MEU PAI, ANTONIO TAVARES DE MELO

Açude represado no sítio de Lagoa do Carro – PE

Meu pai não foi nenhum leitor de clássicos. Mal sabia as quatro operações matemáticas que memorizou ouvindo os feirantes carpinenses soprarem-lhe ao ouvido. Era um autodidata curioso das ciências exatas.

Meu pai nunca ouviu falar de Fernando Pessoa, Gabriel Garcia Marques, Machado de Assis, Jorge Amado, Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freire, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Pinto do Monteiro, etc. e tal, mas conhecia Luiz Gonzaga, e onde quer que estivesse, sozinho, ou limpando o mato, ou plantando milho, macaxeira, ou cuidando das vacas leiteiras, cantarolava “A Triste Partida” do genial poeta Patativa do Assaré, musicado por Lua.

Meu pai nunca ouviu falar do humanista Akira Kurosawa, um do mais importante, brilhante e influente cineasta da história do cinema japonês, sendo premiado tardiamente em 1989 com o Oscar pelo conjunto de sua obra cinematográfica, mas possuía um senso de altruísmo qual o cineasta que muitas vezes impressionava minha mãe, quando na nossa casa aparecia um estranho, um andarilho, um circense com fome, e ele nunca lhes negava nada, além de oferecer-lhes um prato de comida e dar-lhe uma feira com todos os produtos cultivados da terra do sítio.

No “Sítio São Francisco”, depois de sofrer por mais de dez anos de seca braba, papai “inventou de construir” uma barragem com tijolos adobes, pois “não queria mais ficar esperando pelos ‘milagres’ do céu com a volta da chuva para regar as lavouras e dar água aos animais.” “Sofrer não dar e tendo os recursos, pior!” – dizia com naturalidade.

Mandou cavar quinze metros de profundidade, trinta de comprimento por trinta de largura, junto a um ribeirinho que passava nos fundos do sítio. Todos os moradores donos de terra da redondeza, dependentes da Embrapa, diziam que papai estava ficando louco com a construção da represa d’água. “Iria alagar tudo e prejudicar os sítios dos vizinhos” – diziam. Papai nunca deu ouvido às críticas e tocou o barco.

Aos troncos e barrancos papai concluiu a “obra”. Veio a chuva e encheu a barragem que sangrou. Não prejudicou os vizinhos como esperavam alguns malfazejos. Papai ficou satisfeito. Os vizinhos também. Mas quando veio novamente a seca os vizinhos ficaram apavorados com as lavouras e plantas secando e os bichos morrendo de sede. Papai, que possuía um coração maior do que a bondade, no dizer de mamãe, ofereceu-lhes a água da barragem e os vizinhos faziam filas como retirantes em busca da água do açude. Mas nunca aprenderam a lição de construir uma também nos seus sítios, tomando o exemplo de papai para deixar de sofrer por falta d’água e incomodar os vizinhos!

Ao ponto de o Velho sempre comentar com mamãe:

– “Quando esse povo vai aprender que só se represa a água caída do céu quando se constrói barragem?”

Papai era um homem de prioridades!

16 pensou em “MEU PAI, ANTONIO TAVARES DE MELO

    • Caríssimo comentarista Flavio Feronato:

      Obrigado, amigo do coração, pelo comentário afetuoso.

      Desculpe-me o atraso! Trabalhos, trabalhos, trabalhos…

      Na verdade papai só era assim meio doido, razão e emoção, por causa de mamãe, Maria Alves da Silva. Pense numa mulher do coração bondoso quando a pessoa necessitava. Mas também pense numa mulher justa quando descobria que a pessoa era um canalha, querendo fazer papai de besta!

      Quando papai percebia, tudo bem. Ele dava a isca e o anzol à pessoa e mandava-o pescar, mas quando sentia que a pessoa não queria nada, mandava pastar com o apoio de mamãe.

      “Pau que nasce torto mija fora da bacia” – dizia sempre! Ou: “Quem nasce cavalo, burro não é!”

      Fraternais saudações, amigo do coração e ótimo final de semana para você e família!

    • Caríssimo Poeta das Paisagens Severino Gomes:

      Não sei se estou errado, mas sempre aprendi que, quem musicou o genial poema ” A Triste Partida” foi o Mestre Luiz Gonzaga, até porque Patativa do Assaré não era músico e foi Lua Gonzaga que deu vida ao poema, inclusive o tornando universalmente conhecido!

