LEMBRANÇAS DE ONTEM

Manhã de domingo e eu, sozinho, dirigindo e ouvindo música pela Rota do Sol em direção à praia de Cotovelo, na Grande Natal. Remoía preocupações, quando a emissora sintonizada iniciou programação com sucessos dos anos 60. Vi-me adolescente novamente. Lembrei de dois amigos, ambos na faixa dos 16 anos de idade, que me ajudavam a surrupiar o carro da família para aventuras noturnas insensatas.

Aprendi a dirigir num Jeep Willys 1957. Curtia a liberdade de passear no domingo à noite, após deixar pai e mãe no Cine Rio Grande para a sessão das oito. Isso me concedia duas horas para estripulias junto com Aldemir Vilar e Ivan Brandão.

Numa dessas fugas, seguimos para a Av. Alexandrino de Alencar onde paquerávamos umas garotas. Na volta, preocupado em deixar os amigos em casa e ir apanhar os pais no horário aprazado, cruzei a Hermes da Fonseca em alta velocidade. Por questão de não mais que um segundo deixamos de ser abalroados por outro veículo com velocidade muito superior à nossa.

Reverbera até hoje nos meus tímpanos, com todas as letras e entonações, a descompostura impublicável emanada daquele motorista revoltado com minha irresponsabilidade.

Ao completar 17 anos o carro da família era um utilitário Rural Willys 1959, branco e azul. Meu pai não dirigia nem tínhamos motorista para o dia a dia. Eu, como o mais velho dos filhos, era o faz-tudo da casa. Detestava ser acordado de madrugada para levar minha mãe Laura à feira do Alecrim, aos sábados – hoje, eu a levaria todos os dias da semana se fosse para tê-la outra vez entre nós.

Os Vilar eram nossos vizinhos, daí o bem querer de nós todos por todos eles. Estreamos a Rural, eu e Aldemir, numa daquelas folgas de domingo. Paramos o carro na Praia do Forte e ficamos sentindo a brisa amena vinda do mar na companhia de duas frequentadoras da antiga Praça Pedro Velho, ambas complacentes e compreensivas para com dois estudantes sem drogas sem álcool e sem dinheiro.

A vida melhorando e aos 18 anos eu dirigia um Simca Chambord, 1960. No primeiro passeio oferecido às minhas irmãs atropelei uma criança que atravessara correndo a Avenida Circular, em direção à praia. Levíssimas escoriações, mesmo assim meu pai pagou uma nota preta pelas possíveis consequências psicológicas acarretadas ao acidentado. Fiquei privado de dirigir o belo sedan durante semanas.

Ao passar no vestibular fui presenteado com um fusca. A família perdeu um motorista amador, e eu ganhei o primeiro carro. Meu fusca tinha a cor de vinho, era de segunda mão e não recordo o ano de fabricação. Mas nada disso interessava. Ele era o meu fusca. Registrado em meu nome. Minha propriedade.

Lamento, nunca ter externado ao meu pai com um abraço apertado e um beijo na face, a felicidade que ele me proporcionou com aquele presente. Outros fuscas vieram. Acho que foram quatro ao todo, mas nenhum deles foi tão importante quanto o da cor de vinho. Naquele fusquinha eu levei a primeira namorada para o primeiro jantar no Restaurante Xique-xique, pago com o meu primeiro salário.

Cheguei ao meu destino no exato momento em que a emissora terminava a programação alusiva àqueles anos dourados. Não me importei com a interrupção e guardei as lembranças de ontem na gaveta das boas recordações, porque, uma música, um odor ou uma foto que caracterize a época, as libertarão outra vez.

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