MEU PITACO SOBRE A PREVIDÊNCIA

Minha mulher me disse: “Legal a estória das melancias, mas você podia falar da previdência, que é o assunto do momento.”

Bem, para explicar a previdência nem precisa de melancias:

O João tem dois irmãos e duas irmãs. Quando seus pais ficarem velhinhos, o João sabe que a tarefa de cuidar deles será dividida entre os cinco. Além disso, o pai dele tem irmãos e vários sobrinhos, e a mãe dele também, então sempre vai ter alguém para dar uma mãozinha.

No outro lado do mundo, o Wu é filho único. O pai dele é filho único e a mãe dele também. O Wu sempre pensa que quando os pais dele se aposentarem, ele vai ter que cuidar deles e do vovô e da vovó e do outro vovô e da outra vovó, sozinho.

A situação da previdência do Brasil não é mais a do João. Ainda não é a do Wu, mas está indo nesta direção. Em palavras diretas: tem cada vez mais gente aposentada e cada vez menos gente trabalhando para sustentar a todos. (se fosse para continuar o tema da minha última coluna, todo mundo acha que tem direito a ganhar melancia, mas tem cada vez menos gente plantando).

Se é tão simples, porque parece tão complicado?

Primeiro: Brasileiro gosta muito de privilégio, nem que seja pequeno. Todo mundo gosta de saber que tem um “direito” a mais que o vizinho.

Segundo: Brasileiro acredita que o governo “dá” coisas para nós. Não é uma questão de lógica, é uma questão de fé.

Terceiro: Brasileiro gosta muito de achar culpados. Quando falam que o governo vai mexer no bolso dele, é grande a tentação de sair gritando “a culpa é dos políticos”, “a culpa é dos militares”, “a culpa é dos corruptos”, “a culpa é de sei lá quem, mas minha não é”.

Quarto: Seguindo uma longa tradição, a comunicação do governo trata o brasileiro como idiota. A TV deveria mostrar algo como “Nossa previdência gasta X e nossa arrecadação é Y; X está crescendo Y não; se continuar assim o país vai quebrar”, mostrando os números e os fatos. Ao invés disso, o governo faz comerciais com pessoas sorridentes e frases vazias dizendo “a nova previdência é boa porque o governo sempre está certo; você só precisa confiar cegamente.” A burrice é tanta que ao invés de usar a expressão certa, “reduzir o déficit”, usam “fazer economia”, o que já induz uma reação negativa: “vão fazer economia com a minha aposentadoria?”

Quinto: Temos um monte de gente que, na falta de algo melhor para inflar sua auto-estima, decidiu ser “resistência”, ou seja, ser contra o governo sempre, não importa o quê seja. É uma grande massa de tolos repetindo slogans sem sentido que leram nas redes sociais. Na próxima vez que você escutar alguém gritando “Regime de capitalização nunca! Olhem o Chile!”, pergunte: “É mesmo? O que aconteceu no Chile?”. Provavelmente você verá um jovem engasgado, porque só disseram para ele repetir “Olhem o Chile!”, sem explicar. Se ele tiver um pouco de iniciativa, vai repetir alguns clichês sobre “prejudicar os pobres”, “enriquecer os banqueiros” e coisas assim. Provavelmente estes clichês serão fundamentados apenas em uma enorme esperança de que sejam verdade, porque na verdade o pobre jovem não é capaz de dizer uma só frase contendo fatos sobre a previdência chilena.

Um conselho? Procure pelos FATOS e pelos NÚMEROS. Sem números, as pessoas dizem “é só tirar daqui e colocar lá”, sem ter idéia de quanto tem aqui ou de quanto precisa lá.

Então, para ajudar (e lembrando que não sou especialista em coisa nenhuma), alguns fatos e números:

– O governo arrecada dinheiro sob dois nomes principais: “impostos” e “previdência”. No fundo é a mesma coisa: o governo – que não produz nada – tomando de quem produz.

– O governo usa o dinheiro que arrecadou em duas coisas: Pagar seus próprios salários (e gabinetes, carros oficiais, lagostas e vinhos premiados) e fornecer serviços que as pessoas pensam que é “de graça”, incluindo aposentadorias.

