhas.

– Zé, é prumode ficar caçador melhor, e com mais sorte!

Esse era o dizer dele, Sebastião. Os outros passarinhos, quando a gente matava ia botando dentro do bornal carregado à tiracolo.

Quando a gente chegava em casa ia pelar os bichos. Tinha rolinha, tinha sabiá, tinha papa lagarta, e, às vezes, tinha até camaleão. Dava uma boa espetada e ajudava sim, a acompanhar o feijão de corda com rapadura raspada, farinha seca, tudo misturado com maxixe e jerimum – nunca comemos comida mais saudável, pois ninguém nem sabia que diabos era agrotóxico.

Foto 2 – Beija-flor para a enfiada no espeto

O camaleão a gente tinha que comer no mesmo dia, pois a clorofila que saía do monstrengo ficava parecendo “pus” – minha Avó não comia, pois tinha nojo. Era sabida, e ao mesmo tempo abestaiada.

A gente que fazia a própria baladeira. Cortava as câmaras inservíveis de pneus, fazia as tirinhas e estava pronta a baladeira, com uma funda de couro velho e um bom cabo de jucá. As “balas” eram pedras catadas com esmero na beirada do açude, e todas tinham que caber na funda, para garantir melhor impulsão.

Sebastião tinha uma mania: a cada 100 passarinhos que matasse, fazia uma marca com canivete no cabo da baladeira. Contava até 100, com castanhas de caju, que separava em duas latas de leite Ninho.

Tínhamos dois momentos diferentes nas férias: de alegria, quando elas começavam, e tinha até quem fosse nos esperar no ponto do ônibus; e, de tristeza, quando chegava a última semana, e a gente sabia que as aulas recomeçariam.

Tanto uma coisa (a chegada), quanto a outra (o término), ainda fazem lacrimejar os olhos. Malinagens de crianças que sabiam o que era a felicidade.

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  1. José, aprecio muito as crônicas de reminiscências da infância, porque quando as leio me lembro da minha, tão feliz que dá uma saudade que dá gosto.
    Lá no interior de Minas, na Zona da Mata, baladeira era atiradeira. Se você quisesse falar difícil chamava de estilingue.
    E bornal a gente chamava de embornal.
    Mas a alegria era a mesma que a tua.

    • Goiano, bom que tivemos a sorte de ter infância. Muitos “atiravam” com a baladeira, atiradeira ou estilingue, por diversão e sem maldade. Mas, nós da minha árvore genealógica, atirávamos era para suprir a necessidade de não ter o que comer. Ainda assim, as recordações também são boas.

  2. Ganhei o domingo, voltei no tempo, é sempre uma “delícia” ler suas cronicas, com as quais me identifico sempre, Ah as baladeiras…quem não as tinha? Sempre fui ruim de mira, tinha vergonha, hoje tenho orgulho (adoro pássaros soltos), não usava cabo de jucá, era difícil encontra-los, mas no mangue na foz do rio cocó, tinha uma planta chamada de grão de galo que era perfeita. Isto chama-se memória afetiva, ninguém esquece ou apaga e é maravilhoso lembrar. Obrigado amigo!

    • Marcos: eu sou do tipo que ainda manda flores! Sou “antigo e saudosista” e isso me alegra, em vez de incomodar. Você citou o Rio Cocó. Tenho ido pouco a Fortaleza e quase nunca vou para aqueles lados – embora tenha muita ligação afetiva, pois nasci no povoado Queimadas, município de Pacajus. Quando não precisávamos ir até Fortaleza para resolver problemas, íamos somente até Messejana, que foi onde fui “registrado”. Eu sabia que estava chegando a Fortaleza, quando avistava as carnaubeiras do Rio Cocó. Depois vinha a Aerolândia, que a gente seguia para o Centro de Fortaleza, ou pegava a Avenida 13 de Maio para ir para o lado do Benfica. Ainda tá tudo na memória. Até o Cine Atapu! Grato por você ser meu amigo. O que você faz em Brasília?

  3. Eita! Aqui na periferia de São Paulo, anos 70 (do século passado!!) chamávamos de estilingue, alguns colegas, vindos do interior, chamavam de bodóque.

    Também caçávamos passarinhos, mas o melhor uso da “arma” era pra dar combate aos meninos da outra rua, de quem éramos rivais. Nas batalhas de estilingue me sentia numa trincheira da segunda guerra, ou num filme de bang-bang. Taquipariu, que saudade!!!

