IMPOSSIBILIDADES LÓGICAS

Vivemos como se tivéssemos nascido hoje e encontrado o mundo pronto.
Quase nada nos surpreende.

É que, numa aparente contradição ao que acabo de dizer, nascemos “zerados” e vamos nos acostumando dia a dia, por anos e anos, com o que nos cerca. Desse processo paulatino gera a percepção de que tudo é, por assim dizer, ordinário.

Desse modo, tudo parece natural, nada nos choca; nem uma televisão colorida de imagem perfeita, transmitindo fatos que podem acontecendo neste mesmo momento em outro lado do mundo, nem um telefone móvel, diminuto, com uma infinidade de funções, enriquecido por uma máquina fotográfica que pode produzir milhares de imagens sem dificuldades ou custos, nem este lap-top que ora utilizo, que é capaz de operações inimagináveis em frações de segundos…

Esses avanços da ciência, assim como os dos usos e costumes, que nos permitem viver em um mundo dinâmico, confortável e altamente produtivo, são vistos com a tal naturalidade que ignora o quanto foi realizado pela inteligência humana para chegar a esse ponto.

Entretanto, mesmo se paramos para pensar nisso, não nos esbarramos em questões da lógica formal que criem algum obstáculo às origens das realizações científicas, tecnológicas e humanistas obtidas: dá-se que existe uma ligação entre os avanços da tecnologia e as descobertas relativas ao uso da eletricidade – uma coisa leva a outra, passo a passo, o que diminui a surpresa da ponta final (isto é, a atual) dos processos de evolução e de civilização.

Quero apontar que estamos, por enquanto, tratando das possibilidades lógicas, ou seja, das coisas que existem e podem ser explicadas, até um certo ponto.

Mas…

Não nos admiramos, por exemplo, com as impossibilidades lógicas que nos rodeiam.

Ou melhor, não nos surpreendemos com a nossa impossibilidade lógica, sendo a primeira delas a própria existência.

Pois, o certo é que a existência não deveria existir. O lógico seria existir o nada (uma contradição intrínseca, em seus próprios termos, quando falamos de existir a inexistência).

Deste modo, o fato de haver espaço, possibilitando e tendo coisas “dentro”, constitui um absurdo que em geral não percebemos: – Como assim? As coisas estão aí e ponto final.

Surge nova questão: As coisas estão aí… onde? E a resposta pode revelar outra impossibilidade desapercebida: – Em todos os lugares.

E nos defrontamos com o tal do infinito.

Por uma imposição da inteligência humana, o espaço não pode ter fim. Não é que mesmo que andássemos pela eternidade em um determinado sentido não chegaríamos ao fim, é mais que isso: Independente desse caminhar no sentido do infinito, é forçoso reconhecer que projetando a nossa mente a um fim possível do espaço somos obrigados a decidir que não há esse fim, não pode haver um fim para o Universo (considerado todo o espaço do cosmo), sendo que não tendo ele um fim tudo é possível de acontecer aí dentro – isto é, a quantidade de mundos, sóis e demais corpos celestes podem também ser infinitos, de modo que onde houver espaço poderá haver um mundo; e como o espaço não acaba, os mundos também não acabam, em tese; e sequer podemos determinar se as leis (da “natureza”) que conhecemos se estendem a lugares tão longínquos a que jamais será possível ter acesso.

Não paramos por aí. Pensando na existência, precisamos pensar em seu começo, e esbarramos em mais impossibilidades lógicas: – Não pode haver um começo, no sentido de uma data de início da existência do Universo, e nem pode haver um fim, isto é, nossa mente não pode imaginar que o Universo, compreendendo espaço e matéria “dura”, teve início um dia, porque teria de supor que antes não havia nada, sendo que nossa inteligência não pode admitir que do nada surgiu tudo o que nos rodeia, o infinito que nos esmaga.

Não há como pensar, ainda, que um dia tudo acabará, como se o infinito “encolhesse” até desaparecer dentro de si mesmo, restando a tal da inexistência, inexistência que não temos como imaginar ou aceitar.

Pois, tudo isso aí está, jamais saberemos a respeito disso e para não queimar a cabeça simplesmente deixamos para lá questões que são importantes para, pelo menos, nos incomodarem, pois levam, inclusive, à questão da suma impossibilidade lógica, que é a de estar aqui, existindo e escrevendo, e de estares aí, existindo e lendo.

Chegaríamos à questão da imanência da vida na Terra, e quem sabe em outros mundos, algo como perceber que ela está aqui e ali, em qualquer lugar do universo, em qualquer mundo, pronta para brotar em determinadas “condições de temperatura e pressão”, nos moldes em que a conhecemos (a vida, orgânica, animal, vegetal), e como essa “imanência” se constituiu.

E aqui iniciamos um novo ciclo, de surpresas do ser jogado no mundo, de estar aqui, como diria Sartre, simples assim: um espermatozóide fecundou um óvulo, um bebê foi gerado, cresceu no útero da mãe e aqui estou eu, a impossibilidade lógica pensando e falando das impossibilidades lógicas para ti, meu caro logicamente impossível.

