MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Santos Dumont

Alberto Santos Dumont nasceu em 20/7/1873, em Palmira, MG, que atualmente leva seu nome. Foi aeronauta, alpinista, balonista e “Pai da Aviação”. Ainda hoje permanece a polêmica se foi ele ou os Irmãos Wrigth os inventores do avião. Com apenas um ano de idade, sua brincadeira era furar balõezinhos de borracha para ver o que tinham dentro. Oriundo de uma rica família de cafeicultores, seu pai – Henrique Dumont – era engenheiro formado em Paris e a mãe – Francisca de Paula Santos – teve oito filhos. Alberto era o sexto.

Em 1879 a família mudou-se para Ribeirão Preto (SP) e adquiriu uma fazenda de 1.200 alqueires, criou a empresa “Dumont Coffe Company” e passou a plantar, beneficiar e exportar café. Em pouco tempo tornou-se o maior estabelecimento agrícola do País. Na fazenda tinha ampla liberdade para criar engenhocas de todo tipo na oficina do pai. “Vivi ali uma vida livre, indispensável para formar o temperamento e o gosto pela aventura”. Aos sete anos guiava carroças; aos doze brincava nas locomotivas e ensaiava invenções. Ao tomar contato com as obras de Julio Verne, ficou entusiasmado. “Com o Capitão Nemo explorei as profundidade do oceano; com Fileas Fogg fiz em 80 dias a volta ao mundo…”. Era fascinado pela tecnologia: construía pequenos aeroplanos movidos por uma hélice acionada por molas de borracha torcida; nas festas juninas fazia pequenos balões e soltava sobre as fogueiras para ver sua subida aos céus.

Em 1891 viajou pela Europa com os pais e três anos depois retornou sozinho. Aperfeiçoou o inglês em Londres e na França escalou o Monte Branco, de 5.000 metros. Passou a se interessar pela mecânica, particularmente o motor de combustão interna, que estava surgindo. Viu que na França inventaram os balões a hidrogênio e que era ali onde a navegação aérea haveria de prosperar. Em 1897 mudou-se para Paris e dedica-se inteiramente à aeronáutica. Projetou, construiu e voou nos primeiros balões dirigíveis movidos à gasolina. Com isto ganhou o Prêmio Deutsche em 1901. Seu dirigível nº 6 contornou a Torre Eiffel e ele ficou famoso no mundo. Recebeu cumprimentos de altas personalidades e reportagens em diversas revistas. O presidente Campos Salles deu-lhe um prêmio em dinheiro e uma medalha com uma efígie e uma alusão a Camões: “Por céus nunca dantes navegados”; o príncipe de Mônaco fez um convite e ofereceu um hangar para suas experiências; foi convidado para viajar aos EUA, onde foi recebido pelo presidente Theodore Roosevelt. Em 1904 relatou suas experiências no livro “Dans l’air”, lançado no Brasil com o título “Os meus balões”, em 1938.

Em 23/10/1906 foi, de novo, o primeiro a decolar a bordo de um avião com motor à gasolina. Voou 60 metros a uma altura de dois a três metros com o “14 Bis” no Campo de Bagatelle, em Paris. 20 dias depois voou 220 metros a uma altura de seis metros com o “Oiseau de Proie III”, batendo o próprio recorde. Foram os primeiros voos homologados pelo Aeroclube da França. Foi a primeira demonstração pública de um veículo levantando voo sem uma rampa de lançamento. “O homem conquistou o ar!”, gritavam as pessoas em terra firme. Pela façanha, ele recebeu o prêmio de três mil francos da FAI-Federation Aeronautique Internationale. Nesta ocasião, os irmãos Wright mantinham em segredo sua invenção, apesar dos convites para que fossem demonstrá-la. Um dos motivos da recusa foi que seu avião usava uma catapulta que impulsionava o aparelho para o voo, o que estava fora dos parâmetros dos europeus.