– Em 2018, o governo gastou 10 bilhões em segurança, 100 bilhões em educação, 110 bilhões em saúde e 716 bilhões em aposentadorias. (leia de novo, com calma: o governo gastou com aposentadorias mais que o triplo de saúde e educação juntas). Tem gente que argumenta que contabilmente não há déficit da previdência, o que há é que o governa desvia recursos da previdência para outras áreas. Em outras palavras, para resolver o problema da previdência é só tirar da saúde, da educação, da segurança e de onde mais precisar.
– Estes 716 bilhões representaram 53% das despesas primárias do governo federal em 2018.

– Se o sistema atual for mantido, daqui a sete anos esta despesa atingirá 80%. (Isto não é um chute: é só pegar o cadastro dos contribuintes e somar quantas pessoas vão atingir as condições para se aposentar).

– Para resolver isso, ou se gasta menos (é o que a reforma quer fazer) ou se arrecada mais (aumentando impostos). Caso alguém diga “dá para arrecadar mais se a economia crescer”, pergunto: fácil assim? como?

– Para comparar: O Brasil gasta 13% do PIB em aposentadorias, contra 10% da Alemanha e 9% do Japão. Há países que gastam tanto ou mais que o Brasil? Sim: França, Portugal, Itália e Grécia. Todos estão quebrados. Note também que todos estes países tem uma população idosa muito maior que o Brasil, o que significa que eles não tem muito como piorar, enquanto nós sim. Note também que em todos eles a idade mínima para se aposentar já é acima dos sessenta há décadas. No Brasil, a idade média das aposentadorias por tempo de serviço é 54 anos.

Importante: estes números deveriam estar sendo divulgados todo dia na TV. Ao invés disso, o governo coloca nos seus sites balanços enormes tão cheios de rubricas e sub-rubricas, que dá para tirar um monte de números diferentes para cada coisa, dependendo do que incluir ou não em cada um. Por isso, não estranhe se você encontrar na internet números diferentes destes que eu mostrei.

Concluo com minha opinião pessoal: o problema não é a previdência, é a mania de achar que o governo nos dá coisas de graça. Solução: capitalização individual, privada, com a maior liberdade possível, garantida por uma rede privada de seguros e resseguros. E para quem não tem capacidade de organizar sua própria vida e seu próprio futuro, salário mínimo pago pelo governo, com o nome de assistência social, não previdência.

14 pensou em “MEU PITACO SOBRE A PREVIDÊNCIA

  1. Caro Marcelo,
    Assino embaixo de cada palavra de seu texto.
    Só para constar, o governo não “gasta” nada com previdência.
    PREVIDÊNCIA É POUPANÇA!
    Eu boto dinheiro nessa espelunca há mais de 40 anos. Agora, na hora de usufruir, veem me dizer que o dinheiro sumiu. Para onde? Com quem? Sumiu com as generosas aposentadorias de todos os nababos do serviço público e com todas as roubalheiras governamentais.
    EU QUERO MEU DINHEIRO, PORRA!

    • Adônis, permita-me corrigi-lo:
      Previdência DEVERIA SER poupança.
      Mas por estas bandas, nada é o que deveria ser.
      E infelizmente, o dinheiro sumiu mesmo.

      • Além disso, Marcelo, no sistema atual só os barnabés poupam (contribuem) para se aposentar.
        Há inúmeros carrapatos sugando a “poupança” desses trabalhadores. Políticos, marajás e outros cidadãos que nunca contribuíram mas passam a receber um benefício do estado quando completam 60 anos, como os trabalhadores rurais. Muitos, diga-se de passagem, nunca viram uma enxada de perto, quanto mais uma roça.
        Parabéns. O texto retrata com precisão a desgraça da nossa previdência atual e a incompetência do governo em vender a ideia da nova.

        • Corrigindo. Contribuem com valores equivalentes ao benefício ou algo parecido. Alguns carrapatos contribuem também, mas se aposentam com valores integrais.

  2. Corrigindo. Contribuem com valores equivalentes ao benefício ou algo parecido. Alguns carrapatos contribuem também, mas se aposentam com valores integrais.

    • Isso. Deputados e vereadores se aposentam com dois mandatos (e o Brasil tem 55.000 vereadores). E em época de eleição os vereadores fazem a festa arranjando aposentadoria rural para gente que nunca viu uma enxada, exatamente como vc falou.

