JOSÉ WILTON DIAS LEITE – MACEIÓ-AL

Texto publicado na página Transição em 26/Mar/2016

A PEQUENA-BURGUESIA E O PT

São Paulo, 18/03, Av. Paulista, uma massa popular gritava e aplaudia efusivamente um velho homem-cobra, líder “operário” que jurava ter realizado os mais incríveis feitos (como elevar os “pobres” na escala social e, ao mesmo tempo, enriquecer os mega-fazendeiros, empresários e banqueiros como nunca antes na história deste país). A cena tinha sua magia, até certa alegria, um pouco de desvario e delírio, como num sonho…

Todavia, esfregando os olhos, percebia-se algo de errado no reino da jararaca. Golpe? Democracia? Igualdade social? Apesar de juramentar suas proezas, as frases do homem não resistiam (nem resistem) a qualquer análise minimamente séria. Apesar da mágica das palavras, a realidade lhe impõe o inverso. Se quebrada a mística por qualquer inferência externa — como por um grito de “vergonha nacional! Ladrão!” —, poder-se-ia perceber facilmente que o tal homem era na verdade um charlatão. O rei estava e está nu.

Tendo isso — o óbvio — em vista, cabe perguntar: por que certas pessoas insistem em lhe emprestar os ouvidos? Há quanto tempo — décadas — esses bons filhos, apesar de tão destratados, retornam à casa? Quem são tais pessoas sempre predispostas à auto-ilusão? Como explicar esse estranho fenômeno social?

A primeira resposta é também óbvia: são os membros da burocracia sindical, dos partidos vinculados ao PT, a claque; todo um corpo político e social dependente do Estado e bem pago. Mas essa resposta não basta; não explica tudo. Há também a massa miserável comprada, infelizmente, que enche boa parte do quadro. Mas ela também não explica tudo. A verdade é que, se comparado com os maiores atos de apoio ao PT no ano passado (cerca de 70 mil pessoas), este, do dia 18/03, pareceu ter o dobro do tamanho. Na hora decisiva todo um setor social correu para baixo das asas de Lula (e levou consigo grande parte da chamada “oposição de esquerda” ao governo). Por que isso ocorreu?

A única explicação, parece-nos, é a seguinte: não só a burocracia vê suas condições de vida como vinculadas ao PT, mas também um setor social mais amplo, não diretamente dependente do Estado, formado por pessoas que construíram suas vidas, carreiras, reconhecimento e prestígio nas últimas décadas de estabilidade política e econômica. Queira-se ou não, tenha-se consciência disso ou não, tais décadas foram estáveis graças ao papel conciliador e traidor do PT na luta de classes brasileira. No seio da estabilidade proporcionada pelo PT à ordem do capital floresceu a pequena-burguesia brasileira, um segmento social pequeno mas não desprezível, pouco estável política e economicamente (pois localizado entre a burguesia e operariado, daí suas oscilações, histeria e confusão).

A pequena-burguesia é formada de proletários melhor remunerados (profissionais liberais, autônomos), pequenos empresários ou pessoas que vivem de renda. Dada a sua condição objetiva — de pessoas não centralizadas pelo processo produtivo, não forçadas a pensar em si mesmas como parte de uma categoria produtiva —, seus membros se veem em geral como autônomos e livres. Essa característica, o particularismo, ela compartilha com a burguesia, o que a torna propriamente a pequena-burguesia.

Assim como o “Lulinha”, a pequena-burguesia é adepta do “paz e amor”, ou seja, da conciliação de classes (justamente por estar entre as duas grandes classes sociais). O que ela mais odeia é a luta de classes, pois acentua sua instabilidade e põe em risco seus projetos pessoais e planos pré-estabelecidos. Ela gostaria que o mundo dos conflitos parasse, para que pudesse seguir em paz em suas pesquisas, suas descobertas e inovações técnicas ou artísticas, em suas salinhas, escritórios, laboratórios ou ateliês. Sua teoria social é uma colcha de retalhos de vários sistemas de pensamento: se nutre do marxismo, da dialética e de tradições revolucionárias do proletariado, mas também do idealismo burguês e da lógica formal. Esse ecletismo — que ela sempre pensa dar base a um novo sistema ou “anti-sistema” científico — expressa-se politicamente ou no utopismo ou no reformismo. Marx e Engels (nas críticas a Proudhon ou a Bakunin, na Crítica ao Programa de Gotha, nas cartas-circulares a Bebel, Liebknecht e Bracke e em vários outros textos) mostraram como esse tipo de teoria corresponde exatamente a esse setor social.