Assim inicia a polêmica sobre quem inventou o avião. O fato é que a exigência da FIA era que o aparelho fosse mais pesado que o ar; que pudesse ser controlado por um piloto e que decolasse e pousasse sem a ajuda de nenhum outro equipamento. Os irmãos Wright alegaram que conseguiram esse feito em 1903. Eles pilotaram o “Flyer” por quase 37 metros e disseram que estavam alcançando distâncias maiores. O problema é que eles não deixavam ninguém ver esses voos, por medo de que copiassem a ideia. Tal demonstração só foi realizada em público em 1908, voando mais de 100 Km. na França. Foi nesse instante que eles mostraram a foto do primeiro voo em 1903. Porém, surge outro problema: os modelos dos irmãos Wright não atendiam a um dos critérios da FIA, que era decolar e pousar por conta própria. Eles utilizaram equipamentos como trilhos e catapultas, enquanto “14 Bis” não fez uso destes equipamentos, utilizando apenas um sistema de duas rodas. Para finalizar a polêmica, a FIA deu o crédito do invento aos irmãos Wright com o voo ocorrido em 1903 no Flyer. Mas a polêmica se mantém até hoje devido ao fato de o “14 Bis” ter uma decolagem autopropulsionada, reconhecida pelo público e jornalistas, e homologada pela FAI.

A tecnologia aeronáutica evoluiu e em 25/7/1909 Louis Blériot atravessou o Canal da Mancha num voo. Santos Dumont parabenizou-o numa carta: “Esta transformação da geografia é uma vitória da navegação aérea sobre a navegação marítima. Um dia, talvez, graças a você, o avião atravessará o Atlântico”. Recebeu como resposta: “Eu não fiz mais do que segui-lo e imitá-lo. Seu nome para os aviadores é uma bandeira. Você é o nosso líder.”. A partir daí passou a sofrer de esclerose múltipla, encerrou a carreira de inventor e afastou-se do convívio social. Outro de seus inventos foi o relógio de pulso, um recurso essencial para controlar o tempo de marcha sem desviar as mãos do comando. Outro dado, ainda menos lembrado, é sua importância na criação do Parque Nacional do Iguaçu e suas cataratas. Entre 24 e 27/4/1916 esteve lá a convite de Frederico Engel, Ao visitar o local ficou encantado com a paisagem e a queda d’água. Não se conformou com o fato daquele local ser uma propriedade privada: “Posso dizer-lhe que esta maravilha não pode continuar a pertencer a um particular”, disse ao anfitrião e na volta, “quando passei por Curityba, fui falar com o presidente do Estado [Afonso Camargo] sómente sobre o lguassú: pedir-lhe que se interesse pelo salto, o torne mais fácil e commoda a excursão… ” relatou mais tarde. Providências foram tomadas e, em 19/1/1939, um decreto do Governo Vargas criou o Parque Nacional do Iguaçu.

Em 1918 escreveu uma autobiografia e lançou o livro “O que eu vi, o que nós veremos”, relatando suas experiências e as perspectivas da tecnologia aeronáutica. Deixou registrado no livro suas cartas dirigidas ao Presidente sobre o atraso da indústria aeronáutica militar no Brasil. Porém, mais arrependeu-se dessa sugestão e apelou, em 1926, à Liga das Nações (futura ONU) para que se impedisse o uso de aviões como armas de guerra. Em 1928, de volta ao Brasil no navio Capitão Arcona, foi recebido festivamente. Um hidroavião que participava da solenidade sofreu um acidente ao sobrevoar o navio. Não restou sobreviventes entre os ilustres tripulantes. Abatido, ele suspendeu as festividades e retornou a Paris. Por essa época já apresentava um quadro de depressão profunda, que não foi atenuada nem com a condecoração que recebeu do Aeroclube de Paris como Grande Oficial da Legião de Honra da França, em 1930. No ano seguinte foi internado em casas de saúde no sul da França. Enquanto isso, a Academia Brasileira de Letras preparava-se para incorporá-lo ao seu quadro, como imortal em junho de 1931, mas não chegou a tomar posse da cadeira nº 38. De volta ao Brasil, passou alguns dias em Araxá, outros no Rio de Janeiro e instalou-se no Grand Hotel La Plage, em Guarujá, em maio de 1932. Dois meses depois estourou a Revolução Constitucionalista. Conta a história que os aviões de combate sobrevoaram o litoral paulista. Tal visão agravou seu estado depressivo, levando-o ao suicídio em 23/7/1932.