      Fraternais saudações, caríssimo poeta das paisagens nordestinas e fraternais saudações.

  1. Pois é Cícero.. ontem postei um texto sobre o meu pai (que faria 100 anos ontem) no facebook e me emocionei com as respostas dos colegas. São coisas importantes que nos marcam

    • Caríssimo colunista e professor Maurício Assuero:

      Obrigado, amigo do coração pelas palavras afetuosas.

      Meu pai realmente era um sábio, e com a presença de mamãe, com quem combinava tudo, fazia coisas que até Deus duvida. Como: “Sempre fazendo o bem sem olhar a quem, e isso me emociona até hoje!”

      Pelo que tenho conhecimento, com informações colhida do meu irmão mais velho, José Tavares Sobrinho, veterinário aposentado pelo regime geral da previdência social, ainda trabalhando para o mesmo patrão e morando em Sergipe, papai NUNCA tirou proveito de nada que não lhe pertencia! E teve todas as oportunidades dadas pelo governo federal através da Embrapa.

      Mesmo semianalfabeto, nos anos setenta, a Embrapa o nomeou como líder para distribuir créditos com os pequenos agricultores da redondeza. Quando percebeu que havia algumas irregularidades na distribuição da grana, entregou o cargo.

      Grande Antônio! Honestidade que faltou a Lapa de Presidiário!

      Ótimo final de semana, Grande Colunista!

  2. Cícero , tem pessoas que enxergam com os olhos da alma , mas tem gente que parece não ter alma nem olho e muito menos cérebro. Tenho uma estória um pouco parecida: certa vez um sujeito vendo o sofrimento de produzir manualmente tijolos, cuja argila para ser molhada tinham que buscar água no rio próximo, achou por bem cavar um poço ao lado. Por falta de sorte, o poço teve a profundidade de 0,80 m de um lado e um metro e 1,05 m do outro . Seu diâmetro era de aproximadamente 0,90 m. O fundo ficou inclinado devido a uma rocha nesta profundidade. Mas deu água até a metade. Espantosamente ninguém a utilizou pois devido a crença barro não dá água. Mesmo ela estando ali , para as pessoas ela não estava lá, e continuaram a ir com latas buscar no rio . Infelizmente ainda tem muita gente para usar cabresto e fazer alegria de “políticos”.

    • Caríssimo comentarista Joaquimfrancisco:

      Exatamente!

      Papai só veio descobrir que muitos dos pequenos agricultores da redondeza só ficaram indignados com ele por causa do açude porque havia “um determinado sujeito na região” que explorava alguns e com a arrecadação da grana ele, o homem poderoso, com meio de transporte próprio que trazia água do Rio Capibaribe, abastecia essas pessoas na seca, como na prática da agiotagem.

      Com o açude de papai, parte da mamata arrefeceu, e o poderoso explorador deixou de roubar dinheiro de quem não tinha.

      Era velha e nova política do patrimonialismo que Lapa de Presidiário, o LÍDER SUPREMO DE GOIANO, sobre explorar muito bem da Nação Nordestina.

      Papai sempre percebeu essa artimanha e nunca deixou ser levado pela malandragem!

      Fraternais saudações, caro comentarista do coração!

      Mandemos um beijo no cu de Goiano, o Humorista do JBF.

  3. Caríssimo Cicero. Da sua pessoa só podia esperar essa página poética e muito saudosa sobre a figura super humana do seu querido pai. Muito me agradou a sua citação
    sobre o cineasta humanista Akira Kurosawa, um, gigante na cinematografia
    mundial, haja vista a sua obra soberba, elogiada e financiada , pelos seus admiradores como o famoso diretor Spilberg e muitos outros
    grandes cineastas e estudios de hollywood. É que muitos não sabem de onde
    ele conseguia o dinheiro para fazer seus maravilhosos filmes épicos.
    Mas voltando a figura do seu pai, sua grandeza, caráter e bondade me
    emocionaram sobremaneira, pois alguém com tanta bondade, dignidade e sobretudo inteligência , sem grande apuro escolar é muito raro. Muitos têm bondade, mas não sabem usar a inteligência em proveito próprio e também ajudar aos mais carentes, sem iniciativa, mesmo vendo os exemplos diante do
    do seu nariz.
    Ele não teve a oportunidade de conhecer os grandes nomes mencionados pelo amigo, todos figuras ilustres respeitados e admirados, mas teve a sorte de
    conhecer a obra do grande Luiz Gonzaga, cuja obra é tão admirada e
    e respeitada como as ilustres personalidades acima citadas.
    Você como sempre finaliza muito bem. Seu pai foi realmente um homem de
    prioridades.
    Um abraço amigo.