O PT representa e sempre representou essa visão de mundo reformista e pequeno-burguesa. Ele, por si (ou seja, apesar dos sindicatos), nunca foi um partido operário, com programa operário, mas majoritariamente pequeno-burguês e com programa pequeno-burguês. Como todo bom partido reformista e pequeno-burguês, sua função é tirar a centralidade do que é central; apagar a contradição fundamental existente na sociedade capitalista — a extração de mais-valia dos operários pelos capitalistas — e sobrevalorizar o que não deve ser sobrevalorizado. A fórmula é sempre a mesma: o problema central é abstraído em nome de problemas secundários. É como se a questão da mais-valia, o surgimento do capital, já estivesse resolvida e coubesse então reformar as condições de vida, ampliar direitos, melhorar aspectos sócio-culturais, acabar com opressões e o discurso de ódio, o “fascismo” do regime democrático-burguês, a alienação da população pela mídia, a crise na “pedagogia”, e tantos outros inimigos (dezenas ou centenas!) que ela descobre cotidianamente nas “teorias” que ela produz prolixamente.

Entretanto, a triste verdade é que nenhum desses problemas pode ser efetivamente resolvido sem se resolver antes o problema da exploração pelo capital, ou seja, sem se realizar uma revolução econômica e social de grandes proporções. Na verdade, quanto mais se combate tais problemas sem se resolver antes o da mais-valia, mais esses problemas crescem. A pequena-burguesia é cúmplice do que diz combater. Por isso seus partidos, quando crescem, encobrem com posições pequeno-burguesas a submissão vergonhosa ao grande capital.

Eis então que em determinado momento, insustentável, de crise econômica e social, irrompe na cena a maioria da população trabalhadora. Ela traz consigo a comprovação de que a mais-valia é o elemento central da sociedade, pois gasta a maior parte da sua vida preocupada com sua subsistência. Ela é por isso impaciente, bruta e não tem tempo para requinte cultural ou no modo de vida. Ela traz consigo os males engendrados pela barbárie capitalista. Ao entrar em cena e impor os problemas reais e centrais, ela afugenta todos os fantasmas e destrói os moinhos de vento que a pequena-burguesia pensa combater cotidianamente. O mundo da pequena-burguesia é suspenso da noite para o dia. Bate-lhe um desespero no peito; ela olha para o amanhã e não vê nada. É então que ela corre para os mantenedores da ordem e se torna ela própria conservadora. É o que ocorre hoje e ocorreu neste dia 18/03.

A pequena-burguesia deveria perceber que ela não guarda em si o futuro. Como ela sempre tem algo a perder, ela teme o futuro, e isso impede sua capacidade produtiva e criativa. Sua força, nesses marcos, é sempre uma impotente força individual. A classe trabalhadora, pelo contrário, não tem nada a perder (“a não ser suas correntes”), mas um futuro a ganhar. Por isso os mais importantes descobrimentos científicos e culturais se concentram nos períodos de crise ou convulsão social, quando a classe trabalhadora entra em cena e desata uma força social criadora, que inclusive envolve a pequena-burguesia e aponta para o futuro. No Brasil tentou-se algo assim ao final dos anos 1970 e início de 1980, mas o PT bloqueou aquela geração e abortou o que poderia ter surgido de vanguarda revolucionária e cultural. Ainda hoje vivemos presos a uma época morta, com velhos em tantos âmbitos da política e da vida cultural falando e falando, embora há décadas não tenham mais o que dizer.

A questão que resta a essa pequena-burguesia que hoje se alia ao PT é a seguinte: Quem tem medo do futuro? Até quando ajudarão a perpetuar esta situação de mediocridade e caminho para a barbárie?

13 pensou em “JOSÉ WILTON DIAS LEITE – MACEIÓ-AL

  1. Também concordo em parte! sou funcionário público estadual, sindicalizado, mas não apoio a bandidagem do PT que governou o país de 2003 a 2016! ,

  2. Eu disse essa semana que a esquerda aumentou a concentração de renda porque financiou empresários que já eram podres de ricos. Os funcionários da Odebrecht não receberão os milhões que Emílio e Marcelo irão receber da empresa. É simples assim. Eles continuaram ricos, podres de ricos, e o mestre de obras do sítio de Atibaia vai precisar arrumar um emprego.

  3. Não sei se entendi; o assunto me parece muito teórico e acadêmico. Mas parece que o autor critica o PT por não ter sido esquerdista o suficiente e não ter cumprido sua principal missão: a destruição dos fundamentos do capitalismo, a saber, a “mais valia’ e exploração dos trabalhadores pelo capital.

    Como sou ignorante, gostaria que o autor, ou alguém entendido, me desse um exemplo onde tais teorias foram aplicadas e qual o resultado. Também gostaria de saber se os últimos avanços científicos, tais como a internet, foram criados em momentos de crise e revolução proletária.

    Lamento ter “fugido” das aulas de sociologia na faculdade….