O espaço aqui não comporta todas as homenagens que recebeu, mas vale ressaltar que sete dias após o falecimento, a cidade de Palmira, onde nasceu, teve seu nome mudado para Santos Dumont. Em 1936 foi decretado o dia 23 de outubro (seu primeiro voo) como o “Dia do Aviador”. No mesmo ano o aeroporto do Rio de Janeiro foi batizado com seu nome. Em 1956 o correio do Brasil e Uruguai lançaram uma série de selos comemorativos e sua casa em Cabangu (MG) foi transformada em “Museu Casa de Santos Dumont”. Em 1959 foi condecorado como Marechal-do-Ar pelo Ministério da Aeronáutica. Em 1976 a União Astronômica Internacional deu seu nome a uma cratera lunar (27,7°N 4,8°E). A partir de 1984 passou a ser o “Patrono da Aeronáutica Brasileira”. Para finalizar esta concisa biografia e, talvez, a polêmica sobre quem inventou o avião, se foram os irmãos Wright ou Santos Dumont, o presidente dos EUA, Bill Clinton, esteve no Brasil em 13/10/1997, e discursou referindo-se a ele como o “Pai da Aviação”.

14 pensou em “MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Santos Dumont

  1. No momento em que o Brasil vende alguns de seus importantes aeroportos, o JBF publica uma biografia concisa de Santos Dumont e resolve a eterna polêmica sobre quem foi o inventor do avião. Beleza!!!

  2. Belíssimo trabalho de pesquisa, sem ufanismos tolos, somente a informação precisa
    com todos os fatos e acontecimentos destacados com precisão.
    Gostaria de um dia poder escrever uma página tão completa e precisa como esta.
    Meus parabéns ilustre escritor, voce é um dos motivos de porque a nossa BF está cada dia melhor e mais famosa.
    Abraços do aluno agradecido.

    • Gratissimo d. Matt, eu é que fico ancho em ter um leitor de seu naipe; imagine ter o “aluno” que você se diz.
      Me ajude a encontrar “novos” nomes para o Memorial

    • Fico ancho pra cacete, como diz nosso editor, ao receber os cumprimentos de um engenheiro do ITA, que acaba de se associar a Boeing para lançar mais aviões no mundo. Grande Caio, grato pela manifestação .

  3. Caro memorialista Carlos Brito:

    Excelente MEMORIAL DOS BRASILEIROS (XXVII), desta vez homenageando Alberto Santos Dumont, esse brasileiro notável, genial, nascido na cidade de Palmira (MG).

    Mais uma minibiografia sua homenageando esse pequeno notável que faz jus ao seu faro de pesquisador extraordinário.

    Sem dúvida que como brasileiro me sinto honrado por Santos Dumont ter sido o pai da aviação e o nobre colunista, nas suas pesquisas, tê-lo provado por meios de provas documentais.

    Fraternais saudações, Grande colunista-memorialista.

  4. Vixe, acho que é hoje que o povo me expulsa deste blog. Mas como me interesso muito por este assunto, vou dar meu pitaco.

    Infelizmente os brasileiros conhecem muito pouco sobre as inúmeras conquistas de Santos Dumont, especialmente no campo dos balões dirigíveis, e se resumem a repetir e perpetuar uma polêmica: o primeiro vôo de um “mais pesado que o ar”, que não foi o do 14-bis, sem nenhum demérito para Dumont.

    Antes de mais nada, convém aclarar que não existe um “inventor” do avião. O avião é um conceito que foi pesquisado, experimentado e aperfeicoado por várias pessoas, entre elas Otto Lilienthal, Octave Chanute, Samuel Langley e Clement Adler. Cada uma trouxe um avanço para o conhecimento humano nesta área.

    Os irmãos Wright realizaram várias experiências com vários tipos de asas e planadores nos anos 1890. Em 1903, após construírem sozinhos um motor a gasolina, realizaram os primeiros vôos a motor. Mais especificamente, em 17 de dezembro, realizaram quatro vôos, dois cada um. Houve testemunhas e uma delas fotografou o avião em pleno vôo. Eles telegrafaram a seu pai pedindo que este mandasse a notícia para os jornais, o que foi feito.

    No ano seguinte, 1904, os irmãos Wright construíram um segundo avião. Com ele, realizaram nada menos que 105 vôos controlados, conseguindo realizar curvas com segurança e percorrer circuitos fechados, isto é, decolar e retornar ao ponto de partida. O melhor desempenho foi conseguido em 9 de novembro, com um vôo de aproximadamente cinco quilômetros em quatro círculos completos, em um tempo de cinco minutos. Os dados de cada um dos 105 vôos foram registrados pelos Wright. Também cabe citar que durante esta temporada de testes eles passaram a usar uma catapulta para maior segurança na decolagem e mais agilidade nos testes. Nos vôos de 1903, não havia catapulta.