    Obrigado Zé pela recordação.

  4. Meu caro Zé. Eu sabia que voce era e é um escritor de qualidade. Este seu texto de hoje , para mim é uma obra prima de regionalismo, saudade, lembranças que se tornaram inesquecíveis e de belíssima qualidade. Ao ler o seu texto eu me transportei a sua região, seus parentes, amigos e afins e digo que sinceramente
    senti inveja de tanta lembrança maravilhosa de infância.
    Gostei muitíssimo do seu linguajar. O escritor puro sempre usa o regionalismo
    como base e os talentosos como você e o nosso amigo Berto, criam, inventam palavras para que seu texto retrate o verdadeiro regionalismo que ainda está
    embutido na sua mente.
    Continue, vá adiante, pois esperamos muita coisa que , estou certo ainda vai
    sair dessa cabeça inteligente.
    Um grande abraço. Continue, não me decepcione.

    • D. Matt: se é assim, que assim seja. Vivemos num país de dimensões continentais. Tudo é “regional”, tudo é “regionalismo” – mas tudo também tem uma procedência.No Pará e no Amazonas o índio usa o “urucum” para dar coloração à comida e para manifestar beleza pessoal ou afrontar os maus espíritos na guerra; esse mesmo índio que migrou de um lado para outro até encontrar o que lhe agradou, é o mesmo índio que “descobriu” a erva mate no Rio Grande do Sul, e muitos acham que é invenção gaúcha. E o que quero dizer com isso? Nós somos iguais, aqui ou alhures. Somos exatamente iguais às mães, que só mudam de endereço. Obrigado pelo comentário incentivador.

  5. Eita, seu Zé Ramos. Hoje você foi longe e me transportou junto. A baladeira foi minha companheira por um bom tempo. Matei minha primeira rolinha aos sete anos. Num pátio em frente à casa que morávamos, no sítio Carrapateira, município de São Tomé-RN.

    Foi sem querer querendo. Havia muito mata-pasto nesse pátio e juntavam-se tantas rolinhas para comer suas sementes que quase não se via o chão. Ganhei a “arma” de alguém que não recordo e comecei a praticar. Mal conseguia distender as ligas, pois não tinha força suficiente.
    Mas a vontade era grande. Apontei para o lado onde estavam as rolinhas e larguei a pedra, que voou uns cinco metros e caiu no chão.

    Para minha surpresa e regozijo, uma rolinha começou a se debater próximo ao local onde a pedra havia caído.Corri até lá e acabei de matar a pobrezinha, que ainda era uma “adolescente” e talvez por isso tenha sucumbido ao impacto da pedrada. Depois dos 12 anos tornei-me quase um profissional.

    • Canindé: você me fez lembrar outro primo que eu tinha. Era irmão do Sebastão, mas ainda era muito jovem. Nos acompanhava nas caçadas. Um dia Sebastião fez uma cosia que até hoje entendo como tenha me ensinado o que é incentivo ou solidariedade. Ele, Sebastião, tinha umas quatro rolinhas já “caçadas” dentro do bornal. Olho o irmão mais novo tentando matar um “papa lagarta”, pássaro de penugem completamente diferente da rolinha. Sebastião foi por trás e, escondido, quando o irmão atirou no pássaro que via, ele jogou uma rolinha morta no chão, próximo de onde o caçula havia atirado. Foi uma festa. Sebastião dizia: “olha aí irmão, você matou. Você agora é um bom caçador.”! É assim até hoje a boa criança do interior.

  6. Caro José. Gosto muito de ler suas crônicas, sempre carregadas de muita autenticidade e, também de, porque não lembrar, muita nordestinidade.Sou paraibano de Mogeiro, e esse seu texto, embora já conte 65 anos, ainda deixou-me com um entalo, ao lembrar de todas essas coisas. Muito obrigado

  7. Parabéns pelo belíssimo e emocionante texto, prezado escritor José de Oliveira Ramos! Seus escritos fazem bem à nossa alma! Adorei!!!
    Um grande abraço!

    Violante Pimentel Natal (RN)

    • Violante: amiga estou lendo o “meu livro” aos poucos. Depois te envio comentário. Obrigado por ler minhas mal traçadas linhas, e gostar. Abrace carinhosa e respeitosamente “minha sobrinha” Diana.

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