    • Você não fugiu não, simplesmente conseguiu captar a essência do texto. É mais do mesmo, a culpa é do ser humano, que não consegue enxergar e praticar as belezas do socialismo…

      • Muita palavra para dizer nada. Muito termo “técnico” parecendo coisa do Goiano. Citações de escritores que apenas fazem a alegria de “acadêmicos” de esquerdismo, e não prestam para mais nada. Como falava Jô Soares cultura do inutíl. Gostem ou não é a minha opinião.

    • A “mais valia” vem do modelo pobre de Karl Marx. Não se sustenta matematicamente. Desapareceu do leste europeu. Cuba poderia fazer uma revolução ao contrário da de Fidel. Expulsar os exploradores. Essa a verdadeira exploração do homem pelo homem

  4. José Wilton, a meu ver, o PT fez o possível para melhorar as condições de vida da população mais simples, com assistencialismo, programas sociais, combate à miséria, diminuição da mortalidade infantil, humanismo (em sentido amplo, não o da filosofia do mesmo nome). Não havia e não há clima para mais que o aprimoramento do capitalismo; sua esquerdização, digamos assim. Creio que vivemos em um mundo que poderíamos dizer, do capitalismo: – Ruim com ele? Pior sem ele.
    Está certo que as políticas esquerdistas implantadas dentro do capitalismo barram alguma possível caminhada para outro rumo, mas, parece, as coisas indicam que é a medida do possível, de modo que a culpa do Partido dos Trabalhadores, de Lula, da turma toda do Pasquim, estes que somos nós, me parece uma culpa sem pecado, já que, sob certo ponto de vista, é a culpa de praticar o bem imediatista – o Céu está distante, muito distante.

    • Goiano, ao invés de falar como ex-petista vou falar como economista. Essa política fantasiosa de tirar o “pobre da miséria” não foi concebida pelo PT. Ela surgiu com o Plano Real, que hoje faz 25 anos.

      O poder aquisitivo das pessoas voltou com o Plano Real em 01/07/1994. O PT apenas chamou de Bolsa Família um resumo dos programas sociais de FHC. A política macroeconômica implantada por Lula se resumiu a redução de IPI para alguns setores (que FHC fazia também). O governo Lula deu sorte porque pegou a economia mundial em crescimento. Quando em 2008 o cenário mudou, ele não foi capaz de evitar que o Brasil caísse.

      As classificações de riscos AAA feitas no auge foram substituídas por críticas dele quando nisso risco mudou de categoria. O governo Dilma pariu 13 milhões de desempregados, um aumento no déficit de 70% e uma inflação de 10,67% ao ano em 2015. A puta que pariu isso usou um artifício contábil para pagar, segundo Lula, o Bolsa Família. Foi expulsa do cargo, não perdeu os direitos políticos por conta de um canalha (um, não: dois. O outro é Renan) e vive numa ladainha irritante falando de golpe. O que mais choca são as pessoas inteligentes dar crédito a isso.

      • Segundo o Estadão de 29 de agosto de 2009, “Eu teambém me lembro bem dissoo Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.
         Eu também me lembro bem disso e tenho os dados de PIB, da inflação, da situação financeira e econômica, dos níveis de emprego, do consumo e outros da economia, que só vieram a determinar o afundamento na crise, por parte do Brasil, a partir de 2015, que viria dando sinais a partir de maio de 2014, segundo algumas fontes.
        O UOL/Folha falam sobre isso, o que corresponde com as minhas lembranças, uma veza que eu vivi a época: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/12/1724604-a-tragedia-da-economia-brasileira-em-2015-em-7-graficos.shtml
        Quanto ao Lula, como dizem alguns, “não ter feito mais do que seguir a política dos governos anteriores e de aproveitar o bom momentdo mundial”, observa-se que se um presidente consegue fazer isso deve ser elogiado e não desprezado o seu feito. Além do mais, lembramos que nem sempre o governo de Lula viveu bons momentos da economia mundial, pois, lembramos, a cridse de 2008 bateu forte e Lula manteve o rumo e passamos muito bem por ela, tendo Lula deixado o governo em janeiro de 2011 com o País em bom estado e estando ele com excelente aprovação.

  5. apenas um lembrete , para quem nao tem memoria , a divida bruta do brasl em 2002 , era de oitocentos bilhoes de reais , ou 320 bilhoes de dolares a epoca ,em 2017 esta divida chegou aos cinco trilhoes de reais , sendo que dessta divida , so a divida liquida , [[aquela so do governo feeral ,]] chegou aos tres trilhoes e duzentos bilhoes de reais , e se transformados em dolar ao preço de hoje dariam quase oitocentos bilhoes de dolares , … apenas para relembrar .

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