  3. Caro Marcelo. Muito lúcido seu texto, contudo, com sua vênia, gostaria de dizer que , se é pra, depois de uma vida inteira de contribuição, o Governo vem e manda me virar, porque não vai “me dar dinheiro”, então reduza essa carga tributária desumana, libere pagamento de IPVA, etc, que só servem pra manter a ” vida boa” dessa casta de sanguessugas.

    • Sem dúvida precisa reduzir a carga tributária. Mas para isso é preciso que o povo pressione.
      Mas é para pressionar mesmo, não só compartilhar meme no facebook.

  4. ***
    O fato é que o sistema de previdência atual é um esquema Ponzi, uma pirâmide financeira, e só funciona enquanto a base é muito maior que o topo e os ocupantes do topo fazem o favor de desocupar logo a vaga (se é que me entendem).
    Em um cáculo simplista, na base de cerca de 20% por empregado/patrão, cinco trabalhadores sustentam um aposentado no mesmo nível de renda.
    Ocorre que o desenvolvimento tecnológico foi tão maravilhoso que fez os ocupantes do topo ficarem mais tempo e suprimiu milhares de vagas de empregos da base de contribuintes da previdência.
    A base ficou menor e a pirâmide não tem como se manter.
    Logo, qualquer que fosse o governo teria que mudar para capitalização.
    Capitalização forçada já que o brasileiro adora se endividar e não é de fazer poupança.
    O governo não pode também dizer isso, salvo um deputado que falou na sessão da CCJ.
    Imediatamente abafado e solenemente ignorado pelos demais.
    O governo não vai dizer porque o povo não tem e nem teve educação financeira e porque se as pessoas pararem de se endividar, o que será do mercado imobiliário, por exemplo?
    Portanto, falem o que quiserem os contrários.
    Os números não mentem e nem tem amigos.
    Um esquema Ponzi sempre tende a ruir.
    ***
    A saída encontrada é pedalar. Pedalam China, USA, Europa e agora o Guedes já aumentou a dívida em 1/4 de trilhão. Isso é pedalar também e gerar bolhas financeiras.
    Cada governo esperando que a bolha estoure na mão do próximo.
    ***
    Capitalismo! Oh yeah!
    Quem estiver atento ao estouro da próxima bolha e bem posicionado ficará bilionário.

  5. Caríssimo colunista Marcelo Bertoluci (Ex-microempresário):

    Eu assino em baixo o texto do sapientíssimo do colunista Adônis Oliveira, que reproduzo ipsis litteris:

    Caro Marcelo,
    Assino embaixo de cada palavra de seu texto.
    Só para constar, o governo não “gasta” nada com previdência.

    PREVIDÊNCIA É POUPANÇA!

    Eu boto dinheiro nessa espelunca há mais de 40 anos. Agora, na hora de usufruir, veem me dizer que o dinheiro sumiu. Para onde? Com quem? Sumiu com as generosas aposentadorias de todos os nababos do serviço público e com todas as roubalheiras governamentais.

    EU QUERO MEU DINHEIRO, PORRA!

    O sofrimento dele para se aposentar é o mesmo que o meu: O INSS, que tem o dever de fiscalizar que tal ou tais empresas depositaram ou não o FGTS, não o fizeram e no final das contas a gente é que paga o pato: O ônus de provar cabe a nós, os fudidos prejudicados!

    Trabalhei durante 11 anos para uma empresa e ela não depositou o FGTS, mesmo descontando do meu contracheque!

    Como não houve depósito do meu FGTS, para ser reconhecido na aposentadoria como tempo de contribuição, vou ter de entrar na justiça para reaver o que o INSS não quer me dar! E olhe que quando eu saí da empresa fiz um acordo trabalhista que foi ignorado pelo INSS.

    Pode isso? Pode! Eu sou uma das vítimas dessa roubalheira!

    • Cícero, a diferença entre o governo e o assaltante, é que no caso do assaltante você pode arranjar uns amigos bons de briga e ir atrás do cara.
      No caso do governo, ele te rouba e você tem que ficar quieto e sorrindo, senão além de roubado, responde a processo por desacato.

  6. Caro Cícero,
    Além de admirador seu, agora somos companheiros de infortúnio.
    Precisamos marcar pra encher a cara e chorar as mágoas junto. ahahahahah
    Chamamos também o Berto, que está sem beber, para nos levar de volta pra casa.

Deixe uma resposta