    • Caríssimo comentarista do coração d.matt:

      Papai sempre foi um homem de prioridades e, curioso!, sempre procurava ajudar as pessoas com suas “descobertas”.

      Vou lhe dar um exemplo: Papai sempre observou que o juá era uma planta resistente à seca.

      O que ele fez?

      Viajou com alguns amigos para o sertão brabo das imediações do Cariri e outras microrregiões de Pernambuco e de lá trouxe as mudas da planta e encravou nos arredores do sítio para dar sombra aos bois, bodes, jegues, galinhas caipiras…

      Interessante que, mesmo os vizinhos vendo o exemplo e sabendo extraordinário, nunca seguiram o exemplo de papai, a não ser um japonês que a gente o chamava de Zé e era muito amigo do meu pai.

      Fraternais saudações, amigo do coração, com um ótimo final de semana para você e família!

  4. Parabéns pelo belo relato sobre o seu querido pai, prezado cronista Cícero Tavares! O Sr. Antônio Tavares de Melo, foi um predestinado! Seu espírito empreendedor e a sabedoria que Deus lhe deu fizeram com que ele tivesse a iniciativa de enfrentar a construção de uma barragem, o que beneficiou a ele próprio e aos vizinhos que não acreditavam nele. Um homem sábio e dono de um grande coração! O texto é emocionante amigo!

    Um grande abraço!

    • Queridíssima cronista Violante Pimentel:

      Papai era realmente um sábio das prioridades. Todas as coisas boas e úteis que ele observava por onde passava e que fosse do interesse do sítio, ele “copiava” e procurava adaptar à terra.

      Ele tirou o exemplo da represa do ribeirinho do sítio quando foi visitar a inauguração da Barragem de Carpina-PE, construídas sobre o Rio Capibaribe na época do governo Figueiredo.

      Enquanto todo mundo comemorava o feitio inédito sobre o Rio Capibaribe, papai “memorizava” a construção para adaptar uma igual no sítio, e assim o fez, beneficiando todos os “sitioeiros” das redondezas que ficavam esperando que tudo caísse do céu.

      Obrigado pelas palavras carinhos, querida cronista.

      Ótimo final de semana para a nobre cronista e seus familiares.

      Desculpe-me o atraso para responder. É que eu estava sem tempo!

  5. Caríssimo memorialista Brito:

    Obrigado, Grande Memorialista maior do JBF pela visita e comentário!

    É sempre bom e honroso o comentário de pessoas que a gente admira pela competência e enorme catilogência no domínio do ofício, no seu caso: as grandes pesquisas às biografias dos grandes personagens da história não oficial, ignorados pela mídia.

    Fraternais saudações grande amigo do coração.

    Ótimo final de semana para o nobre memorialista e seis familiares.

  6. Cicero
    Eu fico cada vez mais ancho que só a bixiga, como diz o Berto, com seu elogios. \Mas agora você se superou-se, também como diz o Berto. Além de me intitular “memorialista maior do JBF, diz que sou dotado de enorme CATILOGÊNCIA no domínio do ofício. Fui ver o que era isso no Aurélio e não encontrei. Procurei noutro e achei: erudição fidalga .Mas rapaz, tu quer matar o velho !?
    Passei o domingo todo dizendo a todos os parentes que agora eu sou CATILOGÊNICO. .Assim fiz todos a irem ao dicionário rsrsrsrs

    Abração
    Brito

  7. Extraordinário memorialista Brito:

    Se existe Ruy Castro com suas ótimas biografias com personagens conhecidos da MPB; existe o nobre colunista maior do JBF com os personagens desconhecidos, o que só faz enriquecer e equilibrar a História da Música Popular Brasileira. Da Cultura Popular, no geral.

    O adjetivo “catilogência” foi cunhado pelo maior filósofo da fuleiragem universal, o bardo popstar cearense Falcão, que realmente significa o que o nobre colunista pesquisou e outras coisas mais, segundo o genial Falcão num dos programas “Leruaite” apresentado por ele na TV CEARÁ.

    Forte abraço, grande memorialista do JBF.

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