Penso, então, em minha inexistência antes de existir e nela a partir do momento em que deixar de ser.

14 comentários em “IMPOSSIBILIDADES LÓGICAS

    • Pois, então, Jorge, o que não pensa existe? A pedra existe sem pensar, ou, como ela existe, ela pensa?
      Ou a pedra não existe, ela pensa que existe?
      Ou pensamos nós que a pedra existe?
      E a pedra só existe porque pensamos?

      • Todos os pensamentos acima estão corretos.
        Fico surpreso que o colunista tenha demonstrado um alto
        grau filosófico.
        Quem é o inteligente filósofo criador do texto acima ?
        Estou surpreso e não acredito no que acabei de ler.

        • d.matt, se fizeres uma pesquisa no Google, no Yahoo, na rede em geral, verás que o texto é fresco, inédito, exclusivo do Jornal da Besta Fubana, tendo acabado de sair da minha cabecinha oca.
          É o seguinte: Eu estava em casa coçando o saco, minha mulher saiu para fazer comprar na Galerie Lafayette e me deixou sozinho no luxuoso apê do Marrais, com duas garrafas de um Brouilly. Eu fui virando, virando, virando, fui ficando alegrinho e aí me veio essa tonteira aí. Donde se vê o que pode sair de duas garrafas de um bom tinto. Quando eu fiquei bom eu até me arrependi, mas quando vi o sacana do Berto já tinha publicado.

  1. Estou mais inclinado a acreditar que a inspiração para o texto veio após degustar um “puro” oriundo de Cabrobõ, lá no meu Pernambuco.
    Tal nível de imanência só advêm após os vapores de um bom charo de “Manga Rosa” atingir os neurônios do desinfeliz.

  2. ***
    Nunca brinques com o infinito.
    Ele significa o fim da mente dual.
    ***
    Colocando um infinito dentro de outro infinito o Filósofo detonou a teoria dos conjuntos. (achou que foi o B Russel)
    Também cuidado com os limites do infinito descrito pelo Hawking, que provou que algo escapa do horizonte de eventos.
    Foram atrás e fotografaram um buraco negro.
    Esses dias! O bichim já tinha morrido…
    ***
    Somos feitos de poeira de estrelas, como disse o Carl Segan e essa poeira está organizada e possui consciência de si e do universo.
    Uma consciência limitada, distorcida e deformada, porém ainda deve ser motivo de celebração que exista.
    ***
    Tua confusão entre imanência e consciência decorre que aceitastes o personagem Goiano.
    Acreditas que tua consciência faz parte e é condicionada por ele.
    Logo, és antitético ao conceito da tua própria transcendência.
    Namaste.

  3. Caro Saniasin, realmente, temos a possibilidade de um infinito menor do que o infinito, o que representa o cúmulo da impossibilidade lógica.
    Digamos que o espaço é infinito e que “em qualquer parte dele” possa existir um corpo, seja um asteróide, um planeta, um sol ou o que for. Temos a possibilidade de uma quantidade infinita de corpos no espaço infinito, de modo que por hipótese é possível ter o infinito por assim dizer “maior” contendo um infinito menor.

  4. Goiano, primeiramente quero dizer que acredito firmemente que o texto acima é de sua autoria. Sei da sua inteligência e preparo intelectual, por isso mesmo
    discordo de algumas de suas posições politicas, difíceis de serem aceitas.
    Mas vamos voltar a falar da existência das PEDRAS. Elas existem porque acreditamos que existem, simples assim. Tudo o que nos rodeia, inclusive nós mesmos, somos feito de átomos, sem exceção não ? Mas o que é um átomo ?
    basicamente, conforme é sabido pela ciência, até agora, é composto de eletricidade. Eletricidade não tem matéria, portanto toda matéria é eletricidade condensada e portanto não existe na realidade.
    Alguns cientistas já declararam diversas vezes que o mundo é uma ilusão, conforme o Budismo oriental prega em sua doutrina. (alguns espíritas também)
    Todo universo é ilusório, nunca foi criado, sempre existiu e nunca terá fim. Assim como existem trilhões de estrelas, também pode existir trilhões de universos que nunca foi criado e nunca terá fim.
    No seu ótimo texto você em nenhum momento cita DEUS. Não condeno, pois assim como tudo é ilusório, Deus também pode ser. Uma ilusão necessária à mente
    humana. Ninguém pode afirmar o que é DEUS, MAS EU ACREDITO QUE SE EXISTIMOS É PORQUE FOMOS CRIADOS POR ELE,. Acredito que somos somente espírito que existimos hoje, que criamos este mundo ilusório em que vivemos, depois partimos e voltamos a existir desde os primórdios dos universos criados por Deus.. Se não foi por Deus, como foi criado ? e por quem ? com que propósito ?
    Concordo quando dizes que esbarramos em impossibilidades lógicas, que o
    universo nunca teve começo nem terá fim. Que a nossa mente não pode imaginar que o espaço nunca teve início e nunca terá fim.
    Volto ao seu texto ” que a nossa inteligência não pode admitir que do nada surgiu tudo que nos rodeia ” TUDO . Por isso mesmo cremos na ilusão da matéria.
    O seu texto é magnífico, poderia comenta-lo por dezenas de páginas, pois é um assunto que estudo a dezenas de anos e nunca chegaríamos a uma conclusão definitiva sobre a criação da nossa mente espiritual. Por isso mesmo voltaríamos ao paradoxo da PEDRA, ela existe por si ou existe apenas porque acreditamos que exista, ou seria apenas uma criação mental ilusória nossa.

