JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

REPELENTE NATURAL

Durante o calendário da mocidade, portanto no transcorrer da primavera, (quando, aliás, tudo floresce e fascina) os seres humanos parecem equipados com um repelente natural, digamos uma vacina que tem o condão de afugentar colônias de doenças que vagueiam pelo mundo em busca de uma boa estalagem. Equivale, por assim dizer, a querubins de primeira hierarquia montando guarda com o propósito de enxotar um sem-número de enfermidades que, renitentemente, buscam um formidável cangote onde possam armar as suas redes.

Porém, à medida que escorre o calendário primaveril, percebe-se que a validade do repelente vai perdendo suas forças gradualmente. Tempos depois, no repontar do verão, esses corpos, minguados de sentinela, já estão praticamente de porteira aberta. Com o passaporte carimbado, manadas de marmotas egressas de todas as paragens, inclusive do estrangeiro, dão início às invasões. Chegam à socapa, uma de cada vez, com o firme propósito de erguer acampamento na cacunda dos cristãos. Estes, nessas alturas, já revelam cabelos em duas cores. Quando menos se espera a procissão de forasteiros perniciosos adquire dimensões avultadas, os hospedeiros, evidentemente, figurando no catálogo dos destinos turísticos de alta demanda.

Mais adiante, quando o outono promulga o despojar das árvores, os corpos das criaturas já ostentam a condição de prestimosos santuários de doenças.

Com o advento da quadra vetusta, demarcada por cabeleira algodoada, época em que o inverno atinge a sua plenitude, um simples raio X testifica que os corpos já encerram um desfrutável ninhal de malfazejos. (E ainda se diz que os idosos só pensam em remédios; velha injustiça que a refuto). Mas não se dê por achado! Os dias trotam para todos; “eu já fui quem você é e você será quem eu sou”.

Porém, nem tudo está perdido inclusive porque, como dizia o Camões brasileiro: “{…}as esperanças vão conosco à frente, e vão ficando atrás os desenganos {..}”. A esperança é que a medicina decifre a enigmática fórmula desse sobredito repelente natural e os laboratórios possam manufaturar um genérico supimpa, com aptidão para desvanecer as hordas de agentes virulentos e infecciosos. Isso seria bênção grandiosa; seria a confirmação da sentença de Saramago (Azinhaga de Ribatejo 1922, Espanha 2010, prêmio Nobel de literatura): debaixo de um escombro é possível brotar um favor. Favor para que pereça tarde quem desencarna cedo.

Deixe uma resposta