    Em 1905, os Wright construíram um terceiro avião. Neste, efetuaram seis vôos longos (entre 26 de setembro e 5 de outubro), o maior deles percorrendo 40 km em 38 minutos, na presença de várias pessoas. Também há várias fotos destes vôos.

    Bem, estas notícias chegaram ao outro lado do Atlântico. Era um tempo de patriotismos exacerbados, e os franceses reagiram com desprezo à informação de que dois norte-americanos pobres e sem ligações com entidades poderosas haviam passado à sua frente. Em especial, Ernest Archdeacon, um dos fundadores do Aero-clube da França, escreveu vários artigos para jornais de Paris chamando os Wright de mentirosos e afirmando que “o primeiro vôo motorizado seria efetuado pelos franceses”. O prêmio Archdeacon, conquistado por Santos-Dumont, foi criado após os franceses tomarem conhecimento dos vôos dos Wright, e de modo proposital os excluía, ao exigir que o vôo fosse realizado com prévio aviso ao Aero-clube da França e na presença de seus representantes.

    Sobre o 14-bis: na verdade, Santos Dumont não tinha muito interesse em aviões, preferindo aperfeiçoar seus dirigíveis. A pressão dos membros do Aero-clube da França, e até da imprensa, convenceram Alberto a construir um “mais pesado que o ar”. O resultado, o 14-bis, não era um projeto acabado. Não tinha bom controle lateral, o que dificultava fazer curvas e até mesmo pousar. Nos dois vôos célebres de 23 de outubro e 12 de novembro de 1906, o modelo só voou em linha reta, e foi danificado no pouso em ambas as vezes.

    Quando souberam que os franceses haviam declarado o 14-bis como o primeiro avião a voar, os Wright levaram seu terceiro avião para a Europa e efetuaram demonstrações em várias cidades, incluíndo Paris, com enorme sucesso. Também efetuaram várias decolagens sem a catapulta, para demonstrar que não necessitavam dela, usando-a apenas por conveniência e segurança.

    Em resumo, quando Santos-Dumont fez um vôo de 220 metros, sem fazer curvas, e danificando as rodas ao pousar, os irmãos Wright já haviam feito vôos de 40 quilômetros um ano antes.

    É uma pena que muitos brasileiros, jornalistas incluídos, repitam as mentiras de que os vôos dos irmãos Wright “não existiram” ou “não tem provas”. Seria muito mais útil reconhecer os muitos méritos e as muitas conquistas tanto de Santos-Dumont quanto dos Irmãos Wright e a contribuição de ambos para a ciência, ao invés de transformar o assunto em uma disputa.

    • Não sei onde o ex-mcroempresario viu disputa no texto .
      Nem falei da disputa que os americanos fizeram com o maior estardalhaço na imprensa para mostrar que foram eles os inventores do avião.
      Que foram muitos co-participantes do invento ,todos sabem ,mas houve um que se destacou no mundo na época, e o relato mostra que foi Santos Dumont. O ensaio mostra apenas o que asucedeu.

      .

      • Brito, talvez eu não tenha sido claro. Disse que a maioria dos brasileiros, imprensa incluída, ignora quase tudo sobre Santos Dumont.

        A única coisa que se fala é justamente esta disputa com os Wright sobre o primeiro avião a voar, e sobre isto também não sabem nada, apenas repetem boatos que leram na internet. Um dos parágrafos do seu texto repete vários destes boatos, infelizmente.

  5. Prezado Brito. Muito grato por suas palavras a respeito do meu comentário.
    Atendendo à sua ordem, rabisco alguns nomes que certamente resultarão em
    excelente crônicas saindo da sua pena.
    São os seguintes : CARLOTA JOAQUINA, CHICA DA SILVA , MONTEIRO LOBATO e o hoje pouco lembrado, mas insubstituível ROBERTO CAMPOS.
    Espero que o amigo tenha gostado das indicações acima.
    Tenho outras, mas ficam para outra ocasião.
    Um abraço do aluno d matt.

  6. Caro editor

    Acompanho sua coluna desde o inicio e algo me deixa curioso
    O que é essa numeração que no caso de Santos Dumont está no numero XXVII?

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