    Os orientais não insistem e já desistiram de enfiar sabedoria n nossas cabeças,
    pois somos muito materialistas para aceitar e compreender que só existe Deus, sem ele nós também não existimos.

  5. d.matt, primeiro devo informar que sou Espírita, minha visão das possibilidades transcendentais é essa – o que não me impede de ser um cético por natureza.
    Lembro da pergunta feita por Kardec aos espíritos, imaginando que eles pudessem saber mais do ele a respeito da natureza divina.
    Eles responderam que “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”.
    Kardec, muito curioso, ficava futucando e obteve mais esclarecimentos: “…Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor.”
    E vamos, de impossibilidades lógicas a impossibilidades lógicas, percorrendo o caminho do espanto.
    Sobre o material do texto que acabo de publicar, trata-se de assunto que me envolve as ideias há anos, que eu tentava pôr em termos mas não conseguia exprimir.
    Desta vez, a partir do título, consegui colocar no papel uma pálida noção do que sinto ante os segredos insondáveis da existência – e espero que outros, como tu, consigam extrair dela mais do que consegui expor.

    Tenho uma dúvida a respeito de o que nos cerca ser somente uma “ilusão”, ou uma projeção de nossa mente; é claro que uma afirmativa desse tipo não poderia ser simplificada e exigiria, também, muita reflexão para ser de alguma forma bem compreendida. A minha objeção principal, apriorística, é a de que isso pode significar um egocentrismo do ser humano (que pode ser real ou não; isto é, nada garante, também, que o Homem não seja o centro de tudo que o cerca, já que nesse campo de meditações praticamente tudo pode ser considerado possível). A segunda objeção é que o que aí está aí está, independente de alguém “pensá-lo”, ou projetá-lo, pois se o que existe existisse em função da mente humana deveríamos ter dragões voando pelos ares e soltando fogo pela boca. Mas o que temos “aí” (ainda pensando em Sartre) são pedras, pedras e mais pedras (além, é claro, da vida orgânica que conhecemos em nosso Planeta).

    Para ser franco, não penso que os orientais “saibam” muito mais do que nós, apenas tenho a sensação de que os que se empenham na meditação, no estudo e na filosofia, e que mergulham na religiosidade, “sentem” mais do que nós.

  6. Puxa vida, que coisa boa de se ler! Esse é um Goiano, mesmo filosofando, bem mais interessante e convincente do que defendendo Lula. Parabéns, fique com a Filosofia e esqueça a política (partidária, é claro).

  7. Goiano. Embora possa te surpreender, eu também sou espírita kardecista. Estudei todas as religiões durante um longo estudo de religiões comparadas, por
    isso mesmo conheço um pouco de cada uma e cheguei a algumas conclusões só minhas a respeito de tudo. Citei os Budistas e o orientais, pois eles são mais pensantes em termos de existência do universo em um todo, ou seja no infinitivo, ou seja Deus por completo.
    Concordo quando dizes que se tudo existe em função da mente humana, então
    poderíamos ter dragões voando e soltando fogo pela boca . Eu aceito, mas respondo que os dragões existem e estão voando, apesar de não os vermos, apenas são vistos por aqueles que os criaram pois tudo o que imaginamos ou poderemos um dia imaginar existe ou será criado um dia. Nada existe no universo que não tenha sido pensado por uma mente qualquer. Imagine portanto , quando pensado pela mente de Deus.
    O estudo da metafísica comporta todos os pensamentos e idealizações possíveis e impossíveis, nada fica fóra da mente criadora universal. O homem é uma parte finita dessa mente , por isso mesmo também tem poderes de criação.
    Posso ratificar a autenticidade desses poderes , pois tenho recebido
    resultados incríveis quando desejado..
    Para finalizar desejo esclarecer que os orientais não sabem mais do que nós, mas
    procuram desvendar a existência primária de tudo, como resultado da criação divina, por isso mesmo estão mais perto da verdade do que aqueles que só acreditam em ” milagre ” como S.Tomé, i.e. metendo o dedo na ferida.

    Que surpresa enorme para os seus leitores essas conversas sobre
    filosofia e metafisica, que por um acaso entraram na sua coluna.

  8. Opa, alguém está inspirado por estar cercado de tanta cultura acumulada em séculos de pensamento e filosofia? Ou será alguma garrafa de vinho francês e um pouco de laisse faire?

  9. Como pode um cabra escrever tudo isso e depois mandar um “Lula livre” e acreditar que não há provas e que o esquerdismo constrói um mundo melhor? Coisa de doido…….

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